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               Trajetórias do tempo. 

Estamos em um período de transição. Tudo é questionável, modificável. Enquanto as gerações mais jovens têm maior facilidade em se adaptar, as mais velhas veem-se diante de obstáculos difíceis de ultrapassar. Assim é com a semi-abstração ‘TEMPO’. Na atualidade o nosso primeiro tempo ainda é o de brincar. Ao brincar o tempo desaparece; deixa de existir como tempo e passa a existir como prazer, como ilha encantada, como paraíso.
No segundo tempo quebra-se a uniformidade e a continuidade do tempo. Esse segundo tempo é o do dever, da obrigação. É quando o tempo faz a sua aparição.
Será então preciso começar a nele pensar e, mais tarde a nele se preocupar. Os primeiros contatos e contratos com os futuros tufões temporais serão benignos. São apenas chuviscos refrescantes. É dada à pessoa um tempo razoável, apropriado à velocidade singular humana, para terminar ou pontuar alguma tarefa. O tempo permanece tranquilo. Não é preciso correr mais que o tempo para realizar a tarefa, pois há uma adequação entre tempo e realização. Vários fatores porém quebram este equilíbrio: certas tarefas só podem ser realizadas se a velocidade de feitura ultrapassar o tempo de brincar – o tempo descompromissado e por isso mesmo não existente. Quando vemos a humanidade disputando os 100 m. ou 1000 m. com obstáculos percebemos que estamos tentando correr mais rápido que o tempo, exigindo uma modificação da velocidade dos tecidos e dos líquidos corporais que lutam pela singularidade da pessoa. Por algum tempo o organismo mantém o seu ritmo, mas, finalmente cede à força da cultura, da mentalidade reinante, não conseguindo resistir. Temos agora mais um robô, um boneco sem vontade que tentará obedecer o ritmo imposto pelo social que de inicio se insinua parecendo poder ser controlado e finalmente passa a ser uma força poderosa de seu pensamento e comportamento.  Tudo isso se passa de uma subjetividade social que força a barra para um comportamento acelerado, acima do limite temporal. Exigimos então que o tempo corra mais depressa. Vemos então multidões se atropelando para não perder o tempo e sua posição social. O tempo urge e ruge como um leão raivoso e aqueles que não abrem mão de sua singularidade, atrasam-se em relação ao tempo que lhes é dado pela Sociedade, pelo Estado e pelos Costumes.  O Ser Humano ruge como leão e debate-se como um touro, para se manter precariamente na cacunda do touro, a espera de tempos mais acordes com as capacidades humanas de tarefas e fruições. Ao ser forçado a participar da correria o ser humano que tem o seu tempo próprio e que dele não abre mão, vai-se atrasando em relação ao tempo que lhe é dado pelo Estado e pela Sociedade. Preserva o seu tempo, mas perde o seu lugar.. Começa então a se forçar a correr. Por enquanto a pressa não é coisa dele: é coisa dos costumes. Ele tem seu tempo, a sociedade tem outro tempo e tudo estaria bem se não houvesse prazos para o cumprimento de obrigações. Torna-se cada vez mais difícil manter o tempo pessoal autêntico. A pessoa passa a transferir a pressa não à tarefa, mas ao corpo próprio incorporando a pressa ao organismo. Temos agora um tempo acelerado interno. A velocidade maquínica impôs-se e agora as pessoas correm mesmo quando isso não é necessário. A velocidade torna-se interna e a aflição de ‘chegar lá’ já não depende do ambiente externo; depende do próprio funcionamento de órgãos que trabalham febrilmente. Não é uma pressa com objetivo. É agora uma pressa estrutural. Antes era: devo correr para entregar em tempo o trabalho. Com o tempo a frase muda para “Devo correr para poder viver nessa sociedade.” O resultado disso são ansiedades, depressões, distúrbios psicossomáticos, e outros incômodos e sofrimentos.

                                                     Nahman Armony    



    


    



                                                     





 

 

QUAL É O TEMPO QUE O TEMPO TEM?

Estamos em um período de transição. Tudo é questionável, modificável. Enquanto as gerações mais jovens têm maior facilidade em se adaptar, as mais velhas veem-se diante de obstáculos difíceis de ultrapassar. Assim é com a semi-abstração ‘TEMPO’. Na atualidade o nosso primeiro tempo ainda é o de brincar. Ao brincar o tempo desaparece; deixa de existir como tempo e passa a existir como prazer, como ilha encantada, como paraíso.

No segundo tempo quebra-se a uniformidade e a continuidade do tempo. Esse segundo tempo é o do dever, da obrigação. É quando o tempo faz a sua aparição.

Será então preciso começar a nele pensar e, mais tarde a nele se preocupar. Os primeiros contatos e contratos com os futuros tufões temporais serão benignos. São apenas chuviscos refrescantes. É dada à pessoa um tempo razoável, apropriado à velocidade singular humana, para terminar ou pontuar alguma tarefa. O tempo permanece tranquilo. Não é preciso correr mais que o tempo para realizar a tarefa, pois há uma adequação entre tempo e realização. Vários fatores porém quebram este equilíbrio: certas tarefas só podem ser realizadas se a velocidade de feitura ultrapassar o tempo de brincar – o tempo descompromissado e por isso mesmo não existente. Quando vemos a humanidade disputando os 100 m. ou 1000 m. com obstáculos percebemos que estamos tentando correr mais rápido que o tempo, exigindo uma modificação da velocidade dos tecidos e dos líquidos corporais que lutam pela singularidade da pessoa. Por algum tempo o organismo mantém o seu ritmo mas, finalmente cede à  força da cultura, da mentalidade reinante, não conseguindo resistir. Temos agora mais um robot, um boneco sem vontade que tentará obedecer o ritmo imposto pelo social que de inicio se insinua parecendo poder ser controlado e finalmente passa a ser uma força poderosa de seu pensamento e comportamento.  Tudo isso se passa de uma subjetividade social que força a barra para um comportamento acelerado, acima do limite temporal. Exigimos então que o tempo corra mais depressa. Vemos então multidões se atropelando para não perder o tempo e sua posição social. O tempo urge e ruge como um leão raivoso e aqueles que não abrem mão de sua singularidade, atrasam-se em relação ao tempo que lhes é dado pela Sociedade, pelo Estado e pelos Costumes.  O Ser Humano ruge como leão e debate-se como um touro, para se manter precariamente na cacunda do touro, a espera de tempos mais acordes com as capacidades humanas de tarefas e fruições. Ao ser forçado a participar da correria o ser humano que tem o seu tempo próprio e que dele não abre mão, vai-se atrasando em relação ao tempo que lhe é dado pelo Estado e pela Sociedade. Preserva o seu tempo mas perde o seu lugar.. Começa então a se forçar a correr. Por enquanto a pressa não é coisa dele: é coisa dos costumes. Ele tem seu tempo, a sociedade tem outro tempo e tudo estaria bem se não houvessem prazos para o cumprimentos de obrigações. Torna-se cada vez mais difícil manter o tempo pessoal autêntico. A pessoa passa a transferir a pressa não à tarefa, mas ao corpo próprio incorporando a pressa ao organismo. Temos agora um tempo acelerado interno. A velocidade maquínica impôs-se e agora as pessoas correm mesmo quando isso não é necessário. A velocidade torna-se interna e a aflição de ‘chegar lá’ já não depende do ambiente externo; depende do próprio funcionamento de órgãos que trabalham febrilmente. Não é uma pressa com objetivo. É agora uma pressa estrutural. Antes era: devo correr para entregar em tempo o trabalho. Com o tempo a frase muda para “Devo correr para poder viver nessa sociedade.” O resultado disso são ansiedades, depressões, distúrbios psicossomáticos, incômodos, sofrimentos vários que afetam a maioria da população, criando uma espécie de irmandade.
Ainda tenho tempo de acrescentar um dito que para mim é esclarecedor e que ofereço aos leitores: uma coisa é correr depressa e outra coisa é correr com pressa. A primeira parte da frase fala de uma rapidez tranquila, uma rapidez que não exige uma transmutação funcional; a segunda fala de uma alteração corporal, psíquica, metabólica e esta sim transforma um corpo/mente tranquilo em um corpo/mente agitado.     

 

                                                     Nahman Armony    

 

 

 

    

 

 

    

 

 

 

                                                     

 

 

 

UM PASSADO PERSISTENTE


 
Vivemos em um mundo incerto, no qual a rotina é freqüentemente assaltada pelo inesperado. Temos de aprender a conviver e a lidar com o imprevisto. Bem diferente do tempo de nossos avós, quando se contava com um mundo estável, de hábitos consolidados. Não havia então o imperativo de uma avaliação ininterrupta do impacto dos acontecimentos sobre a subjetividade de cada um, nem a necessidade de se olhar para além do manifesto e explícito. As estruturas em vigor absorviam as insatisfações e conflitos existentes.
Tomemos como exemplo a circulação de dinheiro em uma família tradicional para confrontá-la com uma família pós-moderna. Na primeira o homem detinha o poder econômico, pois trabalhava e sustentava a todos, enquanto a esposa cuidava da casa e dos filhos. Disponibilizar para ela maior ou menor numerário teria mais a ver com a satisfação do marido em relação ao comportamento da esposa do que com a realidade econômica do casal. A mulher, por seu lado, tentava compensar sua frustração com o casamento realizando gastos excessivos. Os conflitos e as insatisfações, porém, não ameaçavam a estabilidade do casamento, que era “para sempre”; podiam permanecer ocultos, negados, pois a hipótese da separação era impensável. Os hábitos e as convenções da época seguravam o casamento, os afetos se equilibravam nas ações e reações.

Pensemos agora em uma família pós-moderna composta de marido e mulher em segundas núpcias, uma ex-esposa e um filho do primeiro casamento. O homem terá de se relacionar com a primeira mulher, tendo em vista sua função de pai, incluindo-se aí  os gastos com a criança. A circulação de dinheiro, que na família patriarcal fluía no interior da instituição do casamento, agora obedece a uma determinação externa, a da pensão. Nesse caso, a posição de ex-esposa a deixa mais livre e motivada para reivindicar aportes extras. Estes nem sempre são por exclusiva necessidade econômica: ocorre com freqüência haver raiva e ciúme da nova relação. Ela busca então se vingar, sobrecarregando o ex com pedidos extemporâneos; ao mesmo tempo poderão persistir nela resquícios de apego, e a contribuição extra poderá ter para ela o significado de ele sentir os mesmos resquícios. E mais: se ele cede às suas demandas, ela encontra conforto na idéia de que ainda o controla.

A esposa vigente percebe inconscientemente esses significados e exacerba sua rivalidade e competição com a ex. Sua sensação é a de não ser mais a única mulher com a qual o marido se importa. Existe outra a receber agrados; o dinheiro que poderia ser utilizado por ela e pela família atual escoa-se para a antiga esposa por fraqueza e por um elo afetivo indevido do marido. O que a ex-esposa pede para o filho é percebido como um pedido pessoal. A criança, aqui, perde a sua singularidade, confundida que está com a mãe.

Como não existe uma contenção institucional para essa constelação familiar, a situação pode não se equilibrar com as ações dos implicados, vindo a atingir a região do insuportável quando sucede algo radical: ou a separação do novo casal, ou o rompimento do marido/pai com a família anterior. A fratura, no entanto, poderá ser mais facilmente evitada se cada membro da família se der conta da própria dinâmica psíquica.

A nova esposa precisa conscientizar-se de sua rivalidade e competição com a ex; esta deverá perceber o mesmo em relação à atual e, ainda, o ódio e amor residual pelo ex-marido. Já o marido terá a tarefa de compreender o que move as duas mulheres nas discussões com ele. Só assim será possível atenuar os efeitos de tão fortes emoções, protegendo a continuidade dos relacionamentos.

 

                                       Nahman Armony
        Primeira publicação na revista CARAS

SOBRE ALGUNS MEDOS ATÁVICOS


CONFLITOS DA CULTURA DISFARÇADOS DE CONFLITOS PESSOAIS

 

Os seres humanos carregam consigo um medo atávico de serem influenciados, dominados, abusados, e procuram defender e preservar sua força, individualidade e independência de pensamento e ação. Num casal, o medo de ser dominado e o desejo de dominar se revela até mesmo em pequenas disputas como, por exemplo, a ridícula luta quanto ao modo de colocar a pasta de dentes na escova. As pessoas têm um medo inconsciente de serem influenciadas e dominadas e então perder sua autonomia e identidade. Tal sentimento pode ser percebido nos vários níveis das relações humanas, desde as que envolvem povos até as que se dão entre funcionários de uma empresa e relações de casal. Porém, não é fácil reconhecê-lo. Embora sua incidência seja ampla não nos apercebemos dela o que nos dificulta fazer um trabalho psicanalítico. Este medo está incrustado em nossos neurônios/psique, pois desde o inicio de nossa vida dependemos de uma outra pessoa de uma forma indispensável, necessária e prazerosa. Porém em algum momento da vida será preciso tornar-se autoafirmativo, contrariando os interlocutores. Instala-se um conflito aberto ou larvado: interesses grupais versus interesses pessoais, sentimentos de culpa por estar contrariando uma pessoa amada, desejo de paz versus afirmação da individualidade, desejos inconsciente de se fundir com a Grande Mãe versus desejo de individuação, etc.      

As conquistas territoriais, os massacres de populações, a imposição de culturas podem ser considerados, em parte, uma defesa contra a invasão/imposição de um grupo sobre a individualidade/subjetividade de outro. Do mesmo modo, quando um casal discute sobre o modo de usar o tubo da pasta de dentes, cada um querendo provar que a sua maneira é a melhor, trata-se, no fundo, de uma luta de culturas e mentalidades. Qual cultura/mentalidade vai prevalecer? Quem vai desaparecer e virar uma sombra para que o outro possa tranquilamente ocupar um lugar protegido da ameaça de ser invadido colonizado, controlado?

Na economia das relações entre os seres vivos, o grupo funciona com mais eficiência quando se estabelecem relações de liderança. Se cada um saísse atirando para lados diferentes, se não houvesse uma sinergia de ações, o grupo tenderia a desaparecer, destruído por outros. Essa é uma herança que os humanos carregam consigo para todos os lados, em todas as situações. Inclusive nas relações amorosas. 
Aqui faço um parêntesis para tratar da espinhosa questão da liderança. O perigo da liderança é o perigo que ela se transforme em relações ditatoriais. Eu penso em uma liderança funcional onde cada membro do grupo é levado a fazer o necessário para manter a estabilidade dinâmica do grupo. O exemplo que tenho na cabeça é o da organização das formigas e de outros insetos onde a alocação política é uma questão pontual, a ser resolvida nos contextos locais que se articulam com contextos locais mais amplos sem haver disputas pelo poder. Cada um faz o que deve fazer para a equilibração do grupo. Trata-se de uma liderança rizomática (Deleuze). 
É preciso fazer um esforço para identificar o receio atávico de ser influenciado pois aquilo que parece pequeno e burlesco pode ou não estar vinculado ao mais primitivo desejo de dominar e anular.

Os casais precisam encontrar um equilíbrio. Como as culturas e os hábitos são diferentes o confronto é inevitável. E ambos devem permanecer fortes em suas vestes de autoafirmação. Dessa forma estabelecem-se os limites e espaços de cada um e o entendimento em áreas comuns de pensamento/sentimento/sensibilidade. Quando um tenta convencer o outro de que seu modo de pensar é o verdadeiro, entra-se no terreno da disputa, da conquista, do desejo de ocupar com sua personalidade o máximo de espaço, movido pelo medo de ver sua individualidade anulada pela do outro.

Quanto maior for a autoestima de cada um, quanto maior for a certeza de se ter um centro autônomo e criativo, menos esse tipo de disputa aparecerá, pois a força individual se definirá por uma potência intrínseca e não pela dominação sobre o outro.

É bom lembrar, porém, que a dominação traz lucros não só para o dominador como também para o dominado, que aceitando sua submissão goza de tranquilidade até ter seu conforto ameaçado pela voracidade e medo do dominador. Para evitar essas situações, é importante que o casal perceba que a tentativa de imposição dos pequenos gostos pessoais de cada um pode ser a materialização do medo primitivo de desaparecer como individualidade, um sentimento que, para ser administrado, precisa, antes, ser reconhecido.
                                                       Nahman Armony

 

 
SOBRE

CIÚME E CIVILIZAÇÃO


Quase todos concordam que tolerância é sinal de civilização. O exercício da tolerância coincide com o amadurecimento do lobo frontal. Mas, paradoxalmente, pessoas tolerantes falham quando aparece a figura do ciúme. Alguns chegam a admitir o direito à agressão à pessoa sexualmente infiel. As origens desse sentimento encontram-se em nosso remoto passado. Mas podem ser trabalhadas e proporcionar um maior equilíbrio afetivo.

A intolerância à infidelidade amorosa tem atormentado a humanidade desde o início dos tempos, deixando um rastro de sofrimento e morte. Uma maior compreensão dos motivos dessa intolerância poderá contribuir para reduzir a agonia de quem passa pela situação de infidelidade. Por razões psicológicas, sociológicas e culturais, os sentimentos de posse e a insegurança infantil, componentes do ciúme, não evoluíram, não se civilizaram, não encontraram um lugar adequado no conjunto do funcionamento do psiquismo, continuando a ter a mesma intensidade e reatividade dos primeiros tempos. Por isso provoca desesperos e tragédias. E o mais interessante é que a sociedade sanciona as agressões e os crimes advindos do ciúme com uma aprovação muda e ambivalente. A sociedade “compreende” a reação violenta daquele que foi “traído” e, de certa forma, aceita o ato agressivo.
Se conseguirmos nos colocar ao largo da mentalidade reinante, seremos capazes de estranhar o fato de que essa específica emoção não teve evolução semelhante às outras. Há, por exemplo, um consenso de que o sentimento infantil de onipotência precisa evoluir para um estágio de potência. O bebê e a criança têm a fantasia de que tudo podem, tudo conseguirão, tudo depende de suas próprias vontades. Os obstáculos e limites que encontram vão desfazendo essa fantasia. A onipotência é substituída pela potência, sem porém deixar de existir como um sentimento inconsciente necessário ao equilíbrio psíquico. O mesmo acontece com o sentimento de vingança que através do processo civilizatório transforma-se em justiça. A sociedade valoriza tal evolução. Mas o mesmo não acontece com o ciúme, daí resultando intolerância à infidelidade. Por que seria mais fácil diluir o sentimento de onipotência e de vingança do que o de ciúme? Por que o ciúme permanece em estado bruto, enquanto a onipotência e a vingança sofrem um trabalho de elaboração? Por que a sociedade aprova e convive com essa discrepância se ela é fonte de sofrimento?
Não há resposta simples e decisiva. A questão é demasiado complexa para que possamos enquadrá-la em um esquema. Alguma coisa, porém, pode ser dita. A posição de reizinho na infância é prazerosa. O desejo de continuar nesse posto permanece no inconsciente e, se não for trabalhado, reaparecerá nas futuras uniões amorosas. Sua Majestade, o Bebê, amado e valorizado pela mãe acima das outras criaturas, quando cresce teme, como no passado, que um rival o rebaixe à categoria de um entre outros.
Ao tomarmos consciência dessa dinâmica, é possível trabalhar sobre ela. Com o tempo consegue-se lidar melhor com nosso desejo inconsciente de sermos o centro do universo para o amado. O desejo permanece no inconsciente como um motor, mas agora o conjunto do psiquismo encontra modos e meios de mantê-lo em sintonia e equilíbrio com o parceiro e consigo mesmo.
  Nahman Armony

                                            Primeira publicação na revista CARAS


A LÓGICA DA SEPARAÇÃO
Não é incomum encontrar pessoas que declaram imenso amor ao parceiro, mas que, ao perdê-lo, desejam sua máxima infelicidade. Outras vão além, almejando-lhe a morte. Tudo isso em meio a declarações de amor eterno. Ora, seria de esperar que ao amado se desejasse a maior felicidade, qualquer que fosse a situação: próximo ou afastado, vinculado, ou desvinculado. Como explicar um amor que não faz votos pelo maior bem a quem se ama? De que forma entender tal anseio de infelicidade e morte?
O impulso pode ser compreendido sob dois aspectos: 1- estratégia de reconquista; 2- castigo e vingança. No primeiro caso, funciona a fantasia de que a infelicidade do ser amado o trará de volta. Ele se convenceria de que a única felicidade possível é ao lado da pessoa que o ama. Nessa modalidade de amor cruel, observa-se um egoísmo sem limites em relação ao parceiro perdido. O fundamental é ter a posse do amado, não sua felicidade. Melhor serem infelizes juntos do que felizes separados. O amor aqui só consegue exercer-se num contexto de exclusividade, de limitação do horizonte do outro. Surgem a vigilância e o ciúme excessivos e o desejo de infelicidade do parceiro.
Quanto ao segundo contexto, de vingança e castigo, a vontade de que o ex se dê mal nos remete a uma época na qual o bebê sente ser dono da mãe e teme perdê-la ou perder a exclusividade de seu amor. O bebê necessita de uma relação de exclusividade. Se não houver um desenvolvimento elaborativo dessa necessidade, ela pode ressurgir tão crua e cruel no adulto quanto o era na infância. O anseio de exclusividade impõe-se como absoluto. O parceiro não pode sequer desviar os olhos, pois, se assim o fizer, o ciumento se sentirá negligenciado e abandonado — como se fosse um bebê. A atenção ao outro é sentida como um ataque a sua autoestima — o amor exclusivo de uma mãe idealizada torna a criança uma criatura especial neste mundo, valorizando-a e tornando-a única entre todos.
Certamente os leitores perceberam uma certa confusão entre mulher, mãe, criança, adulto. É uma confusão inevitável na medida em que o funcionamento do inconsciente é semelhante em todas as idades. É preciso aceitar esta confusão, limitando a lógica cartesiana em favor de uma lógica da complexidade.
                               Nahman Armony
       Primeira publicação na revista CARAS.

  

A DIFÍCIL INTIMIDADE


Ansiamos por reviver uma vivência ancestral, indelével: a profunda ligação do bebê com a sua mãe. Queremos amar, pertencer, confiar, compartilhar; sermos verdadeiros e nos entregar, de corpo e alma à pessoa amada. Mas em algum momento temos receio de perder a autonomia, a identidade e, com frequência, nos ressentimos das diferenças existentes entre os dois seres.
Para entender melhor os sentimentos humanos relativos à experiência de intimidade do casal adulto, vou me reportar aos primeiros tempos de vida. A mãe é nosso primeiro grande amor. Ela é tudo para o neném: doadora de vida, leite, carinho, sensações corporais, afeto e o que mais possamos imaginar. Entre a mãe e o bebê se estabelece uma intimidade de corpo e alma. Corpo e alma se olham, se tocam, se abraçam, se interpenetram. Essa união é fonte de prazer e felicidade. Uma experiência que permanece marcada no corpo e na alma e que tentamos reviver durante a vida. A confiança do bebê na mãe é infinita. Ele se encontra aberto aos sentimentos maternos e sua fé na mãe doadora irá, por um tempo, se tornar absoluta. Mesmo quando a mãe, por força das contingências da vida e do crescimento, desapontar o bebê, ele dará um jeito de preservar o sentimento de plenitude atribuindo os desapontamentos a outra entidade — digamos, a um duplo da mãe, uma gêmea frustradora. Haverá, contudo, um momento no desenvolvimento em que não mais será possível manter tal divisão. Mãe gratificante e mãe defraudadora serão uma só pessoa. O paraíso desaparece, então, da vida do ser humano; porém não se desvanece no horizonte. Um horizonte que os mais privilegiados poderão alcançar periodicamente e por períodos limitados de tempo. A vida ficará pontilhada de momentos de sublimes encontros. Mas para isto será necessário enfrentar obstáculos: alguns inerentes ao ser humano, outros eventuais. O bebê poderá deparar-se com uma mãe que, assaltada por preocupações, ou deprimida, ou ansiosa, ou rancorosa, não terá condições de abrir seus poros, seus olhos, sua sensibilidade para realizar trocas afetivas,  eróticas, e mentais com o bebê. Mas a criança sabe se defender. Assim como a mãe aprende a lidar com as idiossincrasias do filho, o mesmo acontece no sentido contrário. O bebê aprende a lidar com a personalidade, o temperamento e o caráter da mãe. Desenvolve-se um dinamismo que tende a um quase equilíbrio confortador, mesmo nas situações intersubjetivas mais exasperadas e ameaçadoras. O importante é manter o sentimento de que em hipótese alguma haverá abandono. Há um aprendizado mútuo em que as sensibilidades são percebidas e movidas de modo a manter o encantamento.
Em algum momento o filho olhará para um mundo além da genitora. Será um momento de choque. Mas a curiosidade, o desejo de expansão, o espírito de aventura empurram o bebê e a criança para fora do ovo diádico ainda que persistam o desejo de segurança, do colo quentinho, confortador e protetor. Se a sensibilidade da mãe não alcança a ambivalência destes dois impulsos, se ela não percebe estas duas direções conflitantes, não poderá transmitir ao filho a plena aceitação do paradoxo, o que lhe permitiria aguardar o (des)encontro com a objetividade e externalidade, em um estado de desequilíbrio equilibrante menos instável. 
 A relação amorosa adulta conserva elementos do amor infantil. Um ato sexual íntimo é aquele em que os corpos estão abertos um para o outro. Tal abertura implica confiança, desejo de receber o outro e seus líquidos dentro de si, pele galvanizada e porosa, pronta para a troca de energias e afetos mutuamente estimulantes, realizada em uma sequencia minitemporal de eventos que passam de um corpo ao outro, de uma sensibilidade à outra. A atração sexual, que na sua máxima expressão é desejo de fusão, torna contínuos e comunicativos os corpos amantes, numa comunicação incessante e sutil. Essa experiência de intimidade tende a continuar na vida exterior à da cama. Mas há diversos obstáculos: o medo de se perder no outro, de perder a autonomia, a identidade, o poder. Também as diferenças de personalidade, de comportamento, rotina ou ideologia, quando não toleradas, tornam-se pedrículas de ressentimento que dificultarão a intimidade. É fundamental, portanto, ter consciência dos obstáculos e, principalmente, desejar ultrapassá-los. Assim se nutre o desenvolvimento da intimidade adulta.

                                               Nahman Armony 

PAIXÃO CEGA E PAIXÃO LÚCIDA


A paixão é um sentimento avassalador: arrebata, revigora. Dois caminhos levam a ela: ou a pessoa se apaixona de pronto, possuída pelo desejo de logo se encontrar em um estado de eufórica união com a criatura perfeita e adorada, ou se forma gradativamente, até chegar ao ponto de ebulição. Duas vias: uma cega e outra lúcida com os mesmos resultados: sentimentos de plenitude, felicidade, enlevo, potência, onipotência. Pela via da paixão instantânea o apaixonado, de início, nada sabe da pessoa que é objeto de deslumbramento. Particularidades sutis propiciam a projeção do que já existia na imaginação do apaixonado: um ser perfeito, uma miragem que preenche todos os requisitos almejados para aquele (ou aquela) destinado a ser o amor de sua vida. O ser amado é tecido pela fantasia de quem ama. A verdade, porém, aos poucos se impõe, desfazendo a ilusão da perfeita concordância entre fantasia e realidade. Esse é um momento crucial para a relação. Ou as características não desejadas são aceitas e a paixão se torna relação amorosa, ou são repelidas, desfazendo-se o relacionamento e surgindo um rancor provocado pelo desencanto em relação ao objeto amado que não corresponde à fantasia acalentada.

Falemos agora da segunda via. Se tudo corre bem ela pode ser denominada, em sua trajetória ascendente, de enamoramento. A paixão cresce na sequencia de encontros e no dia-a-dia da relação, quando tanto os atributos desejados como os indesejados se revelam. Certas características provocam tal encantamento que conscientemente se ignora o indesejado, deixando-o na sombra. É a paixão lúcida. A paixão constituída por esse caminho tem mais chance de perdurar. Mas, passado o entusiasmo lúcido, o que era indesejado e estava em segundo plano pode vir ao proscênio e emaranhar-se negativamente com a fantasia, tornando a relação amorosa inaceitável. Coloca-se o mesmo dilema da paixão cega: ou se elaboram as dificuldades e as diferenças, conseguindo-se um emaranhamento positivo, ou se rompe a relação.

O estado de paixão, pela sua intensidade e capacidade de produzir bem-estar e potência, é desejado pela maioria de nós. Não podemos, porém, esquecer que é um bem-estar da ordem da exaltação, da sobreexcitação que põe acima de tudo o encontro apaixonado. É, pois, um estado que não pode ser contínuo sob pena de esgotamento psicofísico e prejuízo social, profissional e familiar. Poderíamos, abusivamente, fazer analogia com o cio animal, que também é um estado de sobreexcitação, mas com um período limitado de vigência. A paixão nos renova, nos potencializa, mas em vários sentidos pode nos esgotar. Uma maneira de lidar com o apaixonamento absoluto sem nos prejudicar, é ter períodos de amor mais tranquilo, invadidos por ciclos finitos de paixão. Ao esgotamento da paixão segue-se um amor mais tranqüilo. Às vezes, porém, para os que viveram a paixão, o amor não é suficiente. Querem sentir de novo e sempre a potência máxima da vida. E, em geral, sem deixar de amar o objeto da primeira paixão, partem em busca de nova união apaixonada. Tudo se repete, causando sofrimento para as pessoas envolvidas e suas famílias.

Se admitirmos que a paixão pode ser uma necessidade e que uma sucessão de paixões com pessoas diferentes traz problemas, poderíamos nos perguntar: por que não voltamos a nos apaixonar pelo primeiro objeto de amor? Teríamos a tranquilidade de um amor constante, pontuado por fases de paixão, sem maiores confusões. Pergunta-se, porém, se isso seria possível, ou se uma nova paixão só ocorre com uma nova pessoa. Em outras palavras: a questão é saber se podemos viver ao mesmo tempo fantasia e realidade em um emaranhado positivo. O assunto é complexo. Porém acho possível justapor a fantasia que acompanha a paixão à realidade que se apresenta com a convivência. Como mencionei antes, trata-se de aceitar as características não desejadas, algo que se torna possível quando os outros aspectos da pessoa as compensam. É uma paixão lúcida. Assim, o que une pesa mais do que os fatores que desunem. E a relação amorosa pode persistir, pontilhada por varreduras de paixão.

 

                                       Nahman Armony

A LUTA DO ADOLESCENTE


INFLUÊNCIAS IDEOLÓGICAS NA VIDA AFETIVA DO ADOLESCENTE

 

Puberdade e adolescência são períodos de transição, quando a criança se desprende dos pais em favor de grupos de sua faixa etária. A opinião do grupo se torna cada vez mais significativa, empurrando para a periferia a importância da aprovação dos pais, embora estes, no inconsciente do adolescente, continuem a ser um esteio de segurança. Mas a ideologia do grupo exerce poderosa pressão sobre o jovem. Vou-me valer de um aspecto de ideologia jovem atualmente já não tão badalada mas que servirá para tentar entender a espécie de conflito que acomete os adolescentes e jovens adultos. Refiro-me ao “ficar”, que significa encontros sem compromisso e encontros fortuitos. O “ficar” é um valor positivo nos grupos adolescentes. Como ninguém quer estar out, este valor é exercido pelos jovens. Mas há os que não se sentem bem com tal prática. São vários os fatores que levam os jovens a gostar ou não do “ficar”. Darwinianamente falando, como as mulheres produzem relativamente poucos óvulos na vida fértil, têm de escolher o parceiro sexual mais perfeito possível. Então fazem uma seleção cuidadosa, não se deixando fecundar por qualquer um. Já o homem, cujos órgãos sexuais produzem milhares de espermatozóides, busca garantir a transmissão e a sobrevivência de seus genes fecundando o maior número de fêmeas possível. Nós, humanos, estamos longe desse nível biológico; mas, quando se faz um levantamento mais global, é mais um fator a levar em conta. O psicanalista húngaro Michael Balint diz que cedo se desenvolvem no ser humano tendências para o apego (mundo ocnofílico)  ou desapego (mundo filobático) ao objeto de amor. Poderíamos dizer que no “ficar” predomina o desapego e no namorar predomina o apego. Teríamos, portanto, dois tipos de pessoas: um com medo de intimidade, precisando passar de parceiro para parceiro, e outro com medo da novidade, da aventura, precisando se fixar em algo conhecido. Essas duas tendências existem conjuntamente em proporções diferentes nas pessoas. Mas em algumas a predominância de uma é tão poderosa que a outra renuncia à sua expressão. Outro fator é a ideologia dos pais. Embora, como disse, em certo período da vida o jovem a abandone para adotar a ideologia do grupo, o abandono total é uma impossibilidade, pois a influência dos pais penetra na psique dos filhos. Ela pode diluir-se quando outros fatores entram em jogo, mas sempre estará presente. Assim, se a mentalidade da família for conservadora, o jovem ou terá mais dificuldade com comportamentos libertários ou os realizará de forma exagerada, como reação à poderosa proibição interna que carrega. Faz parte também do equipamento pessoal a curiosidade pelo novo, pelo perigo e o gosto pela segurança, pelo conhecido. Portanto, muitos são os fatores envolvidos e sua resultante dependerá do jogo de forças entre eles. Poderá ocorrer de o jovem se ver impulsionado a adotar comportamento diferente do dos amigos, o que o fará sentir-se excluído, inferiorizado, incapaz de acompanhar seu grupo. Então os pais, valendo-se da vinculação paterno-filial, podem se apresentar para auxiliá-los. Mas deverão ser discretos, pois os filhos, mesmo precisando de validação e apoio dos pais para o seu comportamento, mantêm o desejo de serem independentes dos genitores. O apoio e a aceitação deverão ser oferecidos com cuidado para que o jovem não sinta que estão querendo lhe retirar a independência.      

                               Nahman Armony

                        Primeira publicação na revista CARAS

                                      

 

 

CONFORTO E ENFRENTAMENTO


CONFORTO E ENFRENTAMENTO

 

Comportamentos extremos raramente são encontrados na vida real, mais composta de meios-tons e misturas. No entanto, são os casos radicais que nos dão maior clareza sobre os dinamismos interpessoais e intersubjetivos. Apresentarei, pois, esses casos extremos: 1- dominação/submissão; 2- autoafirmação e enfrentamento. No primeiro caso busca-se paz, conforto, tranqüilidade. No segundo, estímulo, aventura, desafio e aperfeiçoamento permanente. Tanto um quanto outro poderá ou não vingar. Os riscos de dissolução do casal sempre existem.

Imaginemos uma união de dependência. Um dos membros do casal, “A”, é dominante em relação ao parceiro “B”, dócil e leniente. Ideemos uma dominação sutil, exercida mediante solicitações de diálogo, cujos desfechos estão marcados de antemão. Invariavelmente “A” tem razão e “B” acaba concordando; quando é o caso, pede desculpas. Como é possível que um só tenha sempre razão? Se assim fosse, estaríamos diante de alguém infalível, uma aberração. Se olharmos a relação pela ótica do casal,

a verdade se apresentará cristalina. “A” é infalível e “B” o permanentemente errado. Vista de fora, a situação é absurda.

Muitas vezes os casais se procuram para se complementar. No caso presente, “A” precisava encontrar alguém a quem pudesse controlar para satisfazer sua ânsia de domínio; e “B”, de alguém a quem submeter-se para se poupar de decisões e ações desagradáveis. As duas personalidades se encaixavam, complementando-se; e ambos estavam satisfeitos. A atração inicial tinha por base justamente a satisfação das mútuas necessidades e a promessa de uma vida sem atritos. Este seria um destino possível da relação, do tipo “felizes para sempre”, dentro do qual cabem os inevitáveis atritos. Existem, no entanto, outras possibilidades menos afortunadas. Por exemplo: o membro dominante do casal poderia vir a sentir um gradativo desdém pelo companheiro concordante e dócil. Deixando de admirar, respeitar e de sentir atração sexual pelo parceiro, agora percebido como um molambo desossado, passa a buscar alguém mais sólido e consistente, em uma relação extraconjugal. A tranqüilidade tão desejada, pela qual os dois se empenhavam, levando “B” a evitar qualquer confronto, e “A” a contar com essa atitude, está agora sacudida; a relação, ameaçada.

Imaginemos, agora, o outro extremo, a relação amorosa entre duas personalidades fortes que se atraíram justamente por sua fortaleza. Diz um provérbio popular que dois bicudos não se beijam. Embora eles se tenham procurado pela força e independência que admiravam no outro,

essas mesmas qualidades poderão provocar tais atritos que a relação acabe não se sustentando. Nenhum dos dois quer ser dominado. Discordâncias e diferenças são explicitadas e cada um defende seu desejo e seu ponto de vista. Se o casal tiver afinidades básicas, uma deleitável sexualidade e um grande desejo de conservar o relacionamento, existe a possibilidade de chegar a uma conciliação. E, talvez, até uma mudança pessoal mais profunda poderá ocorrer, em nome de um amor que terá como bonificação o estímulo constante para a vida e a transformação pessoal. É no relacionamento diário que cada tipo de casal aqui considerado poderá encontrar seu peculiar e singular equilíbrio. Um equilíbrio que exigirá um esforço de conscientização e flexibilização. Mas valerá a pena.

                                       Nahman Armony

    Primeira publicação na revista CARAS

 

MASCULINO E FEMININO -- EVOLUÇÕES


Não estamos demasiado distantes do tempo em que era comum desdenhar dos sentimentos femininos com uma frase depreciativa: “É coisa de mulher.” Esta postura hostil visava não só manter o poder do homem sobre o chamado “sexo frágil”, como também reprimir o feminino dentro do próprio homem. A beleza das uniões atuais está na possibilidade do ajuste sem submissão, ambos aptos a compreender e experimentar o sentimento do outro.
No passado, os papéis do homem e da mulher eram bem definidos. O homem cuidava do sustento da casa, indo à rua para trabalhar, enquanto a mulher se ocupava do lar e das crianças. Pensava-se que o homem, para vencer, tinha de ser objetivo, não se deixando atrapalhar por sentimentos e sentimentalismos. A sensibilidade e a afetividade eram para ser exercidas pela mulher no trato com as crianças e o arranjo do lar. Mas, ao mesmo tempo em que a sociedade entregava à guarda da mulher os aspectos femininos do humano, dela debochava, desvalorizava-a. “São coisas de mulher”, dizia-se com desdém, quando a mulher manifestava sentimentos. Tal ataque à sua subjetividade tinha a finalidade de combater o feminino existente em o Homem. Confinava-se a sensibilidade feminina às mulheres e desvalorizava-se tal sensibilidade; o Homem reprimia o seu feminino projetando-o na Mulher e atacando-o. Ao mesmo tempo em que o atacava com o intuito de manter um masculino forte, fazia do feminino um depósito do Bem, da afetividade, do cuidado com as outras pessoas.
Os tempos mudaram. Homens e mulheres se aproximaram no pensamento e na afetividade. Ambos permitem que o feminino e o masculino se manifestem em pensamentos, sentimentos e ações. Mas também há aspectos irredutíveis diferenciando os sexos. O aspecto físico é evidente. O funcional está na gravidez e na amamentação. O psíquico talvez esteja nos sentimentos maternais que a gravidez e a amamentação despertam e que só parcialmente são acessíveis aos homens.
Saindo-se do campo do extremismo irredutível, homens e mulheres podem compreender-se mutuamente, pois ambos possuem em si o masculino e o feminino. O hemisfério esquerdo, da racionalidade, e o direito, da sensibilidade são utilizados por ambos os gêneros, mas predominando o uso do esquerdo pelo homem e do direito pela mulher; hormônios masculinos e femininos circulam nos dois, embora em quantidades diferentes; meninos e meninas se identificam tanto com o pai quanto com a mãe, porém em proporções e intensidades diversas. Homens e mulheres têm, pois, a capacidade de compreenderem-se, porque aceitam em si o masculino e o feminino.
A maior parte das diferenças a negociar entre os dois sexos refere-se às proporções desiguais do masculino e do feminino que os constituem. (Vale assinalar que as atuais cirurgias e tratamentos hormonais questionam essa irredutibilidade. Mas não é disso que trata este texto.)
Presumamos agora uma situação de conflito. A esposa quer levar para o novo lar — um pequeno apartamento — uma peça qualquer de estimação. Imaginemos uma peça grande, como um armário. O móvel tomaria muito espaço e tornaria a morada desconfortável. Se estivéssemos no regime patriarcal, o desejo da mulher seria considerado “frescura” e não haveria negociação. Prevaleceria o pensamento objetivo masculino, porque a sociedade desconsiderava o aspecto subjetivo (afeto, beleza, simbolismo inconsciente) da vida das pessoas. Hoje, com a ascensão e a valorização social do feminino, certamente haveria uma negociação entre o subjetivo feminino e o objetivo masculino. A possibilidade de levar o armário não seria logo descartada, mas um diálogo se estabeleceria entre o feminino e o masculino de ambos. O que poderia perturbar a negociação seria a lembrança inconsciente dos tempos de submissão da mulher e da glorificação do homem. Uma nostalgia inconsciente dos tempos de mando talvez levasse o homem a adotar uma posição irredutível, assim como a mulher poderia tender para o irredutível por ser portadora das lembranças conscientes e inconscientes da antiga sujeição ao varão. A percepção consciente desses velhos desejos e receios facilitaria o entendimento entre homens e mulheres. E isso se torna tanto mais fácil quanto mais o homem aceita o seu lado feminino e a mulher, o seu lado masculino.
                                                        Nahman Armony
                         Primeira publicação na revista CARAS



TECNOLOGIA E CONFIGURAÇÕES FAMILIARES


Antigamente o pai saía para trabalhar e a mãe ficava cuidando do lar. Suas tarefas se resumiam, basicamente, a atenção à casa e aos filhos. Estes se beneficiavam de uma atenção constante. Embora o pai estivesse ausente de oito a dez horas por dia (estou falando dos bons tempos em que as pessoas não se matavam de trabalhar), sua presença ficava assegurada pelo contato permanente com a mãe, que lhe fazia um relatório no final do dia. Havia uma estabilidade que fazia da família um ambiente de acolhimento e segurança. Nessa configuração de antanho o pai era a figura dominante, o patriarca, aquele que tinha direito (exagerando um pouco as coisas, é claro) de vida e de morte sobre a esposa e os filhos. A mulher, submissa, acatava, por mais que lhe custasse em sofrimento e saúde, as determinações do marido. Certamente não era um mundo ideal, pois havia muitos não-ditos, muita repressão e conseqüentemente muita neurose. O que se ganhava era previsibilidade e estabilidade.
Mas os tempos mudaram. As mulheres conquistaram mais independência e sua voz se fez presente. Se paga, porém, o preço de uma menor estabilidade e previsibilidade. Tanto o pai quanto a mãe se ausentam do lar para trabalhar e variados arranjos têm de ser feitos para atender às necessidades e preencher o tempo dos filhos. O cotidiano transformou-se numa roda-viva. Os pais, inseguros quanto ao futuro, entopem as crianças de cursos e entram em competição desenfreada com seus colegas de trabalho. Sobrecarregados de tarefas, chegam em casa esgotados, ansiosos, mal-humorados, com os filhos já dormindo e o parceiro também estafado. Todos — homem, mulher, crianças e sociedade — ficam prejudicados. A loucura provocada pelo excesso de trabalho — que mereceu o nome de síndrome de burnout, expressão em inglês para aquilo que deixa de funcionar por falta de energia — começa a ser preocupação dos estudiosos e foi abordada, recentemente, em São Paulo, no II Congresso Brasileiro da Família. Está claro que para vencer o problema é preciso transformar a mentalidade corrente. O estímulo ao consumo provoca uma avidez que reforça a enorme importância dada à capacidade de ganhar dinheiro. Assim, o trabalho é posto em primeiro lugar — e esse primeiro lugar facilmente se transforma num lugar absolutamente dominante. Contribui para tal distorção o abissal valor que se dá ao sucesso e o conseqüente desdém por aqueles que não exibem sinais de riqueza. A palavra sucesso, na verdade, transformou-se em uma estrela-guia que cega as pessoas para as amenidades da vida, tão necessárias ao equilíbrio emocional. Alcançá-lo exige uma aplicação que devora todo o tempo que poderia ser dedicado ao amor, ao lazer, à família. Aquele que escolhe trabalhar menos, ganhar menos e se beneficiar de uma vida intelectual, muscular e afetiva mais rica é tido como perdedor (looser). A estabilidade da família, afetada por essa maneira de viver é agravada pela dificuldade em assimilar a grande mudança sociológica provocada pelas conquistas da mulher. A estabilidade baseada no sacrifício do contingente feminino da sociedade está em extinção. A mulher, hoje, exige ser ouvida e respeitada — e as diferenças devem ser negociadas de igual para igual nos relacionamentos. Mesmo quando a paixão passa por cima das dificuldades provocadas por essa mudança, em algum momento elas aparecem e precisam ser enfrentadas. O medo do enfrentamento pode reforçar o apego ao trabalho duro e sem tréguas — por parte de ambos os sexos —, fortalecendo a aderência da pessoa ao sucesso e afastando-a do bálsamo proporcionado pela vida amorosa, estética e lúdica. Indivíduos e sociedade estão sofrendo nesse período de transição que estamos vivendo. Quanto maior a abertura para o novo menor e mais suportável será o sofrimento.

                        Nahman Armony      
Primeira publicação na revista CARAS




APÊNDICE

Há alguns anos atrás escrevi a crônica acima. Nela eu apontava para um problema, mas não apresentava nenhuma sugestão para a sua resolução. E a resolução está aparecendo por si mesma, fruto de novas tecnologias. Hoje em dia há profissões que podem ser exercidas no clima ameno do lar, na presença de esposa e filhos, através da internet. As grandes companhias começam a valorizar o lazer, pois o excesso de trabalho resulta em síndromes que exigem repouso e portanto perdas financeiras. Paralelamente, por um ou outro motivo, existe uma maior consideração com o indivíduo singular seja por uma mudança de mentalidade, seja pela presença de ONGs que, até onde podem, monitoram a relação trabalho-homem-excesso-lazer. Não estou falando de nenhum paraíso, pois temos exemplos recentes de desconsideração de grandes Companhias na relação aos seus empregados. Mas minha observação não estatística, ou melhor, minha estatística inconsciente que tantas vezes me ajudou, me diz que estamos no caminho da melhoria da fortuna humana. Do lado positivo temos o exemplo dos países nórdicos e do lado negativo temos o semi-abandono das pessoas que sofreram o tragédia da Mariana. Mas a contagem final enviada pelo meu inconsciente aponta para o predomínio do progresso humanista.

                                               Nahman Armony  T

CIÚME E CIVILIZAÇÃO


A intolerância à infidelidade amorosa tem atormentado a humanidade desde o início dos tempos, deixando um rastro de sofrimento e morte. Uma maior compreensão sobre os motivos dessa intolerância poderá contribuir para reduzir a agonia de quem passa pela situação de infidelidade.

Há um consenso em se considerar a tolerância como ganho educacional e civilizacional. O homem e a sociedade só têm a ganhar quando integram as emoções primitivas, sem negá-las, ao conjunto do funcionamento psíquico, impedindo-as de se tornarem fonte de destruição e de sofrimento excessivo. No terreno amoroso temos exemplos de que esse processo civilizatório está em curso, porque figuras públicas já expressaram maior tolerância à infidelidade. Vários são os fatores que conduzem à intolerância amorosa. Um deles, o ciúme, é sentimento que encontramos em nossa infância remota. O bebê, quando se dá conta da existência da mãe, quer que ela lhe dê toda a sua atenção. Ao perceber que os cuidados maternos se dirigem a outra pessoa, um rival, seu medo de perdê-la passa a ter uma referência concreta.

Por razões psicológicas, sociológicas e culturais, os sentimentos de posse e a insegurança infantil, componentes do ciúme, não evoluíram, não se civilizaram, não encontraram um lugar adequado no conjunto do psiquismo, continuando a ter a mesma intensidade e reatividade dos primeiros tempos. Isso provoca desesperos e tragédias. E o mais interessante é que a sociedade sanciona as agressões e os crimes advindos do ciúme com uma aprovação muda e ambivalente. A sociedade “compreende” e perdoa a reação violenta daquele que foi “traído” e, de certa forma, aceita o ato agressivo.

Se conseguirmos nos colocar ao largo da mentalidade reinante, seremos capazes de estranhar o fato de que essa específica emoção não teve evolução semelhante às outras. Tomo como exemplo o desejo de vingança, embora não tenha desaparecido, abrandou-se com o advento da justiça.

Há, tambem um consenso de que o sentimento infantil de onipotência precisa evoluir para a realidade da potência. E é o que acontece com um grande número de indivíduos.   

Os obstáculos e limites que o ser humano encontra vão desfazendo a fantasia. A onipotência é substituída pela potência, sem porém deixar de existir como um sentimento inconsciente necessário ao equilíbrio psíquico.  

A sociedade valoriza as duas evoluções acima colocadas. Mas o mesmo não acontece com o ciúme que ainda é aceito como justificativa para atos agressivos. Por quê seria mais fácil diluir o sentimento de onipotência e de vingança e menos fácil o de ciúme? Por que o ciúme permanece em estado bruto, enquanto a onipotência e a vingança sofrem um trabalho de elaboração? Por que a sociedade aprova e convive com essa discrepância se ela é fonte de sofrimento?

Não há resposta simples e decisiva. A questão é muito complexa para que possamos enquadrá-la em um esquema. Alguma coisa, porém, pode ser dita. A posição de reizinho na infância é prazerosa. O desejo de continuar nesse posto fica no inconsciente e, se não for trabalhado, voltará na união amorosa. Sua Majestade, o Bebê, amado e valorizado pela mãe acima de todas as outras criaturas, quando cresce teme, como no passado, que um rival o rebaixe à categoria de um entre muitos.

Ao tomarmos consciência dessa dinâmica, é possível trabalhar sobre ela. Com o tempo consegue-se lidar melhor com nosso desejo inconsciente de sermos o centro do universo para o amado. O desejo permanece no inconsciente como um motor, mas agora o conjunto do psiquismo encontra modos e meios de mantê-lo em sintonia e equilíbrio com o parceiro e consigo mesmo.

                                      Nahman Armony

 

PAIXÃO VISCERAL

Após algum tempo de união amorosa, eventualmente acontece de um dos parceiros começar a reclamar: “Você já não é o mesmo. Me escondeu muita coisa de sua personalidade. Me enganou para me conquistar. Antes, parecia adivinhar os meus desejos e mesmo se antecipar a eles. Agora não me entende, não tem consideração por mim.” E por aí vai. Às vezes a briga esquenta. Um chama ao outro de farsante, fingido. Uma carga de adjetivos negativos transforma o companheiro num canalha, num ser desprezível. Mas será ele de fato mau-caráter? Pode ser que sim. Também é possível, porém, que o casal seja vítima da “síndrome de apaixonamento visceral”.

Esse tipo de apaixonamento toca o mais fundo do ser e estabelece uma relação na qual o único que conta é o outro, com seus desejos, melindres, peculiaridades. A atenção é inteiramente desviada de si mesmo e dirigida para o amado. O apagamento pessoal faz do amante um serviçal, quase um escravo. As questões pessoais, as próprias necessidades, suscetibilidades e desejos deixam de ter importância, são postas de lado. O único objetivo é fazer o outro feliz. Cada membro do casal, ao esmerar-se em comprazer ao parceiro, surge como um ente caído do céu, destinado a torná-lo venturoso para todo o sempre. É uma relação que lembra a dupla mãe-bebê, em que a primeira deixa de lado os dissabores, as questões pessoais, os outros amores e interesses para se dedicar apenas ao seu rebento, àquele ser visceral gestado na intimidade de sua barriga. Em se tratando de casal amoroso, ambos são, metaforicamente, bebê e mãe. Um procura agradar e servir ao outro em detrimento de si próprio.

O apaixonamento visceral tornará o casal tão amalgamado que podemos compará-lo a irmãos siameses, unidos por vísceras comuns. Quero aqui recordar o filme O Segredo de Brockeback Mountain, no qual vemos que nada, nem mesmo a morte, pôde separar os amantes. Eis aí o problema desse tipo de relação. Quando o mútuo fascínio declina, surgem as individualidades e as diferenças pessoais. Muitas variáveis entram então em jogo: se as diferenças forem tão grandes que tornem impossível a convivência, a relação de apaixonamento visceral fará com que a necessária separação, se puder acontecer, seja extremamente dolorosa, provocando muito sofrimento psíquico e físico. Se as diferenças não ultrapassarem o limite das possibilidades de entrosamento, a força da relação visceral ajudará a superar o desconforto causado pelas dessemelhanças facilitando a renúncia ao desejo impossível de entendimento perfeito. Como surge esse tipo de amor que estou chamando de apaixonamento visceral? Para explicar, vou me valer novamente do cinema. Existe um tema recorrente na filmografia: o namorado morre e retorna posteriormente no corpo de outra pessoa. A antiga namorada que permaneceu viva, ao encontrar-se por acaso com o antigo namorado em um novo corpo evidentemente não o reconhece, mas sente que existe algo de familiar nele. Essa mistura de estranho e familiar faz daquela pessoa um ser misterioso que surpreende, intriga e atrai. Algo antigo, vindo do passado remoto, vibra e ela se sente pronta a se aproximar daquele estranho/familiar para um apaixonamento visceral. Esses filmes são alegorias de encontros em que um enxerga no outro algo de seu passado mais longínquo vivido com a mãe ou outra figura poderosa. Um tipo de amor que pode ser uma bênção — quando não há uma incompatibilidade essencial e o casal ultrapassa a idéia de encaixe exato, aceitando as imperfeições, individualidades e diferenças — ou uma maldição — quando acontece o contrário: modos de ser irreconciliáveis ou impossibilidade de renunciar à perfeição dos primeiros tempos da relação.
                                                     Nahman Armony

 

 

PRATICIDADE E TERNURA

O amor, em sua riqueza, comporta vários pares de opostos. Entre eles, a dupla sensível/prático. Na vida real, esses dois modos de expressar o amor em geral se misturam em várias proporções; mas convém separá-los em seus dois extremos para efeito de compreensão. A relação mãe-filho exemplifica bem essa duplicidade.

Podemos idear uma mãe com dificuldade de contato físico: não consegue dar ao filho o carinho, o colo, o estímulo tátil de que necessita. Não que deixe de levar o filho ao regaço; mas o faz sem muito carinho — quase, talvez, como se carregasse um embrulho. “Não se estraga o filho com mimos”, era a desculpa que antigamente se dava a essa atitude. O amor dessa mãe se expressa nos cuidados materiais. Tudo é perfeito: a mamadeira cintila de limpeza, o leite tem a temperatura certa, as roupas são imaculadas, o quarto é higienizado, a saúde física recebe atendimento imediato, e mais e mais. Este, o amor prático. Em contrapartida, a mãe de amor sensível é capaz de relação íntima com o bebê, de pele e adivinhação, de carinho extremo, de brincadeiras divertidas, de trocas que são mútuos estímulos para entrarem numa esfera de paz, enlevo, alegria, harmonia.

Mas, por outro lado é desorganizada e desleixada.

Nos adultos reconheceríamos o amor prático quando o parceiro exercesse suas funções sociais, econômicas, humanitárias e domésticas. A casa bem arrumada, abastecida, a reunião bem planejada com bufê original e saboroso, a dedicação ao consorte em situação de doença, o comparecimento a festas e reuniões importantes, a ajuda financeira nas emergências, a disposição de gastar o que for necessário para poupar sofrimento e dar conforto e segurança ao ser amado.

Quanto ao amor sensível, este acompanha a pessoa amada em seus sutis desdobramentos e derivações, permitindo uma compreensão e ação tão refinadas que a um observador pareceria bruxaria, adivinhação a ultrapassar a barreira dos sentidos. Vinicius de Moraes  o expressa muito bem no seu Soneto da Fidelidade: “De tudo, ao meu amor serei atento/ Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/ Que mesmo em face do maior encanto/ Dele se encante mais meu pensamento.”

Acompanhemos o poeta em sua comovente devoção: atento ao seu amor, capaz de sintonizar com o deslizar de afetos, emoções e desejos da amada, é a própria dedicação que a torna a mulher mais encantada do mundo. Vinicius aqui não fala dos aspectos materiais da vida. Ele está falando do amor que se realiza na aguçada percepção dos estados de espírito, dos desejos, das insatisfações e desconfortos do parceiro. A percepção permite que haja respeito à sensibilidade e tolerância à suscetibilidade. O amor sensível exige especial despojamento do casal, cuja recompensa é a intensa e deleitosa troca afetiva.

É comum encontrarem-se amores sensíveis sem seu complemento prático. São pessoas que, embora coloquem em ação uma sensibilidade que lhes permite intuir e atender à subjetividade do parceiro, criando um vínculo forte, não conseguem ajudá-lo quando se trata de questões materiais. O inverso é também verdadeiro. Algumas pessoas, com dificuldade de estabelecer relações íntimas, manifestam seu amor com extremados cuidados práticos. Não se pense, porém, em desamor, pois estamos diante de  características quase intransponíveis, advindas das vicissitudes do crescimento pessoal.

Em geral o amor sensível é acompanhado de amor prático. Mas também ocorre que a maior ou menor proporção de um e de outro criem problemas na relação. Por isso é importante tomar consciência do tipo de sentimento que nutrimos pelo outro: podemos nos dedicar a desenvolver melhor a sensibilidade ou o nosso lado prático, o que favorece o equilíbrio que leva à harmonia.
               Nahman Armony

DIFICULDADES DO RELACIONAMENTO AMOROSO


FALSO E VERDADEIRO DIÁLOGO

 

Desde que a mulher conquistou independência financeira e autonomia pessoal, o diálogo passou a fazer parte da vida de casal. Antes prevalecia a voz masculina, dona do dinheiro e do poder, voz que ditava as regras de convivência e que, em querendo se manter no domínio absoluto da situação, abafava o clamor feminino. O diálogo permitiu à mulher fazer reivindicações, introduzir o modo feminino de ver o mundo, afirmar sua individualidade e lutar por desejos e valores. Estabeleceu-se uma relação igualitária na qual é preciso negociar e chegar a ajustes. A mulher, que até então reprimia a própria singularidade, pôde aparecer com a sua potência, enriquecendo a relação, a família e a sociedade. Por isso mesmo, devemos saudar o entranhamento do diálogo na mentalidade atual. Permite uma convivência afetuosa e democrática; oferece a oportunidade de exercer a intimidade e a diferença; e, ao mesmo tempo em que flui o amor, cada membro do casal afirma a sua singularidade. Os enfrentamentos enriquecem a ambos, pois abrem espaço para a compreensão da subjetividade do parceiro por meio de um exercício de identificação. Isso lhes permitirá serem tolerantes com as diferenças individuais, podendo então aceitar limites. Comunicações verdadeiras são guias preciosos no cipoal de suscetibilidades, fantasias, introjeções e projeções que acontecem em uma relação; quando desejos e sentimentos deixam de ser expressos, o casal fica perdido quanto à conduta do outro. Posso pensar, por exemplo, que a cara fechada com que minha parceira me recebe significa zanga comigo. É possível. Mas também pode ter ocorrido algo desagradável independente de mim. Só uma conversa esclarecerá a situação. Por outro lado, o diálogo passou a ser tão valorizado que se transformou em valor absoluto. A recusa em dialogar ou a sua interrupção tornaram-se politicamente incorretos podendo então criar um ponto de atrito prévio à conversação. Mas o diálogo apresenta outro grande perigo que o destrói como entendimento e acordo. Vejamos por quê:

O diálogo é produtivo até o ponto em que, por ele, se chega a perceber as diferenças. Ultrapassado este estágio, negocia-se uma convivência. A paz reinará enquanto o casal aceitar as dessemelhanças. Mas, se um deles quiser fazer prevalecer seu ponto de vista, poderá usar o diálogo para pressionar o parceiro a mudar seu modo de ser e/ou seus pontos de vista. O perigo maior acontece quando há convicção de que está acontecendo um verdadeiro diálogo, quando na realidade entra em cena o perigoso pseudodiálogo. Um exemplo: imaginemos o casal em que um seja aventureiro e goste de correr riscos, e o outro, conservador, prefira a segurança à ousadia. Depois de um período de desentendimentos, em que a ação de um é questionada pelo outro, resolvem sentar-se e dialogar. Imaginemos que constatem diferenças de temperamento e negociem um acordo. Pode ser que o acordo seja aceito. Ou não. Neste último caso, é possível que o parceiro insatisfeito queira reabrir o diálogo. Acontece que o diálogo deu o que tinha de dar. Reabri-lo seria repetir as falas. E fala repetida não é mais uma tentativa de conhecer e entender, mas forma de pressão e manipulação. Contudo, tendo o diálogo adquirido o status de politicamente correto, torna-se peremptório; assim, cai-se em uma armadilha. Este é o momento de desmitificar o diálogo como panacéia universal. Nesse ponto transformou-se em pseudodiálogo, que esconde um desejo de domínio, uma forma de fazer prevalecer uma opinião e maneira de ser.

É preciso ter lucidez a respeito de suas verdadeiras intenções ao encetar um diálogo. É preciso lembrar de que o objetivo é conhecer as motivações do parceiro, expor as suas, aprofundar o respeito e o conhecimento mútuos, e alegrar-se com a convivência de diferentes como fonte de aprendizado.
                                                                Nahman Armony