WINNICOTT – O SELF E O EGO
 
 
                                    Anotações dispersas.

                                           Um estudo
 
 
 
Citação retirada do “Explorações Psicanalíticas”  parte 19, redigido em julho de 1964,  p.81:
         “Não é possível fornecer uma resposta direta à pergunta: o bebê possui um ego, desde o início? A razão para tal é que, de começo, o ego do bebê é, ao mesmo tempo, débil e poderoso. É débil ao extremo se não existe um meio ambiente facilitador satisfatório. Em quase todos os casos, contudo a mãe ou a figura materna fornecem apoio ao ego, e, se ela faz isso de modo suficientemente bom, o ego de bebê é muito forte e possui sua própria organização. A mãe é capaz de proporcionar este apoio ao ego mediante sua capacidade e disposição de identificar-se tempo rariamente com o seu bebê.
         É importante distinguir entre a capacidade que uma mãe tem de identificar-se com seu bebê, mantendo, naturalmente, sua própria autonomia, e o estado, próprio ao bebê, de não haver ainda emergido da dependência absoluta. É só gradualmente que ele separa o não-eu  do eu, e um estágio importante de desenvolvimento emocional ocorre quando o bebê torna-se capaz de reconhecer  o fato da dependência e conseguir ter um self que é apenas relativamente dependente – ao invés de absolutamente dependente – do estado temporário da mãe em que ela se conluia com o bebê, de maneira que este tem, por causa do conluio dela, um ego, uma organização do ego e um certo grau de força e elasticidade do ego. 
         Comentário: Creio que o self existe desde o início da vida como um impulso singular para o desenvolvimento e expansão. Seria uma espécie de id, só que à diferença desse, que é impessoal, teria uma especificidade, uma singularidade, uma ipseidade. Aquilo que Winnicott chama de núcleo do verdadeiro self seria o repositório dessa ipseidade. Esse núcleo é inabordável (creio que o incomunicável de Winnicott deva ser lido como inabordável, incorruptível). O self é pois impulsão para a vida, para a expansão, para a conquista de novos territórios. Já o ego refere-se ao aspecto do lidar com o ambi ente de modo a nele sobreviver da melhor maneira possível. O ego tem uma filiação darwiniana (adaptação) e o self uma filiação nietzschiana (vontade de potência, expansão).     
 
Do mesmo livro no. 8 IDÉIAS E DEFININIÇÕES: “O Self falso. O self verdadeiro – estes termos são utilizados na descrição de uma organização defensiva na qual se da uma, etc. [ o que eu entendo é que o falso self “é semelhante à função do Ego, voltado para o mundo, entre o Id e a realidade externa”. (p.36)
Winnicott diz: “Self verdadeiro ou fonte de impulsos pessoais” (p.36)
Winnicott fala de “self falso complacente” onde outros autores, diz ele, falam de Ego Observador(p.36). Concluo que o falso self aproxima-se conceitualmente do ego e o verdadeiro self do id. “A espontaneidade e o impulso real só podem provir do self verdadeiro e, para que isto aconteça, alguém precisa assumir as funções do self falso”(p.36) Todas as citações teriam sido escritas no começo  da década de 50, o que eu duvido. Qual a função do falso self? Defender o verdadeiro self. Defender a integridade. Defender o verdadeiro self das invasões externas. Parece uma função egóica, de preservação da personalidade, ou da individualidade.  
 
 
 
HOJE, NO DIA 25/10/99 PENSO O SEGUINTE:
         Podemos inventar um self potencial e um self consciente de si mesmo. Haveria um self desde um teórico início intra-uterino; seria o impulso à vida, que inclui o crescimento, a diferenciação e integração das células, formação dos tecidos, seria o impulso à realização, ao crescimento, à expansão que evidentemente dependem de um ambiente suficientemente bom, mas também dependem da potencialidade do bebê. Em “Recordações do nascimento, trauma do nascimento e ansiedade” de 1949 (Livro: “Da Pediatria à Psicanálise Winnicott fala de um self existente em ato antes do nascimento(p .235). Mais adiante parece falar de um self potencial que precede o self consciente de si mesmo.
         De qualquer forma este self, no seu caminho de expansão, precisa inventar funções que o ajudem a lidar com a realidade sem que ele perca o impulso de expansão. O self então inventa a função egóica, a função superegóica, etc. 
 
  • Podemos igualar o self ao potencial hereditário em processo de maturação. Se não houver uma intrusão do ambiente esse potencial hereditário poderá processar-se dentro de uma continuidade de ser.
  • O self tem um aspecto pessoal que o id não tem. A fome seria um atributo do id enquanto que a maneira da fome se manifestar, diferente para cada criança, seria uma manifestação do self que de início estaria referido ao potencial hereditário em expansão mas que poderia ser modificado por ação do ambiente.
     
     
    22- Do livro “O Brincar e a Realidade” capítulo V “A criatividade e suas origens”: “2- Examinei os elementos masculino e feminino artificialmente dissecados e descobri que associo por enquanto o impulso relacionado a objetos (e também a voz passiva disso) ao elemento masculino, enquanto postulo que a característica do elemento feminino no contexto da relação de objeto é a identidade, concedendo à criança base para ser, e depois, mais tarde, uma base para o sentimento do eu (self). Acredito que é aqui, na dependência absoluta da provisão materna, daquela qualidade especial pela qual a mãe atende, ou deixa de atender ao funcioname nto mais primitivo do elemento feminino, que podemos buscar o fundamento da experiência de ser”(p.120).
     
    Do livro “Da Pediatria à Psicanálise”. Artigo: “Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro  do setting psicanalítico” : “Ao se recuperar da regressão, o paciente, com o self agora mais completamente rendido ao ego, necessita da análise comum...”(p.480).
     
    Do artigo “Relação paterno-infantil” do livro “O ambiente e os processos de maturação”: “...como eventualmente o ego do lactente se torna livre do apoio do mãe, de modo que o lactente alcança uma separação mental da mãe, isto é, uma diferenciação em um self pessoal  e separado”(p.41). Comentário: isso pode significar que o self primitivamente não é um self pessoal, mas um self que se junta, que  se mistura ao self da mãe.  A força vital viria da soma dos dois selves. Podemos  pensar que  isso ocorre na fase de fusão; o aquisição do self separado da mãe, do self pessoal iniciar-se-ia na fase de dependência relativa.
     
Pode-se pensar, a partir dessa perspectiva, que o self tem um impulso ao crescimento, à diferenciação e à integração. Este impulso para o crescimento, que mais tarde poderá ser denominado de impulso à expansão, à realização de suas potencialidade, é chamado por Winnicott de força vital. Essa concepção está aparentada ao élan vital de Bergson e, para mim, mais fortemente, à vontade de potência de Nietzsche.    
 
. O ego é uma parte do self, ou uma função do self, que existe para possibilitar o pleno desenvolvimento do self. O ego lida com a realidade externa, com os instintos e com o superego aplainando o caminho de auto-realização do self. O self ( um de seus significados) é impulso de vida, vitalidade, vontade de potência, realização, expansão. O ego tem a função de possibilitar a expansão do self. Pode ser bem sucedido  ou mal-sucedido. Em geral, algo se perde na caminhada do self em direção à sua plena realização. 
 
. Desenvolve-se o falso self como uma reação à invasão. O verdadeiro self se recolhe e o falso self torna-se o centro de gravidade da personalidade. Esse falso self pode reagir à intrusão de duas maneiras: 1- tornando-se submisso e 2- tornando-se desafiador. No pólo submisso aparece o sentimento de vazio, tédio, futilidade. No pólo desafiador a pessoa enquanto desafiando, brigando, competindo não tem o sentimento de futilidade que porém surge quando não há uma boa briga em vista. Nos dois casos é possível que a pessoa venha a se distinguir profissionalmente.
 
. O self é tudo o que a pessoa é: seu corpo, suas fantasias, seu ego, seu id, seu superego, sua necessidade de crescimento, integração, realização e expansão. Visualizo o self como um fluido que tem a capacidade de banhar todos as partes da pessoa. Um fluido que pode se concentrar em qualquer das partes da pessoa. Já pensei que o falso self seria o ego, mas prefiro, no momento pensar que self é um todo do qual o ego é uma parte, e que o falso self é um derivado do verdadeiro self que se desenvolve devido aos problemas com que o self se defronta.
 
. Do livro “O ambiente e os processos de maturação”, artigo “Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self (1960): “Particularmente relaciono o que divido em self verdadeiro e falso com a divisão de Freud do self em uma parte que é central e controlada pelos instintos (ou pelo que Freud chamou sexualidade, pré-genital e genital), e a parte orientada para o exterior  e relacionada com o mundo” (p.128).
                                            
                                                           Nahman Armony




 
 
 
 
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UM PASSADO PERSISTENTE


 
Vivemos em um mundo incerto, no qual a rotina é freqüentemente assaltada pelo inesperado. Temos de aprender a conviver e a lidar com o imprevisto. Bem diferente do tempo de nossos avós, quando se contava com um mundo estável, de hábitos consolidados. Não havia então o imperativo de uma avaliação ininterrupta do impacto dos acontecimentos sobre a subjetividade de cada um, nem a necessidade de se olhar para além do manifesto e explícito. As estruturas em vigor absorviam as insatisfações e conflitos existentes.
Tomemos como exemplo a circulação de dinheiro em uma família tradicional para confrontá-la com uma família pós-moderna. Na primeira o homem detinha o poder econômico, pois trabalhava e sustentava a todos, enquanto a esposa cuidava da casa e dos filhos. Disponibilizar para ela maior ou menor numerário teria mais a ver com a satisfação do marido em relação ao comportamento da esposa do que com a realidade econômica do casal. A mulher, por seu lado, tentava compensar sua frustração com o casamento realizando gastos excessivos. Os conflitos e as insatisfações, porém, não ameaçavam a estabilidade do casamento, que era “para sempre”; podiam permanecer ocultos, negados, pois a hipótese da separação era impensável. Os hábitos e as convenções da época seguravam o casamento, os afetos se equilibravam nas ações e reações.

Pensemos agora em uma família pós-moderna composta de marido e mulher em segundas núpcias, uma ex-esposa e um filho do primeiro casamento. O homem terá de se relacionar com a primeira mulher, tendo em vista sua função de pai, incluindo-se aí  os gastos com a criança. A circulação de dinheiro, que na família patriarcal fluía no interior da instituição do casamento, agora obedece a uma determinação externa, a da pensão. Nesse caso, a posição de ex-esposa a deixa mais livre e motivada para reivindicar aportes extras. Estes nem sempre são por exclusiva necessidade econômica: ocorre com freqüência haver raiva e ciúme da nova relação. Ela busca então se vingar, sobrecarregando o ex com pedidos extemporâneos; ao mesmo tempo poderão persistir nela resquícios de apego, e a contribuição extra poderá ter para ela o significado de ele sentir os mesmos resquícios. E mais: se ele cede às suas demandas, ela encontra conforto na idéia de que ainda o controla.

A esposa vigente percebe inconscientemente esses significados e exacerba sua rivalidade e competição com a ex. Sua sensação é a de não ser mais a única mulher com a qual o marido se importa. Existe outra a receber agrados; o dinheiro que poderia ser utilizado por ela e pela família atual escoa-se para a antiga esposa por fraqueza e por um elo afetivo indevido do marido. O que a ex-esposa pede para o filho é percebido como um pedido pessoal. A criança, aqui, perde a sua singularidade, confundida que está com a mãe.

Como não existe uma contenção institucional para essa constelação familiar, a situação pode não se equilibrar com as ações dos implicados, vindo a atingir a região do insuportável quando sucede algo radical: ou a separação do novo casal, ou o rompimento do marido/pai com a família anterior. A fratura, no entanto, poderá ser mais facilmente evitada se cada membro da família se der conta da própria dinâmica psíquica.

A nova esposa precisa conscientizar-se de sua rivalidade e competição com a ex; esta deverá perceber o mesmo em relação à atual e, ainda, o ódio e amor residual pelo ex-marido. Já o marido terá a tarefa de compreender o que move as duas mulheres nas discussões com ele. Só assim será possível atenuar os efeitos de tão fortes emoções, protegendo a continuidade dos relacionamentos.

 

                                       Nahman Armony
        Primeira publicação na revista CARAS

O ENIGMA CÉREBROMENTE


 

Repercussões especulativas psicofisiológicas a partir de LIBET


 

Experiência de Libet – o potencial de prontidão precede de 550 milisegundos a realização do gesto. “A interpretação clássica desse experimento diz que o livre arbítrio, ou seja, a ideia de que nós somos os arquitetos de nossas ações, é uma ilusão e que a consciência é uma espécie de efeito colateral de um processo inconsciente.” Crítica de Schurger: “ Libet argumentava que o nosso cérebro já decide mover-se ante de haver uma intenção consciente. Nos argumentamos que o que parece ser um processo de decisão pré-consciente não é reflexo de uma decisão. Parece ser, mas apenas porque essa é a natureza da atividade cerebral espontânea. Se estivermos certos, o experimento de Libet não fornece nenhuma evidência em desacordo com o livre-arbítrio.”

Minha tentativa de explicação. Um pouco de neurociência especulativa.  Premissa 1: necessidade de aumento da percepção do ambiente. Quanto mais ampla a percepção mais o ser vivo poderá se defender, atacar e sobreviver (Darwin). Poder-se-ia aqui falar de vontade de potência (Nietzche) como uma pulsão ou instinto primário. Imagino então o seguinte. Numa primeira etapa os animais só percebiam o ambiente através do toque, fosse com objetos vivos ou inanimados. O ambiente externo ao corpo reagia ou com irritação e então se afastava do fragmento do ambiente no qual por acaso tinha tocado, ou então o introduzia no seu próprio organismo para se alimentar, fosse um fragmento mineral fosse um outro ser vivo que era então decomposto em suas partes (proteína, gordura, glicose, etc.) Tanto um quanto outro processo só ocorriam quando o acaso colocava a substância viva com um objeto inanimado ou com um ser vivo que então lutava para não ser destruído.  Interessava então à sobrevivência poder perceber o outro, antes de tocá-lo. Essa é a função da visão. Desenvolveram-se partes do cérebro que permitiram essa percepção.  Na revista ‘Mente e Cérebro’ de novembro de 2016 aparece a figura de um verme primitivo ao qual foi dado o nome de CAENORHABDITIS ELEGANS. Esse verme se alimenta de bactérias do solo, não tem olho, não tem cérebro nem consciência. Algumas espécies de vermes têm um olho primitivo, mas seu principal instrumento de percepção do mundo à sua volta é difuso e se dá através do seu corpo. Se examinarmos o corpo de um jacaré facilmente veremos seu olho, fazendo um enorme contraste com o corpo de vermes que ou não apresenta aparelho visual ou o tem, porém muito primitivo. O jacaré atrelou parte de suas defesas ao olho. Para isso promoveu o crescimento e reestruturações do cérebro aumentando a capacidade de enxergar. Ou pode-se dizer o contrario. A necessidade de enxergar fez com que o cérebro se desenvolvesse no sentido da sobrevivência. A capacidade de ver o mundo é concomitante às transformações funcionais. Segundo Espinoza Uma única substância com inúmeros atributos dos quais só percebemos o atributo extensão e o atributo incorporal (mental). Voltando aos olhos do jacaré: ele enxerga o que externo a ele mas não desenvolveu o cérebro para enxergar os seus processos mentais e psíquicos internos. Esta proeza foi realizada pelo homem que desenvolveu uma parte do seu cérebro no sentido de ver o que se passa dentro da mente e da psique. Estou falando principalmente de autoconsciência. Não se pode separar o desenvolvimento neuronal da conquista mental. Ambas são concomitantes, ocorrem ao mesmo tempo. Voltando ao que eu já disse são dois aspectos de um mesmo fenômeno. No dizer de Spinoza, são atributos da Natureza. Há um crescimento e arranjo cerebral que permite ver não só o externo, o que está fora do ser, como também permite ver o que está acontecendo dentro do próprio mente-cérebro. Isto através de dois modos: por introspecção e por aparelhos de imagens dinâmicas.   Parto da seguinte premissa: a todo movimento da mente (portanto a todo pensamento) corresponde um movimento dos elementos cerebrais. É necessário que existam certas estruturas, funções e dinâmicas cerebrais para que o animal perceba com os seus órgãos de sentido aquilo que está acontecendo no mundo e dentro de seu cérebromente. A palavra ‘perceber’ pode ser substituída por ‘consciência’. O primeiro patamar da consciência eu a chamo de ‘consciência da pura ação.’ Num segundo patamar encontramos a consciência reflexiva que é a capacidade mental/cerebral de agir inteligentemente ao resolver algum problema externo sem porém ter consciência de que está resolvendo problemas pois esta última encontra-se no patamar da autoconsciência, privilégio dos humanos que observam seus pensamentos e ações. Darei um exemplo da consciência reflexiva que os animais reflexivos partilham com o ser humano. Um cão foi deixado para trás numa encruzilhada. Ele cheira uma primeira via buscando o cheiro do dono. Não há cheiro. Entra então resolutamente na 2ª via. Estamos diante de uma inteligência ou consciência reflexiva. À sua maneira canina o cão pensou: “se só há dois caminhos e meu dono não passou por este caminho só pode ter seguido pelo outro caminho”. Seu aparato cérebromental permitiu esta percepção/ação sem que percebesse que estava fazendo um raciocínio lógico. Já o homem desenvolveu um cérebromente que lhe permite ter autoconsciência. São modificações cerebrais que ampliam o campo de conhecimento dos seres vivos. Seria possível encontrarmos modificações cerebrais para os chamados fenômenos paranormais? Dentro da premissa colocada por mim a resposta só pode ser positiva. A meditação não é um fenômeno paranormal. Mas está mais próximo desta fronteira. Foram detectadas alterações na dinâmica cerebral nos monges que realizam meditação. Esta última afirmação tira a força do que venho dizendo, mas vale a pena colocá-la para nos afastarmos de acontecimentos milagrosos ou excepcionais. Não nos esqueçamos que os bons motoristas de taxi londrinos têm o córtex temporal ou parietal aumentado em comparação com a população não taxista. Preservamos assim a ideia de uma evolução cerebral/mental rizomática.
                                  Nahman Armony 

SOBRE ALGUNS MEDOS ATÁVICOS


CONFLITOS DA CULTURA DISFARÇADOS DE CONFLITOS PESSOAIS

 

Os seres humanos carregam consigo um medo atávico de serem influenciados, dominados, abusados, e procuram defender e preservar sua força, individualidade e independência de pensamento e ação. Num casal, o medo de ser dominado e o desejo de dominar se revela até mesmo em pequenas disputas como, por exemplo, a ridícula luta quanto ao modo de colocar a pasta de dentes na escova. As pessoas têm um medo inconsciente de serem influenciadas e dominadas e então perder sua autonomia e identidade. Tal sentimento pode ser percebido nos vários níveis das relações humanas, desde as que envolvem povos até as que se dão entre funcionários de uma empresa e relações de casal. Porém, não é fácil reconhecê-lo. Embora sua incidência seja ampla não nos apercebemos dela o que nos dificulta fazer um trabalho psicanalítico. Este medo está incrustado em nossos neurônios/psique, pois desde o inicio de nossa vida dependemos de uma outra pessoa de uma forma indispensável, necessária e prazerosa. Porém em algum momento da vida será preciso tornar-se autoafirmativo, contrariando os interlocutores. Instala-se um conflito aberto ou larvado: interesses grupais versus interesses pessoais, sentimentos de culpa por estar contrariando uma pessoa amada, desejo de paz versus afirmação da individualidade, desejos inconsciente de se fundir com a Grande Mãe versus desejo de individuação, etc.      

As conquistas territoriais, os massacres de populações, a imposição de culturas podem ser considerados, em parte, uma defesa contra a invasão/imposição de um grupo sobre a individualidade/subjetividade de outro. Do mesmo modo, quando um casal discute sobre o modo de usar o tubo da pasta de dentes, cada um querendo provar que a sua maneira é a melhor, trata-se, no fundo, de uma luta de culturas e mentalidades. Qual cultura/mentalidade vai prevalecer? Quem vai desaparecer e virar uma sombra para que o outro possa tranquilamente ocupar um lugar protegido da ameaça de ser invadido colonizado, controlado?

Na economia das relações entre os seres vivos, o grupo funciona com mais eficiência quando se estabelecem relações de liderança. Se cada um saísse atirando para lados diferentes, se não houvesse uma sinergia de ações, o grupo tenderia a desaparecer, destruído por outros. Essa é uma herança que os humanos carregam consigo para todos os lados, em todas as situações. Inclusive nas relações amorosas. 
Aqui faço um parêntesis para tratar da espinhosa questão da liderança. O perigo da liderança é o perigo que ela se transforme em relações ditatoriais. Eu penso em uma liderança funcional onde cada membro do grupo é levado a fazer o necessário para manter a estabilidade dinâmica do grupo. O exemplo que tenho na cabeça é o da organização das formigas e de outros insetos onde a alocação política é uma questão pontual, a ser resolvida nos contextos locais que se articulam com contextos locais mais amplos sem haver disputas pelo poder. Cada um faz o que deve fazer para a equilibração do grupo. Trata-se de uma liderança rizomática (Deleuze). 
É preciso fazer um esforço para identificar o receio atávico de ser influenciado pois aquilo que parece pequeno e burlesco pode ou não estar vinculado ao mais primitivo desejo de dominar e anular.

Os casais precisam encontrar um equilíbrio. Como as culturas e os hábitos são diferentes o confronto é inevitável. E ambos devem permanecer fortes em suas vestes de autoafirmação. Dessa forma estabelecem-se os limites e espaços de cada um e o entendimento em áreas comuns de pensamento/sentimento/sensibilidade. Quando um tenta convencer o outro de que seu modo de pensar é o verdadeiro, entra-se no terreno da disputa, da conquista, do desejo de ocupar com sua personalidade o máximo de espaço, movido pelo medo de ver sua individualidade anulada pela do outro.

Quanto maior for a autoestima de cada um, quanto maior for a certeza de se ter um centro autônomo e criativo, menos esse tipo de disputa aparecerá, pois a força individual se definirá por uma potência intrínseca e não pela dominação sobre o outro.

É bom lembrar, porém, que a dominação traz lucros não só para o dominador como também para o dominado, que aceitando sua submissão goza de tranquilidade até ter seu conforto ameaçado pela voracidade e medo do dominador. Para evitar essas situações, é importante que o casal perceba que a tentativa de imposição dos pequenos gostos pessoais de cada um pode ser a materialização do medo primitivo de desaparecer como individualidade, um sentimento que, para ser administrado, precisa, antes, ser reconhecido.
                                                       Nahman Armony

 

 
SOBRE

UMA INTRODUÇÃO EPISTEMOLÓGICA AO MEU LIVRO

“BORDERLINE: UMA OUTRA NORMALIDADE”

1ª edição – 1998

2ª edição – 2010

EDITORA REVINTER

 

“De familiares e conhecidos, se tornam estranhos e desconhecidos o caminho, o caminhar, os próprios caminhantes. Na caminhada do questionamento, vai surgindo a cada passo o caminho essencial. E, ao surgir, vai-nos revelando que, nas caminhadas diárias pelos atalhos, nenhum de nós havia realmente caminhado. Todos tínhamos ficado presos às malhas de um esquema pré-estabelecido”.[1]

 

 

        Este livro surgiu do entrelaçamento de dois cuidados, duas preocupações, duas aflições: um referido à minha profissão de psicanalista e outro ao meu ser enquanto inserido em uma cultura, em uma sociedade e em um meio ambiente.

        Esta é uma formulação narcisista mas que acredito pertinente. Por isto mesmo gostaria de apresentá-la, não como idiossincrásica, mas como fundo originário das produções do pensamento. Em palavras simples: pensa-se, constroem-se teorias, luta-se denodadamente por alguma coisa que está além da pessoa, mas que expressa, representa os anseios, temores, desejos mais recônditos de cada um.

        Gostaria mesmo de dar um nome a este modo de encarar as produções culturais. Seria um modo “presente-referente”. Algo muito fundamental, e que tem a ver com minha vida presente, me inquieta, me atormenta, me preocupa, me provoca cuidados levando-me a uma pesquisa e produção que aparentemente nada tem a ver comigo mas que, na verdade, tenta lidar com a inquietude pessoal. Inquietude pessoal que é também inquietude social, pois cada sujeito está atravessado pela subjetividade de sua época. Aquilo que se chama de subjetividade individual nada mais é que uma condensação pessoal de uma subjetividade que circula pelo social.

        Poderei portanto fazer história, filosofia, psicanálise, apelar para as várias disciplinas, poderei parecer inteiramente objetivo, voltado para fora, para o mundo, poderei parecer altruísta, preocupado com os outros, poderei ter ideais nobres. Tudo provém de uma fonte interna de inquietude e preocupação. São formas de lidar com os problemas, as perplexidades, as angústias de um sujeito pára-raios de seu entorno. Reconheço, pois, que minhas concepções são presente-referentes por mais altruístas que pareçam, por mais que falem do externo, e por mais bem elaboradas, coerentes e objetivas que possam ser. Mesmo que eu fale do passado ou do futuro, ainda assim será um passado e futuro referido ao agora, e se estou deles falando é porque eles se rebatem sobre o presente que está sendo vivido. Estou sempre tentando compreender e lidar com o aqui e agora e uso de todos os recursos para isso, inclusive o de negar o aqui e agora quando seu potencial ansiante ameaça desorganizar o pensamento. 

        Fui analisado dentro de uma técnica clássica, o que produziu seus efeitos mas deixou um fundo de insatisfação. Pude assim melhor compreender os pacientes borderline que se ressentiam da técnica clássica.

        Neste ponto começava minha saga. Ao me entregar à relação com o borderline, aceitando e deixando que se desenvolvessem novas formas de relação, comunicação e conhecimento, eu desafiava a comunidade psicanalítica que me rodeava e, o que era mais problemático, o fundamento sujeito/verdade que vigorava em minha subjetividade.

        Por algum tempo esta diferença entre pensamento/ação e fundamentos provocou em mim culpa e ansiedade. A este mal-estar agregavam-se as críticas e desconfianças de meus pares diante de minhas idéias e de minha atuação clínica.

        A existência de outros psicanalistas, especialmente estrangeiros, que se dirigiam aos analisandos de uma forma similar à minha, serviam-me de lenitivo mas não desfaziam o mal-estar de que eu me via possuído ao transgredir aquilo que era considerado pelo superego oficial psicanalítico local como o verdadeiro procedimento psicanalítico. Não só porque eles não estavam presentes para dar suporte quando dos ataques de meus pares, mas principalmente por  não se tratar apenas de uma questão de apoio, cumplicidade e identificação. O maior problema estava na relação entre aquilo que eram meus fundamentos inconscientes e minha ação e pensamento.

        Foi neste ponto que senti necessidade de um conhecimento extra-psicanalítico e me enfronhei no estudo da filosofia, da epistemologia, da sociologia, buscando alcançar o motor produtor de meu mal-estar na confluência e entrecruzamento destas disciplinas. Foi assim que acabei atracando na ECO, lugar da transdisciplinaridade, lugar onde o fundamento sujeito/verdade é sistematicamente questionado produzindo brechas para a penetração do devir no pensamento.

        O fundamento sujeito/verdade que era um de meus marcos orientadores, produzindo conflito, culpa e mal-estar sempre que era contrariado, pôde vir à tona, passando a ocupar um outro lugar na minha dinâmica psíquica. Acompanhando o processo de neutralização deste parâmetro, a culpa foi-se diluindo. Surgiu em seu lugar uma inquietude decorrente do vácuo deixado pela desmobilização do fundamento sujeito/verdade, uma inquietude que desconfiava de modelos e de fundamentos em geral. Mas, como viver sem fundamentos? O que colocar em seu lugar? No capítulo assumidamente poético desta tese, o capítulo 2, em seu item três, tento lidar com esta questão. E, posso dizer que o pensar/viver a inquietude a reduz de sombra indesejada para companheira estimulante e amena.

        Passei a entender meu comportamento terapêutico por paradigmas outros que não o secular fundamento sujeito/verdade. 

        Esta mudança de paradigma influiu e continua influindo em todas as áreas de minha atividade e também, como não poderia deixar de ser, no modo pelo qual estou conduzindo a feitura da tese.

        Alguns autores ajudam-me a me situar diante de meu trabalho clínico e de minha maneira de realizar a tese.

        A lebre do fundamento sujeito/verdade foi levantada por Márcio Távares d’Amaral em um de seus cursos. Mas a transformação paradigmática já vinha se operando e continuou a se operar. A maneira dos professores abordarem a realidade - trazendo o devir para a Academia -, o clima de abertura e multiplicidade da ECO propiciava, facilitava, robustecia esta transformação. As leituras também contribuíam para me deixar mais familiarizado, mais à vontade com este novo paradigma,  fazendo dele, cada vez mais, um ambiente em liquefação no qual eu passava a me mover com crescente desenvoltura.

        Emmanuel Carneiro Leão nos mostra como a divisão sujeito/objeto, a serviço de uma funcionalidade, de um objetivo que, em última análise, é a manutenção do status quo social, impede uma visão originária da realidade, fazendo com que o homem opere repetições estéreis. Diz ele:

 

“A funcionalidade da correlação sujeito-objeto se impõe, então, como o objetivo de todas as funções de crer, saber, fazer e sentir, vigentes no mundo moderno. Constitui mesmo o maior escolho na caminhada do pensamento para pensar radicalmente uma realidade”.[2]  

 

        É preciso, pois, pensar fora da dicotomia sujeito/objeto, e pensar radicalmente, para realizar transformações. A arte é uma das formas de ultrapassagem desta dicotomia:

 

“Já nem se sente provocação alguma para pensar nas frases de Nietzsche: ‘a arte tem mais valor de essência do que a verdade’; nós temos a arte para não vir a soçobrar na verdade’! E não sentimos a provocação destas frases porque obsecados pela funcionalidade de tudo e de todos, só temos olhos para o espaço físico-geométrico de sujeito e objeto. Pois este, podemos medi-lo com uma escala exatamente definida. Podemos operá-lo com resultados precisos. Mas, com uma arte, que não está nem dentro nem fora, ou, o que dá no mesmo, que está tão dentro quão fora da obra de arte e do artista, não podemos empreender nada”.[3]

 

A poesia será o meio que usarei para introduzir as questões pertinentes à tese. Penso que a poesia, com sua força de penetração, tem o poder de ultrapassar as defesas caracterológicas, produzindo um conhecimento não representacional, um conhecimento co-mocional, afetivo. Isto não significa que não usarei recursos da ordem da representação. Eu os usarei sim, não só por ser a forma socialmente mais difundida e mais aceita de comunicação, mas também como um recurso para, por acumulação, fazer surgir no espírito do outro a mesma intuição vivida por mim.

        Para Bergson[4] as idéias progridem por uma série de intuições fundamentais totalizadoras que exigem um esforço semântico e teórico para serem transmitidas. Mas, as idéias não são construídas racionalmente. Anteriores a qualquer raciocínio, são intuídas. Não se trata porém de uma intuição ingênua, um milagre caído do céu; ela exige um tempo de concentração, um tempo de pensamento, um tempo de contemplação, um tempo de recolhimento, um tempo de elaboração inconsciente. Aí sim, ela dará os seus sinais, pedindo para ser trazida à luz do dia, finalmente revelando-se ao próprio pensador e à sociedade que o rodeia.

        Acredito que uma intuição se forma pela apreensão de indícios vagos, mínimos, da coisa a ser intuída. Esta apreensão se passa a nível de sensorialidade, de cinestesia, de cenestesia, passando ao largo do crivo do pensamento racional/abstrato e chegando em estado puro à mente inconsciente. De lá, após um tempo de maturação propiciador de uma reunião globalizadora,  a intuição forçará - já como unidade - sua passagem ao mundo. Poderá receber então várias vestimentas: imagens, metáforas, alegorias, religião, história, ciência, antropologia, poesia, psicanálise, etc. O objetivo (ideal) destas vestes é proporcionar ao interlocutor o máximo de condições, o máximo de clima, o máximo de associações para que a intuição possa aparecer; é cercar e atravessar a intuição de tantas maneiras - criando um sem-número de conexões - que ela por fim venha a surgir, num repente, da mente do interlocutor.

        A intuição, ao surgir da/na mente do pensador, é apenas um pequeno glóbulo enroscado em si mesmo como uma flor em botão. Ela deverá florescer em imagens, teorias, proposições conceitos, noções, metáforas, para adquirir a plenitude de seu vigor. Seu florescimento será sempre uma promessa e uma surpresa. Embora saibamos que lá está uma flor, pouco sabemos das formas que adquirirá no decorrer de sua vida. Uma melhor metáfora para a intuição é a música. O compositor consegue um tema musical. Seu desenvolvimento é porém um mistério só revelado no correr da composição. Aí então saberemos algo da substância da música, mas será sempre uma substância a nos enviar ao mistério dos sons.

        A intuição está além da dicotomia sujeito/objeto, já que ela opera pelo processo de identificação. Ela escapa da funcionalidade e da objetividade. Ela se aproxima do olhar trans-lúcido de que fala Carneiro Leão, um olhar “tão livre, que, mesmo através da correlação de sujeito e objeto, veja sempre no real uma espetáculo de originalidade”.[5] A primordialidade da intuição advém de suas fontes: proto-sensações, cinestesias, sinestesias, cenestesias. São categorias pré-representacionais, pré-dicotomia sujeito-objeto. Só na seqüência de seu alumbramento é que poder-se-á falar de correlação sujeito-objeto. É no ponto de natividade que encontramos a maior translucidez do olhar apontando para a origem e originalidade das coisas. Diz Carneiro Leão:

 

“Ora, o dizer de um discurso se nutre de um contato pré-discursivo com uma verdade que, frente à reflexão temática, é tão originário que se torna uma fonte de inteligibilidade e compreensão”.[6]

 

 

        A intuição não está desligada de seu tempo. Pelo contrário, na medida em que ela habita um ser temporal, um ser atingido pelas questões, angústias, dificuldades, problemas de seu momento de vida, um ser que participa da subjetividade de sua época, ela, a intuição, porta, em sua inteireza, em sua unidade de apresentação, o conjunto de questões que atingem o ser humano. A compreensão e o apontamento de rumos encontram-se assim contextualizados. A remissão à origem, o perene renascer, filia-se à capacidade que tem a intuição de rearrumar os elementos existentes desde sempre em um novo arranjo que inclui novos elementos em surgimento.

        Para que o espírito possa se livrar das cadeias do já estabelecido, é preciso que ele esteja atento às suas intuições, que as respeite, que lhes dê crédito, que nelas busque uma fonte de conhecimento, pois a intuição é um modo de conhecimento em escape do representacional, do convencional, do instituído como saber.

        A escritura de uma tese exige uma pletora de leituras. Como evitar que as palavras acabem provocando uma doença congestiva? como ir para além das palavras do texto? como partilhar da intuição do autor? como transformar a teoria em experiência viva?

        Carneiro Leão fala-nos de um retraimento da linguagem que, ao se encontrar, no seu limite, com o silêncio, possibilita o surgimento da verdade do ser no tempo:

 

 

“É que a compreensão só se instala no instante em que começa a brilhar em nós o que o texto não diz, mas quer dizer em tudo quanto diz. Pois o problema central do sistema nos remete a uma experiência de retraimento que, de há muito, nos vinha atraindo em todos os empenhos de perguntar e desempenhos de responder. A partir daí tudo se transforma. Já não temos de carregar o peso de um sistema de signos e funções. Na gravidade do pensamento sentimos nosso próprio peso. Provocados a pensar por um pensamento, que também é nosso, que tem algo a dizer de nós mesmos, somos enviados à viagem de retraimento de um limite, que, longe de nos repelir, nos atrai e arrasta. De texto de uma língua, o pensamento se faz viagem da Linguagem de ser e não ser no tempo”.[7]  

 

        Ir para além da teoria procurando a experiência que a produziu, despir a intuição do autor de suas vestes vocabulares para dela poder compartilhar, obter discriminações finas através do confronto de práticas e teorias, conseguir estímulos para novas especulações, buscar os entrecruzamentos que se estabelecem a partir de diferentes ângulos de mirada, misturar mesmo os vários pontos de vista para deixar decantar uma resultante, tais são algumas das formas pelas quais digeri os textos lidos.

         Winnicott é um autor com o qual também me identifico. Ele escreve:

 

“Não começarei por fazer um levantamento histórico e por mostrar o desenvolvimento de minhas idéias a partir de teorias de outras pessoas porque minha mente não trabalha deste modo. O que faço é juntar isto e aquilo, aqui e acolá, concentrando-me na experiência clínica, formando minhas próprias teorias e, então, depois de tudo, me interesso em descobrir de onde roubei o quê. Talvez este seja um método tão bom quanto qualquer outro”.[8]

 

Este juntar isto e aquilo, aqui e acolá, significa que Winnicott não adota uma única teoria como modelo. Os variados eventos clínicos, nos quais ele se concentra, remetem-no a vários fragmentos teóricos. Ele não parte de uma teoria que, passando pela clínica, leva-o à modificação desta teoria ou à formação de outra. A clínica é seu ponto de partida e sua referência mais importante. O paciente está ali diante dele, e é a dinâmica que se estabelece entre ambos que evoca algum fragmento de teoria. A teoria fala diretamente dos eventos. O fragmento teórico amalgamado ao evento clínico é uma quase-experiência. A teoria tirada de sua morada celestial e trazida para a terra deixa de ser um pinóquio de pau para adquirir carne, artérias, sangue, sensibilidade.   

        Em qualquer momento de nossa vida corpomental possuímos um patrimônio experiencial e uma reserva de conhecimentos  através dos quais podemos olhar para o mundo ou diretamente ou passando pelo filtro das teorias que o representam. Na melhor das hipóteses olharemos o mundo sem sua terceirização pela teoria.

        Munidos de nosso acervo de experiência, conhecimento e teorias, mastigados e digeridos, olhamos para  os eventos e procuramos entendê-los, organizá-los, administrá-los. Parte de nossa experiência é expressa em linguagem, uma linguagem que já traz em suas palavras e sentenças um modo de aproximação ao mundo. Na medida em que usamos termos para falar e pensar a experiência, e estes termos já foram falados, escritos, significados, podemos dizer que o intertexto fará parte do conhecimento do mundo. Este intertexto sofrerá uma atenuação desde que, a cada vez, remetamos as palavras diretamente à experiência.

        Podemos assim manter a distinção entre olhar o mundo diretamente, ingenuamente, com o cabedal de conhecimentos-experiências que já temos, ou através de conceitos que deverão enquadrar o mundo para que ele possa ser conhecido. No primeiro caso estaremos mais livres para sermos atingidos pelo novo e mais livres para aceitá-lo, enquanto que no segundo nossa mente selecionará os aspectos da realidade que combinem com os conceitos prévios ou distorcerá aspectos da realidade para que possam caber na teoria.

        Voltando à relação linguagem/experiência. Foi dito acima que apreendemos o mundo através de um conhecimento prévio acumulado ontogeneticamente (e filogeneticamente?), conhecimento que inclui a linguagem recebida dos antecessores. Podemos pôr em questão esta relação linguagem/experiência que nos é dada para encontrar uma outra relação linguagem/experiência que exprima melhor e mais produtivamente o vigente. Mas esta relação linguagem/experiência só será colocada em questão, e ela o será inevitavelmente, se nos dirigirmos à vida de uma forma direta. Quando nos dirigimos à vida, dirigimo-nos ao fluido, ao mutável, e para acompanhar a vida em movimento é preciso fazer as palavras se movimentarem no seu mesmo compasso.[9]

        Também Edgar Morin faz parte daqueles autores sobre os quais repousa meu pensamento. Ele fala de um paradigma da simplificação, formulado por Descartes, que opera por disjunções, da qual a mais básica é a disjunção sujeito pensante-coisa extensa. Diz ele:

 

“Vivemos sob o império dos princípios de disjunção, de redução e de abstração, cujo conjunto constitui o que eu chamo o ‘paradigma da simplificação’. Descartes formulou este paradigma mestre do Ocidente, ao separar o sujeito pensante (ego cogitans) e a coisa extensa(res extensa), quer dizer, filosofia e ciência, e ao colocar como princípio de verdade as idéias ‘claras e distintas’, ou seja o próprio pensamento disjuntivo. Este paradigma, que controla a aventura do pensamento ocidental desde o século XVII, permitiu sem dúvida os grandes progressos do conhecimento científico e da reflexão filosófica; as suas conseqüências nocivas últimas só começam a revelar-se no séc.XX”.[10]

 

        Morin propõe um novo paradigma: o da complexidade. Nela o número de variáveis é inapreensível o que introduz um fator de indeterminação, de incerteza, de acaso. Mas trata-se de uma incerteza

 

no seio de sistemas ricamente organizados. Ela [a complexidade] relaciona sistemas semialeatórios cuja ordem é inseparável dos acasos que lhes dizem respeito. A complexidade está portanto ligada a uma mistura de ordem e de desordem, mistura íntima...”.[11]

 

Para pensar a complexidade é preciso substituir a operação de disjunção/redução/unidimensionalização por um procedimento que comporte a distinção e a conjunção (distinção/conjunção/conjunção) e que “permita distinguir sem separar, associar sem identificar ou reduzir”.[12] É preciso “também aceitar uma certa imprecisão e uma imprecisão certa, não apenas nos fenômenos, mas também nos conceitos...”.[13] Esta formulação é revolucionária em relação ao paradigma da simplicidade, que exige do universo uma ordem consubstanciada na unidade dos princípios e das leis, não admitindo nem a multiplicidade, nem a desordem, nem a contradição.[14] Aquilo que é contradição no paradigma da simplicidade transforma-se em paradoxo na ordem da complexidade. Os elementos que logicamente se excluem (na referência à lógica clássica) não remetem ao erro, e portanto não exigem ser corrigidos, mas aproximam-nos “de uma camada mais profunda da realidade que, justamente porque é profunda, não pode ser traduzida para a nossa lógica”.[15]

        André Green advoga a existência e o uso de uma outra lógica que não a clássica:

 

“O processo primário, mesmo em seus aspectos aparentemente mais primitivos, permanece governado pela lógica, não, naturalmente, a lógica do processo secundário ou da razão, mas, não obstante, uma forma de lógica simbólica. De fato, um analista não raciocina quando interpreta, as melhores interpretações são aquelas que aparecem espontaneamente. Porém isso apenas significa que um trabalho raciocinado e lógico (primariamente lógico) se realizou fora do campo da lógica secundária da razão. É notável, a este respeito, que - enquanto a lógica secundária se utiliza de processos de linguagem (apresentações de palavras na teoria freudiana) somente - a lógica primária emprega outros meios: primeiro apresentação de coisa e também afetos, sem mencionar os atos e estados corporais. A teoria freudiana do pensamento é conseqüentemente mais rica e mais abrangente do que as teorias não-freudianas, uma vez que nos oferece diversos tipos de pensamento que são conflitantes mas ocasionalmente auxiliares. Sugere-se que o fenômeno da associação entre processos primários e secundários seja chamado processo terciário”.[16]

 

 

        Minha escrita usa amplamente o paradoxo, assim como usa uma mistura de ordem e desordem. Na medida em que minhas intuições, trazidas à luz do dia, foram tomando forma, produziram um desenho que, visto a posteriori, apresentava características arborescentes e rizomáticas.[17] A seqüência ordenada, arborescente de um tema era muitas vezes interrompida por um curto-circuito que me levava a uma outra área de eventos, a uma outra região de pensamento, a um outro domínio de idéias; a ocorrência desta dinâmica associativa rizomática quase impositiva dava vida, iluminava experiências e relações mais ou menos distantes do tema tratado, promovendo insólitas e esclarecedoras aproximações.

        Dentro do processo disjunção/conjunção/distinção permito-me realizar várias combinações, ora dissolvendo unidades complexas em unidades mais simples, ora o contrário. Poderei, por exemplo, trabalhar com a unidade múltipla mãe-filho, ou com a unidade múltipla pai-mãe-filho. Se trabalho com a unidade mãe/filho, a disjunção/distinção ficará referida ao aspecto pai da totalidade perceptível. A escolha da extensão da unidade múltipla é estratégica; depende daquilo que estou querendo comunicar no momento.

        Uso de todos os recursos possíveis - história, antropologia, psicanálise, filosofia, etc. - para transmitir aquilo que é minha experiência e meu pensamento. Uso também os mais variados recursos estilísticos com a mesma finalidade. Meu escopo não é estabelecer alicerces indestrutíveis, nem justificar o que penso, mas sim, multiplicar os pontos de referência para facilitar o partilhamento das intuições e para enraizar meu pensamento na cultura à qual pertenço, tornando minhas idéias e experiências, o mais possível, acessíveis, aceitáveis e convincentes, sem lhes apor um caráter impositivo e dogmático que uma escrita tipo árvore-raíz poderia lhe emprestar.

        Outras referências ao método aparecem no decurso da texto, aproveitando o momento mesmo em que ela se vê perturbada por questões metodológicas que se impõem na medida em que o discurso se defronta com problemas não alcançados pela lógica habitual. Trata-se de um recurso metodológico que se apoia na valorização do devir e do tempo da oportunidade como poderosamente comunicativos.

        Espero ter conseguido transmitir o espírito do texto, o que não é coisa fácil.

       

 

                                       Nahman Armony




[1]CARNEIRO LEÃO, E., 1991, p. 184.
[2]Ibidem p. 169.
[3]Ibidem, p. 172.
[4] Cf. BERGSON, Henri, 1974a e 1974b.
[5] CARNEIRO LEÃO, E., 1991, p. 172.
[6]Ibidem, p. 189.
[7]Ibidem, p. 191.
[8]WINNICOTT, D.W.  1982,  p. 269.
[9]Cf. ARMONY, N. - “Psicanálise: Teoria ou Mito? Metáfora ou conceito?” 1989.
[10]MORIN, E. 1991, p. 15.
[11]Ibidem, p.43.
[12]Ibidem, p.19.
[13]Ibidem, p.44.
[14]Ibidem, p.71
[15]Ibidem, p.82.
[16]GREEN, André  1988, p.306/7.
[17]Cf. DELEUZE, G. E GUATTARI, F., 1995, capítulo 1 “Introdução: Rizoma” de Mil Platôs vol. 1. Seguindo as recomendações e ações do mestre Deleuze, violento sua concepção de rizoma, adequando-a ao meu pensamento. Assim o faço por considerar sua metáfora esclarecedora e por achar que a  curra conceitual  é amplamente compensada pela possibilidade de melhor exprimir meu pensamento.