Estranhas flores brancas, cândidas alvuras na cerrada mata, despudoradas sereias abrem corolas em perfumes para todos os narizes, leigos, fracassados, sábios, ignaros, alongadas hastes na verde floresta erguem-se frágeis pendentes por sobre o verde abertas em soluço despreparadas sementes despudoradas mulheres envolvem braços, coxas, ateneias, apolos, sem tempo de deixar escorrer nada mais que o tempo que roda, salta, acelera, para, suspira além do além, alongados braços suplicantes, delgadas hastes de cabeças pendidas a olhar o verde abaixo, desesperado fermento, bruma cerração sereias sirenes invadem lares, coração, mentes, pulmões, sem distinção de sexo, valor, riqueza, todos os olhos choram estranhas formas perdidas na verde mata almas penadas de seres infelizes em culpa, tempo parado na floresta verde aprisionado no perfume, altas árvores majestosas acima muito acima - e as pobres hastes frágeis pendentes choram fragrâncias por sobre o jamais visto azul do céu nas folhas abaixo, despudoradas putas penetram narizes, casas, pulmões, mentes,preconceitos, subvertem cidades, bagunçam coretos vingam-se ---- pobres almas virgens fracassadas jamais tocadas sufocadas no eterno verde da luxúria...
Nahman Armony
RECALQUE E DISSOCIAÇÃO
Quero fazer algumas
distinções simples que poderiam ser chamadas de fenomenológicas, pois não são
metapsicológicas nem se preocupam em fazer articulação com conceitos. Pretendem
ser observações soltas transmitidas na linguagem disponível. As articulações existentes
são espontâneas não representando um esforço do escritor.
RECALQUE – a
complexidade recalcada fica fora do alcance da consciência e apresenta
resistências quanto a ser percebida por ela. No seu retorno à consciência
aparece disfarçada, por vezes quase irreconhecível ou mesmo irreconhecível. O
recalque mantém a unidade da personalidade. O desejo (ou o trauma) ao ser
recalcado não mais exerce pressão consciente para a sua satisfação, o que
mantém a unidade do Eu. Se alguém deseja duas coisas incompatíveis e uma delas
é recalcada tornando-se inconsciente, ela reaparecerá em forma de sintoma. A
unidade do Eu se mantém.
DISSOCIAÇÃO- a
dissociação evita o conflito. Duas formas de dissociação: DISSOCIAÇÃO COM
CONSCIÊNCIA DAS PARTES DISSOCIADAS: a pessoa quer duas ou mais coisas
incompatíveis e se não recalca uma delas pode sentir-se confusa ou então pode
aceitar o paradoxo de querer, num mesmo momento, coisas incompatíveis.
DISSOCIAÇÃO SEM
CONSCIÊNCIA DAS PARTES DISSOCIADAS: a pessoa pula de um desejo para outro. Mas
geralmente o desejo está inserido numa personalidade e então entra em cena uma
segunda personalidade que cumpre o desejo. É o caso das chamadas dissociações
histéricas em que uma personalidade não tem conhecimento da outra ou em que
umas das personalidades não tem consciência enquanto a outra tem. É o caso de
M. que apresenta uma personalidade militar em certas situações e uma
personalidade psicanalítica em outras situações. Não é uma dissociação como a
estou descrevendo aqui, pois há um conflito inconsciente entre estas duas
personalidades. Ele tem consciência da personalidade que aceita o
homossexualismo e quando é esta personalidade que atua aparece o conflito pois
ele não permite que o desejo e a personalidade recalcados --- aquela que tem
horror ao homossexualismo --- se tornem
conscientes. (Uma mistura de recalque e dissociação?). Quando a personalidade é
a psicanalítica o preconceito é negado não permitindo a tomada de consciência
dos motivos de repúdio do homossexualismo o que acarreta que o homossexualismo
do filho cause sofrimento (sintomas psicossomáticos e ansiedades e depressões
aparentemente sem causa) influindo nas suas ações.
Nahman
Armony
DIFICULDADES DO CASAL MADURO
A geração que hoje enfrenta o esvaziamento do ninho é a mesma que
lutou contra a repressão sexual e, nessa luta, se impôs a obrigação de transar
intensamente. Os filhos eram a desculpa dos que fugiram a esse “ideal”. Agora,
sozinhos, os casais tentam retomá-lo. Impossível. Para ter bom sexo na
maturidade é preciso ter consciência da passagem do tempo.
Muito se tem falado sobre a síndrome do ninho vazio, um dos
desafios que o casal maduro enfrenta. Até o cinema já abordou o assunto, em filmes
como Ninho Vazio (2008), dirigido pelo argentino Daniel Burman. O
roteiro é conhecido: os filhos se vão, a casa se esvazia, o ponto maior de
convergência do par se dilui e subitamente marido e mulher estão nus, um diante
do outro, num olhar mútuo em cujas pupilas não mais aparece a prole, mas as
próprias almas, com suas verdades e mentiras, convenientes e inconvenientes. É
preciso um período de adaptação não só para elaborar a perda dos rebentos, mas
também para enfrentar a emergência do que até então ficara em banho-maria: as
lutas burlescas pela posse de pequenos poderes e evanescentes verdades, as
diferenças de concepções e comportamentos, as transferências de culpas, as
projeções das frustrações... uma miríade de armadilhas de tocaia.
Mas isso não é tudo. Há um desafio adicional para os casais que
vivem esse momento hoje. Ele está relacionado à condição histórica de mudança
de mentalidades. O grupo etário em questão viveu a transição entre uma geração
que dogmatizou a repressão dos instintos e outra, que já nasceu numa
mentalidade permissiva.
As proibições paternas e sociais marcaram profundamente essas
pessoas, pois elas tiveram de lutar não só contra a rígida ideologia dos pais,
mas também contra os preconceitos incutidos nos seus inconscientes, que
teimosamente lhes enviavam mensagens reprovativas, provocando culpa quando se
atreviam a desafiar a moral sexual da geração que a precedeu.
Uma das formas encontradas para
combater o tabu da repressão foi criar um tabu contrário: sexo livre obrigatório.
Transar intensamente passou a ser um imperativo categórico. Para o casal jovem
esse imperativo passava despercebido por coincidir com seus desejos
apaixonados. Com a vinda dos filhos, a vida profissional e a intimidade do dia
a dia, porém, a vida sexual é afetada. Ao mesmo tempo, o envelhecimento do
casal provoca uma redução fisiológica da libido. Mas o imperativo categórico
“transar” nunca saiu da mente do casal, que só não o realizava –
justificativa-se – devido ao tempo dedicado aos filhos e à profissão, e pelo
cansaço e tensão que estes acarretavam. Mas eis que chega a meia-idade, os
filhos se vão, a situação financeira não mais preocupa, o tempo de lazer
aumenta e os dois se vêem sozinhos, envergonhada e desconfortavelmente, indo
com desespero atrás do desejo sexual da mocidade. É o imperativo categórico se
manifestando: eles precisam transar, pois precisam provar aos fantasmas do
porão do inconsciente que são livres.
Vejam o paradoxo: eles são obrigados a ser livres e se obrigam a
transar para provar que são livres. No entanto, o ímpeto da juventude já vai
longe, o corpo envelheceu e a libido amornou, manifestando-se de maneira cada
vez mais espaçada, mas também mais suave, carinhosa e serena. Quando o casal
conscientiza e incorpora estes aspectos como pertencentes a uma evolução humana
inevitável, própria do passar do tempo, desaparece o constrangimento da
obrigação sexual. Os parceiros poderão então esperar com tranquilidade a visita
da libido para então usufruir um sexo deleitoso que não tem a obrigação do
orgasmo, embora possa lá chegar com sua carga de paixão.
Nahman Armony
Primeira publicação na revista
CARAS.
METAMORFOSE
Nas crisálidas intuitivas do ser morto
do céu vivo
Eu me pesco em trevas derradeiras
Sem querer, a ágata de ouro de meus passos
Leva-me a percorrer inumeráveis traços.
Sem cessar, sem cessar se hipnotizam dentro da tenda
Imensas primaveras refloridas ao som descrente.
Triste eu me ponho meditabundo
Sem saber o que é beleza
O que tristeza é.
Nahman Armony
do céu vivo
Eu me pesco em trevas derradeiras
Sem querer, a ágata de ouro de meus passos
Leva-me a percorrer inumeráveis traços.
Sem cessar, sem cessar se hipnotizam dentro da tenda
Imensas primaveras refloridas ao som descrente.
Triste eu me ponho meditabundo
Sem saber o que é beleza
O que tristeza é.
Nahman Armony
CULTURA, SUBJETIVIDADE E VIOLÊNCIA: REFLEXÕES PSICANALÍTICAS E UM POUCO MAIS
Vou usar a palavra cultura como um
conjunto de subjetividades, dúvidas e convicções ideológicas que modelam o
pensamento e a ação de um grupo humano. Vou completar a minha definição com a
do Dicionário Aurélio: “... complexo dos padrões de comportamento, das crenças,
das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos
coletivamente e característicos de uma sociedade”.
Sabemos que um de nossos instintos básicos
é o de conservação da vida individual. Pois bem, a força da cultura é tão
poderosa que se sobrepõe a este instinto como no caso dos homens-bomba ou dos
monges orientais que se imolam como forma de protesto e combate. Temos aqui uma
complicação na qual não entrarei por questão de foco e de tempo. Só farei uma
referência: não podemos deixar de considerar que existe um instinto derivado do
instinto de conservação da espécie: o da imortalização da cultura de um grupo.
Nos mamíferos a sobrevivência da espécie
depende também de instintos: um deles é o instinto maternal. Se não houvesse
este instinto dificilmente os filhotes sobreviveriam. (Estou usando instinto na
2ª acepção dada pelo Dicionário Aurélio:
“Forças de origem biológica inerentes aos homens e animais superiores, e que
atuam, em geral, de modo inconsciente, mas com finalidade precisa, e
independentemente de qualquer aprendizado: instinto
gregário, instinto sexual, instinto maternal”. Sem dúvida poderíamos também
usar as expressões instinto de conservação individual e de conservação da
espécie. Não vou entrar aqui na questão da pulsão x instinto, pois esta é uma
longa e difícil querela que não cabe neste trabalho).
Eu
dizia que se não houvesse o instinto maternal, dificilmente os filhotes
sobreviveriam em número suficiente para que a espécie continuasse a existir. No
entanto, houve épocas na história da humanidade em que os bebês e as crianças
eram negligenciados. Isto mostra o poder da cultura que interfere até numa
herança genética básica que é o cuidado pessoal dado aos rebentos pela
genitora.
Há um fator que diferencia o bicho-homem
dos outros bichos. O desenvolvimento do lobo pré-frontal provoca um rearranjo
dos circuitos cerebrais, permitindo o uso da palavra dentro de uma estrutura
linguística, possibilitando o pensamento racional, a fixação mnêmica dos
pensamentos e acontecimentos, a possibilidade de escolhas conscientes que levem
em conta o contexto estrutural e temporal.
Por isso o homem, muito mais que outros
mamíferos, é um ser de cultura. A maneira de criar os filhos é parte da
cultura. Erich Fromm em seu livro “Infância e Sociedade” nos mostra que a
criança é criada e educada para se tornar um adulto adaptado à cultura do
grupo. É o que nos diz também Margaret Mead em seu livro “Sexo e Temperamento”.
Ela estuda três culturas tribais de Nova Guiné. Destas interessa-nos duas: a
Arapesh e a Mundugumor pelo extremo contraste que apresentam. Na sociedade
arapesh encontramos uma cultura maternal de paz, de confiança, de
solidariedade, de mansidão. Eles são “cooperativos, não agressivos, suscetíveis
às necessidades e exigências alheias” (p.267 – “Sexo e Temperamento” de
Margaret Mead). É uma sociedade que tenta excluir de seu meio a agressividade.
Já os mundugumor cultivam a agressividade, a violência, a desconfiança, a
rivalidade, a hostilidade com os membros do mesmo sexo, o extremo egoísmo e
desumanidade, “com um mínimo de aspectos carinhosos e maternais em sua
personalidade”(ibid, p.268) É uma sociedade que tenta excluir a brandura de seu
meio. Estes protótipos de personalidade implicam, nos Arapesh, uma criação em
que os bebês e as crianças são cercados de atenção e carinho. Nas palavras de
Margaret Mead homens e mulheres “unem-se numa façanha comum, que é
primordialmente maternal, nutritiva e orientada para fora do eu, em direção às
necessidades da geração seguinte”(IBID, p.41). Já “o menino Mundugumor nasce em
um mundo hostil, mundo onde a maioria dos membros de seu próprio sexo serão
seus inimigos, onde seu melhor instrumento para o êxito deve ser a capacidade
para a violência...”. Eles tratam seus bebês e crianças de uma forma não
carinhosa, com certo descaso, apenas atendendo as suas necessidades físicas, e
às vezes nem isto.
Eu me estendi na
apresentação destas duas sociedades porque elas nos facilitam falar de
violência e ambiente.
Na tribo Mundugumor a violência é
culturalmente cultivada. Chamarei a esta violência de culturalmente
estruturante e destina-se a incluir o ser humano na cultura de seu grupo. O
homem não violento não tem lugar na sociedade mundugomor. Ou ele abandona a aldeia,
ou mantém-se revoltado por toda a vida, ou se deprime. Algumas pessoas muito capazes
podem conseguir um ajuste que lhes permita uma adaptação precária. Poderíamos
dizer que aqueles que têm um forte componente genético resistem à violência
primária da criação/educação.
Os Mundugumor são um
exemplo exagerado do que acontece nas culturas que conhecemos. Todas elas
apresentam uma violência culturalmente estruturante, uma violência
primária, para a qual cabe bem o termo “educação”. Ela é socialmente aceita
como necessária. É o caso da educação no século 19 em que as crianças em
crescimento eram moldadas por castigos violentos, tornando-se elas próprias
violentas.
A violência
secundária seria aquela não prescrita pela cultura e exercida por uma
pessoa necessitada de descarregar a sua agressividade. Por vezes a violência
primária e a secundária coincidem. Pensemos em um homem do século 19. Ele podia
castigar os filhos por um senso de dever, sem tirar nenhum prazer disto a não
ser o de estar bem educando seus filhos. Mas também podia ser um veículo
conveniente para sua necessidade de descarregar raivas acumuladas.
Provavelmente este segundo seria mais agressivo do que o primeiro, mas não se
poderia acusá-lo de maus tratos. É o caso dos exorcismos na Idade Média que por
vezes matava o exorcizado, ou o do escritor Oscar Wilde preso por
homossexualismo, ou os homens do século passado que castigavam cruelmente seus
filhos.
Para continuar o
artigo necessito esclarecer de que violência pretendo estar falando. Encontrei
no Dicionário Mirador duas definições, uma delas jurídica, que me convêm.
Começarei pela jurídica: “Constrangimento, físico ou moral, exercido sobre
alguma pessoa, para obrigá-la a submeter-se à vontade de outrem: coação”. A
outra definição: “Qualquer força empregada contra a vontade, liberdade ou
resistência de pessoa ou coisa”. Ora, esta definição jurídica faz-nos enxergar
um cruzamento entre antropologia e psicanálise através do conceito de violência
primária de Piera Aulagnier. Uma citação retirada de uma resenha do livro “A
violência da interpretação” de Piera Aulagnier escrita por Bruno Cancio nos
orientará:
[“Dos conceptos
de importancia establecidos en la obra son los de violencia primaria y secundaria.]
Por violencia primaria se entiende "...lo que en un campo psíquico
se impone desde el exterior a expensas de una primera violación de un espacio y
de una actividad que obedece a leyes heterogéneas al yo..."(3). Se trata
de una acción necesaria y que contribuirá a la futura constitución del yo. A
través de ésta se le impone a la psique ajena un pensamiento, acción o elección
producidos por el deseo de quien lo impone, pero que da respuesta a una
necesidad a quien le es impuesto. De esta forma, se consigue entrelazar deseo
de uno y necesidad del otro, dando lugar a la demanda. El deseo de quien ejerce
la violencia pasará, a partir de allí, a ser demandado por quien la padece.
Por otro lado, violencia secundaria hace referencia a "un exceso por lo general perjudicial y nunca necesario para el funcionamiento del Yo"(4) y que se apoya en su precedente, la violencia primaria. En este caso se trata de una violencia ejercida contra el yo, ya sea por un conflicto con otro "yo" o con un discurso social que intenta oponerse a toda suerte de cambios que pudieran producirse en los modelos por él previamente instituídos”.
Por otro lado, violencia secundaria hace referencia a "un exceso por lo general perjudicial y nunca necesario para el funcionamiento del Yo"(4) y que se apoya en su precedente, la violencia primaria. En este caso se trata de una violencia ejercida contra el yo, ya sea por un conflicto con otro "yo" o con un discurso social que intenta oponerse a toda suerte de cambios que pudieran producirse en los modelos por él previamente instituídos”.
Winnicott não concorda
com uma criação/educação impositiva como Aulagnier propõe. Um exemplo
esclarecedor nós o encontramos no artigo “Moral e Educação”. Tentando
sintetizar um artigo longo e complexo, consigo dizer o seguinte: Winnicott está
respondendo a uma palestra anterior à sua onde foi citada a seguinte fala de um
reitor para uma criança: “Você acreditará no Espirito Santo às 5 horas desta tarde
ou a espancarei até que o faça”. Os exemplos extremos servem para deixar claro uma
orientação paradigmática que neste caso é um paradigma autoritário não aceito
por Winnicott. Para ele o autoritarismo é uma invasão/intrusão no self do
outro, tornando-o submisso e dependente. Neste artigo ele, confronta o
autoritarismo adoecedor que tenta impor conceitos exteriores à experiência do
outro, com uma experiência interior, uma “crença em” que resulta de uma convivência
suficientemente boa com os pais. Quando
o horizonte se abre para além dos pais, a criança que está crescendo e que
precisa algo maior em que acreditar, é hora dos pais, da escola, da sociedade
apresentarem as diversas possibilidades de crenças existentes, respeitando sua eventual
busca por outra crença que não aquelas que lhe foram mostradas. A imposição é
uma invasão do psiquismo do outro, uma tentativa de dominá-lo, colonizá-lo, tornando-o revoltado, conformado e violento
em vários graus. Mesmo os conformados --- que engolem os traumas advindos das
invasões e os acumulam não sabendo de onde veem, pois a relação
dominador-dominado é frequentemente inconsciente e aceita como algo natural ---
podem ter uma explosão espontânea de ódio indiscriminado geralmente despertada
por um fato insignificante.
Ao invés de tentar
impingir uma crença dever-se-ia, segundo Winnicott, aceitar a criatividade
natural do ser humano. Criatividade tem dois sentidos: um primeiro que todos
nós conhecemos e um winnicottiano que é um paradoxo: criamos o que já existe.
Não é preciso forçar a realidade para dentro da cabeça das pessoas, mas sim
cuidar para que a criatividade de cada um encontre a sua realidade que é um
arranjo pessoal do subjetivamente concebido e objetivamente percebido.
Desenvolverei um pouco
mais a ideia de criatividade winnicottiana. O ser humano cria o que já existe.
Seu exemplo mor é o bebê que ainda não teve a primeira mamada e que ao sentir
fome procura algo que termine com o seu anseio. Este algo é um esboço de seio
que ele virá a conhecer melhor quanto mais com ele se relacionar. A vivência do
bebê é de que foi ele quem criou o seio desde que o seio apareça na hora da
fome. Da mesma maneira a função da sociedade é apresentar diversas alternativas
para escolha aceitando a contribuição de novas opções e não impor, seja por que
meio for, suas crenças. Mesmo porque o ser humano tem um impulso inerente de
pertencimento e precisará escolher um gancho na cultura para exercer sua
criatividade. A imposição, o conformismo e a revolta são combustíveis para a violência.
Precisamos deixar para trás tanto o paradigma autoritário quanto o paradigma
permissivo e aperfeiçoar um paradigma ecológico/poroso/humanitário/holístico.
Ao que parece já nos
adentramos firmemente na psicanálise de inspiração predominantemente winnicottiana.
Sendo eu, antes de tudo, um psicanalista, esta é a melhor contribuição que
posso dar. É claro que os fatores que levam à violência são inúmeros e é
preciso a colaboração de muitas disciplinas para um maior entendimento deste
fenômeno que parece estar se intensificando tanto no nível macro (guerra,
terrorismo, tráfico, repressão violenta, etc.), no micro (assaltos, furtos,
roubos, mortes, balas perdidas, violência doméstica, violências
discriminatórias, etc.) e no nano (dinâmicas bi e plurisubjetivas). Não podemos
esquecer os fatores psicossociais como, por exemplo, as consequências psíquicas
de um sentimento de exclusão das benesses dos mais afortunados que pode levar a
ações violentas, a glamorização dos traficantes e especialmente dos chefes do
tráfico que se tornam figuras fortes de identificação para uma parcela das
crianças e adolescentes das comunidades que eram chamadas de favelas. O que
também vemos são jovens das classes
médias altas exercendo violência através de roubos, ataques a populações
marginalizadas (incendiar índios, atacar mendigos, atacar homossexuais, etc.).
Podemos compreender o comportamento violento dos que se sentem inferiorizados,
excluídos, injustiçados e que necessitam de figuras fortes de identificação e
de uma cultura e ética própria. Mas, e os jovens da classe média alta que têm
acesso ao conforto, diversão e que estão up-to-date com as tecnologias
emergentes? Aqui é onde melhor a psicanálise pode dar a sua colaboração.
O ritmo atual de vida
faz com que tanto o pai quanto a mãe fiquem, por muito tempo, ausentes do lar.
Com isto a assistência afetiva aos filhos sofre danos. Isto é especialmente
grave para os infantes, pois eles necessitam de cuidados maiores. Segundo
Winnicott para que a criatura humana crie uma base psicossomática sólida
necessita de um tempo de fusão com a mãe à qual ele deu o nome de dependência
absoluta, seguida de um outro período que denominou de dependência relativa. A
primeira se caracteriza pelo imediato atendimento pela mãe ou figura substituta
das necessidades físicas e psicológicas do bebê. Para isso a mãe deverá estar
em um estado de “preocupação materna primária” na qual ela se encontra
hiperatenta e hipersensível em relação ao bebê de tal maneira que possa
atendê-lo imediatamente ou até mesmo prever o desconforto do filho. Na
dependência relativa não é mais necessário que a mãe esteja em estado de
preocupação materna primária, pois é uma fase em que o bebê, para se
diferenciar da mãe, sofrerá frustrações (desilusões). De qualquer maneira, embora
em nível diferente, a mãe deverá continuar sensível e afinada com seu rebento,
especialmente para certos comportamentos. Um dos mais relevantes é a conduta de
aproximação e afastamento da mãe. A mãe sensível e sem grandes problemas em
relação à oscilação do bebê entre dependência e independência, aceitará de bom
grado tanto o seu afastamento quanto o seu retorno à segurança do colo materno.
Para que essa dinâmica funcione bem é necessário não só que a mãe esteja
presente, mas que não seja solicitada pelo trabalho profissional do qual se
afastou, nem esteja preocupada com a
contabilidade da família. Este é um item problemático. Não só a vida atual
envolve a mãe, deixando-a preocupada e, portanto, afetivamente menos disponível
para o bebê do ponto de vista da sensibilidade porosa, mas também o hedonismo
característico de nossa cultura faz com que a mãe se separe do bebê quando ele
ainda não está preparado para isto. Sem falar das ausências que acontecem por
conta do trabalho executivo ou de outro tipo.
Na área da
criminalidade Winnicott também dá a sua contribuição. Mais que uma contribuição
é uma revolução, pois ele ao procurar, nas crianças, as origens dos atos
antissociais percebe que estes estão além da agressão: são pedidos de socorro
e, no caso de roubos, uma apropriação simbólica de uma mãe que o está
abandonando. Para entender melhor esta dinâmica vou recorrer a dois conceitos winnicottianos
relacionados entre si: privação e deprivação (anglicismo derivado da palavra deprivation). O atendimento insuficiente
às necessidades do bebê na fase de dependência absoluta ---- quando o ambiente
ainda não se distingue do si-mesmo, só existindo um bebê que é o próprio mundo
---- facilita o ingresso no delírio e na psicose. Ele foi privado de um
ambiente suficientemente bom, mas não sabe disso por não possuir ainda um eu distinto
do não-eu. Porém, se ele teve a experiência de ser bem cuidado na fase de
fusão, sentir-se-á lesado se na fase de dependência relativa os pais não forem
suficientemente presentes e sensíveis. Ele se perceberá deprivado, pois diferentemente do privado, perdeu
o que já havia tido. Sentindo-se negligenciado
pelos pais passa a aborrecê-los através de birras, desafios, e também de
pequenos atos delituosos como roubar, maltratar pequenos animais, etc. Estes
atos são gestos de esperança de recuperação dos pais, sua maneira de chamar a
atenção, o seu pedido de socorro. Exp.: (p.407 – Da pediatria à psicanálise – Tendência
antissocial) Winnicott foi procurado
por uma mãe cujo filho mais velho tinha a compulsão de roubar que “estava se
transformando em algo bastante sério. Ele estava roubando muito, tanto em lojas
quanto em casa”. Winnicott sugeriu: “Por que você não lhe diz que sabe que
quando ele rouba, não são realmente aquelas coisas que ele quer, e sim alguma
outra coisa à qual ele acha que tem direito? Que é como se ele estivesse
fazendo uma reclamação a seu pai e sua mãe, por sentir a falta do seu
amor?.....Algum tempo depois recebi uma carta contando-me que ela havia feito o
que sugeri. Dizia ela: ‘Eu lhe disse que o que ele realmente queria, quando
roubava dinheiro e comida e outras coisas, era sua mãe. E devo dizer que na
verdade eu não esperava que ele compreendesse, mas ele pareceu compreender. Eu
lhe perguntei se ele achava que nós não o amávamos por ele ser às vezes tão
difícil, e ele disse imediatamente que na sua opinião nós não o amávamos
muito..... Então eu lhe disse que ele nunca, nunca deveria duvidar disso de
novo, e se em algum momento ele tivesse alguma dúvida era só me lembrar que eu
lhe diria de novo..... De modo que tenho feito muito mais demonstrações, a fim
de evitar que ele venha a duvidar outra vez. E até este momento não houve um
único roubo’. Agora oito meses depois, é possível relatar que não houve mais
roubos e que o relacionamento entre o menino e a sua família melhorou muito”.
(Ibid, p.407/8). Se a tendência antissocial não for tratada na fase de
crescimento, tenderá, com o passar dos anos, a se tornar uma psicopatia.
Uma criança com o eu
inflado e sem limites por ação/omissão dos pais não sairá da situação de “Sua
Majestade, o Bebê”. O mundo lhe deverá obediência e reverência. Nada poderá se
interpor no seu caminho. Todos seus desejos terão de ser atendidos. Uma cabeça
dessas acaba tomando o caminho da agressividade e violência. Isso se torna
ainda mais problemático quando a mãe necessitada de simbiose não consegue
colocar limites para o filho adolescente ou adulto.
Há outras condições psicológicas
que facilitam o aparecimento da violência. A intolerância à frustração, as
fantasias persecutórias inconscientes, a excessiva competitividade, a
autoestima baixa, dificuldades na transição da dependência absoluta à
dependência relativa.
HANNA
ARENDT E A BANALIDADE DO MAL
Quando foi designada
para a cobertura do julgamento de Adolf Eichman --- um criminoso de guerra
nazista, encarregado da organização e envio de prisioneiros a campos de
extermínio --- esperava encontrar um monstro e se surpreendeu ao encontrar um
homem comum como muitos outros. “O problema de Eichman era exatamente que
muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram
e ainda são terrível e assustadoramente normais” (Arendt, 1999, p.299 do livro
“Eichmann em Jerusalém). Adolf Eichmann era um eficiente e dedicado burocrata,
cumpridor fiel dos seus deveres e leal aos seus superiores hierárquicos, obedecendo
diligentemente às suas ordens. Era um bom pai de família, um filho exemplar e
um irmão dedicado. Quanto ao assassinato eficiente de milhões de pessoas ele
apenas, burocraticamente, cumpria ordens superiores como todo bom cidadão, em
sua opinião, deveria fazer. Mas não teria Eichmann consciência da
monstruosidade de sua ação? Hanna Arendt estava convencida de que sim, pois
Eichmann declarou várias vezes que estava com a consciência tranquila, já que
cumprira seu dever e sabia que sua ação era moralmente correta. Palavras de
Arendt: “Sua consciência [de Eichman] ficou efetivamente tranquila quando ele
viu o zelo e o empenho com que a ‘boa sociedade’ de todas as partes reagia ao que
ele fazia. Ele não precisava ‘cerrar os
ouvidos para a voz da consciência’, como diz o preceito, não porque ele não
tivesse nenhuma consciência, mas porque sua consciência falava com a ‘voz
respeitável’, com a voz da sociedade respeitável à sua volta” (Ibid, p.143). O
conceito banalidade do mal expressa o fato do mal ser exercido não só por
psicopatas e degenerados, mas também por homens comuns como qualquer um de nós.
Todas as formas sociais de totalitarismo impõem uma obediência cega e servil a
seus cidadãos. Difícil escapar de tal mandato pois a punição que se segue é
terrível.
Hanna Arendt fala de
alguns fatores que se encontram na gênese da banalidade do mal. Entre eles
estão: a superficialidade das pessoas, o utilitarismo nas relações humanas ----
que torna as pessoas supérfluas e descartáveis (p. 115) ----, o servilismo como
fator supostamente moral da obediência.
Pois é o servilismo e
a obediência que quero examinar, sob o ponto de vista da psicologia social e da
psicologia psicanalítica.
De alguns anos para
cá, experimentos sobre obediência cega a uma figura de autoridade sancionada
pelo social têm sido feitos. O esquema geral destes experimentações é a
seguinte: um grupo de pessoas é dividido em dois. A um deles cabe fazer uma
tarefa. Ao outro cabe punir as pessoas do primeiro grupo se a tarefa não é bem
realizada. Ao condutor da experiência cabe estabelecer a intensidade do castigo
que é passar uma corrente elétrica pelo corpo dos que erraram. Na verdade o
castigo é uma simulação mas o grupo castigador não sabe disto. Para este existe
realmente uma corrente elétrica passando pelo corpo das pessoas do outro grupo.
Pois bem, se o mentor da experiência ordena que uma corrente máxima seja
acionada, ela o será. A obediência é automática não sendo levado em
consideração o sofrimento que possa causar ou mesmo o perigo que representa.
Existe pois em nossa
sociedade ocidental a forte tendência em obedecer a autoridade socialmente
constituída mesmo que resulte em um ato desumano. Sugiro que isto se deva a uma
educação autoritária onde a criança é ensinada a obedecer sem refletir. Na
psicanálise esta situação se replica, como vimos anteriormente, no conceito de
violência primária de Piera Aulagnier assim como vimos que a concepção de
desenvolvimento psíquico e mental de Winnicott privilegia a criatividade: os
objetos da cultura são apresentados e a criatividade os inclui no espaço
transicional onde o subjetivo improvisa um dueto com o objetivo. Não sei se é correto
dizer que essa concepção é nova e revolucionária e que vai ao âmago da questão
colonização versus independência. Acredito que por vários séculos a
criação/educação do ser humano em crescimento foi dominada pela imposição,
dificultando o pensamento livre, situação que ainda perdura. O ser humano ao ser
criado/educado tendo como insinuância principal a criatividade, podendo então
construir o mundo mediante sua própria ação está mais apto a resistir às
convenções e mandatos da cultura e de suas figuras representativas, julgando
por si próprio o que mais se coaduna com seus pensamentos e sentimentos. Já o
ser humano criado através de atos predominantemente impositivos tenderá a
aceitar a orientação da cultura e de seus representantes de uma forma submissa,
obedecendo automaticamente às ordens, por mais desumanas que sejam.
Tenho a esperança de
que usando a criatividade como guia, teremos uma integração ética do homem com
a natureza e com seu semelhante/diferente que, narcisicamente (conforme meu
artigo “Narcisismo secundário inclusivo”), passarão a fazer parte dele,
diminuindo a violência no mundo.
Outubro/2014
Nahman
Armony
DIFERENÇAS DE MENTALIDADE DIFICULTAM ENTENDIMENTO
Assisti recentemente ao filme “Quando
um homem ama uma mulher” em exibição nos canais por assinatura. Uma película
reveladora de sutilezas de comportamento relacionadas a diferentes mentalidades.
Enquanto cada membro do casal está fechado em seu mundo, sem poder perceber o
mundo do outro, as tenuidades da fala e da expressão corporal podem ser interpretadas
como desrespeito.
O filme fala de um amor sólido,
substantivo e perseverante; tão perseverante que resistiu a profundas
diferenças de mentalidade que quase inviabilizaram o casamento. A união só pôde
retomar sua vitalidade quando brechas no psiquismo permitiram uma compreensão
mútua.
Se ficarmos atentos não só às
linhas, mas também às entrelinhas do filme dele tiraremos bom proveito. Desde o
início, um férreo liame uniu Alice e Michael.
Havia muito amor circulando entre os dois e, mais tarde, entre os quatro,
quando um par de filhos veio se acrescentar à família. Uma tragédia porém
estava à espreita. Alice retorna ao alcoolismo, afasta-se do lar e a ele mais
tarde retorna tentando se readaptar à vida familiar ao mesmo tempo em que
freqüenta os “alcoólatras anônimos”. Aqui já se coloca uma interrogação. Se a
família era tão feliz como pôde o alcoolismo se insinuar nessa liga amorosa?
Neste ponto o filme nos fornece pistas para começarmos a entender como um casal
que se ama, que ama os filhos e que quer preservar o casamento pode ser
corroído a partir de diferenças de mentalidade. Uma dica da dinâmica do casal
nos é dada quando Alice aponta a satisfação que o marido tira de se sentir
superior a uma mulher fraca e problemática. Está aí colocada uma situação de
inferioridade, que também aparece no trato com os filhos: o pai aparece
interferindo na relação da mãe com as crianças, tirando sua autoridade e
deixando-a em segundo plano. Para Michael esta é uma situação natural. Ele é o
chefe e orientador da vida da família, o dono do saber; a esposa deve aceitar
sua superioridade e seguir seus preceitos. Um outro aspecto menos evidente que
aparece é a excessiva objetividade do marido revelada na frase “eu só posso
consertar se souber o defeito” quando tenta ajudá-la. O alcoolismo da esposa é
um problema a ser resolvido, e como problema terá certamente uma solução desde
que se siga a direção certa. Essa direção certa e única que desconsidera as
complexidades do psiquismo é ele quem conhece. O fato dela não seguir seus
preceitos, ou pior, ao segui-los fracassar, faz com que ele se sinta
desprestigiado, diminuído na sua condição de um mentor de família que deve
resolver todos os problemas.
Poderia parecer que o amor do casal
terminara. Pois não é esse o caso. Ao contrário, havia um amor tão sólido que
ao final eles conseguem se reaproximar reavivando o afeto que surdamente
habitava seus corações. Isto exigiu um grande esforço dos dois. Dele, no
sentido de engolir seu orgulho de macho e passar a freqüentar um grupo de
parentes de alcoólatras. O impacto de uma outra mentalidade masculina fez com
que ele abandonasse de supetão a primeira reunião. Não é fácil promover
modificações em um modo de ser que desde muito cedo se foi formando e terminou
por consolidar-se. Há uma espécie de abalo, de terremoto na personalidade.
Porém, o desejo de poder viver e amar a escolhida fê-lo persistir. Uma outra
mentalidade foi-se formando, mentalidade na qual cabia não ser ele o dono do
saber, a obrigação de tudo resolver, e, principalmente, a percepção que não
bastava ter um plano objetivo e querer seguir este plano para conseguir
resultados. Começou a perceber que a mente humana é extremamente complexa e que
seus caminhos são tortuosos, inesperados e oscilantes. E ela pôde entender que
a incompreensão do marido não vinha da falta de amor, mas de uma educação
machista. Um recomeço tornou-se possível.
Nahman Armony
Primeira publicação na revista CARAS.
PESADELO
A bruma bruxa bruxuleia lenta
O bucho feio brada recheio
Olhos rasados abrem bocas
Negro terror tange Noite.
Boca esquálida trinca dentes
Alvas luas uivam rentes
O branco brado, grande olho vazio
Bruxeia
A bruma bruxa colhe
A noite repentina
O espanto cego pare
Na entranha da menina
A bruta bruxa olha, devora
E anseia.
Nahman Armony
O bucho feio brada recheio
Olhos rasados abrem bocas
Negro terror tange Noite.
Boca esquálida trinca dentes
Alvas luas uivam rentes
O branco brado, grande olho vazio
Bruxeia
A bruma bruxa colhe
A noite repentina
O espanto cego pare
Na entranha da menina
A bruta bruxa olha, devora
E anseia.
Nahman Armony
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