Lá,
Onde os astros se encontram
Está a minha vida,
Minha preciosa pérola incorrupta.
Basta que eu feche os olhos
E permita que o vento azul me invada,
Basta que eu me abra para a poesia,
Para o amor,
Para o eterno,
Que sou envolvido
Pela doce fragrância
Do sonho puro
e Bom.
Nahman Armony
A DISSOLUÇÃO DO BORDERLINE
RABISCOS HISTÓRICOS
No mundo das palavras,
o termo borderline tem um avô. Chama-se borderland e foi criado por C. Hughes
que a usou pela primeira vez em 1884. Seu significado difere do termo
borderline atual embora se possa reconhecer seu parentesco. Hughes escreveu: “A
fronteira da insanidade é ocupada por muitas pessoas que passam sua vida
inteira próxima àquela linha às vezes de um dos lados às vezes do outro”. De lá
para cá o termo que de borderland passou a borderline, teve inúmeros
descendentes que embora se parecessem, não podendo, pois, negar sua origem, mostravam
nas suas diferenças uma história de modificações e complexificações. Borderland
nasceu no seio do paradigma cientificista e, como tal, tinha de ter uma clareza
e distinção cartesianas próprias do paradigma. E nada mais claro que este pingueponguear
que dispensava uma percepção da complexidade borderline. Uma complexidade que
foi se revelando no desdobrar da história dos transtornos psíquicos e mentais e
da qual vamos tomando conhecimento na medida em que entramos em contato com as
concepções dos vários autores. O quadro sintomático múltiplo do borderline era
desorientador dificultando um consenso e multiplicando a nomenclatura. Entre
estes nomes encontra-se o de esquizofrenia larvada, esquizofrenia latente, esquizofrenia
incipiente, esquizofrenia pseudoneurótica, suave demência precoce, depressões
periódicas e outros. De uma maneira geral pode-se dizer que as primeiras
tentativas de caracterizar o borderline lhe dava um lugar excêntrico nas
classificações psiquiátricas da época, pois não era visto nem como psicótico,
nem como neurótico. Simplesmente não havia ainda um lugar para ele. Para alguns
o borderline ocupava uma posição intermediária entre a neurose, definida como
uma doença nervosa de origem psíquica, e a psicose definida basicamente como
perda de contato com a realidade. Esta forma incompleta de enxergar o
borderline nós ainda a encontraremos em vários autores. Knight em 1954 escreve
que borderline não é propriamente um diagnóstico, sendo mais usado para
designar pessoas muito perturbadas, mas não francamente psicóticas; é também
utilizado naqueles casos em que é difícil decidir se o paciente é neurótico ou
psicótico. Estas dificuldades podem ser atribuídas ao fato de o borderline não
se enquadrar em um sistema classificatório exigido pelo paradigma cientificista
e repressivo do século 19. Quando Kraepelin na psiquiatria e Freud na
psicanálise finalmente realizam esta proeza, o borderline com seu quadro
multiforme não encontra um lugar, vagando aleatoriamente como alma penada no
universo psi. A era vitoriana não aceita nem a multiplicidade de desejos do
homem, nem a variedade de sintomas que compõem uma singularidade.
Darei um exemplo:
Sob os auspícios do
Chicago Psychoanalytic Institute, um grupo de 16 psicanalistas reunia-se
mensalmente para discutir seus casos borderline. Depois de um período de
discussão elaboraram o seguinte relatório: “Do ponto de vista do diagnóstico
clínico o espectro borderline inclui variados casos descritos na literatura
como desordem de caráter, neurose narcísica de caráter, desordem narcísica de
personalidade, defeito ou distorção do ego, personalidade esquizoide,
personalidade paranóide, esquizofrenia ambulatória ou pseudoneurótica, certos
caracteres depressivos, alguns pacientes com depressões periódicas ou episódios
maníaco-depressivos, alguns alcoólatras, jogadores, pacientes com distúrbios
sexuais, perversos ou promíscuos, caracteres obsessivo-compulsivos severos e
muitos pacientes com sérias doenças psicossomáticas. As características
clínicas do borderline incluíam baixa autoestima, extrema sensitividade à
crítica e rejeição, suspicácia e desconfiança e extremo pavor. Eles têm muito
medo da agressividade deles próprios e dos outros, de amar e serem
aprisionados, de responsabilidade e de mudança em geral. Suas relações interpessoais
tendem a ser tênues e temporárias, e sua percepção da realidade é muitas vezes
deficiente. Eles usam a negação e a projeção numa escala muito maior que os
neuróticos. Seu intenso anseio por aprovação e proximidade, e um medo
simultâneo de que isso conduza a sentimentos de solidão e vazio, e, no extremo,
a um total vácuo e desespero”(Grinker, p.13/14 do livro “The borderline
syndrome”).
Esta pletora de
diagnósticos, características e dinâmicas não condizem com o paradigma cientificista
repressivo vigente. Procura-se então unificar estas diversas percepções. Grinker
em 1968 realiza a façanha de encontrar a unidade na criação de um espectro que
vai do borderline próximo à psicose ao borderline próximo à neurose.
Ele admite[1] quatro
níveis de borderline: “Grupo 1- O borderline psicótico –
comportamento inapropriado e não adaptado. Deficiente senso de identidade e de
realidade. Comportamento negativo e raivoso em relação às pessoas. Depressão.
Grupo 2- O borderline nuclear – Envolvimento flutuante com outros. Expressões
abertas e atuadas de raiva. Depressão. Ausência de indicações de um self
consistente. Grupo 3 – Personalidades ‘como se’ – comportamento adaptado e
apropriado. Relações complementares. Pouca espontaneidade e afeto em resposta a
situações. Defesas: afastamento e intelectualização. Grupo 4- O borderline
neurótico – Depressão anaclítica (semelhante à da infância). Ansiedade.
Semelhança com caráter narcisista neurótico”. Pautado por
essa sistematização distingui nesse conjunto humano três níveis: borderline
pesado (patológico), borderline falso-self e borderline brando (próximo da
normalidade) com os quais passei a trabalhar.
Outros analistas lidam
de outra maneira com a miscelânea borderline. Diferentemente de Grinker que
procura ordenar a síndrome borderline eles aceitam a dispersão borderline não
como um defeito de diagnóstico, mas como uma condição ontológica. Para
exemplificar apresentarei uma citação de Grinker a respeito de Schmideberg.
Este psicanalista em 1959 “descreve o borderline como uma síndrome que mistura
normalidade, neurose, psicose e psicopatia em um padrão que permanece
relativamente estável ao longo da vida... ele é estável em sua instabilidade e
muitas vezes mantém um padrão constante que lhe é peculiar” (GRINKER, R. e
colaboradores- “The borderline syndrome”, 1968, p.12/13). Temos aqui uma
novidade valiosa: até então a inconsistência dos aspectos sintomáticos e
comportamentais do borderline impediam sua aceitação como entidade de direito
próprio, pois o paradigma cientificista e repressivo exigia definições claras e
precisas, o oposto da variabilidade não sistematizada do chamado borderline. Há
um rompimento destes psicanalistas, provavelmente inconsciente com este
paradigma dando uma potência ontológica à palavra inconsistência (nem
neurótico, nem psicótico e ao mesmo tempo neurótico e psicótico - paradoxo)
desatrelando o borderline da obrigação de consistência e sugerindo um novo
paradigma onde a precisão, a causalidade, e a repressão da palavra cedem seu
lugar à liberdade associativa e ao paradoxo, dando elasticidade aos conceitos e
legitimando o diagnóstico de borderline. Isto é oficialmente reconhecido em
1980 pela comunidade psiquiátrica no DSM-III da APA, a respeitada Associação Americana
de Psiquiatria usada como guia diagnóstico por grande número de psiquiatras de
todo o mundo ocidental. Lá o borderline ganha o rótulo de Borderline Personality Disorder e será diagnosticado como tal se
apresentar 5 das 8 características seguintes: impulsividade, relações
interpessoais intensas e instáveis, distúrbios de identidade, instabilidade
afetiva, intolerância com o estar só, atos físicos autoagressivos, sentimentos
crônicos de vazio e futilidade.
Em 2002 foi publicado
no Brasil o:
Manual
diagnóstico e estatístico de transtornos mentais
4ª Edição - 1994
DSM-IV-TR
American Psychiatric Assotiation
TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE (p.664)
American Psychiatric Assotiation
TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE (p.664)
•
Padrão
global de instabilidade no relacionamento interpessoal, auto-imagem e afetos, e
acentuada impulsividade que se manifesta em vários contextos.
•
Para
o diagnóstico devem estar presentes pelo menos 5 das 10 características abaixo
relacionadas:
•
1-Esforço
frenético para evitar abandono.
•
2-Relação
interpessoal intensa e instável caracterizado por alternância extrema entre
idealização e desvalorização.
•
3-Perturbação
de identidade: instabilidade da autoimagem ou do sentimento do self.
•
4-
Impulsividade.
•
5-
Gestos ou ameaças de suicídio ou automutilação.
•
6-
Instabilidade afetiva.
•
7-
Sentimentos crônicos de vazio.
•
8-
Raiva intensa e inapropriada ou dificuldades de controlá-la.
9- Ideação paranóide transitória reativa
ao stress ou sintomas
dissociativos graves.
Não há nenhuma
dificuldade em perceber que se trata de um arrolamento fenomênico sem nenhuma
gota de dinâmica. Esta, no entanto já vinha sendo procurada por diversos
psicanalistas que tentavam entender a dinâmica do borderline. Apresentarei
alguns desses esforços.
Stein em 1938 atribuiu
a “lesão narcísica severa” a uma “deficiente afeição maternal”, colocando a
ideia da importância da mãe na genealogia do borderline.
Knight (1954)
refere-se a um ego frágil que não consegue controlar impulsos inconscientes
primitivos. Tem, porém força suficiente para uma adaptação superficial à
realidade.
De acordo com Fried
(1956) o borderline ao se aproximar emocionalmente de outra pessoa teme a perda
da diferenciação e/ou de ser engolido pelo outro e então reage isolando-se e
tornando-se hostil. Greenson fala-nos da deficiência das funções do ego devido
a uma pobreza de relações de objeto e de identificações. Waelder em 1960
refere-se a um sentimento de vazio a partir do qual o borderline deseja se
apropriar do outro e tem medo de por ele ser engolfado: “Alguns tentam
emprestar dos outros, tornam-se satélites dos outros, imergem na multidão ou
situam-se pele com pele. Outros tentam preencher com conhecimento ou
experiência”. Outros temas da literatura sobe borderline são: escassas
identificações, distúrbios e busca de identidade, problemas na integração do
bom e do mau, difíceis relações com a realidade.
Bergeret tenta dar um
passo adiante buscando fundamentos para a sintomatologia do borderline. Ele
escolhe como um dos fundamentos a luta contra a depressão. Esta seria a
característica ubíqua do borderline. Para controlar a depressão o borderline
usaria a hipomania, a ansiedade, a relação anaclítica. Falhando estas formas de
compensação o borderline ver-se-ia lançado no poço da depressão.
Também Kernberg
procura fundamentos para a sintomatologia do borderline. Remete-nos então à
cisão. Não uma cisão kleiniana de Mãe-Boa e Mãe-Má. Para Kernberg teria havido
uma suficiente unificação do Bom e do Mau; a insuficiência estaria no recalque
dos conflitos primitivos, os quais, permanecendo perigosamente na beira da
consciência ameaçam com uma ansiedade disruptiva, o que ele tenta evitar com
uma mais superficial dissociação entre o Bom e o Mau.
Christopher Bollas
afirma que “a personalidade borderline busca inconscientemente a turbulência
emocional. Embora doloroso e perturbador, o estado de tumulto é desejado, e,
paradoxalmente, o encontrar-se num estado de angustia produz gratificação”.
Na genealogia do
borderline muitas vezes nos deparamos com uma situação infantil em que os
movimentos alternados de apego e libertação do infante não sensibilizam a mãe que
então pode vir a agir contrariamente ao desejo do bebê, criando dificuldades
psicológicas.
Uma outra situação que
poderia ser chamada de uma variante genealógica borderline é uma mãe que
necessita de uma relação fusional/simbiótica subjetiva de exclusividade,
impedindo que o filho tenha qualquer outra relação intersubjetiva que não seja
com ela, mãe.
Mas a hipótese que ao
final deste texto vou apresentar só poderá ser entendida se para além das
dinâmicas, entrarmos no terreno dos fundamentos (uma palavra que não aprecio e
que em meu livro sobre borderline substituí por “insinuâncias”). São as
seguintes as insinuâncias que uso: onipotência mitigada, compartimentação
(correspondente à cisão), dual-porosidade. Assim como a repressão/recalque está
na base da neurose, as insinuâncias arroladas influenciam o modo de estar no
mundo do borderline.
Apoiando-me na
classificação de Grinker tipifiquei o borderline em três categorias: O
borderline pesado, aquele que sofre e faz sofrer, o borderline falso self (ou
como se) e o borderline brando. Examinarei a questão do borderline brando ----
o borderline normal.
Pelo menos três
escritores psicanalistas se referem, de diferentes maneiras, ao borderline que
estou chamando de normal. São eles: Bergeret, Winnicott e Bleger.
Bergeret- citação: “existem tantos termos de passagem entre ‘normalidade’ e psicose
descompensada no seio da linhagem estrutural psicótica fixa, quanto entre
‘normalidade’ e neurose descompensada, no seio da linhagem estrutural neurótica
fixa (...) A noção de ‘normalidade’ estaria, assim, reservada a um estado de
adequação funcional feliz, unicamente no seio de uma estrutura fixa, seja esta
neurótica ou psicótica, sendo que a patologia corresponderia a uma ruptura do
equilíbrio dentro de uma mesma linhagem estrutural”. BERGERET, 1991, p. 28/9. Bergeret
considera a estrutura psicótica superior à estrutura neurótica: “Pode-se ser ‘normal’ sem haver atingido o nível edipiano, com a condição
de haver realizado uma verdadeira estrutura; contudo a estrutura do tipo
edipiano deve, da mesma forma, ser disposta em um nível elaborativo superior ao
da organização estrutural psicótica”. Ibidem, p. 43. Portanto Bergeret
acredita em uma normalidade neurótica e em uma normalidade borderline e coloca
a normalidade neurótica em um nível elaborativo superior.
Já Winnicott passa outra
impressão. Vejamos: “Os
psicanalistas experientes concordariam em que há uma gradação da normalidade
não somente no sentido da neurose, mas também da psicose, e que a relação
íntima entre depressão e normalidade já foi ressaltada. Pode ser verdade que há
um elo mais íntimo entre normalidade e psicose do que entre normalidade e
neurose; isto é, em certos aspectos. Por exemplo, o artista tem a habilidade e
a coragem de estar em contacto com os processos primitivos aos quais o
neurótico não tolera chegar, e que as pessoas sadias podem deixar passar para o
seu próprio empobrecimento”.[2]
Outra citação: “Se
tudo que foi dito antes pode ser dado como certo, podemos dizer, referindo-nos
a um bebê total relacionado a uma mãe total, que está estabelecido o estádio no
qual a posição depressiva pode ser alcançada. Se essa totalidade não pode ser
levada em conta, então nada do que tenho a dizer sobre a posição depressiva é
relevante. O bebê vai vivendo sem ela; e muitos conseguem [sublinhado
meu]. De fato, em tipos esquizóides pode não haver uma conquista significativa
da posição depressiva e, na ausência daquilo que pode ser descrito como
reparação e restituição, a recriação mágica é utilizada”.(Winnicott,
1954, p.440)
Parece-me que nas
citações de Winnicott há não só a admissão de uma normalidade borderline, mas
também uma valorização dos borderlines que teriam, frente ao neurótico, uma
maior riqueza vivencial e uma percepção mais apurada do inconsciente.
Já Bleger em seu livro
“Simbiose e ambiguidade” separa categoricamente o borderline (que ele chama de
personalidade ambígua) do neurótico sem nenhuma aparência de avaliação: “ ... a personalidade ambígua, rigorosamente
falando, não carece de ego nem de
sentido de realidade; ela possui um outro tipo de ego e outro sentido de
realidade. Disto se deduz que a onipotência (por exemplo) que caracteriza a
personalidade ambígua e a primitiva organização sincrética, não constitui uma
falta de sentido de realidade (em seu significado convencional), mas sim
configura uma relação distinta e um manejo diferente da realidade, que ainda
pode ser bem-sucedido para o sujeito. Neste sentido, a onipotência da
ambigüidade primitiva não é uma defesa frente à realidade, como um escape
frente à mesma, mas uma forma distinta de estruturá-la e manejá-la, o que não
exclui que possa servir como defesa por meio da regressão. O eu da personalidade
ambígua é sumamente cambiante e não se acha interiorizado como um eu definido
ou cristalizado”.[3]
Estes três autores
valorizam a personalidade borderline, mas todos eles colocam a neurose e o
borderline em compartimentos separados. Já eu tenho a impressão que se torna
cada vez mais difícil distinguir uma pessoa que seja exclusiva/predominantemente
neurótica de uma exclusiva/predominantemente borderline. Esta é a impressão
fenomênica que tenho com a amostra de meus analisandos. Eles ao mesmo tempo são
pessoas que sofreram recalques traumáticos como também sofreram incompreensões
ambientais quanto às suas necessidades relacionais intersubjetivas que lhes
permitiriam crescer e encontrar uma equilibração satisfatória. As repressões
traumáticas da atualidade tendem a ser mais benignas que malignas.
Historicamente falando, quando as repressões migraram de uma mais frequente
malignidade para uma mais amiudada benignidade a ditadura da repressão maligna
atenuou-se liberando um espaço psíquico que pôde ser ocupado por outros
processos psíquicos tais como repressão benigna, onipotência mitigada,
porosidade, compartimentação/cisão --- processos neuróticos e borderlines. Há
atualmente uma tendência das pessoas não se apresentarem nem como neuróticas
nem como borderlines o que pede do analista grande flexibilidade e vasto
repertório terapêutico: interpretação, construção, sugestão, explicação, apoio,
continência, experiência compartilhada, relação intersubjetiva, holding,
handling, e quaisquer outros recursos que façam sua aparição espontânea no
calor da relação terapêutica. Uma citação de André Martins poderá melhor
esclarecer esta concepção: “Seja mais,
seja menos, temos todos nossos traços neuróticos e psicóticos, ou neuróides e
psicóides. Somos todos borderlines. Entre os borderlines, as dificuldades e a
organização psíquica variam. Mas a saúde psíquica não está mais do lado da
neurose, como tampouco passou a estar do lado da psicose. Ela se encontra na
franja central, não no justo meio, que não há, mas na busca da expressão de
nossa criatividade com um mínimo de defesas, e em lidar bem com elas, nem
rigidificando-as, como na neurose, nem abrindo inteiramente mão delas, recaindo
em um descontrole emocional e da percepção da realidade, como na psicose”.
Então, a pessoa que se
apresenta para o analista não seria chamada nem de neurótico nem de borderline.
De que então? Valeria mesmo a pena nomeá-lo? Ou simplesmente dizer que “Fulano
sofre de Sofrimento” e ponto final?
Meu ponto de vista é
que seria fecundo dizer que todos nós humanos, vivemos, winnicottianamente, em
um espaço transicional e que somos todos, portanto, Homens Transicionais
(Homens no sentido de seres humanos). O espaço transicional permite justamente
uma inclusão universal. Trata-se de um espaço em que subjetivo e objetivo
convivem em variados graus. Se, para facilidade de entendimento imaginarmos o
espaço transicional como um lócus/linha, teríamos numa extremidade (e,
paradoxalmente fora dela), o subjetivamente concebido puro da psicose-modelo;
na outra extremidade (e ao mesmo tempo fora dela) teríamos a purificação objetificante,
um processo psíquico próprio da neurose modelo. E ao longo da linha (que já
podemos imaginativamente expandir para lócus/espaço) teríamos as várias
possibilidades de mistura do subjetivamente concebido com o objetivamente percebido.
Durante um tratamento esta composição de objetivo/subjetivo sofre flutuações. Creio
que podemos dizer que os lugares próprios e mais adequados do homem
contemporâneo estariam no miolo do espaço transicional, portanto afastado de
suas extremidades subjetiva e objetiva. Neste miolo o Homem Transicional viverá
tanto o subjetivamente concebido como o objetivamente percebido tratando de
conseguir uma equilibração ( prefiro usar a inventada palavra equilibração a
equilíbrio, pois esta última dá uma impressão de estabilidade que quero evitar).
Para isso será preciso que use flexivelmente os processos psíquicos de
repressão/recalque, de onipotência mitigada, de divisão e compartimentação e de
graduada e seletiva porosidade. Quando a equilibração falha o psicanalista
poderá ser chamado para, junto com o analisando, procurar as circunstâncias das
falhas retomando-se o trabalho de permanente equilibração, recorrendo para isto
a um vasto repertório terapêutico a ser usado de acordo com as peculiaridades
das vivências do analisando. O analista não procurará saber se o futuro
analisando é neurótico, borderline ou psicótico. Ele estará diante de um Homem
Transicional que será conhecido em sua singularidade, expressa em parte pelas sucessivas
posições (lócus) ocupadas no Espaço Transicional.
Nahman
Armony
Junho/2014
Publicado na
revista RABISCO vol.4, n.2, outubro de 2014
DESAPARECER COMO INDIVIDUALIDADE
Existe um generalizado medo de ser
influenciado e então perder a identidade. É um temor que alcança todas as áreas
do humano, desde a relação entre povos até a relação de casal. Não é possível
dizer que seja um sentimento facilmente reconhecível. Pelo contrário somos
inconscientes dele, embora influencie nossas ações. As conquistas territoriais,
os massacres de populações, a imposição de cultura são, em parte, uma defesa
agressiva contra a invasão do outro em mim.
Este
medo de ser influenciado e perder a identidade está profundamente incrustado no
ser humano. Existe no início da vida uma tendência a se perder no outro, a
desaparecer dentro da mãe, tendência que se mantém em surdina enquanto age vigorosamente
o desejo de individualização.
Quando
um casal discute sobre o modo de usar o tubo da pasta de dentes cada um
querendo provar que a sua maneira de manipulá-lo é a melhor, trata-se na
realidade de uma luta de personalidades. Qual a personalidade que vai
prevalecer? Quem vai devorar quem? Quem vai desaparecer e virar uma sombra para
que o outro possa ou ocupar um espaço pleno ou ficar tranqüilo quanto à ameaça
de ser invadido, colonizado, controlado? Na economia das relações entre os
seres vivos o grupo funciona com mais eficiência quando se estabelecem relações
hierárquicas. Caso contrário cada um sairia atirando para um lado e não haveria
uma sinergia de ações condição sine qua non para a sobrevivência do grupo, pois,
em condições primitivas, o grupo tenderia a desaparecer destruído por outros
grupos. Essa é uma herança que os humanos carregam consigo para todos os lados,
em todas as situações. Inclusive, é claro, nas relações amorosas. É preciso
fazer um esforço para identificar este receio atávico para poder neutralizá-lo.
Os casais deverão estar atentos às pequenas disputas. Não só elas podem estar
escondendo questões maiores da relação como também podem estar vinculadas a
esta questão primordial que é o medo de desaparecer na voragem do outro.
Sem
dúvida existe a necessidade de auto-afirmação para estabelecer limites e espaços
de cada um. Cada membro do casal tem sua forma própria de pensar e agir. Quando
tento convencer o outro que meu modo de pensar é o verdadeiro, entro no terreno
da disputa, da conquista, do desejo de ocupar com minha personalidade o máximo
de espaço e com o medo de ver a minha individualidade anulada pela
individualidade do outro. Quanto maior for a autoestima de cada um, quanto
maior for a certeza de ter um centro autônomo e criativo, menos este tipo de
disputa aparecerá. Cada membro do casal será uma força em si que não precisará
dobrar a força do outro para ser forte. Ele não é forte porque domina o outro,
mas porque tem uma potência intrínseca em si mesmo. Sem dúvida nenhuma a
dominação traz lucros para o dominador e de certa maneira também para o
dominado que conhecendo seu papel e seu lugar goza de uma tranqüilidade e
segurança fictícios. Recentemente assisti ao depoimento de uma mulher: ela
deixou o encargo das finanças para o marido. Certo dia este homem descartou-se
da esposa que ficou sem recursos enquanto que ele fartava-se do resultado de
transações malandras e enganosas. Durante mais de uma década a esposa viveu uma
situação de segurança e tranqüilidade para de repente ver o seu mundo
desmoronar.
O medo de ser influenciado e de perder
a identidade pode levar a querer dominar o outro, e a partir daí, o gosto do
poder poderá se expandir provocando situações cruelmente injustas. É importante
que o casal perceba que a tentativa de imposição de seus pequenos gostos
pessoais tem um fundamento em sentimentos primitivos da humanidade. Eles são
avatares do atávico medo de desaparecer como individualidade. Por isso mesmo
devem ser bem administrados, e para tal precisam primeiro ser reconhecidos.
Nahman Armony
POEMA DO AMOR INFINITO
Como tu és um amor definitivo
Amo-te sem pressa, sem raiva.
Amo-te como o mar ama a areia
Como o sol ama a terra:
Lenta, segura, serenamente.
Amo-te sabendo que a noite terminará
E que o dia luminoso há de surgir para nós
E que esse amor em sua lentidão,
Em sua serenidade
Explodirá em milhões de sóis
Iluminando nossa vida
Infinitamente.
Nahman Armony
MANIPULAÇÃO E MOBILIZAÇÃO
MANIPULAÇÃO E MOBILIZAÇÃO[1]
NAHMAN ARMONY
Uma controvérsia que aos poucos vai esmorecendo ainda é suficientemente
intensa para merecer um estudo. Refiro-me à questão da manipulação e controle
que o cliente procura exercer sobre o psicoterapeuta. Nos extremos desta
questão colocam-se, por um lado, aqueles que temem o controle como o supremo
pecado da psicanálise e, por outro, aqueles que “entram no jogo do cliente” na
esperança de lhe fornecer uma ajuda terapêutica. A primeira atítude dominava,
soberana, os arraiais da psicanálise até há algum tempo. Sempre, porém, desde
os primórdios da psicanálise houve vozes discordantes, a princípio isoladas,
aos poucos mais encorpadas. Marion Milner (1969, pág. 107) escreve: “Todo este
tempo ouvi muito os analistas falarem da necessidade de constante interpretação
das muitas maneiras sutis pelas quais os pacientes buscam, inconscientemente,
controlar o analista e a análise. No entanto, este procedimento, com Susan,
somente a submergia em um profundo desespero, até um estado no qual todo contato
entre nós parecia estar perdido”. Searles (1961), ao cunhar a figura da “Simbiose
terapêutica”, eleva o assim chamado envolvimento à condição de instrumento
terapêutíco. É preciso, porém, cuidado: Milner, Searles, Sechehaye (1947), Sullivan
(1962), Fromm-Reichmann (1962) e outros, estão se referindo a pacientes psicóticos
ou a núcleos psicóticos da personalidade. Diante desta situação, o analista fica
mobilizado, no sentido de desempenhar os papéis assinalados pelo clíente, tendo
os sentimentos e reações que este procura despertar. “Impõe-se-nos uma
conclusão inesperada e surpreendente, isto é, que a tela elemento-beta (chamá-la-ei
de tela-beta, daqui por diante, para abreviar) apresenta a capacidade de
promover a espécie de reação que o paciente deseja, ou, por outro lado, a
resposta do analista fortemente carregada de contratransferêncía” (Bion, 1962,
pág. 39). Quando escrevi, acima, o analista fica mobilizado, usei esta
última palavra deliberadamente, para distingui-la de um outro termo cuja simples
menção provoca, em inúmeros analistas, um arrepio de medo e horror; trata-se da
palavra manipulação, ou controle. Diante da possibilidade de estar sendo
manipulado, o analista coloca-se numa posição defensiva, dura e rígida, com
receio de estar sendo levado por caminhos malditos, de não estar fazendo a
“verdadeira psicanálise", de estar sendo dominado pelo cliente.
É justamente neste ponto que cabe distinguir mobilízação (ou comoção) de
manipulação (ou controle). Contratransferencialmente, elas se distinguem por
apresentar, a primeira, um caráter de urgência, de apelo primitivo que, se
desconsiderado, poderá levar ao ísolamento ou ao desespero quase sem
possibilidade de retomo. Já a manipulação ressoa inautêntica, superficial;
parece ter a finalidade de amarrar o terapeuta, manter intactos os dinamismos,
impedir o desenvolvimento da díade. A não-resposta vivencial à manipulação não
desperta o sentido de perigo para as bases da personalidade, não atinge os
aspectos de confiança e segurança básicos, pois o rompimento a partir da
manipulação tem a ver com a dificuldade de aceitar um processo de
reestruturação da personalidade. Já o rompimento a partir de uma defensividade
do terapeuta em relação à mobilização coloca o cliente em uma situação de
perigo, cujas menores consequências poderiam ser o isolamento e a loucura. sem
que possamos esquecer, também, da possibilidade de algo mais definitivo e
irremediável como o suicídio. Estes desdobramentos possíveis têm a ver com o
sentimento de perda de um semelhante com o qual se necessita, vitalmente, fazer
uma relação simbiótica. A resposta vivencial à mobilização aproxima os
participantes da díade, melhorando as condições do trabalho terapêutico.
Cliente e analista se sentem mais unidos em uma tarefa comum, e não
imobilizados como ocorre na resposta vivencial à manipulação. Examinemos mais
detidamente esta diferença: Na mobilização as emoções são mais intensas que na
manipulação, e vividas de uma forma mais pessoal. Na manipulação os sentimentos
não penetram diretamente dentro do terapeuta, mas ficam como que colocados em
um espaço intermediário, a partir do qual o terapeuta pode percebê-los e
senti-los. Esta distância permite-lhe ter uma visão mais isenta dos
acontecimentos do que é possível na mobílízação, onde um afastamento depende de
um esforço maior. O que também aparece na manipulação é uma ansiedade referida
às consequências de “não entrar no jogo” do cliente: O cliente irá embora?
Ficará zangado? Rejeitará o terapeuta? Controlará o terapeuta?
Nenhuma destas perguntas tem a força e a gravidade daquelas que surgem a
partir da mobilização, onde as questões referem-se à integridade psíquica e às
vezes física do analisando e do analista. As perguntas, porém, só são
formuladas em um segundo momento. No primeiro instante o que aparece é uma
vivência que só depois pode ser percebida, interrogada. compreendida. Trata-se
de uma espécie de comunicação primitiva, que impele o terapeuta a mudar o
enquadre psicanalítico. Assemelha-se ao apelo primitivo que existe no choro da
criança que mobiliza a mãe, ou no grito de alerta de um animal contagiando os
companheiros do grupo. Quando o terapeuta inibe a sua resposta vivencial, o
apelo e a mensagem caem no vazio, aumentando a tensão. Estamos agora em
melhores condições para compreender por que a mobilização aproxima a díada
terapêutica. Na resposta vivencial do terapeuta à mobilização, a tensão, que se
acumulava no relacionamento da díade, descarrega-se. Há uma sensação de alívio
– e a possibilidade de retomar o trabalho terapêutico de maneira mais fluente
e livre. Surgem novas aberturas a partir da experiência vital partilhada.
Aquilo que, em termos de vivência, não tinha forma, era “flou”, vago,
frouxo – não se lhe podendo, pois, dar um nome – passa a ter consistência, a
apresentar contornos, torna-se visível, concreto e, portanto, pode, a partir de
então, ser nomeado. Neste processo todo há um aprofundamento da transferência,
os dois membros da díade reconhecem-se cada vez mais como membros de uma
comunidade fantasmática. O laço imaginârio solidifica-se entre os dois, e
agora eles já não mais se estranham. Há um sentimento de familiaridade, de
união, que lhes permite enfrentar tempos tormentosos sem romper a relação.
Se acharmos, agora, necessário rastrear e desvendar as concepções teóricas
que se ocultam nas descrições da contratransferência, formando com estas um
amálgama do qual não se conhece princípio e fim, poderemos encontra-las em
Bion, M. Klein e Freud. “Graças à tela-beta, o paciente psicótico apresenta a
capacidade de despertar emoções no analista. Suas associações são os elementos
da tela-beta, que se destinam a estimular as interpretações ou outras respostas
que se relacionam menos com a sua necessidade de ínterpretação psicanalítica
que com a sua necessidade de produzir envolvimento emocional (...) Ele não se
empenha em manipular o analista da mesma maneira que o neurótico” (Bion, 1962,
pág. 40). Quando se fala de manipulação neurótica, a referência teórica não é
mais a tela-beta, mas sim a barreira-de-contato, isto é, os elementos e a
função alfa. Esta aproximaçlo teórica permite explicar a razão pela qual a
manipu1ação não apresenta o caráter de urgência e apelo·da mobilização. Na
manipulação está em pauta·o princípio de realidade, enquanto que na
mobi1ização é o princípio do prazer que predomina. “Só os elementos-beta se
utilizam para qualquer atividade que substitua o pensar, e eles só servem para
ser evacuados – talvez através da ação da identificação projetiva. Estes
elementos-beta se tratam por processo de defecação semelhante aos movimentos da
musculatura, das mudanças de semblante, etc., que se destinam, segundo Freud, a
livrar a personalidade dos acréscimos de estímulos e não a efetuar modifícações
no ambiente” (Bíon, 1962, pág. 29). “Nova função foi então atribuída à descarga
motora que, sob o predomínio do princípio do prazer, servira como meio de
aliviar o aparelho mental de adições de estímulos, e que realizara esta tarefa
ao enviar inervações pata o interior do corpo (conduzindo a movimentos
expressivos, mímica facial e manifestações de afeto). A descarga motora foi
agora empregada na alteração apropriada da realidade" (Freud, 1911, pág,
280). Na manipulação, o cliente, encontrando-se diante da realidade da
situação analítica. uma realidade que pretende promover modificações
estruturais na sua personalidade, tenta, consciente ou inconscientemente,
modificar esta realidade que se lhe apresenta, usando para isto a função alfa,
isto é, aquela função que permite desde o pensamento oníríco inconsciente até
o pensamento consciente mais elaborado. Já na mobilização há um movimento maciço
da personalidade, no sentido de “aliviar o aparelho mental de adições de
estímulos”. Os elementos beta são evacuados para fora do aparelho mental
através da identificação projetiva. Porém, junto com esta função primária de
descarga, há uma importantíssima função secundária de comunicação. “O
enchimento dos neurônios nucleares em psi terá como resultado uma propensão à
descarga, uma urgência que se libera por via motora. A experiência demonstra
que aqui, a primeira via a ser seguida é a que conduz à alteração interna
(expressão das emoções, grito, inervação vascular)... O organismo humano é, a
princípio, incapaz de levar a cabo esta ação específica. Ela se efetua por meio
de assistência alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é atraída para
o estado em que se encontra a criança, mediante a condução da descarga pela via
da alteração interna (por exemplo, pelo grito da criança). Essa via de descarga
adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação (...)”
(Freud, 1895, pags, 421-422). Mas que espécie de comunícação é esta?
Evidentemente não se trata de comunicação simbólica, pois esta se realiza por
intermédio de elementos alfa. Seria, antes, um tipo de comunicação primitiva,
que se utiliza dos elementos beta. Os conceitos de identíficação projetiva e
contraidentificação projetiva cobrem adequadamente esta espécie de comunicação.
O sentimento contratransferencial, como já foi dito, é de não haver um
espaço-tempo separando terapeuta de cliente. A sensação é a de que os conteúdos
de um dos membros da díade terapêutica são jogados diretamente no no interior
do outro, comovendo-o, mobilizando-o, motivando-o a atender ao apelo primitivo.
Na prática clínica, como seria de se esperar, não é possível distinguir
facilmente o sentimento de estar sendo manipulado do de estar sendo mobilizado.
As misturas e confusões são frequentes. O funcionamento da tela-beta e da
barreira-de-contato podem se alternar em curtos períodos de tempo; os elementos
alfa despojados não se distinguem de beta (Bion, 1962, pág. 41), os elementos
alfa que deveriam ser usados no “pensar” podem ser empregados na identificação
projetiva, como se fossem elementos beta (ibid., pág.102); é também possível,
estar o cliente funcionando em termos de princípio de realidade, e mesmo assim
utilizar-se de elementos beta ou de elementos alfa despojados como forma de
comunicação mobilizadora. Não obstante estas dificuldades, mantém-se a
importância da distinção entre mobilização e manipulação. A partir do
conhecimento desta diferença é possível apurar cada vez mais a sensibilidade
para detectá-la. Um exemplo: O cliente é de um psicanalista a quem dei
supervisão. Apresenta um dinamismo depressivo predominante. O sintoma depressão
surgia em pelo menos dois pontos da da cadeia dinâmica típica do dinamismo
depressivo. Ou surgia da frustração – raiva, ou a partir de uma quase absoluta
desesperança de reconquistar a proteção da Mãe Onipotente Idealizada No
primeiro caso, surtiam efeito as interpretações referentes à raiva dirigida
contra si próprio, com a fInalidade de, 1º – castigar a Mãe Idealizada
Abandonadora e 2º - fazer com que esta Mãe Idealizada tivesse um desempenho
Protetor Onipotente. É claro que aqui estamos no nível de pensamento onírico
(Bion, 1962, pag, 143) e, portanto, de elementos alfa. Trata-se, então, de uma
manipulação que deve ser interpretada. Estas mesmas interpretações não
surtiram efeito quando a depressão era fruto de uma desesperança sentida em
relação à possibilidade de reconquista da Mãe Onipotente. Estamos, aqui, na região
do apelo primitivo, da mobílização dos elementos beta, da identificação e da
contraidentificação projetiva. Nestas circunstâncias, o que funcionou foi uma
atitude de compreensão, receptividade, acolhimento maternal. As intervenções
eram do tipo “Você está se sentindo só...”, que revelavam uma empatia do
terapeuta com o analisando. Tendo o analista podido sentir a diferença entre
manipulação e mobilização, pôde responder adequadamente às duas espécies do
sintoma “depressão” que ocorreram no quadro do dinamismo depressivo.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BION. W. R.
(1962): “Os Elementos da Psicanálise”, 1ª Edição – Rio de Janeiro, Zahar
Editores, 1966.
FREUD, S.
(1895): “Projeto para uma Psicologia Cíentifica”, Edição Standard Brasileira,
Vol. I, Rio de Janeiro, Imago Ed. Ltda. – 1ª Edição, 1977.
FREUD. S.
(1911): “Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental”, Idem,
Vol XII
FROMM-REICHMANN,
F. (1962): Psicoterapia de las Psicoses, Buenos Aires, Ediciones Hormé.
MILNER, M.
(1969): The Hands of the Living God, New York, International
Universities Press.
[1] Título original: “Distanciamento X Envolvimento: Uma opção necessária?” –
GRADIVA, n. 6, agosto de 1980.
CRISES DOS EQUÍVOCOS
Toda
relação passa por períodos de tensão. Namoros que começam em mar de almirante,
após algum tempo enfrentam tempestades e balançam entre o naufrágio e a
salvação. Esses períodos de tormenta são praticamente inevitáveis, mas a
consciência de que podem ajudar no amadurecimento da relação, sem dúvida ajuda
os parceiros a enfrentá-los.
As
borrascas acontecem porque cada um tem a sua peculiar configuração psíquica,
fatalmente diferente da do parceiro. E só aos poucos, dependendo das situações
vividas pelo par, as várias facetas da personalidade de cada um se fazem
presentes; a cada vez que se confrontam diferenças inéditas, afloram emoções
intensas, atirando o par num redemoinho de acusações, contra-acusações, culpas,
desvalorizações. Um caos. Quando as tensões amainam, voltam a preponderar os
sentimentos afetuosos. Se o casal não percebe de onde surgiram os
mal-entendidos, pode se depositar no fundo do seu psiquismo um ranço negativo
que, acumulado com sobras de outras brigas acaba por tornar problemática a
convivência amorosa e confiante. Já uma compreensão das motivações do
desentendimento faz o casal mergulhar em regiões ainda não visitadas onde pode
se deparar com preconceitos e suscetibilidades até então não percebidas ou mal
percebidas. Cada um poderá, então, agradecer ao parceiro pela oportunidade de
ampliar a percepção de si mesmo e do outro e pelo conseqüente fortalecimento do
sentimento de união criativa.
Dou
um exemplo: um casal está saindo daquele período inicial em que um sempre
procura agradar o outro e combina que ambos serão sinceros quanto aos seus
próprios desejos e sentimentos. Esse casal acerta um fim de semana a dois e de
repente a mãe do marido exige, implora que ele vá vê-la. Fiel à prévia e madura
combinação a esposa diz que embora contrariada, desistirá do programa íntimo e
o acompanhará à casa da mãe. O parceiro sente sua fala como uma desconsideração
com a mãe e reage com um profundo desagrado que se expressa na sua mímica
corporal. A companheira, chocada com o que ela considera uma falta de
reconhecimento de seu esforço para tornar a relação mais madura e uma traição
ao acordo, reage atacando o companheiro, que, por sua vez, contra-ataca, daí
surgindo uma altercação. Podemos especular que a intensa reação emocional se
deva a questões psicológicas prévias tais como necessidade de reconhecimento,
sentimentos de rejeição, dependência excessiva dos pais, ou qualquer outra
coisa. Se o rapaz percebesse o esforço da companheira em ser madura e se essa
percebesse que a reação dele estava referida não a ela, mas à sua inconsciente
dependência dos pais, o episódio teria um outro desenrolar. Como, porém, pela
primeira vez núcleos inconscientes foram mobilizados pela relação seria irreal
pedir ao casal um comportamento sensato. O conflito é inevitável. Só depois de
os sentimentos se expressarem torna-se possível um exame ponderado.
Outra
situação hipotética: ela está gripada e pertence a uma família cuja ideologia
inclui a idéia de cura pelo repouso. Já a ideologia da família dele preconiza
que a pessoa se cura enfrentando a gripe e continuando suas atividades. Ele a
convida para jantar e ela recusa o convite, em função de seu estado de saúde.
Imerso na ideologia de sua família, ele se sente rejeitado e reage com raiva.
Ela, imersa na própria cultura familiar, não entende a raiva do parceiro e
conclui que ele não se preocupa com sua saúde. Arma-se o conflito,
explicitam-se conteúdos inconscientes. Passada a tempestade e estabelecendo-se
um diálogo amoroso o casal pode vir a entender a subjetividade do outro. Desfazem-se
os equívocos, aprofundando-se o conhecimento de si, do parceiro e do
casal.
Os
casais que souberem atravessar as crises dos equívocos, esclarecendo-os,
tornar-se-ão mais maduros e unidos.
Nahman Armony
Primeira
publicação na revista CARAS
POEMA PARA O MEU PAI - 3
BORDA
Além do Rio Paraíba
Além do Rio da Vida
Espíritos desgovernados
Choram lamentosos
A ausência da carne
São lamentos que atravessam o Rio da Morte
E vêm perturbar minhas noites iguais.
O ar parado é uma ilusão
Está carregado de gemidos
De seres passados e futuros.
Falta apenas um clic
Para que o mundo se incendeie
E ria o seu riso rouco, terrível, louco,
Apocalíptico.
O ar está carregado de mortos que vivem na vida morta
Dos sem pa(i)z
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