CRIATIVIDADE EM FREUD E WINNICOTT


       Tanto para Freud como para Winnicott há uma íntima relação entre criatividade – uma qualidade da pessoa criativa --- e saúde psíquica. São, porém duas concepções diferentes.
Freud usa a palavra “criativo” no sentido comum: a produção de algo novo. É o significado dicionarizado.
Para Winnicott criatividade significa “criar o que já existe” o que aparentemente contraria a ideia de novo. O objeto subjetivamente concebido é encontrado no objeto objetivamente concebido. O objeto já existe e, portanto fica impossível dizer que ele foi criado. No entanto há algo novo, pois a percepção individual do objeto o transforma. É um processo de recriação. Cada sujeito recriará o objeto à sua maneira. Esta concepção de criatividade não substitui a comum. Não só há uma convivência destas duas significações, mas também um elo. A verdadeira criação de um novo objeto só se dá no encontro do subjetivamente concebido com um objeto virtualmente ou potencialmente existente. Um precursor desse processo nós o podemos encontrar no objeto indefinido criado pela primeira fome do bebê que busca um seio que neste início é virtual. Assim como podemos dizer que o seio precisava aparecer para o bebê, também podemos dizer que a civilização em certo momento precisava da invenção da internet, que o mundo necessitava do aparecimento da música de um Beethoven, ou da “Sagração da Primavera” de Stravinsky. É a criação de um objeto já virtualmente existente na comunidade humana. Um exemplo mais forte é o da criação de lanças pontudas já virtualmente existentes antes de sua materialização. Por outro lado o objeto já concretamente existente passa por uma transformação quando percebido por diferentes subjetividades; ele é renovado através de uma recriação.
Vamos nos deter no dito “criar o que já existe”. O desenvolvimento desta sentença nos mostrará de que forma Winnicott liga a criatividade à saúde psíquica. Vamos então devagar. Comecemos pelo bebê que tem fome. Esta fome faz com que o psiquismo crie um objeto que ele achará no mundo real: o seio. Sendo o seio uma criação sua este seio lhe pertence e ele se sente indissoluvelmente ligado ao seio. O mesmo processo ocorre quando ele inventa o objeto transicional que substitui o seio e a mãe quando ausentes. O objeto transicional aparece juntamente com o espaço potencial. Ele cria e habita o espaço transicional. O espaço potencial só existe com o objeto transicional e o objeto transicional só existe com o espaço potencial. Pois bem, quando o objeto subjetivamente concebido cria o objeto objetivamente percebido este último é vivenciado como pertencente ao sujeito já que foi ele quem o criou. Digamos que após três horas de uma mamada o bebê ainda não esteja com fome não se formando no seu psiquismo o objeto subjetivo seio. Se uma mãe excessivamente apegada a esquemas força o seio na boca do bebê, este seio não será uma criação do bebê e ele sentirá que o seio não lhe pertence, não faz parte de seu mundo. Sua relação com este seio será puramente intelectual, uma relação falso self. Se da mesma maneira outros objetos são impostos ao ser humano o mundo ficará intelectualizado, perderá seu componente afetivo. Diante da invasão o verdadeiro self se recolherá e a relação com o mundo se dará através do falso self. Uma dissociação entre o falso e verdadeiro self provocará um sentimento de futilidade que leva a um intenso sofrimento que poderá chegar ao suicídio. É, portanto, a criatividade que permite que o ser humano se sinta inserido na sociedade, pois essa sociedade foi por ele criada quando do encontro do subjetivamente concebido com o objetivamente percebido. A criatividade faz parte daquilo que Winnicott chama de “força vital” que é o correspondente ao conceito de pulsão de vida de Freud. A criatividade como parte da força vital não sofre transformações. Na primeira tópica Freud considera que a capacidade de criar depende da sublimação; esta se dá por uma neutralização da força libidinal que então pode ser usada para outras finalidades que não a sexual. Portanto há um balanço entre a sexualidade e a criatividade. Se ganha criatividade à custa da sexualidade e vice-versa. Diferentemente do pensamento winnicottiano onde a criatividade é independente da sexualidade. E, na minha opinião que vem de minhas observações, as pessoas de grande força vital têm ao mesmo tempo uma forte sexualidade e uma forte criatividade. Esta força vital e portanto, a criatividade se manifestam diretamente nos atos e pensamentos. Diferentemente de Freud que considera a capacidade de criar como uma transformação da libido sexual em uma força neutra (sublimação) que então poderá ser usada para fins não sexuais.       
 Para Freud a libido sexual pode sofrer vários destinos. O único destino saudável é a sublimação. O que é a sublimação para Freud? É a transformação da libido sexual em libido neutra que então pode ser utilizada criativamente para as realizações humanas. Assim, para ser criativo é preciso perder uma parte da libido sexual. O ego é a instância encarregada de transformar parte da energia sexual em energia neutra. Portanto a criatividade para Freud não é primária, mas consequência de um processo psíquico sobre o que seria primário: a sexualidade. Aqui não resisto a fazer uma correlação do vivido pelo psicanalista e sua teoria. É voz corrente que Freud permanecia até a madrugada pensando, estudando e escrevendo. Para permanecer acordado e aguçar a inteligência usava cocaína numa época em que ainda não se conheciam os efeitos deletérios dessa substância. E corre também um boato de que a partir dos 40 anos Freud deixou de ter relações sexuais. Se tudo isto é verdade mais uma vez se comprova a tese de que a teoria tem a ver com a vida e personalidade do teorizador. Freud teria renunciado a sua sexualidade em favor de sua obra. A libido sexual transformava-se em libido neutra direcionada por Freud para suas elaborações teóricas. Frase de Freud em Leonardo da Vinci, v.11: “Constatamos a veracidade deste fato se ocorrer uma atrofia estranha durante a vida sexual da maturidade, como se uma parcela da atividade sexual houvesse sido agora substituída pela atividade do impulso dominante”. Esta frase foi escrita em 1908, portanto na vigência da dualidade sexualidade x conservação. Joel Birman escreve que na dualidade que passa a vigorar a partir de 1920, pulsão de vida x pulsão de morte a sublimação já não aparece como sendo feita com o sacrifício da sexualidade. No entanto lemos no trabalho “O Ego e o Id”, v.19 de 1924, (portanto em plena vigência da pulsão de morte), no cap.III intitulado “O Ego e o Superego” que “Em verdade, surge a questão, que merece consideração cuidadosa, de saber se este não será o caminho universal à sublimação, se toda sublimação não se efetua através da mediação do ego, que começa por transformar a libido objetal sexual em narcísica e, depois, talvez, passa a fornecer-lhe outro objetivo.” Não é mais a neutralização da libido sexual, mas a transformação do libido objetal sexual em libido narcísica. Em 1932, na Conferência 32 Freud reafirma a vinculação entre as pulsões dizendo que uma pulsão pode ser substituída por outra. Está implícita a vinculação das pulsões. O aumento da força de uma implica em um decréscimo na força da outra.
À diferença de Freud, para Winnicott a criatividade manifesta-se diretamente, sem ter de passar por transformações libidinais. Ela é pura energia de vida, ou como ele diz, é parte da força vital, algo primário, indomável, comum a todos os seres humanos.
                                                                                                              Nahman Armony

                                                                                              

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