Minha máquina relojoeira
Está trabalhando diferente
Não só aponta para o Norte
Para o Sul também
Para o Leste e para Oeste
Para qualquer de todos os lados,
Mas é sempre para o meu caminho.
Nahman Armony
AGRESSIVIDADE EM WINNICOTT
O ser humano possui uma quota de
energia que precisa ser atualizada. Essa cota de energia, dependendo da
perspectiva, pode ser chamada de força vital, de agressividade. Sua
manifestação mais conspícua é a motilidade. Dessa maneira, de certa forma,
agressividade e motilidade se confundem. É esta agressividade que tem de ser
gasta.
De que maneira isso acontece? Parte da energia/agressividade
é gasta na motilidade e nos procedimentos de crescimento, de experimentação e
na exploração do mundo. Parte dela está ligada ao amor primário – o amor
primário tem obrigatoriamente um componente agressivo. Parte encontra ou cria
um obstáculo para poder se manifestar. O obstáculo que é o mundo, sua
realidade, pode ser suficiente para o gasto da agressividade. Mas pode não ser,
e então é preciso achar ou mesmo criar um obstáculo para gastar a energia, a
agressividade. Disso tudo resulta um gasto de agressividade que pode ou não ser
completo, sendo que o excedente de energia fica preso no organismo.
Existe, pois, uma agressividade inata
necessária ao desenvolvimento do ser humano. Os rumos que esta agressividade
tomará, dependem da maternagem. Se esta for suficientemente boa, a
agressividade se tornará integrada à personalidade, podendo ser criteriosamente
usada. Se o ambiente não for suficientemente bom, a agressividade se
transformará em destrutividade.
A agressividade
não é perigosa. A repressão (recalque) da agressividade, sim.
Na época do
pré-concern a agressividade (falamos aqui
de uma das possibilidades) é dirigida à mãe-objeto (amor voraz) como um amor
implacável, já que não houve ainda a integração da mãe-objeto com a
mãe-ambiente. O amor excitado inclui um ataque imaginário ao corpo da mãe. Se
essa agressão é inibida, haverá dificuldade de amar, de se relacionar com o
outro. “Se a agressão é perdida nesse estágio de desenvolvimento, haverá também
algum grau de perda da capacidade de amor, isto é, de se relacionar com
objetos” (p. 358 – Agressão e sua relação
com o desenvolvimento emocional, in “Da pediatria à psicanálise”).
É possível que
mesmo no estágio de concern apareça
esse tipo de agressividade implacável. Isso se deverá a uma dissociação entre o
aspecto tranqüilo e o aspecto excitado da personalidade. (“Um certo grau deste
tipo de comportamento aparece como uma dissociação entre o aspecto tranqüilo e
o aspecto excitado da personalidade, de forma que crianças comumente boas e
amáveis atuarão de forma inadequada e farão coisas agressivas a pessoas que
ama, sem se sentir inteiramente responsáveis por suas ações”(idem, ibidem).
No estágio do concern, quando há uma integração das
duas mães, a criança sente-se culpada por ter danificado a pessoa amada durante
a relação excitada. Se o ambiente (a mãe) sustenta a situação – e aqui estamos
falando de um fator temporal – dá tempo à criança de realizar uma reparação que
também deve ser aceita, isto é, sustentada no tempo pelo ambiente. Quando a
reparação não pode ser aceita a transformação de agressão em realizações
sociais se desfaz e reaparece a agressão. (agressividade é diferente de
agressão: a realização só pode ser feita quando há agressividade, mas a
realização não necessita de ser agressiva. Só o será quando falhar o mecanismo
da reparação).
Então um dos
caminhos da culpa é a reparação, as realizações sociais benéficas ao grupo. Mas
antes disso, ou depois disso ou mesmo durante, a culpa poderá ser nada mais
nada menos do que agressividade voltada contra si mesmo, provocando sofrimento
psíquico e equivalentes físicos.
Em Agressão e sua relação com o desenvolvimento emocional há uma frase
categórica de Winnicott: “A atividade
social não será satisfatória, a não ser que se baseie em um sentimento de
culpa pessoal em função da agressão”.
Winnicott admite que todos os seres humanos possuem uma agressão reativa. “Podemos
dizer que seremos sempre capazes de detectar a agressão reativa no impulso
amoroso primitivo, já que, na prática, não existe algo como uma completa
satisfação do id”. (p.363, ibid). Isso
foi escrito em 1950-55. Em 1958 Winnicott assume a existência de uma atividade
social desvinculada da culpa nos artistas criativos, o que eu estendi para os borderlines próximos ao normal (homem
pós-moderno) de uma maneira geral (ver o artigo “Psicanálise e o sentimento de
culpa” 1958 p.28-29 no livro “O ambiente e os processos de maturação”).
“Podemos dizer que seremos sempre capazes de
detectar a agressão reativa no impulso amoroso primitivo, já que, na prática,
não existe algo como uma completa satisfação do id”. (p.363, ibid).
A motilidade (agressividade) inerente, que
todos nós portamos, tem de se expressar. Ela não se gasta inteiramente na
atividade do id. O restante dela, ou encontra um obstáculo para ser gasta, ou
permanece no organismo causando incômodo, procurando meios de se expressar e
eventualmente convertendo-se em masoquismo.
Na
última década de sua vida, Winnicott atribuiu uma missão da maior importância à
agressividade na sua forma de agressão destrutiva. A passagem da relação de
objeto para uso de objeto se dá por um ataque e destruição do objeto subjetivo,
que só então passa a ser visto sob a ótica de objeto objetivamente percebido. A
palavra “uso”, da linguagem coloquial, é então transformada em conceito, pois
coloquialmente falando, também na relação de objeto existe o uso (em sentido
coloquial) do analista. Também devemos tomar cuidado com a conotação pejorativa
que a palavra uso pode ter, significando mais um abuso que uma utilização. Para
Winnicott, o “uso” do analista, como conceito, significa que o analisando pode
finalmente ver o analista como um outro, e então realmente ouvir, sentir e
aproveitar o que está sendo transmitido.
A
agressividade para Winnicott é, portanto, o motor que impele a pessoa a se
relacionar, a criar, a viver, a amar, a realizar, a produzir. O perigoso, para
Winnicott, reside na repressão e no recalque da agressividade pois, estando
fora do alcance do Cs. não poderá ser administrada.
Nahman
Armony
NÍVEIS DE ENTREGA
Muitas vezes ouvi
mulheres reclamando dos homens que não se deixavam amar: sempre davam um jeito
de quebrar o clima de intimidade quando este ia além do que seus medos podiam
suportar.
Dentro de uma
mentalidade patriarcal é possível compreender tal comportamento. O homem entregar-se
a seus sentimentos era, na sociedade patriarcal, um sinal de fraqueza
inconcebível. Uma fraqueza que o impediria de vencer na vida. Valorizava-se
então a objetividade absoluta sem laivos de sensibilidade e compaixão, o que
lhe permitiria manter o controle integral da situação. Era uma questão de
princípio (“homem não chora”), mas era também uma questão pragmática, pois o
prazer obtido no encontro amoroso poderia vir acompanhado de gratidão com um
amolecimento da armadura egóica o que o deixaria mais predisposto a atender aos
desejos da companheira e mais sensível às suas necessidades. Para o machismo
isto é muito perigoso, pois tira o homem da posição de dominador necessária à
sua autoestima e à manutenção da hierarquia. A solução é entregar-se até certo
ponto, não ultrapassando a linha além da qual a gratidão e o relaxamento o fariam
sair de sua posição de poder absoluto.
Esta situação era
prevalecente no século passado. De lá para cá muita água passou debaixo da
ponte. O machismo está em processo de dissolução e embora haja uma certa
indefinição a sensibilidade masculina está em alta.
A indefinição da qual
falo refere-se a uma dubiedade quanto ao papel do homem. Ele deverá ser
sensível sim, mas não deverá perder certas características como pagar a conta
da companheira, abrir a porta do carro e outras gentilezas exclusivas do masculino
estabelecendo ainda uma diferença de gêneros.
Pelo que posso
perceber o assunto ainda é confuso e está em processo de elaboração social. E
mais confuso se torna quando nos deparamos com um fenômeno perfeitamente
compreensível. A mulher atualmente apresenta o mesmo medo de entrega. Vamos
tentar compreender.
Por séculos a mulher
foi oprimida até que as condições sociais e tecnológicas vieram a permitir uma
revolta contra sua condição de inferioridade. As primeiras feministas diante da
força esmagadora da tradição tiveram que vestir o uniforme de supermulher disputando
poder com o gênero masculino e adquirindo suas características. Na medida em
que elas foram conquistando espaços e se libertando do jugo masculino essa
força passou a ser desnecessária e realmente a luta se amainou. Mas permanece
ainda no inconsciente coletivo feminino a lembrança arcaica e inconsciente de
uma outra época terrivelmente desfavorável à mulher. E o medo inconsciente do
retorno da dominação masculina faz com que atualmente a Mulher evite uma
entrega completa, repetindo, por outros motivos, o antigo comportamento do
Homem. Por sua vez o Homem ainda parcialmente aprisionado pelo antigo padrão de
comportamento Homem/Mulher também não consegue uma entrega completa. Ambos,
Homem e Mulher se entregam até certo ponto e não vão além por medo de se sentirem
dominados (e também por medo da perda de individualidade que é um dos grandes
fantasmas de nossa época). A incompletude da relação amorosa deixa ambos
insatisfeitos facilitando o rompimento ou a procura de outros parceiros.
Espero que estas
considerações possam ajudar os casais a se encontrarem o mais próximo possível
da plenitude de suas potencialidades amorosas que hoje vão muito além da
relação sexual padrão.
Nahman
Armony
Primeira publicação na revista
CARAS.
POEMA DA FRATERNIDADE
Retirar essa pedra do coração
Libertar meu riso
Dar-lhe asas de pássaro
E voar em direção ao horizonte
Em busca do arco-iris.
Viver livre, solto, feliz
Acreditando no meu amor
Na minha mais profunda bondade
No meu desejo de entender-me com os homens.
E acreditar que eu me possa defender
Poder fechar meu coração
Sempre que necessário
Na medida justa
Na hora justa.
Poder maltratar libertando
A ave que em outros existe
E voarmos todos juntos
Asas com asas
Bicos versus bicos
Na busca
Na ascenção
No prazer do azul
Do sol
Das tempestades
Até que cada um
Se perca no infinito.
Nahman Armony
Libertar meu riso
Dar-lhe asas de pássaro
E voar em direção ao horizonte
Em busca do arco-iris.
Viver livre, solto, feliz
Acreditando no meu amor
Na minha mais profunda bondade
No meu desejo de entender-me com os homens.
E acreditar que eu me possa defender
Poder fechar meu coração
Sempre que necessário
Na medida justa
Na hora justa.
Poder maltratar libertando
A ave que em outros existe
E voarmos todos juntos
Asas com asas
Bicos versus bicos
Na busca
Na ascenção
No prazer do azul
Do sol
Das tempestades
Até que cada um
Se perca no infinito.
Nahman Armony
A ANÁLISE POSSÍVEL
REFLEXÕES SOBRE O ALCANCE E LIMITES DA TÉCNICA ANALÍTICA.
Embora eu disponha de
um tempo limitado não conseguirei ir adiante sem antes confessar que a palavra ‘técnica’,
atualmente, gera-me um certo desconforto não obstante eu a use. Para mim ela transmite a ideia de que se o
aprendiz seguir as regras expostas pelo mestre se tornará um bom profissional.
Creio que ninguém concorda com este tipo de aprendizado, pois o bom profissional
é mais um artista que um técnico. Por isso a análise pessoal e as supervisões
são indispensáveis numa formação psicanalítica. E o supervisor sempre deverá estar
atento para evitar uma cópia (uma técnica) sem alma. Talvez fosse melhor
substituir a expressão ‘técnica analítica’ por techné analítico. Esta antiga palavra grega não separa a arte da
técnica. Elas formam uma unidade: uma amalgama-se à outra.
Desde que Freud contaminou a sociedade
patriarcal com a peste da psicanálise, suas mutações não cessaram de inquietar a
sociedade provocando em muitos profissionais um tumulto psíquico que se
traduzia numa frase superegóica repetida até a exaustão: “isto não é psicanálise”.
Uma frase que, sem agravos, poderia ser substituída por um esconjurativo ‘vade retro
Satanás’. Pois é justamente esta capacidade viral de transformação que mantém a
psicanálise viva. O Freud da ciência da observação minuciosa sabia disso e fez
da psicanálise uma ciência em transformação. Mas aqui se faz necessária uma
ressalva. Em relação a alguns conceitos ele era intransigente, acreditando
proteger a psicanálise naquilo que acreditava ser constitutivo de sua
singularidade. De qualquer maneira, com ou sem a aprovação dos grandes mestres
a psicanálise não cessou de ampliar suas fronteiras e nem cessará, pois para
permanecer viva terá de participar das aceleradas mudanças de mentalidade, de
paradigma, de subjetividade.
Para expor a
trajetória da clínica (techné) psicanalítica clássica à clínica da
intersubjetividade certamente terei de começar por Freud. Ele viveu num regime
vitoriano/patriarcal em que as pessoas em posição de poder colocavam-se em um
patamar superior ao das pessoas que deles dependiam. Assim eram as relações
pai/família, professor/aluno, médico/paciente, marido/mulher, etc. e naturalmente
analista/paciente. Esta posição hierárquica fazia do analista um sujeito de um
pretenso saber; uma tentação que tomava várias formas. Também criava um
distanciamento impossível de ultrapassar.
Nas “Recomendações aos
médicos que exercem a psicanálise” Freud adverte: “O médico deve ser opaco aos
seus clientes e como um espelho não mostrar-lhes nada exceto o que lhe é
mostrado”. No meu artigo “Posturas terapêuticas na prática clínica” chamei a
esta atitude de postura-espelho (modo-espelho). E mais adiante, neste mesmo artigo: “Não posso
aconselhar insistentemente demais os meus colegas a tomarem como modelo,
durante o tratamento analítico o cirurgião que põe de lado todos os sentimentos,
até mesmo a solidariedade humana, e concentra suas forças mentais no objetivo
único de realizar a operação tão competentemente quanto possível...” A clássica
liturgia psicanalítica facilita e mantém estas recomendações. O analista, fora
do alcance do olhar do analisando não se revela através das expressões faciais,
das movimentações do corpo e das atitudes globais facilitando a manutenção de
idealização. Ao mesmo tempo cria uma distância entre ele e o analisando. O modo-espelho
seria pois acompanhado de uma configuração em que de um lado está o analista,
do outro o analisando e entre eles um espaço neutro onde o analista coloca as
suas interpretações e de onde o analisando as recolhe. Não há um contato direto,
corpo/afetivo entre ambos; o procedimento do analista é verbal/interpretativo.
Temos de um lado o sujeito do saber que interpreta e do outro o fulano do não
saber cujo inconsciente é interpretado pelo psicanalista. Este era e
eventualmente ainda é considerado o estado basilar da relação analítica. O
analista revela ao Cs. do analisando o seu Ic. (do analisando) até então não desvendado
e aguarda o encontro da representação de palavra consciente dita pelo analista e
guardada na mente do analisando, com a representação de objeto inconsciente para
que se dê o insight. Nesta configuração o instrumento mais importante (para não
dizer o único) da terapia psicanalítica é a interpretação. Creio que aqui cabe uma nota: estou
apresentando um esqueleto teórico da clínica de inspiração freudiana (que não é
a clínica de Freud). O preenchimento deste esqueleto cabia (e cabe) aos
analistas que usam esta teoria. E cada um a preencherá à sua maneira. O que não
pode faltar nesse preenchimento é o procedimento interpretativo (comportamento
interpretativo).
Para manter o procedimento
interpretativo e o modo espelho, o analista necessitava colocar barreiras evitando
uma porosidade psíquica generalizada, pois essa propiciaria uma perigosa mistura
afetiva que destruiria a possibilidade de um tratamento analítico. Com o
conceito de identificação projetiva de Melanie Klein a fobia dos analistas em
relação a serem afetados pelos analisandos começa a se desfazer, pois falar de
identificação projetiva é falar da afetação provocada pelo analisando no
analista. Aparece uma zona de porosidade ampliando-se o escopo da psicanálise.
Já é possível tratar de crianças através de brinquedos. Mas a interpretação
continua a ser o eixo central da análise. Quanto à porosidade ela é ainda
limitada. Ilustrando através de minha
alegoria: as produções dos analisandos pulam o espaço intermediário que separa
analista de analisando e forçam sua direta entrada no mundo psíquico do
analista ainda refratário a esta invasão. Estou-me referindo à identificação
projetiva e introjetiva; elas caem diretamente no mundo psíquico do analista
que então tem a tarefa de aproveitá-las para apontar uma dinâmica relacional. A
ideia não era mantê-las por um tempo no psiquismo aguardando seu amadurecimento
e sim esperar uma oportunidade para, logo que possível, livrar-se daquela carga
transferencial perturbadora e transformadora. Há uma abertura porosa para
receber o conteúdo, mas não há a preocupação de deixá-lo amadurecer. Ele será
usado para uma interpretação transferencial quando as condições estiverem propícias.
Melanie Klein não se deu conta de que a identificação projetiva era um cavalo
de Troia, pois só pode existir identificação projetiva e introjetiva quando o
analista está apto e disposto a receber dentro de sua psique afetiva as
fantasias dos analisandos, criando-se um potencial de perturbação relacional. Uma
citação preciosa de H.Segal traz um esclarecimento da concepção kleiniana: “A
técnica kleiniana baseia-se rígida e psicanaliticamente nos conceitos psicanalíticos
freudianos ---- O papel do analista limita-se à interpretação do material do
paciente e toda crítica, conselho, encorajamento, tranquilização e coisas
semelhantes são rigorosamente evitadas..Poder-se-ia dizer, em consequência
disso que não há lugar para o termo ‘técnica’ kleiniana?” Hanna Segal responde
que diante de um material até então desconhecido da psicanálise surgiram “novas
interpretações, raramente ou nunca utilizadas na técnica clássica”. A novidade que
Klein e sua escola não perceberam e que veio a dar uma reviravolta na psicanálise
foi o conceito de ‘tempo de maturação’, implícito na sua teoria e que estou explicitando
através de um batismo. Este foi o primeiro e imperceptível passo na direção da vivencia
compartilhada (covivência) e, portanto, da intersubjetividade.
Bion, a partir dos
conceitos de identificação projetiva acrescenta as palavras ‘continente’ e 'conteúdo'. Ao usá-las Bion amplia a área de porosidade. É este continente que
receberá a identificação projetiva. Mas este autor parece temer reificar os
conceitos e não diz claramente que o continente é aquele locus do analista que acolhe as identificações projetivas do
analisando. Por esta mesma razão ele não fala de tempo de maturação embora seu
exemplo princeps (bebê que projeta os elementos beta na mãe que após uma
elaboração os devolve como elementos alfa) deixe perceber que lá está o
conceito.
Bleger se aproxima
ainda mais do conceito de tempo de maturação e de modo continente: “Temos de
constituir-nos em depositários fiéis da parte psicótica e atuar como pais
tolerantes; damos tempo para crescer e não sobrecarregamos com problemas
demasiado prematuros para o ego do paciente.” Essa citação refere-se mais
particularmente ao que Bleger chama de personalidade ambígua, que nada mais é
que o nosso borderline.
A
obra de Winnicott tem dado, e cada vez mais, uma fundamental contribuição à
difusão do modo covivencial de tratamento, acrescentando ao eixo clínico
centrado na interpretação, na transferência e na contratransferência, um outro
eixo clínico: a covivência, o modo continente e o tempo de maturação. Tendo vivido,
vivenciado e estudado profundamente a relação mãe-filho ele colocava-se poroso na
relação, especialmente nas situações em que o analisando solicitava
transferencialmente a presença da Personificação da Mãe. Evidentemente esta
posição transferencial mantém uma hierarquização ontológica (obs.: que nem
sempre está presente na atividade terapêutica de Winnicott.) E mesmo a
hierarquização era suavizada por sua sensibilidade à vida emocional dos seus
analisandos. Para que se entenda melhor meu pensamento recorrerei a um símile
com uma mãe real: seria uma mãe que conseguiria ser amiga
sem perder a autoridade hierárquica criativa/educativa.
Como todo símile este é também imperfeito, mas útil para efeito de transmissão
de uma ideia.
Uma
das raízes da intersubjetividade é a psicologia do self de Kohut, especialmente
com seus conceitos de introspecção empática, self/objeto, transferências
selfobjetais; acrescente-se a ideia de narcisismo como qualidade humana com
tendência a amadurecer independentemente da sexualidade e “a ideia de que os
únicos dados adequados para a compreensão psicanalítica são aqueles acessíveis
por introspecção e empatia”(Peter Lessen).
SEARLES
E A SIMBIOSE TERAPÊUTICA
Searles
ganhou prestígio como analista de psicóticos e borderlines. Dentre suas muitas
contribuições interessa-nos o seu conceito de simbiose terapêutica onde se
juntam o procedimento covivencial e o modo simbiótico. O modo espelho é a
expressão máxima de afastamento afetivo. O modo simbiótico-fusional é o estado máximo
de intimidade e de mutualidade afetiva. O analista está, da mesma maneira que o
analisando, envolvido na simbiose; exagerando pode-se dizer que já não se sabe
quem está em tratamento. Embora o tratamento seja de mão dupla, a maior
experiência afetivo-cognitiva do analista no que diz respeito aos fenômenos
intersubjetivos fará dele o principal terapeuta e o responsável pela análise.
De qualquer forma os transtornos já não são privilégio do analisando; o
analista deles participa. Esta inclusão do analista nas dificuldades do par
amplia consideravelmente o alcance da psicanálise tanto em extensão quanto em
profundidade.
Estas ideias se
coadunam com uma corrente que vem se desenvolvendo nos Estados Unidos com o
nome genérico de intersubjetividade. Há muitos pensadores nesta área que concordam
no fundamental, mas discordam nos detalhes. A ideia fundamental é a de um
encontro de duas pessoas com intenções terapêuticas, cada uma delas trazendo as
suas complexidades subjetivas que ao entrarem em relação criam um campo
intersubjetivo comum onde não há lugar para hierarquias. A pergunta que se
coloca é: até que ponto as duas subjetividades poderão se ajudar? Os obstáculos
não podem ser ignorados. Uma ideia que aflora quase instantaneamente é de que,
como todos os seres humanos, os analistas têm um inconsciente dinâmico que se
vela e desvela; pode ser que na terapia a relação funcione como um modificador
de dinâmicas importunas beneficiando os dois participantes; mas pode ser que
não; a análise então encontra um limite. Um outro encontro intersubjetivo, com
outro analista, de mesma orientação ou não, poderá abrir novas sendas. O limite
será, portanto um limite relativo (contingente) que poderá ser considerado
intransponível até um eventual momento feliz, que poderá acontecer ou não, em
que será ultrapassado. Um recurso que poderá transformar a impossibilidade em
possibilidade de ajuda psicanalítica é o uso de medicamentos. Uma adequada
diminuição de ansiedade ou de depressão poderá ser o suficiente para o
prosseguimento do tratamento psicoterápico psicanalítico. (Aqui fica claro que
considero a psicanálise uma forma de psicoterapia. Esta formulação é uma derivação
de uma fala de Winnicott: “Faço psicanálise porque é do que o paciente
necessita. Se o paciente não necessita análise faço alguma outra coisa”.)
Até aqui tenho falado
de limites contingentes. E os limites inerentes às próprias teorias? Eu
acredito que se a psicanálise continuar a participar das transformações da
subjetividade/mentalidade/cultura certamente ela sobreviverá, certamente com
novas diferenças teóricas aparecendo. Chamar a essas novas teorias de
psicanálise ou não, é uma questão entre esquecer nossas raízes ou sentirmo-nos
como galhos de uma árvore genealógica tão fértil que deu e continuará a dar
muitos e muitos frutos.
Nahman
Armony
EM DEFESA DE UM ROMANTISMO CONSCIENTE
A ânsia de juntar dois corpos para
transformá-lo em um só existe desde tempos imemoriais e é algo que se mantém
presente na alma humana. Vemos esse desejo aparecer em todas as idades. Mas,
diferentemente do passado, é um desejo sujeito a críticas. Antigamente acreditava-se nessa possibilidade
o que ficava expresso no discurso religioso do casamento cristão, no “e viveram
felizes para sempre” dos contos de fadas que deram vários filhotes em livros e
filmes holywoodianos. Nas décadas e séculos que nos precederam éramos mais
ingênuos e acreditávamos que nosso desejo de fusão com o parceiro ideal se
realizaria. Perdemos a ingenuidade, mas o desejo não desapareceu. Ele continua
firme e forte a nos guiar, direcionar, atormentar. A diferença é que já não
acreditamos na possibilidade de sua realização. Mas, especialmente quando se é
jovem e ainda não se passou por muitas decepções, desacreditamos acreditando.
Tal milagre pode não ter acontecido com ninguém de nossas relações, com ninguém
que conhecemos, mas somos diferentes e irá acontecer conosco. E aqui podemos
evocar uma linda frase do poeta Vinicius de Moraes, frase que para os casais
predispostos a acreditar em um relacionamento especial, único e eterno pode, na
sua ambigüidade ser entendido como o ideal de amor romântico. Diz ele “que o
amor seja infinito enquanto dure”. O infinito pode ter o sentido de eterno,
pois o infinito justamente por não ter fim evoca o para sempre. Mas também pode
significar um mergulho na alma infinita de cada um, sem que obrigatoriamente
este infinito torne a relação eterna. Existe uma tendência de recitar o verso
citado como “que seja eterno enquanto dure”. Isto fala da ambivalência das
pessoas em relação ao desejo primordial
de um amor eterno, especial, insubstituível. No fundo da alma ainda mais que a
esperança, existe a certeza de que encontramos ou encontraremos nossa alma
gêmea que nos acompanhará para o resto da vida. Num primeiro momento poderemos
achar absurda a permanência mesmo que latente desta crença. Mas se pensarmos
melhor verificaremos que quando se tem esta utopia o casal apresenta um maior
empenho em superar as dificuldades que surgem no caminho da realização amorosa.
Quando o casal já começa a idéia de impermanência muito mais facilmente a
relação se desfaz. O que também não é de se desprezar. Freqüentemente
encontramos situações de três casamentos sucessivos em que finalmente o
terceiro tornou-se estável: isto tanto pode ser explicado pelo desaparecimento do
ímpeto juvenil, por um certo cansaço, como também por um amadurecimento que
permite ao mesmo tempo manter no inconsciente a idéia de união eterna enquanto o consciente aprende a
lidar com as diferenças de personalidade e com as crise. Também podemos pensar
que a ilusão de completude se desfez nos casamentos anteriores mas permaneceu o
desejo de ter uma companhia amorosa o que faz com que o casal suporte melhor as
vicissitudes de uma relação. Isso sem deixar de levar em consideração de que a
experiência pode levar a melhores escolhas. Portanto, amigos, não desistamos.
Vamos manter a ilusão de completude sim, mesmo sabendo que ela é falsa, pois
ela nos ajudará a manter uma relação estável, o que, segundo as pesquisas de
saúde, aumenta a longevidade e a qualidade de vida.
Nahman Armony
Primeira publicação na revista CARAS
EPISTEMOLOGIA E CLÍNICA
Pensamento cartesiano
ou pensamento paradoxal? (a partir do relato de um colega).
O pensamento cartesiano é mais
simples, uma linha reta ligando dois pontos sobre uma superfície plana. O
paradoxal é mais complexo, pois cobre o emaranhado de acontecimentos exigindo
um trabalho psíquico maior: temos de entrar em labirintos, fazer curvas
fechadas, passar por cruzamentos, atravessar encruzilhadas, confundir estradas
e ruas, etc. Há ocasiões em que o cartesianismo é mais conveniente embora menos amplo; em outras ocasiões o pensamento paradoxal se presta melhor para entender os acontecimentos e lidar com eles. Darei exemplos: uma pessoa tem uma infecção,
faz um exame laboratorial e descobre a bactéria responsável e o antibiótico
adequado. O médico prescreve a medicação apropriada sem ver o paciente,
avisando à família para que busque a receita. Essa pessoa toma a medicação e a
infecção desaparece. Cartesianamente pode-se dizer que tal pessoa estava
doente, tomou a medicação apropriada e ficou saudável. Causa e efeito. Digamos
que o paciente foi ao consultório onde pegou a receita sem ser examinado. É
quase como ser avisado da medicação por telefone. Continua em vigor o
pensamento dicotômico: saúde-doença. Pensemos na alternativa: o paciente toma o
remédio adequado e não melhora de seu quadro infeccioso necessitando de mais
cuidados. Por que teria falhado a epistemologia cartesiana? Porque no caso
cabia uma epistemologia paradoxal que fosse além da dicotomia doença e saúde.
Melhor raciocinar paradoxalmente dizendo que o paciente é ao mesmo tempo
saudável e não saudável. Poderíamos ir pelo seguinte caminho: desde que
nascemos somos atacados por inumeráveis seres vivos: bactérias, parasitas,
germes de toda natureza, ofensas, sapos, etc. Nós nos defendemos mobilizando
nossas defesas. Há uma luta entre o germe e as defesas imunológicas, entre a
raiva e as defesas psíquicas. Mas estes sintomas só existem porque o
corpopsiquemente tem recursos para se
defender. Podemos dizer que tal pessoa é doente ou que, ao contrário, está
saudável já que esta podendo combater as invasões? (não esqueçamos que durante
toda a sua existência o ser humano terá de diuturnamente lutar para permanecer suficientemente
bem, isto é, vivo.) Ele está doente ou sadio? As duas coisas é a resposta óbvia.
Temos que raciocinar dentro de uma epistemologia paradoxal para dar conta da
complexidade do ser humano. O antibiótico é sim necessário. Mas há pessoas que vitalmente
necessitam algo que vá além da medicação. Precisam de acolhimento, pois se este
não existir o sistema imunológico falhará, reverberando nx mente/cérebro sob a
forma de medo de não se recuperar, exacerbando fantasias de não-cuidado, herança
de uma infância mal concernida, etc., etc. Para alguns pacientes bastará dar o
antibiótico permanecendo na lógica cartesiana. Outros precisarão que o cuidador
cuide do paciente dentro da lógica paradoxal, pois terá de levar em
consideração a complexidade humana. Estes o obrigarão a pensar dentro da lógica
paradoxal que acompanha a complexidade.
Nahman Armony
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