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INSTINTO MATERNAL

PARADOXO E CONTRADIÇÃO


A velha e resistente questão sobre a incapacidade dos animais ditos irracionais serem incapazes de simbolizar, mantendo-se aprisionados aos instintos, em contraste com os seres humanos dotados de pulsões, de um cérebro simbolizador, reaparece quando releio o livro de Elizabeth Badinter "Um Amor Conquistado; o Mito do Amor Materno."
O tema é de difícil abordagem, pois os termos e definições usados não têm uma fronteira definida. Veja-se, por exemplo, a atividade dos castores que nas suas obras de engenharia se deparam com diferentes problemas. Existe um impulso de construção que podemos chamar de instinto, sem porém perder de vista que estamos lidando com uma ideia abstrata que irá se desdobrar em diferentes desenhos concretos. Seria conveniente usar a palavra instinto para esse impulso? Ou ficaríamos com a ideia de que a palavra instinto refere-se a uma repetição a uma repetição tal e qual? Badinter terá razão ao dizer que a contingência e o particular são exclusivos do ser humano? Diz ela: "Parece-me que devemos deixar a universalidade e necessidade aos animais e admitir que a contingência e o particular são o apanágio do homem". Então os animais de quatro patas, mamíferos e outros, são incapazes de se adaptar aos ambientes e aos comportamentos? Acho eu que a palavra 'instinto' porta tanto a necessidade e universalidade quanto a contigência e o particular. O castor e todos os castores (universalidade) têm necessidade de construir represas. Mas, ao construí-la vai se deparar com situações particulares que só poderão ser enfrentadas e resolvidas com dispares ações (contingentes e particulares).                                                                                           Vamos comparar o comportamento do castor com o comportamento da mulher. Em semelhança ao castor sua universalidade está no desejo de ser mãe. Mas a maneira de ter o filho diverge de pessoa para pessoa. Poderíamos então dizer que o termo instinto tem dois tempos? O tempo da universalidade e o tempo das particularidades? De qualquer forma, a palavra instinto não pertence somente aos animais irracionais. Ela se aproxima de ambos: homem e bicho. Menos uma diferença marcante (vide o conceito de inteligência emocional). Mais uma aproximação do Homem ao Animal. Menos a pulsão como uma exclusividade absoluta do Homem. Se sairmos da nomenclatura psicanalítica poderemos usar instinto/pulsão tanto para um quanto para outro sem ter de procurar um termo diferenciador. 
Transportarei essa fala para a questão que orienta esta comunicação breve e sem compromisso (existe ou não um instinto maternal?). Podemos dizer que tanto o homem racional quanto o animal sofrem de um mesmo male. Impossível distinguir o genético do ambiental. E aqui não estou falando de uma observação, mas sim de algo que se aproxima de um método epistemológico de Einstein. Evidentemente este método epistemológico convive com o método das evidências. Mas vamos ao meu tecido. Desde o início o ser vivo interage com o ambiente. Este ser vivo já vem com direcionamentos que sofrerão alterações no contato com o ambiente. Na verdade o ambiente já está dentro do corpo vivo pois ele já viveu incorporações e desincorporações. A mitocôndria que poderia ser hipoteticamente inimigo para o desenvolvimento é, pelo contrário, necessário à vida. 
A fórmula então seria: genética + ambiente. E isto desde o início da vida planetária. 
Eu prefiro ficar com a seguinte fórmula: instinto materno em interação com acontecimentos e comportamento. 

AFINAL O QUE É O HOMEM TRANSICIONAL?
         Posso tomar “O homem transicional” como exemplo de um gesto espontâneo? Já há tempos venho falando dele. Mas ele me surgiu na mente de forma inesperada num momento de lazer em que toda a minha libido dirigia-se para a areia e a água do mar. Não fui eu consciente que inventei essa expressão. É verdade que eu vinha pensando nas características do jovem contemporâneo achando que a palavra borderline já não dava conta de uma nova personalidade jovem e nem dava conta da necessidade de o psicanalista encontrar novas maneiras de relacionamento com esses jovens. E eis que me surge, vindo diretamente de um trabalho psicossomático do qual não tive consciência a expressão Homem Transicional. Embora eu possa chamar esse trabalho de MEU e embora se me apresentasse até certo ponto claro e compreensível, trazia zonas nebulosas que precisariam ser mais sondadas.
Quando espontaneamente falei de trabalho inconsciente apareceu espontaneamente a palavra MEU; já a palavra EU aparece em contexto de consciência.                


                                                                       Nahman Armony

TRANSFORMAÇÕES DO Q

PROCESSO PRIMÁRIO – A Q (a quantidade, a energia, a catexia, a libido, etc.) flui livre pelo sistema nervoso. De início sem nenhum objetivo a não ser descarregar a energia. O descarregar da energia Freud chamou de função primaria do sistema nervoso.

Mas certas redes nervosas provocam dor e outras provocam prazer. O cérebro/psique tem de logo aprender o ‘principio do prazer’ para evitar o desaparecimento do organismo. A corrente cria trilhas de prazer onde o objeto bom será achado e trilhas de desprazer onde o objeto mau será evitado. Esta é a função secundária do processo primário. Com a evolução, ego tornando-se cada vez mais forte e estruturado evolui para um sistema de simbolização de 2º grau. Exp.: a hóstia católica e a hóstia protestante.

Processo primário/função primária -  caos.

Processo primário/função secundaria – principio do prazer/desprazer. Os fluxos nervosos buscam objetos que darão prazer e evita os que provocam desprazer.

Processo secundário – ego bem estruturado. Função simbólica de 2º grau. Ex. da hóstia.

 

 

Ego- um grupo de neurônios super catexizados entre si tendo por isso mesmo uma grande força atrativa sobre os Qs, sobre os fluxos. Dificilmente esses fluxos escapam da armadilha egóica.

Acho—existe um superego profundamente ligado ao ego que diz como a pessoa deve se comportar. Mais adequado seria chamá-lo de ego ideal e, dependendo das circunstâncias de ideal do ego. Ele funciona com espontaneidade, sem necessidade de uma auto-observação. Mas existe um segundo superego que fiscaliza o superego embutido no ego para liberá-lo para a ação. Esse fato torna mais vagarosa a ação. No primeiro superego não há fiscalização, pois as correntes energéticas procuram repetir as vias de prazer. O segundo superego existe para avaliar se existe perigo na ação espontânea.     

WINNICOTT E A CRIATIVIDADE PRIMÁRIA


Winnicott nos fala de uma criatividade primária. Seria uma criatividade que surgiria a partir da subjetividade pura, ainda sem objeto. Um bebê com fome tem uma sensação física. Esta sensação física vem acompanhada da uma atávica intuição de que existe um objeto que poderá aliviar esta fome. É uma sensação vaga, nebulosa que vai se delineando cada vez mais claramente na medida em que as experiências de mamada se repetem. Usando uma linguagem fotográfica, a resolução é cada vez mais nítida. O objeto que se vai delineando, a princípio não tem existência própria. É criação e parte do bebê, pois o bebê ainda não tem noção  de eu e outro. Mas ao mesmo tempo em que o objeto seio/mãe/circunstâncias vai se tornando mais nítido o bebê começa a distinguir o eu do não-eu até o ponto de criar para si o objeto e o espaço transicional. O mesmo objeto que era apenas um paninho encostado no rosto, deixa de ser apenas um paninho e vai se transformando em  um objeto transicional externo e interno ao mesmo tempo. Pois bem, enquanto o objeto é apenas subjetivo, não havendo pois uma distinção entre eu e não-eu, a criatividade é chamada de primária. Portanto a  criatividade primária tem a ver, conceitualmente com subjetividade pura. Como estava dizendo acima a dor da fome sofre uma “elaboração imaginativa de função” e aparece como aquela sensação vaga e indefinida de existir um objeto que corresponde à fome. Quando surge o seio o bebê dirá “Ah aqui está o objeto que eu elaborei imaginativamente a partir da função digestiva”. A sensação vaga é elaboração imaginativa de função que recebe um reforço com o aparecimento do seio, mas que do ponto  de vista do bebê continua a ser uma elaboração imaginativa da função digestiva. Só quando ele distingue o eu do não-eu, o aperfeiçoamento da figura do seio deixa de ser apenas elaboração  imaginativa de função para ser também uma tomada de conhecimento do mundo exterior. Como o seio continua investido de fantasias o objeto seio continua sendo subjetivamente concebido ao mesmo tempo que objetivamente percebido. Há uma junção aqui do subjetivo com o objetivo.

O outro tipo de criatividade tem origem no espaço potencial. E aqui criatividade tem a ver com contacto vivo com o mundo externo. Significa dar um sentido à vida. Significa sentir que o mundo lhe pertence e que ele pertence ao mundo. Esta sensação tem seu precursor na dependência absoluta onde o bebê tem a experiência de onipotência, sendo onipotentemente o mundo. Sua segunda etapa nós a encontramos na experiência de transicionalidade, de espaço, objeto e fenômenos transicionais, onde ele já reconhece a realidade externa (objeto objetivamente percebido), mas impregna este objeto de subjetividade (ursinho, etc.) Enquanto protegido pelos pais e enquanto intelectualmente imaturo, predomina o subjetivamente concebido. Aos poucos a objetividade torna-se uma necessidade e encontram-se várias formas de mistura e convivência do subjetivamente concebido e objetivamente percebido. Formas estas às quais eu já me referi acima.

A criatividade depende de uma mãe suficientemente boa capaz de um holding adequado, isto é, um holding que permita ao bebê aceder ao espaço transicional. Eu já disse que o holding é uma nova maneira de viver e ver a vida, uma nova perspectiva, diferente do autoritarismo, dever, imposição, falso self, etc. Juntamente com o holding temos a espontaneidade, o espaço transicional, o verdadeiro self.

Jan Abram no seu livro “A Linguagem de Winnicott” adverte que o “ato criativo (como o pintar, o dançar, etc.) não é um sinônimo de viver criativamente. O viver criativamente tem mais a ver com a força vital que lança mão dos instintos para tornar-se um objeto ontologicamente presente no mundo. Esses instintos evocados pela força vital dão existência ao viver criativo. O viver criativo tem a ver com um sentimento de pertencimento ao mundo; tem também a ver com a capacidade de encontrar a poesia e a arte na coisas mais simples existentes no Universo. Isso fica muito claro no filme Paterson onde um simples objeto inanimado é olhado cuidadosamente, intensamente, ganhando uma  aura                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 divinal
que é pura poesia. ‘A criatividade primária apresenta-se como um impulso inato que se dirige à saúde’ (frase de Jan Abram referida à teorização winnicottiana). Ao impregnar um objeto ou um fenômeno de criatividade primária estaremos na vigência do que Winnicott chama simplesmente de ‘criatividade’.
                                                  Nahman Armony

  

IDENTIFICAÇÃO DUAL-POROSA


 

SEU BOM E MAU USO

         

        Tentarei colocar em circulação no campo das ideias e da subjetividade a noção de identificação dual-porosa.

        Tal identificação representa o extremo mais fluido das identificações em cuja outra ponta se encontram as identificações estáveis.

        A identificação dual-porosa passa-se entre dois seres que se relacionam de modo dual, isto é, sem interferência de um terceiro. Esses dois seres apresentam uma porosidade que deixa passar fantasias e afetos, possibilitando trocas subjetivas. Portanto a identificação dual porosa é um devir e como tal embarca nas ondulações da realidade, emaranhando-se nelas.

        Nesses tempos de rápidas transformações, a identificação dual-porosa pretende-se como o modo mais pertinente de relação/conhecimento/comunicação.

        O portador privilegiado da identificação dual-porosa é o borderline.

        O borderline, uma categoria clínica, é alçada ao status de modo de existência. Distingue-se o borderline ecológico do não-ecológico. O primeiro usa a sua capacidade de identificação dual-porosa a fim de encontrar o melhor equilíbrio para as unidades que constituem o todo. O segundo usa a sua capacidade de identificação dual-porosa em um sentido individualista, sem considerar o equilíbrio da totalidade.

        Falamos aqui, pois, do ser humano emergente do final do século XX. Trata-se de uma concepção de pessoa que difere daquela do século XIX e da primeira metade do século XX. O ideal de ser/fazer passou do homem “certinho” para o sujeito criativo. O homem certinho, separado de si mesmo, dos outros homens e da natureza por um terceiro termo, cujo melhor representante é a palavra intelectualizada, está cedendo lugar para um sujeito que se comunica diretamente consigo mesmo, com os outros e com a natureza, através de um processo de identificação contínua que permite que ele embarque nas incessantes ondulações transformatórias do mundo. Este sujeito poderá usar seu talento a serviço de si próprio, quando então sua sensibilidade será usada em seu exclusivo proveito, prejudicando os outros homens e a natureza; ou usará sua capacidade de identificação para incluir os outros homens, o mundo e a natureza no âmbito do seu eu, adquirindo uma consciência ecológica, deixando que surja uma esperança na evolução da humanidade.

 

                                               Nahman Armony

 

 

O DISCURSO E SUA LIMITAÇÃO

 O discurso é necessariamente imperfeito. Faz parte de sua ontologia. Tentativa de explicação: a vida flui e a cada momento as coisas mudam. E ainda não encontramos um meio de apresentar ideias tipo conceituais sem promover uma certa imobilização da vida. Se queremos transmitir alguma coisa temos de ser claros. E só podemos ser claros se ignoramos a permanente mudança da vida. Se não formos pelo menos parcialmente cartesianos, fazendo divisões e subdivisões, organizando, classificando, etc. será difícil ou impossível ao aprendiz estabelecer uma insinuância sólida. Sempre haverá ou exagero, ou insuficiência, ou alguma outra imperfeição. Não adianta tentar com as palavras acompanhar a permanente mudança, as variações sutis, as imperfeições da vida. É uma corrida inútil. Temos que nos conformar com a incapacidade que tem o discurso de abranger a complexidade de um pedaço de vida e nos conformar com a necessidade de transmitir. Não se pode exigir do discurso aquilo que ele não pode dar. Um discurso será relativizado por outro discurso. E o discursador deverá tomar cuidado de não querer acompanhar a vida com seu discurso, pois isso somente o deixará inseguro e não beneficiará ninguém.

                                       Nahman Armony
Minha teoria é uma nuvem de internet; dela retiro os elementos necessários à compreensão dos acontecimentos.

O HOMEM TRANSICIONAL


NOTA INTRODUTÓRIA: fui alertado por minha querida Odette de que havia uma falta de clareza na ‘comunicação breve’ que intitulei de “Neurose, borderline, homem transicional – o borderline criativo : sujeito de um mundo em transformação.” Ao reler o trabalho percebi uma incoerência entre o título do artigo e o conteúdo da comunicação breve, além da falta de clareza em alguns trechos denunciada por Odette. Um título mais adequado seria “O Homem Transicional: sujeito de um mundo em transformação” que passa a ser título desse trabalho. Há outras modificações no texto que torna mais claro o meu pensamento.  

 

 

 

 

 

A PESSOA TRANSICIONAL: SUJEITO DE UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO.

        Até há pouco tempo eu considerava o borderline o protótipo de homem contemporâneo. E ainda o considero. Mas o mundo está em um processo acelerado de transformações. Desconfio que uma outra subjetividade esteja surgindo. No consultório recebo neuróticos (poucos), borderlines (a maioria) e aqueles que tenho chamado de ‘pessoas transicionais’ (raros). Dando uma rápida situada direi que 1- os neuróticos cujo principal processo psíquico é a repressão/recalque, especialmente na modalidade maligna (Winnicott -"Explorações psicanalíticas" p.105), 2- os borderlines cujas principais características são a porosidade, a divisão, a onipotência mitigada, a insuficiência de recalques benignos e malignos, 3- os transicionais com as mesmas características dos borderlines com a importante diferença de uma abundante e intensa participação do recalque benigno. É-me  útil e confortável separar as questões de superego da complexidade humana. Começando pelo neurótico: nele predomina a repressão/recalque maligno. No borderline a ação repressora do superego tem pouco espaço para se manifestar e, finalmente, no transicional predomina o recalque benigno. Temos assim: 1- regras rígidas para o neurótico. 2- permissividade exagerada para os borderlines. 3- gradiente de permissividade e regras flexíveis para o transicional. Os novos modos de criação/educação protegem a criança em desenvolvimento da insensibilidade desatenta ou ingênua dos adultos e de seus ataques violentos. Com isso (e por outras razões também) temos um superego mais companheiro que assustador. O lugar até então ocupado pelos excessos quantitativos e qualitativos da repressão abrem espaço para que surjam os Seres Transicionais cujas características seriam: porosidade, divisão, onipotência mitigada, recalque benigno. A pessoa transicional não é perfeita. É apenas suficientemente boa.

                                      Nahman Armony

 

PENSAMENTO 2

Aprender e desaprender são duas faces da mesma moeda assim como o são acertar e errar.
                                              Nahman Armony 

INTERNALIZAÇÃO, INTERNALIZAÇÃO MACIÇA E ASSIMILAÇÃO


Podemos distinguir dois tipos de internalização: um primeiro que chamarei de assimilação e que depende de uma relação íntima e continuada com outra pessoa, grupo e/ou cultura. A assimilação se faz lenta silenciosa e sub-repticiamente e, por isso mesmo, não chama a atenção no convívio diário. A aquisição assimilatória não é um enxerto; processos de seleção, identificação e mutualidade agem, desde o inicio, evitando o estranhamento e a rejeição indiscriminada, fazendo da assimilação um estado durável e integrado ao corpo/mente/psiquismo. Em contraste, no segundo tipo há uma invasão maciça do corpo/psique/mente que tem a ver com idealização do Outro. Este segundo tipo é fácil de exemplificar. Uma criança, um púbere ou um adolescente vai a uma sessão de cinema cabisbaixo e assiste a um filme em que há um herói com o qual se identifica. Ele sai do cinema sentindo-se forte, poderoso, desaparecendo o abatimento. Na psicanálise existe a possibilidade de um analista muito ligado à teoria, insistir em uma interpretação que é dada de várias maneiras, forçando --- pela repetição feita dentro de uma estrutura que desqualifica o pensamento do analisando ---, a entrada da ideologia do analista para dentro do analisando. Diferentemente do super-homem do filme que rapidamente tem a fantasia contestada pela realidade, o analisando, defronta-se com a obstinação manipulatória de um analista apegado à teoria e pode submeter-se a ele. A percepção desses acontecimentos não apresenta problemas. Na assimilação é bem mais difícil perceber as modificações, pois elas acontecem lentamente, na escuridão do inconsciente. São transformações ‘verdadeiro self’ diferentemente da internalizações maciças que são ‘falso self’.        
                               Nahman Armony

WINNICOTT E A CRIATIVIDADE PRIMÁRIA


Winnicott nos fala de uma criatividade primária. Seria uma criatividade que surgiria a partir da subjetividade pura, ainda sem objeto. Um bebê com fome tem uma sensação física. Esta sensação física vem acompanhada da uma atávica intuição de que existe um objeto que poderá aliviar esta fome. É uma sensação vaga, nebulosa que vai se delineando cada vez mais claramente na medida em que as experiências de mamada em um seio se repetem. Usando uma linguagem fotográfica, a resolução é cada vez mais nítida. O objeto que se vai delineando, a princípio não tem existência própria. É criação e parte do bebê, pois o bebê ainda não tem noção  de eu e outro. Mas ao mesmo tempo em que o objeto seio/mãe/circunstâncias vai se tornando mais nítido o bebê começa a distinguir o eu do não-eu até o ponto de criar para si o objeto e o espaço transicional. O mesmo objeto que era apenas ele – um paninho encostado no rosto -- quando chega o momento, transforma-se em um objeto transicional externo e interno ao mesmo tempo. Pois bem, enquanto o objeto é apenas subjetivo, isto é, não há distinção entre eu e não-eu a criatividade é chamada de primária. Portanto a  criatividade primária tem a ver, conceitualmente com subjetividade pura. Como estava dizendo acima a dor da fome sofre uma “elaboração imaginativa de função” e aparece como aquela sensação vaga e indefinida de existir um objeto que corresponde à fome. Quando surge o seio o bebê dirá “Ah aqui está o objeto que eu elaborei imaginativamente a partir da função digestiva”. A sensação vaga é elaboração imaginativa de função que recebe um reforço com o aparecimento do seio, mas que do ponto  de vista do bebê continua a ser uma elaboração imaginativa da função digestiva. Só quando ele distingue o eu do não-eu o aperfeiçoamento da figura do seio deixa de ser elaboração  imaginativa de função para ser um tomada de conhecimento do mundo exterior. Como o seio continua investido de fantasias o objeto seio agora é subjetivamente concebido como o fora no época inaugural e objetivamente percebido. Há uma junção aqui do subjetivo com o objetivo.
O outro tipo de criatividade tem origem no espaço transicional. E aqui criatividade tem a ver com contacto vivo com o mundo externo. Significa dar um sentido à vida. Significa sentir que o mundo lhe pertence e que ele pertence ao mundo. Esta sensação tem seu precursor na dependência absoluta onde o bebê é onipotentemente o mundo, é onde ele tem a sua experiência de onipotência. Sua segunda etapa nós a encontramos na experiência de transicionalidade, de espaço, objeto e fenômenos transicionais, onde ele já reconhece a realidade externa (objeto objetivamente percebido), mas impregna este objeto de subjetividade (ursinho, etc.) Enquanto protegido pelos pais e enquanto intelectualmente imaturo, predomina o subjetivamente concebido. Aos poucos a objetivo torna-se uma necessidade e encontram-se várias formas de mistura e convivência do subjetivamente concebido e objetivamente percebido. Formas estas às quais eu já me referi acima.
A criatividade depende de uma mãe suficientemente boa capaz de um holding adequado, isto é, um holding que permita o bebê aceder ao espaço transicional. Eu já disse que o holding é uma nova maneira de viver e ver a vida, uma nova perspectiva, diferente do autoritarismo, dever, imposição, falso self, etc. Juntamente com o holding temos a espontaneidade, o espaço transicional, o verdadeiro self.
Jan Abram no seu livro “A Linguagem de Winnicott” adverte que o “ato criativo (como o pintar, o dançar, etc.) não é um sinônimo de viver criativamente. O viver criativamente tem mais a ver com a força vital que lança mão dos instintos para tornar-se um objeto ontologicamente presente no mundo. Esses instintos evocados pela força vital dão existência ao viver criativo. O viver criativo tem a ver com um sentimento de pertencimento ao mundo; tem também a ver com a capacidade de encontrar a poesia e a arte na coisas mais simples existentes no Universo. Isso fica muito claro no filme Paterson onde um simples objeto inanimado é olhado cuidadosamente, intensamente, ganhando uma aura                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  divinal que é pura poesia. ‘A criatividade primária apresenta-se como um impulso inato que se dirige à saúde’ (frase de Jan Abram apresentando uma ideia de Winnicott). Ao impregnar um objeto ou um fenômeno de criatividade primária estaremos na vigência do que Winnicott chama simplesmente de ‘criatividade’.

  

O VAZIO PARA LACAN E WINNICOTT: DIFERENÇAS

       

Para Lacan o vazio é estrutural. A linguagem opera um corte entre o real e o imaginário. Só o simbólico é capaz de fazer uma aproximação entre real e imaginário. Mas esta separação não pode ser feita à custa de uma negação de um vazio que opera entre real e imaginário. Para que o simbólico tenha a sua efetividade é preciso primeiro encarar o vazio. É preciso abandonar todas as máscaras que ocultam o vazio e chegar até ele para então retornar ao simbólico tendo já encarado e elaborado o vazio. Trata-se portanto de um vazio estrutural inerente à constituição do ser humano. Winnicott tem uma visão diferente: o vazio aparece não por pertencer à estrutura ôntica do ser, mas por contingências que inevitavelmente aparecerão com maior ou menor força. Um bebê mal atendido pela mãe sentirá com frequência as ansiedades indizíveis das quais a mais assustadora é o “cair para sempre”. Um bebê bem atendido dificilmente passa por uma vivência tão terrível. Então para Lacan o vazio é estrutural e para Winnicott é contingente, uma contingência que sempre ameaça se realizar. Para Winnicott não há um corte separando o objetivo do subjetivo. O subjetivo aos poucos vai admitindo a existência de um objetivo que não renega o subjetivo. Estou falando de objeto transicional e de espaço potencial. O objeto transicional carrega em si o subjetivo e o objetivo. Com isto se evitaria o vazio. Um bebê bem acolhido mal sente o vazio. O bebê mal acolhido sente-se só e desamparado, jogado no vazio. Então, a maneira de evitar o sentimento de vazio é viver no espaço transicional onde a capacidade de sentir e amar estão preservados.

                                                Nahman Armony

                                   

 

DIVULGAÇÃO

 

Prioridade normalSeminário Livre: 'A Psicanálise no Século XXI'

 

 

 

A Sobepi divulga o Seminário Livre:

'A Psicanálise e a subjetividade humana: perspectivas para o século XXI'

 



 

Temas:

1.      Transformações da pessoa
2.      Transformações da família
3.      Transformações do tratamento

 

 

"Estamos deixando para trás uma visão de mundo otimista e triunfalista, regida por um ideal de domínio e escravização da natureza, e caminhando para outra - onde o homem perde sua posição central e torna-se um ente penetrado e cercado por forças que escapam ao seu controle e, mesmo, conhecimento".


Docente:
Nahman Armony (médico psiquiatra, psicanalista membro efetivo da SPID e do Círculo Psicanalítico, filiado à International Federation of Psychoanalytic Societies)



Datas: 01 e 29 de Junho; 20 de Julho (sempre às 4as feiras)
Horário: 19h30 às 21h.

 

 

Investimento: 3 parcelas de R$ 90 (Público externo)

                        3 parcelas de R$ 54 (Membros da Sobepi)

 

 

Informações e inscrições:

Sobepi, (21) 2275-8205 / sobepi@sobepi.org.br

 (R. Elvira Machado, 06 - Botafogo, Rio de Janeiro)

 




 


 




 

 

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GENES SALTADORES

Na revista Mente e Cérebro na Edição Especial n.49, ano XXI encontrei o artigo "O que torna seu cérebro único" que fala de uma importante descoberta: os genes saltadores. O que são genes saltadores? São genes que ocupam um certo lugar na cadeia do DNA e que saltam para um outro segmento do DNA. Nesta nova posição adquirem novas funções provocando alterações no comportamento e na fisiologia. Os pesquisadores fazem a hipótese de que estes genes saltadores permitem uma maior adaptação ao mundo pois eles respondem ao ambiente podendo ser ativados ou inibidos. Trata-se de uma nova opção trazida pelo novo lugar ocupado pelo gen. Muitas vezes este processo cria situações desfavoráveis. Então por que "a evolução permitiu um processo que mexe com a programação genética? Embora não tenhamos uma resposta definitiva, evidência crescente sugere que, pela indução de variabilidade nas células do cérebro, os genes de transposição podem impregnar organismos com flexibilidade para se adaptar rapidamene à evolução das circuntâncias"(Fred H. Cage e Alysso R. Muotri, autores do artigo). 
A resposta parece ser a seguinte: Para que a evolução prossiga é preciso que coisas novas aconteçam. Existe aí um perígo: elas podem ser maléficas mas se este processso está em curso é que foi selecionado o que significa que para a evolução vale a pena correr o riscos pois mesmo sem muitos fracassarem em termos de adaptação evolutiva, aqueles que se adequarem levarão a evolução para diante. 
Achei que valia a pena tentar este resumo mesmo correndo o risco de não estar interpretando bem o artigo.
                                                         Nahman Armony
                                                               

EPISTEMOLOGIA E CLÍNICA

Pensamento cartesiano ou pensamento paradoxal? (a partir do relato de um colega).
O pensamento cartesiano é mais simples, uma linha reta ligando dois pontos sobre uma superfície plana. O paradoxal é mais complexo, pois cobre o emaranhado de acontecimentos exigindo um trabalho psíquico maior: temos de entrar em labirintos, fazer curvas fechadas, passar por cruzamentos, atravessar encruzilhadas, confundir estradas e ruas, etc. Há ocasiões em que o cartesianismo é mais conveniente embora menos amplo; em outras ocasiões o pensamento paradoxal se presta melhor para entender os acontecimentos e lidar com eles. Darei exemplos: uma pessoa tem uma infecção, faz um exame laboratorial e descobre a bactéria responsável e o antibiótico adequado. O médico prescreve a medicação apropriada sem ver o paciente, avisando à família para que busque a receita. Essa pessoa toma a medicação e a infecção desaparece. Cartesianamente pode-se dizer que tal pessoa estava doente, tomou a medicação apropriada e ficou saudável. Causa e efeito. Digamos que o paciente foi ao consultório onde pegou a receita sem ser examinado. É quase como ser avisado da medicação por telefone. Continua em vigor o pensamento dicotômico: saúde-doença. Pensemos na alternativa: o paciente toma o remédio adequado e não melhora de seu quadro infeccioso necessitando de mais cuidados. Por que teria falhado a epistemologia cartesiana? Porque no caso cabia uma epistemologia paradoxal que fosse além da dicotomia doença e saúde. Melhor raciocinar paradoxalmente dizendo que o paciente é ao mesmo tempo saudável e não saudável. Poderíamos ir pelo seguinte caminho: desde que nascemos somos atacados por inumeráveis seres vivos: bactérias, parasitas, germes de toda natureza, ofensas, sapos, etc. Nós nos defendemos mobilizando nossas defesas. Há uma luta entre o germe e as defesas imunológicas, entre a raiva e as defesas psíquicas. Mas estes sintomas só existem porque o corpopsiquemente  tem recursos para se defender. Podemos dizer que tal pessoa é doente ou que, ao contrário, está saudável já que esta podendo combater as invasões? (não esqueçamos que durante toda a sua existência o ser humano terá de diuturnamente lutar para permanecer suficientemente bem, isto é, vivo.) Ele está doente ou sadio? As duas coisas é a resposta óbvia. Temos que raciocinar dentro de uma epistemologia paradoxal para dar conta da complexidade do ser humano. O antibiótico é sim necessário. Mas há pessoas que vitalmente necessitam algo que vá além da medicação. Precisam de acolhimento, pois se este não existir o sistema imunológico falhará, reverberando nx mente/cérebro sob a forma de medo de não se recuperar, exacerbando fantasias de não-cuidado, herança de uma infância mal concernida, etc., etc. Para alguns pacientes bastará dar o antibiótico permanecendo na lógica cartesiana. Outros precisarão que o cuidador cuide do paciente dentro da lógica paradoxal, pois terá de levar em consideração a complexidade humana. Estes o obrigarão a pensar dentro da lógica paradoxal que acompanha a complexidade.
                                                                                                              Nahman Armony



MENTE E CÉREBRO


Os animais, ou melhor, os mamíferos, têm uma inteligência instintiva modificada pelo ambiente. É uma inteligência inconsciente. Nós humanos também temos uma inteligência inconsciente, certamente herdada de nossos antepassados de quatro patas. Esta inteligência inconsciente circula por redes neurônicas próprias, que se ativam quando esta inteligência inconsciente funciona. É uma inteligência que funciona tendo como motor os afetos instintivos modificados pela competição, pela necessidade de sobrevivência, pela necessidade de conquista sexual, modificados, enfim, pelo que acontece no ambiente que o rodeia. É um raciocínio emocional e não um raciocínio lógico. Se lógica existe é uma lógica afetiva diferente de uma lógica da não contradição, pois a lógica afetiva admite o paradoxo.
Então, temos circuitos cerebrais por onde circula a inteligência emocional. Não somos conscientes destes processos. Nada, ou quase nada dele aparece para a nossa consciência. Um grande passo evolutivo foi a conquista de circuitos cerebrais que permitiram ao homem ver o resultado de seu funcionamento psíquico inconsciente. Ele se tornou consciente do resultado dos processos inconscientes, e também consciente dos próprios processos na medida em que estes novos circuitos permitiram a visão do que estava acontecendo no interior do cérebro. É como se o homem adquirisse um novo olho que podia olhar para o seu funcionamento cerebral e percebê-lo através do que chamamos de mente, de consciência. É possível então que pensamentos inconscientes provoquem o funcionamento de circuitos neuronais que permitem ver através de imagens e de abstrações o que está acontecendo a nível do pensamento inconsciente. Posso talvez afirmar que o que conseguimos é perceber de uma maneira consciente o resultado do trabalho inconsciente, pois certamente um circuito ativa o outro: o circuito consciente ativa o circuito inconsciente assim como o circuito inconsciente ativa o consciente. Temos então dois circuitos: um consciente e outro inconsciente que se cruzam e se ativam mutuamente. Importante dizer que o resultado do pensamento inconsciente leva um certo tempo (questão de milissegundos, acho) até chegar ao circuito consciente quando então torna-se possível a percepção do interior: posso perceber algumas de minhas emoções, ações, e pensamentos até então inconscientes.

                                                   Nahman Armony

ESPESSURA DO DEVIR



Vou-me aventurar nas águas da filosofia sabendo de antemão a minha incompetência diante daqueles que se dedicam à área. Sou um amador interessado por gosto e por necessidade, pois a filosofia me ajuda na lide diária profissional e pessoal. A minha questão é conservar o ideia de devir, pois como diz o filósofo Heráclito "ninguém se banha duas vezes no mesmo rio", mas evitando o sentimento de despersonalização, de morte do self, de perda do passado. Se tudo flui, o que ficou para trás, o que é passado não existe e ficamos sem memória e sem self. Então como conservar a memória e o self? Consigo pensar em duas maneiras: na medida em que vivemos os momentos presentes forma-se uma esteira de passado e se queremos nos reconhecer temos de procurar nesta esteira a nossa identidade.Uma memória transcendente. Ou, como proponho, a vida flui sem deixar esteiras e o passado mantém-se vivo  interagindo com os acontecimentos presentes na medida em que eles vão acontecendo. Estaríamos diante de um passado e uma memória imanentes. Não temos de parar a vida para buscar lembranças que ficam em uma região transcendente do passado, pois o passado está imanentemente e inextricavelmente incorporado ao presente com ele interagindo. O conceitos de SER E DEVIR existem desde a Grécia antiga. Heráclito discursava sobre o devir e Parmênides sobre o ser. A questão era: como as coisas se transformavam sem perder a sua essência? Durante muitos séculos e até hoje SER e DEVIR se confrontam. Como conciliá-los? Nietzsche resolveu lindamente a questão dizendo que o SER era  o DEVIR. Mas acho que isso não é suficiente para a minha disciplina, a psicanálise. Se não tenho SER nada sou. Na medida em que as coisas acontecem e se tornam passado elas desaparecem. A imagem que me vem é que a esteira dos acontecimentos desaparece dispersando-se como areia ao vento. Mas se não estou em devir eu não me transformo; na verdade não vivo, sou estátua morta. Necessito do SER e do DEVIR. Creio que, numa inspiração bergsoniana, pensei que o passado não é um passado de depósito, transcendente, mas um passado que está em constante interação com os acontecimentos presentes. Deixa de ser uma esteira onde vamos buscar nossas memórias e passa a ser parte do presente, uma memória do presente. Quando um analisando fala alguma coisa lá está todo o seu passado e seu presente. Se eu analista for ativamente atrás de acontecimentos passados para entender o presente, estarei saindo do DEVIR e me imobilizando no SER. O passado encontra-se no presente e não no passado. O SER está incorporado ao DEVIR. Para isso é necessário que o DEVIR tenha uma espessura, que não seja apenas uma linha onde só caberiam acontecimentos evanescentes. sem lastro. Esta é a concepção que me serve para meu trabalho clínico.
                                                                              Nahman Armony