RECALQUE MALIGNO E RECALQUE BENIGNO EM WINNICOTT


A idéia de recalque maligno e benigno surgiu da concepção winnicottiana de “trauma benigno”. No artigo “O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família” Winnicott escreve: “Dessa maneira existe um aspecto normal do trauma. A mãe está sempre ‘traumatizando’ dentro de um arcabouço de adaptação, e, desse modo, o bebê passa da dependência absoluta para a dependência relativa”. Para mim fica evidente que Winnicott está ampliando a noção de trauma até alcançar a desilusão suficientemente boa. Este seria um trauma benigno, idéia que ele apresenta logo a seguir: “Na sessão que estou escolhendo para relatar uma coisa nova acontecera: a paciente achou que minha interpretação principal devia estar certa, e, contudo ela não havia previsto. A interpretação fora portanto ‘traumática’ no sentido de ultrapassar as defesas. Este trauma benigno refletia o novo sentimento da paciente a respeito do trauma maligno”(p.105).

Com esses dois elementos teóricos, 1- desilusão como trauma e 2- concepções de trauma benigno e maligno,  posso propor as expressões “recalque benigno” correspondente à colocação carinhosa de limites que provocam desilusão no bebê e “recalque maligno” como conseqüência de uma ação repressora violenta e insensível de uma figura tirânica. Apresso-me em dizer que as expressões “recalque maligno” e “recalque benigno” são equivalentes a “recalque excessivamente traumático” e “recalque traumático adequado”. Considero estas ideias importantes pois cada tipo de recalque pertence a uma constelação subjetiva diferente. 

                                                                    Nahman Armony

A "PRINCEZINHA" E O "REIZINHO"








Meninas criadas como seres frágeis, carentes de proteção, e meninos que crescem se achando sempre fortes compreensivos e blindados podem, ainda que não o queiram, reproduzir tais comportamentos na vida adulta, envenenando seus relacionamentos com expectativas e cobranças. O único meio de fugir dessas armadilhas do inconsciente é procurar compreender a sua dinâmica.


Existem famílias em que pai e filha são muito apegados, o mesmo ocorrendo com o filho em relação à mãe. A filha é a “princesinha” do pai e o filho, o “reizinho” da mãe. Como princesinha, ela não herdará um trono, mas será resguardada pelo pai-rei, ou marido-rei. Seu papel é ser frágil, sempre poupada e protegida, e ao mesmo tempo forte, pois tal proteção é da ordem do sagrado e, portanto, inquestionável, devendo ser defendida com unhas e dentes. Como “reizinho”, o filho, tal qual o pai, tem direito ao melhor dos melhores, à melhor poltrona, ao melhor lado da cama, à melhor posição para ver televisão, à melhor parte do frango. Em compensação, deverá compreender a mãe mesmo em suas injustiças e desvarios, sendo o protetor incondicional dela.
Eis aí uma das configurações possíveis de um patriarcalismo em mudança: o homem agora não só é forte, protetor e provedor, mas também sensível à sensível alma feminina, tendo a função de não feri-la. A filha e a esposa têm o direito de exigir dele um comportamento delicado, que respeite as suas suscetibilidades, enquanto ele – macho duro -  deverá suportar as incompreensões e os mal-entendidos. Está armado o cenário para que, na próxima geração, os encontros amorosos/sexuais apresentem dificuldades e exibam excessivos e destruidores jogos de poder e dominação.
Imaginemos o seguinte contexto: a moça, educada como peça frágil, uma preciosidade que se quebrará ao menor sopro de contrariedade, acha que o namorado frequentemente age como um desastrado Mr. Bean numa casa de vidros, tendo ela sempre suportado tal comportamento. A despeito dos discursos da contemporaneidade -- igualdade dos sexos, força da mulher, feminismo --, tal situação faz emergirem antigos padrões de comportamento, remotas convicções de direitos inerentes e divinos, afinal, ela é grácil porcelana chinesa a ser manejada com delicadeza. Se isso não ocorre, fica magoada e desgostosa, estado de espírito perigoso, que poderá vir a destruir um amor que, de outro lado, é prazeroso, alegre, livre, solto, feliz. O que fazer?
O bom senso introduziria na equação um questionamento psicoterápico que pudesse levá-los a perceber a dinâmica existente. Se tal não acontece, corremos o risco de ela se colocar na posição de cobradora, exigindo que ele seja como o pai. Evidentemente não seria uma reivindicação consciente, mas uma exigência transparente em suas atitudes, como, por exemplo, a sugestão, com a mais doce das vocalizações, de que ele deveria estar sempre atento e sensível aos seus sentimentos para não contrariá-los, pois isso poderia levar à deterioração da relação. Seria uma espécie de cobrança antecipada, criando um débito perene, impossível de ser estinguido e que colocaria o namorado-pai na eterna posição de um devedor empenhado em saldar não só as dívidas presentes, como as passadas e as futuras. É claro que ao fim de algum tempo o homem que aceitasse tal exigência se transformaria em um trapo, e como tal seria jogado fora.
Toda essa dinâmica é capaz de tirar de um casal promissor a oportunidade de alcançar uma intimidade rica e produtiva – oportunidade essa que poderia ser preservada se ambos fossem capazes de perceber a dinâmica reinante e sua origem. Mas isso só é possível, muitas vezes, por meio de um trabalho profundo de autoconhecimento que poderá advir de um processo psicoterâpico.
                 
                        Nahman Armony
Primeira publicação na revista CARAS.

                       
          


PÉTALAS DE ORVALHO

                    Odette Orquídea
              Preciosa flor
              Ferida exposta
              Ao meu canto

              Faz sorrir
              Leva ao pranto

              Odette Orquídea
              Linda flor
              Ferida aberta
              Do amor.

                                    Nahman Armony   

CRISES DOS EQUÍVOCOS

           

Toda relação certamente passará por períodos de tensão. O namoro começa em mar de almirante, mas após algum tempo enfrentará tempestades e balançará entre naufrágio e salvação. Saber que forçosamente existe um tempo de tormenta, e mais, saber que a borrasca não apenas é inevitável como também necessária para o amadurecimento do par, ajudará a atravessar períodos difíceis da relação.
         O distúrbio é inevitável porque cada um tem a sua peculiar configuração psíquica fatalmente diferente da do parceiro. E só aos poucos, dependendo das situações vividas pelo par, as várias facetas da personalidade se fazem presentes; a cada vez em que se confrontam diferenças inéditas, surgem afetos intensos atirando o par num redemoinho de acusações, contra-acusações, culpas, desvalorizações... um caos. Quando finalmente as tensões se amainam, voltam a preponderar os sentimentos afetuosos. Se o casal não percebe de onde surgiram os mal-entendidos, pode se depositar no fundo do psiquismo um ranço negativo que, em se acumulando com sobras de outras brigas acabam por tornar problemática a convivência confiante e afetuosa. Já uma compreensão das motivações da briga fará o casal mergulhar em regiões ainda não visitadas onde se deparará com preconceitos e suscetibilidades até então não ou mal percebidas. Poderá, então, cada um agradecer ao parceiro a oportunidade de ampliar a percepção de si mesmo, do outro e o conseqüente fortalecimento do sentimento de união criativa.
         Inventarei dois exemplos: um casal está saindo daquele período inicial em que procuram mutuamente se agradar e combinam serem sinceros quanto aos seus desejos e sentimentos. Digamos que o casal tenha acertado um fim de semana “a dois” e de repente a mãe do marido exige, implora que ele vá vê-la. Fiel à prévia e madura combinação, a esposa diz que embora contrariada, desistirá do programa íntimo e o acompanhará à casa da mãe. A palavra ‘contrariada’ soa ao companheiro como uma desconsideração pela mãe. Reage, então, com um profundo desagrado que se expressa na sua mímica corporal. A companheira chocada com o que ela considera uma falta de reconhecimento de seu esforço para tornar a relação mais madura, e uma traição ao acordo, reage atacando o companheiro que por sua vez contra-ataca daí surgindo uma altercação. Podemos especular que a intensa reação emocional se deva a questões psicológicas prévias tais como necessidade de reconhecimento, sentimentos de rejeição, dependência excessiva dos pais, ou qualquer outra coisa que possamos imaginar. Se o rapaz percebesse o esforço da companheira em ser madura e se essa percebesse que a reação dele estava referida não a ela, mas à sua inconsciente dependência dos pais, o episódio teria um outro desenrolar. Como, porém, pela primeira vez núcleos inconscientes foram mobilizados pela relação seria irreal pedir ao casal um comportamento sensato. O conflito é inevitável. Só depois de os sentimentos se expressarem torna-se possível um exame ponderado.
         Outra situação hipotética- Dois namorados: ela está gripada e pertence a uma família cuja ideologia inclui a idéia de cura pelo repouso. Já a ideologia da família dele preconiza que a pessoa deve continuar suas atividades sem se deixar abater pela gripe. Ele a convida para jantar num restaurante elegante e ela, gripada, recusa o convite. Imerso na ideologia de sua família, sente-se rejeitado e reage com raiva. Ela imersa na própria cultura familiar não entende a sua raiva e acha que ele não se preocupa com sua saúde. Ambos sentem-se rejeitados. Arma-se o conflito, explicitam-se conteúdos inconscientes. O conflito pode levar ao rompimento, mas se for percebido como parte de uma evolução, facilitará a travessia dos equívocos e permitirá um entendimento e um aprofundamento do conhecimento de si, do parceiro e do casal.  
Os casais que souberem atravessar as crises dos equívocos, esclarecendo-os, tornar-se-á mais maduro e unido.
                                                                       
                                                                                    Nahman Armony
Primeira publicação na revista CARAS


         

CONVALESCENÇA



         Sentou-se na mais amiga de suas poltronas, cuja maciez havia acolhido os seus muitos tormentos d’alma. Protegido por aquele útero materno pôde soltar-se e deixar que sentimentos e pensamentos o invadissem. Tinha-se subitamente apaixonado por uma mulher casada, alta funcionária da empresa em que trabalhava Certo dia, por circunstâncias profissionais, dera-lhe uma carona. De seu corpo exalava uma espécie de aragem que o invadiu dando-lhe inusitadas sensações de alegria, felicidade, energia; sentiu que seus canais de sensibilidade se desobstruíam tornando-o mais sensível à beleza, aos eflúvios da música e da paisagem. A estranheza destas inesperadas sensações só se diluiu ao se lembrar de que embora só a conhecesse à distância, já de algum tempo a admirava por suas muitas qualidades. Mas daí a ser atingido em suas entranhas por um enigmático sortilégio deixara-o perplexo. Apesar dos obstáculos a relação se intensificou e aprofundou. E agora estava diante de um dilema. O manancial de prazer inexcedível tornara-se fonte de extremado sofrimento para ambos. Ela amava o marido e não pretendia deixá-lo, mas também correspondia ao seu amor no mesmo diapasão de qualidade e intensidade. Ela não queria perder nenhum dos dois, e ele lhe exigia que fizesse uma escolha. Estas e outras idéias cruzavam sua mente de forma desordenada; pareciam ter vida própria misturando-se aleatoriamente, formando blocos condensados que se desfaziam e refaziam em novos arranjos. Num súbito impulso levantou-se e colocou no seu som um antigo e esquecido CD de boleros. Voltou à poltrona deixando-se embalar pela melosidade das músicas. E, de repente, uma das estrofes apareceu-lhe em vermelho: “Nosotros; que nos queremos tanto; debemos separarnos; no me preguntes más; no es falta de cariño; te quiero com mi alma; te juro que te adoro y en nombre deste amor y por tú bien te digo adiós”. Sentiu um baque no coração cujas batidas lhe falavam agora de uma mistura de sentimentos: profunda melancolia, tristeza pungente, alívio libertador. Agitou-se na poltrona que já não lhe parecia tão confortável; começou a zanzar pela casa, aflito, procurando algo intangível. Voltou à poltrona e, de repente, desabou: gritou, chorou, implorou, blasfemou: um inferno de sentimentos. Sentiu que estava arrancando do mais fundo de seu ser poderosas raízes. A figura amada aparecia e se esvaia, e sentimentos contraditórios o assaltavam: dor, mágoa, amor, desespero, impotência, impotência, impotência. Lembrou-se da infância quando tinha se afeiçoado a um leitãozinho e este subitamente desaparecera para ressurgir como lombinho assado. Seu sofrimento de menino deixara a família tão impressionada que tentaram reparar a situação oferecendo-lhe outro animal. Não adiantou, pois seu afeto dirigia-se para aquele específico. Teve raiva da família, especialmente da mãe, a encarregada da culinária. À noite sonhou que o leitãozinho ressuscitara e que novamente brincava com ele abraçando-o, acariciando-o, pondo-o no colo, mimando-o. Ao acordar deparou-se com a realidade da perda irremediável e de sua impotência diante do acontecido.
Estas e outras lembranças, pensamentos e sentimentos percorriam seu corpo de alto a baixo, deixando-o prostrado, sem forças para se levantar da poltrona. Finalmente dormiu e sonhou com seu herói da infância: o super-homem que, porém, havia perdido seus super poderes. Quase como um sonâmbulo levantou-se e trocou o CD de boleros por um de Zeca Pagodinho sentindo-se atraído especialmente pelo estribilho: “deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Ainda aturdido, pescou o CD de Vinicius e sentiu-se penetrado pelos versos “sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão, sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão”. Sentiu que aí começava sua convalescença.

                                              Nahman Armony


DAMAS DA NOITE

   Estranhas flores brancas, cândidas alvuras na cerrada mata, despudoradas sereias abrem corolas em perfumes para todos os narizes, leigos, fracassados, sábios, ignaros, alongadas hastes na verde floresta erguem-se frágeis pendentes por sobre o verde abertas em soluço despreparadas sementes despudoradas mulheres envolvem braços, coxas, ateneias, apolos, sem tempo de deixar escorrer nada mais que o tempo que roda, salta, acelera, para, suspira além do além, alongados braços suplicantes, delgadas hastes de cabeças pendidas a olhar o verde abaixo, desesperado fermento, bruma cerração sereias sirenes invadem lares, coração, mentes, pulmões, sem distinção de sexo, valor, riqueza, todos os olhos choram estranhas formas perdidas na verde mata almas penadas de seres infelizes em culpa, tempo parado na floresta verde aprisionado no perfume, altas árvores majestosas acima muito acima - e as pobres hastes frágeis pendentes choram fragrâncias por sobre o jamais visto azul do céu nas folhas abaixo, despudoradas putas penetram narizes, casas, pulmões, mentes,preconceitos, subvertem cidades, bagunçam coretos vingam-se ---- pobres almas virgens fracassadas jamais tocadas sufocadas no eterno verde da luxúria... 

                                                             Nahman Armony

RECALQUE E DISSOCIAÇÃO



Quero fazer algumas distinções simples que poderiam ser chamadas de fenomenológicas, pois não são metapsicológicas nem se preocupam em fazer articulação com conceitos. Pretendem ser observações soltas transmitidas na linguagem disponível. As articulações existentes são espontâneas não representando um esforço do escritor.
RECALQUE – a complexidade recalcada fica fora do alcance da consciência e apresenta resistências quanto a ser percebida por ela. No seu retorno à consciência aparece disfarçada, por vezes quase irreconhecível ou mesmo irreconhecível. O recalque mantém a unidade da personalidade. O desejo (ou o trauma) ao ser recalcado não mais exerce pressão consciente para a sua satisfação, o que mantém a unidade do Eu. Se alguém deseja duas coisas incompatíveis e uma delas é recalcada tornando-se inconsciente, ela reaparecerá em forma de sintoma. A unidade do Eu se mantém.
DISSOCIAÇÃO- a dissociação evita o conflito. Duas formas de dissociação: DISSOCIAÇÃO COM CONSCIÊNCIA DAS PARTES DISSOCIADAS: a pessoa quer duas ou mais coisas incompatíveis e se não recalca uma delas pode sentir-se confusa ou então pode aceitar o paradoxo de querer, num mesmo momento, coisas incompatíveis.
DISSOCIAÇÃO SEM CONSCIÊNCIA DAS PARTES DISSOCIADAS: a pessoa pula de um desejo para outro. Mas geralmente o desejo está inserido numa personalidade e então entra em cena uma segunda personalidade que cumpre o desejo. É o caso das chamadas dissociações histéricas em que uma personalidade não tem conhecimento da outra ou em que umas das personalidades não tem consciência enquanto a outra tem. É o caso de M. que apresenta uma personalidade militar em certas situações e uma personalidade psicanalítica em outras situações. Não é uma dissociação como a estou descrevendo aqui, pois há um conflito inconsciente entre estas duas personalidades. Ele tem consciência da personalidade que aceita o homossexualismo e quando é esta personalidade que atua aparece o conflito pois ele não permite que o desejo e a personalidade recalcados --- aquela que tem horror ao homossexualismo ---  se tornem conscientes. (Uma mistura de recalque e dissociação?). Quando a personalidade é a psicanalítica o preconceito é negado não permitindo a tomada de consciência dos motivos de repúdio do homossexualismo o que acarreta que o homossexualismo do filho cause sofrimento (sintomas psicossomáticos e ansiedades e depressões aparentemente sem causa) influindo nas suas ações.   
                                                   Nahman Armony