MONUMENTO À CIVILIZAÇÃO CONSUMISTA - parte 1

Este é um poema longo que vou dividir em quatro partes que serão postadas semanalmente.

MONUMENTO À CIVILIZAÇÃO CONSUMISTA - parte 1

Ah terrível Deus Moloch
Insaciável comedor
De pílulas e consciências
É para ti que construo o monumento
De meu sofrimento
Imagem terrena
De tua força translunar
É de ti que recebo
A vida amedrontada
Deprimida
Angustiada
 
O sangue aprisionado
Poreja dos edifícios
Corróe-se nos compromissos
Abre crateras no seio
Íntimo da integridade
 
Há um ar carcomido
Bichado
Brilhando à espreita
Da morte da margarida.
 
Os dentes da engrenagem
Se agarram, se fixam,
Dominam a vontade ambigual
E mexem, e rodam, e corroem
Em movimento circular.
Nada de felicidade
Nem o seu arremedo
Nem o pequeno folguedo
Nenhuma gota de prazer
Nenhum gesto de ternura.
Deus Moloch tem fome
Exige mais ração
Devora sentimentos, iniciativas
Todo prazer e desejo
Todo impulso e força
Toda criação.
Deus Moloch é insaciável.
Precisa de dormir
Comigo
O sono cego.        (continua na próxima semana)
 
                                     Nahman Armony
 
 


A PERSISTÊNCIA EM AMAR POR QUEM NÃO É AMADO

Muitas vezes as pessoas, ao enfrentarem um rompimento, têm dificuldade de entender o que se passou e de esquecer o amado ou a amada. A abordagem central quando se vive uma situação dessas é perguntar-se: não posso deixar de amar ou não quero fazê-lo? E por que não quero fazê-lo? O vazio dói mais do que a uma presença constrangedora?

Uma resposta sincera é capaz de esclarecer os próprios sentimentos e abrir novos caminhos.

Um jovem amigo procurou-me há alguns dias com marcas de sofrimento no rosto. A esposa, para sua surpresa, lhe dissera que não mais o amava e queria separar-se. Meu amigo tentou demovê-la com o argumento de que tudo contribuía para continuarem a se dar bem, felizes. De nada adiantou o esforço. E lá se foi ela com inabalável convicção, levando o filho do casal. Tudo se resolveu do ponto de vista jurídico: visitas, contato com o filho, recursos. Mas em termos afetivos foi um desastre: sofrimento, desespero, noites mal dormidas, raiva.

Ele pediu a minha ajuda. Ajudar como? A única coisa que eu poderia fazer era escutá-lo com simpatia e compreensão, acolhendo seu sofrimento. Vocês sabem que nessa situação as pessoas se tornam monotemáticas e repetitivas. Claro que meu amigo disse o quanto a amava; insistia que ela não tinha motivos para abandoná-lo; perguntava-se o que ocorreria em sua relação com o filho; afirmava que jamais deixaria de querê-la. Eis que, num golpe de inspiração, lhe perguntei. “Mas você quer deixar de amá-la?” A resposta, até certo ponto surpreendente, foi: “Não”. “Mas como?”, perguntei. “Como pode querer continuar a amá-la sabendo que isso causa enorme sofrimento? Uma coisa é você não poder deixar de amá-la, outra é não querer. Assim, perpetuará seu sofrimento e fechará a possibilidade de novas relações.” Tive a impressão de um vislumbre de luz no olhar de meu amigo. O sofrido de seu rosto pareceu atenuar-se com um sinal de sorriso. Fui para casa disposto a matutar — não tivesse eu o vício da psicanálise — sobre tão estranho desejo, que levaria a sofrimento permanente. Como disse, sou psicanalista, e essa classe de seres tem a pretensão de poder falar algo sobre as origens dos desejos nocivos. Com isso — aí está outra presunção — crê que pode direcionar o desejo para caminhos mais amenos.

Por que desejar manter um amor que só traz sofrimento era, pois, a minha questão.

A primeira e mais óbvia hipótese ligava-se à esperança de reconciliação. Meu amigo queria manter seu amor intacto para, caso a ex-esposa reconsiderasse a decisão, recebê-la com um amor em nada diminuído, já que o alimentara pelo seu querer. Uma hipótese mais trabalhada foi a seguinte: a convicção de ter uma esposa para sempre passou a fazer parte de seu psiquismo e participava de seu equilíbrio mental. Perder a imagem da esposa o jogaria em uma crise impensável, tornando sua vida caótica. Podemos entender melhor o que quero dizer ao pensar na angústia da criança ao se separar da mãe; e que, se colocada diante da ameaça de ela nunca mais voltar, depara-se com um abismo insondável no qual cairá para sempre. É nesse momento que a criança precisa conservar a todo o custo a imagem mental da mãe.

Assim munido, voltei a falar com ele. Com surpresa notei-o um pouco melhor. Tivera interesse passageiro por outra mulher, acontecimento ínfimo, porém indicativo de mudança de direção. Resolvi nada dizer, mesmo porque não estávamos em situação analítica. Mas me espantei mais uma vez com os mistérios da psique. O que teria acontecido? Fora uma melhora espontânea, que teria ocorrido houvesse ele conversado ou não comigo? Teria sido meu acolhimento? Ou a diferença que apontei entre o não poder e o não querer deixar de amá-la fizera efeito? Faço a hipótese de que ele tem a insegurança controlada pela fantasia de uma esposa que, à semelhança da mãe da infância, lhe traria equilíbrio à vida e ao psiquismo: família, filhos, tranquilidade. Manter a esperança conservaria a estrutura psíquica anterior e a estabilidade que se perderiam não fosse a expectativa de reconciliação.

Espero que esse recorte do cotidiano possa dar esperança e ajudar as pessoas que passam ou virão a passar por sofrimento semelhante.

                                Nahman Armony

 

 

A ANÁLISE POSSÍVEL


A ANÁLISE POSSÍVEL: REFLEXÕES SOBRE O ALCANCE E LIMITES DA TÉCNICA ANALÍTICA.

Embora eu disponha de um tempo limitado não conseguirei ir adiante sem antes confessar que a palavra ‘técnica’, atualmente, gera-me um certo desconforto não obstante eu a use.  Para mim ela transmite a ideia de que se o aprendiz seguir as regras expostas pelo mestre, ele (o aprendiz) se tornará um bom profissional. Creio que ninguém concorda com este tipo de aprendizado, pois o bom profissional é mais um artista que um técnico. Por isso a análise pessoal e as supervisões são indispensáveis numa formação psicanalítica. E o supervisor sempre deverá estar atento para evitar uma cópia (uma técnica) sem alma. Talvez fosse melhor substituir a expressão ‘técnica analítica’ por techné analítico. Esta antiga palavra grega não separa a arte da técnica. Elas formam uma unidade: uma amalgama-se à outra. 

 

        Desde que Freud contaminou a sociedade patriarcal com a peste da psicanálise suas mutações não cessaram de inquietar a sociedade provocando em muitos profissionais um tumulto psíquico que se traduzia numa frase superegóica repetida até a exaustão: “isto não é psicanálise”. Uma frase que, sem agravos, poderia ser substituída por um esconjurativo ‘vade retro Satanás’. Pois é justamente esta capacidade viral de transformação que mantém a psicanálise viva. O Freud da ciência da observação minuciosa sabia disso e fez da psicanálise uma ciência em transformação. Mas aqui se faz necessária uma ressalva. Em relação a alguns conceitos ele era intransigente, acreditando proteger a psicanálise naquilo que acreditava ser constitutivo de sua singularidade. De qualquer maneira, com ou sem a aprovação dos grandes mestres, a psicanálise não cessou de ampliar suas fronteiras e nem cessará, pois para permanecer viva terá de participar das aceleradas mudanças de mentalidade, de paradigma, de subjetividade.

Para expor a trajetória da clínica (techné) psicanalítica clássica à clínica da intersubjetividade certamente terei de começar por Freud. Ele viveu num regime vitoriano/patriarcal em que as pessoas em posição de poder colocavam-se em um patamar superior ao das pessoas que deles dependiam. Assim eram as relações pai/família, professor/aluno, médico/paciente, marido/mulher, etc. e naturalmente analista/analisando. Esta posição hierárquica fazia do analista um sujeito de um pretenso saber; uma tentação que tomava várias formas. Também criava um distanciamento quase impossível de ultrapassar.  

Nas “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise” Freud adverte: “O médico deve ser opaco aos seus clientes e como um espelho não mostrar-lhes nada exceto o que lhe é mostrado”. No meu artigo “Posturas terapêuticas na prática clínica” chamei a esta atitude de postura-espelho (atualmente prefiro a expressão modo-espelho).  E mais adiante, neste mesmo artigo: “Não posso aconselhar insistentemente demais os meus colegas a tomarem como modelo, durante o tratamento analítico o cirurgião que põe de lado todos os sentimentos, até mesmo a solidariedade humana, e concentra suas forças mentais no objetivo único de realizar a operação tão competentemente quanto possível...” A clássica liturgia psicanalítica facilita e mantém estas recomendações. O analista, fora do alcance do olhar do analisando não se revela através das expressões faciais, das movimentações do corpo e das atitudes globais, facilitando assim a manutenção da idealização. Ao mesmo tempo cria uma distância entre ele e o analisando. O modo-espelho seria pois acompanhado de uma configuração em que de um lado está o analista, do outro o analisando e entre eles um espaço neutro onde o analista coloca as suas interpretações e de onde o analisando as recolhe. Não há um contato direto, corpo/afetivo entre ambos; o procedimento do analista é verbal/interpretativo. Temos de um lado o sujeito do saber que interpreta e do outro o fulano do não saber cujo inconsciente é interpretado pelo psicanalista. Este era e eventualmente ainda é considerado o estado basilar da relação analítica. O analista revela ao Cs. do analisando o seu Ic. (do analisando) até então não desvendado e aguarda pacientemente o encontro da representação de palavra consciente dita pelo analista e guardada na mente do analisando, com a representação de objeto inconsciente para que se dê o insight. Nesta configuração o instrumento mais importante (para não dizer o único) da terapia psicanalítica é a interpretação.  Creio que aqui cabe uma nota: estou apresentando um esqueleto teórico da clínica de inspiração freudiana (que não é a clínica de Freud). O preenchimento deste esqueleto cabia (e cabe) aos analistas que usam esta teoria. E cada um a preencherá à sua maneira. O que não pode faltar nesse preenchimento é o procedimento interpretativo (comportamento interpretativo).

Para manter o procedimento interpretativo e o modo espelho, o analista necessitava colocar barreiras evitando uma porosidade psíquica generalizada, pois essa propiciaria uma perigosa mistura afetiva que destruiria a possibilidade de um tratamento analítico. Com o conceito de identificação projetiva de Melanie Klein a fobia dos analistas em relação a serem afetados pelos analisandos começa a se desfazer, pois falar de identificação projetiva é falar da afetação provocada pelo analisando no analista. Aparece uma zona de porosidade ampliando-se o escopo da psicanálise. Já é possível tratar de crianças através de brinquedos. Mas a interpretação continua a ser o eixo central da análise. Quanto à porosidade ela é ainda limitada.  Ilustrando através de minha alegoria: as produções dos analisandos pulam o espaço intermediário que separa analista de analisando e forçam sua direta entrada no mundo psíquico do analista ainda refratário a esta invasão. Estou-me referindo à identificação projetiva e introjetiva; elas caem diretamente no mundo psíquico do analista que então tem a tarefa de aproveitá-las para apontar uma dinâmica relacional. A ideia não era mantê-las por um tempo no psiquismo aguardando seu amadurecimento e sim esperar uma oportunidade para, logo que possível, livrar-se daquela carga transferencial perturbadora e transformadora. Há uma abertura porosa para receber o conteúdo, mas não há a preocupação de deixá-lo amadurecer. Ele será usado para uma interpretação transferencial quando as condições estiverem propícias. Melanie Klein não se deu conta de que a identificação projetiva era um cavalo de Troia, pois só pode existir identificação projetiva e introjetiva quando o analista está apto e disposto a receber dentro de sua psique afetiva as fantasias dos analisandos, criando-se um potencial de perturbação relacional. Uma citação preciosa de H.Segal traz um esclarecimento da concepção kleiniana: “A técnica kleiniana baseia-se rígida e psicanaliticamente nos conceitos psicanalíticos freudianos ---- O papel do analista limita-se à interpretação do material do paciente e toda crítica, conselho, encorajamento, tranquilização e coisas semelhantes são rigorosamente evitadas... Poder-se-ia dizer, em consequência disso que não há lugar para o termo ‘técnica’ kleiniana?” Hanna Segal responde que diante de um material até então desconhecido da psicanálise surgiram “novas interpretações, raramente ou nunca utilizadas na técnica clássica”. A novidade que Klein e sua escola não alcançaram e que veio a dar uma reviravolta na psicanálise foi o conceito de ‘tempo de maturação’, implícito na sua teoria e que estou explicitando através de um batismo. Este foi o primeiro e imperceptível passo na direção da vivencia compartilhada (covivência) e, portanto, da intersubjetividade.

Bion, a partir dos conceitos de identificação projetiva acrescenta as palavras ‘continente’ e conteúdo. Ao usá-las Bion amplia a área de porosidade. É este continente que receberá a identificação projetiva. Mas este autor parece temer reificar os conceitos e não diz claramente que o continente é aquele locus do analista que acolhe as identificações projetivas do analisando. Por esta mesma razão ele não fala de tempo de maturação embora seu exemplo princeps (bebê que projeta os elementos beta na mãe que após uma elaboração os devolve como elementos alfa) deixe perceber que lá está o conceito.

Bleger se aproxima ainda mais do conceito de tempo de maturação e de modo continente: “Temos de constituir-nos em depositários fiéis da parte psicótica e atuar como pais tolerantes; damos tempo para crescer e não sobrecarregamos com problemas demasiado prematuros para o ego do paciente.” Essa citação refere-se mais particularmente ao que Bleger chama de personalidade ambígua, que nada mais é que o nosso borderline.

A obra de Winnicott tem dado, e cada vez mais, uma fundamental contribuição à difusão do modo covivencial de tratamento, acrescentando ao eixo clínico centrado na interpretação, na transferência e na contratransferência, um outro eixo clínico: a covivência, o modo continente e o tempo de maturação. Tendo vivido, vivenciado e estudado profundamente a relação mãe-filho ele colocava-se poroso na relação, especialmente nas situações em que o analisando solicitava transferencialmente a presença da Personificação da Mãe. Evidentemente esta posição transferencial mantém uma hierarquização ontológica (obs.: que nem sempre está presente na atividade terapêutica de Winnicott.). E mesmo a hierarquização era suavizada por sua sensibilidade à vida emocional dos seus analisandos. Para que se entenda melhor meu pensamento recorrerei a um símile com uma mãe real: seria uma mãe que conseguiria ser amiga sem perder a autoridade hierárquica criativa/educativa. Como todo símile este é também imperfeito, mas útil para efeito de transmissão de uma ideia.

Uma das raízes da intersubjetividade é a psicologia do self de Kohut, especialmente com seus conceitos de empatia, introspecção vicariante, self/objeto, transferências selfobjetais; acrescente-se a ideia de narcisismo como qualidade humana com tendência a amadurecer independentemente da sexualidade e “a ideia de que os únicos dados adequados para a compreensão psicanalítica são aqueles acessíveis por introspecção e empatia”(Peter Lessen).

SEARLES E A SIMBIOSE TERAPÊUTICA

Searles ganhou prestígio como analista de psicóticos e borderlines. Dentre suas muitas contribuições interessa-nos o seu conceito de simbiose terapêutica onde se juntam o procedimento covivencial e o modo simbiótico. O modo espelho é a expressão máxima de afastamento afetivo. O modo simbiótico-fusional é o estado máximo de intimidade e de mutualidade afetiva. O analista está, da mesma maneira que o analisando, envolvido na simbiose; exagerando pode-se dizer que já não se sabe quem está em tratamento. Embora o tratamento seja de mão dupla, a maior experiência afetivo-cognitiva do analista no que diz respeito aos fenômenos intersubjetivos fará dele o principal terapeuta e o responsável pela análise. De qualquer forma os transtornos já não são privilégio do analisando; o analista deles participa. Esta inclusão do analista nas dificuldades do par amplia consideravelmente o alcance da psicanálise tanto em extensão quanto em profundidade.

Estas ideias se coadunam com uma corrente que vem se desenvolvendo nos Estados Unidos com o nome genérico de intersubjetividade. Há muitos pensadores nesta área que concordam no fundamental, mas discordam nos detalhes. A ideia fundamental é a de um encontro de duas pessoas com intenções terapêuticas, cada uma delas trazendo as suas complexidades subjetivas que ao entrarem em relação criam um campo intersubjetivo comum onde não há lugar para hierarquias. A pergunta que se coloca é: até que ponto as duas subjetividades poderão se ajudar? Os obstáculos não podem ser ignorados. Uma ideia que aflora quase instantaneamente é de que, como todos os seres humanos, os analistas têm um inconsciente dinâmico que se vela e desvela; pode ser que na terapia a relação funcione como um modificador de dinâmicas importunas beneficiando os dois participantes; mas pode ser que não; a análise então encontra um limite. Um outro encontro intersubjetivo, com outro analista, de mesma orientação ou não, poderá abrir novas sendas. O limite será, portanto um limite relativo (contingente) que poderá ser considerado intransponível até um eventual momento feliz, que poderá acontecer ou não, em que será ultrapassado. Um recurso que poderá transformar a impossibilidade em possibilidade de ajuda psicanalítica é o uso de medicamentos. Uma adequada diminuição de ansiedade ou de depressão poderá ser o suficiente para o prosseguimento do tratamento psicoterápico psicanalítico. (Aqui fica claro que considero a psicanálise uma forma de psicoterapia. Esta formulação é uma derivação espúria de uma fala de Winnicott: “Faço psicanálise porque é do que o paciente necessita. Se o paciente não necessita análise faço alguma outra coisa”.)

Até aqui tenho falado de limites contingentes. E os limites inerentes às próprias teorias? Eu acredito que se a psicanálise continuar a participar das transformações da subjetividade/mentalidade/cultura certamente ela sobreviverá, certamente com novas diferenças clínicas e teóricas aparecendo. Chamar a essas novas teorias de psicanálise ou não, é uma questão entre esquecer nossas raízes ou sentirmo-nos como galhos de uma árvore genealógica tão fértil que deu e continuará a dar muitos e muitos frutos.

                                                       Nahman Armony       

  

 

           

          

NIHIL (de meu livro "O Anverso e o Verso")

Retratos espalhados na voragem do Tempo
Revolvidos pelo destino
Derivam ao seu sabor.
Pedaços de minha vida
              Passada, presente, futura.
Alguns talvez bons
Outros maus, belos, heróicos, infelizes...
                 Que importa?
Que adianta?

Passado. Presente. Futuro
  
           NÃO

Futuro apenas.
Só o Futuro existe
Assustadoramente eterno
Assustadoramente imutável.

Retratos espalhados na voragem dos séculos
Revolvidos pelo tempo indiferente que os consumiu todos,
Todos.

Futuro tragando passado e presente.
Senhor absoluto.
Entidade única.

O Nada

                                               Nahman Armony

                                                 


A RECONSTRUÇÃO INTERIOR ATENUA A DOR DA SEPARAÇÃO DOS AMANTES

                                                                          
Quando duas pessoas se amam forma-se, imaginariamente, um entrelaçamento de raízes que, provindas dos dois parceiros, emaranham-se. Por elas corre uma seiva que nutre e fortalece. Essa rede, se mutilada, pode causar sofrimento. Para ajudar a desfazê-la, é preciso tomar consciência de que os sentimentos despertados pertencem à própria pessoa. 

 

Quando um casal separa-se, é quase certo que haja sofrimento de um ou dos dois membros do par. Um sofrimento que vai do doloroso ao insuportável. O sentimento está ligado a uma dinâmica que varia de casal para casal e deve ser examinado em sua singularidade, a qual será mais bem compreendida se antes obtivermos uma visão mais ampla das relações amorosas.

Para essa generalização, tomemos como guias as idéias de distância e de penetração. Um casal pode relacionar-se distanciadamente, cada um preservando sua individualidade, privacidade, intimidade. O contrário também ocorre: ambos deixam-se penetrar pelo outro. E há o caso em que os dois são penetrados um pelo outro, mas preservando o núcleo de sua individualidade.

O maior sofrimento ocorre quando há uma diferença na profundidade da relação. Aquele que mais se entregou é quem vai enfrentar maior sofrimento e dificuldade em aceitar o rompimento, mesmo quando se trata de um passo óbvio e saudável.

Quando falo de profundidade visualizo uma pessoa lançando penetrantes raízes na imagem do amante e dela recebendo raízes também profundas modificadoras da imagem. Os dois utilizam o mesmo processo. Estou falando de uma realidade psíquica análoga à realidade virtual. Essas raízes se entrelaçam, formando um emaranhado que oculta suas origens, não mais se sabendo qual o seu pertencimento. Por elas passa uma seiva nutridora, um dar e receber que alimenta a personalidade. Não importa o quanto de realidade e de fantasia há na percepção do dar e receber, pois o que nos interessa é a imagética psíquica, virtual.

Na separação, a pessoa tende a compor uma imagem inconsciente de um desarraigamento das raízes compartilhadas, sofrendo um sentimento de perda, não só do outro; também de si. Esse desatamento é tão violentamente doloroso que dele fugimos como de uma catástrofe. Lembremo-nos, porém, que estamos no terreno da realidade psíquica, cujo aspecto de virtualidade permite realizar novas composições. Pode-se então desemaranhar as raízes, tornando a separação mais exeqüível e menos dolorosa.

Uma jovem de 30 anos, pouco favorecida pelo destino quanto à qualidade das uniões afetivas, encontrou um parceiro que despertou sua capacidade de dar e receber amor. Intensa ligação se desenvolveu e, com ela, enorme medo de perda, o que levou o casal, em especial a mulher, a exagerado controle mútuo. A união foi se envenenando a ponto de se tornar insuportável. O vínculo oscilava entre céu e inferno; ora um amor infinito, ora um ódio sem limites. O desgaste era terrível. Os dois concordaram que a separação seria a única saída. Da resolução à prática, uma enorme distância. A jovem procurou, então, ajuda. E esta veio na forma de um tratamento psicanalítico. O casal desfez a parceria e ela se mudou do apartamento comum. Mas pensava nele a toda hora e vigiava-lhe a vida e os amores. Só aos poucos entendeu que a capacidade de afeto era propriedade dela, não algo cedido pelo companheiro. Sendo a ternura uma posse sua, poderia ser despertada por outro homem. E algum tempo após a separação, encontrou uma pessoa que tocou as cordas de sua harpa interior. Foi um fato magno, pois ali teve a prova inconteste de que a capacidade de amar lhe pertencia, não sendo dádiva do amante. Com isso dinamizou-se a separação do antigo companheiro.

O processo de desemaranhar as raízes confundidas é tão mais longo quanto mais o casal amalgamou as cartas de seus afetos, desejos, vaidades, realidades, fantasias.

No final, sempre fica algo de um no outro. Mas o que resta precisará ser sentido como próprio e não como alheio. É o ganho que cada um terá da relação desfeita.

 

                                                                              Nahman Armony

        Primeira publicação na revista CARAS.

EXPERIÊNCIA EXEMPLAR - EXPERIÊNCIA MODELAR

                                   Nem  tudo nessa vida é modelar, mas tudo é exemplar.[1]

               

                PAM é a primeira palavra jamais dita por um ser humano. Ela surgiu quando um nosso ancestral, atacado pelo equivalente a um lobo, lançou mão de um tronco de árvore que, por acaso, estava ao seu alcance e abateu o animal. No momento do abate, nosso corajoso  antepassado gritou PAM. Evidentemente, neste momento ainda não possuímos uma palavra. Trata-se de um som associado a uma ação e dela faz parte. Ao atacar o lobo, nosso personagem realiza movimentos voluntários com braços, mãos e pernas, e movimentos suplementares involuntários com o restante da musculatura, necessários à manutenção do equilíbrio corporal. Além disto, deve estar possuído de um estado psicológico particular, um estado colérico que lhe permita superar o medo e atacar. Este estado psicológico está acompanhado de manifestações físicas diversas, incluindo-se aí os sons emitidos. As alterações corporais ao mesmo tempo expressam e mantêm o estado de cólera necessário à luta. Digamos que o nosso genial tetravô, após a morte do inimigo, e antecipando de séculos o jubilo comemorativo de um jogador de futebol ao fazer um gol, tenha descarregado seu excedente de energia brandindo o tronco acima da cabeça e, cheio de alegria, tenha repetidamente gritado PAM ao mesmo tempo em que dava pulos de contentamento, numa espécie de dança e canto primitivos da mais intensa euforia. Neste momento, o conjunto do comportamento comemorativo, incluindo-se aí o significante PAM, poderia significar: "matei o lobo e estou feliz por estar vivo e meu inimigo morto". PAM, aqui, é um dos aspectos da ação e da emoção; a emoção descarrega-se pela ação e o grito é também ação: o músculo diafragmático empurrando o ar do pulmão através da glote, fá-lo sair da cavidade bucal numa explosão bilabial. Sendo ação PAM é também um som.          

                Imaginemos um segundo momento. Desta vez, nosso gênio está acompanhado por um outro ser humano. Por acaso, estão distantes entre si e um tronco jaz perto do companheiro. Nosso personagem pressente que vai ser atacado por um mamífero carniceiro e corre em direção ao tronco gritando PAM. Seu companheiro espantado e mobilizado pela situação, acompanha a corrida do amigo ouvindo o som PAM repetido. A cena termina com um happy end, matando-se o animal. PAM aqui, ainda pertence a uma ação e a uma situação singular; porém já se independentiza do gesto de ataque e sobrevoa por sobre toda a seqüência vivida. É um som que dá um precário mínimo destaque ao objeto "tronco", um significante cujo significado seria aproximadamente o seguinte: "quero o tronco para poder matar o meu inimigo mortal". Inicia-se aqui a sua função de comunicação.

                Terceiro momento: novamente Brucutu (nosso gênio) e seu companheiro. Com a diferença de que o atacado é o companheiro. Brucutu ao vê-lo em perigo aponta para o tronco e grita "PAM" correndo em seu auxílio. PAM continua pertencendo a uma situação particular, real e atual. Porém ganha uma ainda maior independência. Agora, ela indica mais claramente um objeto delimitado, aponta para uma existência, embora esta existência mal se distinga do conjunto da situação vivida; distingue-se porém o suficiente para agora merecer o nome de "palavra"; uma palavra que dita em meio a uma ação real, pertence a esta ação. Aqui o significante PAM poderia ser traduzido por "pegue este tronco para se defender". Sua função de comunicação está se consolidando.

                Quarta cena: Brucutu conta sua aventura para os companheiros. Re-produz a cena vivamente e nesta re-produção emprega o significante PAM em todos os seus usos anteriores: como inerente à ação de matar, como inerente à explosão de júbilo comemorativo e como indicativo de um objeto carregado de uma importância vital dentro da seqüência de uma ação. Neste caso, diferentemente dos outros, a situação embora singular e real no sentido de uma existência em si e por si, não é atual, mas sim uma re-produção vivencial, uma repetição diferencial de uma situação já ocorrida. Os objetos não estão presentes, mas o relato re-produz a intensidade experiencial, atualizando e dando força,  vivacidade e presença aos objetos ausentes, aos acontecimentos já passados. Há uma certa independentização da cena re-produzida em relação ao acontecimento, e a palavra PAM, partícipe da re-produção, está acumpliciada nesta independência. PAM goza pois de uma dupla "certa"-independência: a que vem de sua vinculação a uma re-produção vivencial e a que se pode reconhecer pela delimitação de um certo território, que, embora fluido, não deixa de ter certo destaque.         

                Quinta cena: Brucutu tem à sua volta um grupo de crianças e, preocupado com os perigos da floresta, resolve  lhes ensinar a se defender. Inventa então uma cena em que, atacado por um lobo, abate-o com um tronco. Da mesma maneira que no exemplo anterior PAM aqui é usado em suas várias acepções, dando-se-lhe, contudo,  certo destaque como objeto de agressão/defesa o que faz ressaltar sua angulosidade indicativa; este modo de visada não se apresenta porém como um foco nítido já que o objeto PAM está mergulhado na intensidade dos acontecimentos, neles perdendo os seus contornos de pura indicação. O objeto PAM não tem seus limites determinados pela extensão física do tronco, mas continua-se e apaga-se na emocionalidade e força propulsora dos acontecimentos. Voltaremos, mais tarde, a este aspecto. Neste momento quero mirar o acontecimento PAM pela perspectiva de seu salto qualitativo nas modalidades do pensar. Vejamos: Brucutu participou de inúmeras caçadas e foi atacado por lobos inúmeras vezes. O desempenho re-produtivo que ele realiza não se refere a uma caçada específica mas representa um resumo, uma contração, uma síntese vivencial feita por ele mesmo e à sua maneira de todas as caçadas das quais participou. É, portanto, uma cena ao mesmo tempo reproduzida e imaginada, repetida e inventada, porém uma invenção calcada em experiências e atuada para os garotos como uma experiência viva, embora não seja real como a cena 4, nem atual como a cena 3. Podemos chamar a esta performance experiencial que está sendo vivamente transmitida, de experiência exemplar, pois aqui Brucutu traz um exemplo vivo, pleno de força e emoção para os garotos. Para estes, tanto faz Brucutu re-produzir uma experiência singular ou atuar uma experiência exemplar. O que conta para eles é que Brucutu possa envolvê-los em sua narrativa, colocando-os dentro da atividade da caçada. Para isto, Brucutu deverá estar finamente sintonizado com os sentimentos, expectativas e fantasias da platéia, o que exige dele uma abertura perceptivo-emocional para a cena presente, a cena que está sendo vivida com os meninos. Este aprendizado vivo será a base para qualquer outro aprendizado que possa ser realizado. Os objetos só adquirem interesse e significado plenos quando implicados em vida e emoção. A vantagem de Brucutu atuar não uma situação concreta, mas uma situação exemplar está no fato dele poder condensar em uma única performance as experiências mais marcantes, mais importantes e mais freqüentes, podendo graduar a ênfase segundo o conjunto de suas experiências e de acordo com as reações do público. Mais tarde, o aedo terá à sua disposição situações exemplares das quais se utilizará para se comunicar vivencialmente com a platéia. Estas situações exemplares serão chamadas de mitos.

                Sexta situação: séculos se passaram. Um outro salto se realiza. Esta mesma cena é agora contada sem teatralização, apenas com palavras, o que cria um distanciamento afetivo e vivencial. Nesta modalidade revolucionária separa-se designação de emoção; a palavra PAM apenas nomeia um objeto, dando-lhe contornos nítidos, isolando-o da situação viva, e possibilitando assim o seu estudo como objeto em si. Ele pode ser agora fisicamente estudado, transformado em  moléculas e átomos, cortado, macerado, queimado e o que mais se queira experimentar. Pode ser avaliado em seu peso, consistência, força de impacto, etc. Pode-se fazer um estudo minucioso de seus atributos, de suas propriedades defensivas e ofensivas, da técnica de manejo, etc. Pode-se inclusive realizar um treinamento com o objeto, aperfeiçoando-se assim o seu uso. Em seguida, pode-se escrever um tratado das propriedades, usos e técnicas relativas ao PAM. Este tratado não será mais uma síntese de situações vividas, mas será justo o resultado de um distanciamento afetivo e gnosiológico das situações em si intensas e vibrantes. Estamos agora diante de uma teoria que fornece um modelo teórico intelectual para a utilização do objeto, uma teoria que se comunica, que transmite o conhecimento através de um modelo. Tanto faz tratar-se de um modelo aberto, aquele que permite uma flexibilidade ao leitor, ou de um modelo fechado a ser inflexivelmente copiado. Mesmo a teoria modelar aberta difere da teoria exemplar por separar o objeto do seu contexto, o observador da vivência. O conhecimento comunicado pela teoria modelar faz com que as situações apareçam geometrizadas, reduzindo os acontecimentos a esquemas minimalistas, tirando-lhes a vitalidade, a intensidade e a vibração.[2] Já o conhecimento comunicado pela teoria exemplar mantém a força e a intensidade com que a vida decorre; é um conhecimento e comunicação instalados no devir e que estão imbricados, misturados, aos acontecendos em todas as suas dimensões. O conhecimento (e comunicação) modelar, dependendo do uso que dela se fizer, poderá ser valiosamente útil ou extremamente perigosa. Imaginemos Brucutu, no instante da luta, pensando nas propriedades da madeira; desviada sua atenção do momento presente será presa fácil para o mamífero carniceiro. Mas, se incorporada à experiência, o conhecimento (e comunicação) modelar aumentará o repertório possível de ações de Brucutu. É preciso, pois, que o conhecimento modelar se insira de tal maneira no devir, que ela própria venha a se constituir em experiência. Transformar o modelo em experiência, eis a utilização ideal do estudo realizado fora dos acontecendos.

                A filosofia platônica, com o seu mundo de essências servindo de modelo para o mundo das aparências, fornece um protótipo de conhecimento modelar enquanto que o mito recontado diferencialmente pelo aedo em sintonia fina com os sentimentos da platéia, dá-nos o paradigma de comunicação exemplar. Poderemos compreender melhor  teoria-modelar e teoria-exemplar se nos reportarmos às concepções de corpo e alma em Platão e no aedo Homero. Para Platão melhor a alma conhecerá as essências quanto menos sujeita ao corpo; é na morte que a alma, inteiramente liberta dos grilhões do corpo, poderá finalmente visitar sem limitações o mundo das idéias, adquirindo assim o conhecimento pleno das essências. Homero não nos fala de alma enquanto vida vigora; enquanto vivo, o corpo está vivificado pela pneuma - sopro vital. A alma - psiqué -,  só se faz presente no momento da morte. Esta alma é apenas uma sombra, um êidolon, privada de entendimento e de capacidade de comunicação.[3] Se, analogicamente, pensarmos na palavra como dotada de corpo e alma, diremos que a palavra homérica fala de um objeto como parte  dos  acontecendos, mantendo alma e  corpo unidos, enquanto que a palavra platônica retira o objeto do devir, separando corpo e alma. Esta separação que segundo Platão permite o verdadeiro conhecimento (episteme), na perspectiva de Homero torna-o quase impossível.

                A comunicação exemplar passa-se no devir e sua unidade pensante é o corpomente em indissolúvel união. A comunicação, a relação e o conhecimento fazem-se diretamente de pessoa a pessoa.

                        A comunicação modelar ao introduzir um terceiro - o modelo - promove um desvio que passa pelo conceito e que ao retornar à relação inter-sujeitos a empobrece e desvitaliza. No modo exemplar a teoria é móvel, modificando-se na medida em que novos acontecimentos vão sendo vividos e incorporados à experiência. Assim, a teoria exemplar (teoria-mito) está em perene transformação, refazendo permanentemente a síntese dos acontecimentos. Esta precariedade, aparentemente inconveniente, torna-se fecunda se pensarmos nestas sínteses em termos de repetição diferencial, de eterno retorno espiralado. Poderemos então nos apropriar da teoria como experiência viva, como memória de frescor estético indestrutível, como repertório experiencial e vivencial a ser atualizado quando a situação vivida o solicitar. A comunicação/relação/conhecimento acompanhará as ondulações e meandros do devir.




[1]BENJAMIN, Walter , 1985b “A Imagem de Proust”. In: _________,   Magia e Técnica, Arte e Política, p. 36.. Neste mesmo livro, no ensaio “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskow”, 1985c encontra-se outro trecho pertinente à “História do Pam”: “Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre uma história que está sendo narrada. Para obter essa sugestão, é necessário primeiro saber narrar a história (...) A arte de narrar está definhando porque a sabedoria - o lado épico da verdade - está em extinção. Porém esse processo vem de longe. Nada seria mais tolo que ver nele um ‘sintoma de decadência’ ou uma característica ‘moderna’. Na realidade, esse processo, que expulsa gradualmente a narrativa da esfera do discurso vivo e ao mesmo tempo dá uma nova beleza ao que está desaparecendo, tem se desenvolvido concomitantemente com toda uma evolução secular das forças produtivas. O primeiro indício da evolução que vai culminar na morte da narrativa é o surgimento do romance no início do período moderno (...) Ele se distingue, especialmente, da narrativa. O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência de seus ouvintes. O romancista segrega-se. A origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes...”. P. 200/201.
[2]Ver MORIN, E., 1991, p. 20: “...o filósofo das ciências, Bachelard, tinha descoberto que o simples não existe. A ciência constrói o objeto extraindo-o do seu meio complexo para o colocar em situações experimentais não complexas. A ciência não é o estudo do universo simples, é uma simplificação heurística necessária para libertar certas propriedades e mesmo certas leis”.
[3]Cf. BOHADANA, E., 1990.
 
                                                                Nahman Armony 

(do livro Borderline: uma outra normalidade.) 

MOMENTO ETERNO

TRANSMUTAÇÕES

 

Havia pavor em seus olhos.
Olhei no fundo de seu pavor
E juntos
Enfrentamos o inominável.
 
Havia Morte em meu corpo
E em minha alma
Mas não em meus olhos.
 
A súplica dos olhos de minha filha
Varreu de meu ser a angústia do Além
E me tornou Puro, Forte,
Uma Rocha,
A olhá-la com a força dos Deuses Benfazejos.
 
Nem eu mais a olhava
Nem ela mim.
Nossos olhares eram uma só intensidade
Lutando contra o Horror.
Quatro olhos infinitos
Formando um infinito arco
Intransponível.
 
O choro era um grito de Vitória
O grito uma Sinfonia Guerreira
A dor, um amuleto ancorado
Nas cem correntes entrelaçadas
Protegendo a Vida
                         a Alma
                              O amor.
 
A paz no fundo da dor
Os olhos no fundo da paz
O fundo na paz dos olhos
Os olhos nos olhos
A olhar
A trançar
Retraçando caminhos.