TÉCNICA PSICANALÍTICA OU ARTE PSICANALÍTICA?


        A palavra técnica é usada -- embora cada vez menos -- para dar conta dos procedimentos a serem realizados na sessão analítica. Com a evolução da psicanálise a palavra ‘técnica’ passou a incomodar por dar a ideia de uma utilização mecânica de preceitos, retirando o que é fundamental para uma relação analítica: a arte do relacionamento, a sensibilidade amorosa, cujos paradigmas são encontrados no conceito winnicottiano de ‘preocupação materna primária’.  Procurou-se atenuar este incômodo adjetivando-se a técnica: passamos a falar de ‘técnica expressiva’. Esta foi uma maneira que alguns psicanalistas encontraram para evitar usar a palavra ‘arte’ pois esta retiraria a cientificidade da psicanálise. No dicionário de filosofia de José Ferrater Mora a palavra ‘expressão’ é usada em três contextos: na filosofia, na semiótica e lógica e na estética. Foi esta última que me interessou. Citação: “Discutiu-se muitas vezes qual a relação entre conteúdo estético e sua expressão. Esta expressão tem sido às vezes identificada com a forma. Porém, como a forma tem um caráter universal, objetou-se que em tal caso há que identificar a expressão como um conjunto de norma ou regras de caráter objetivo. Em suma, a expressão seria simplesmente a imitação. Para evitar esta objetivação da expressão, disse-se que a expressão é sempre e em todos os casos, de índole subjetiva; dependendo da experiência estética e de suas numerosas variações.” O verbete técnica revela o seguinte: “Os gregos usavam o termo ‘téchne’ (com frequência traduzido por ‘ars’, ‘arte’ que é a raiz etimológica de ‘técnica’) para designar uma habilidade mediante a qual” se faz algo”... “Em geral ‘téchne’ é toda uma séria de regras por meio das quais se consegue algo.” Há que chamar a atenção para o seguinte: na primeira proposição, onde a ênfase é colocada na habilidade produtiva, ars e téchne, arte e técnica ficam confundidas; é quando a palavra ‘técnica’ (e aí estamos na segunda proposição) passa a privilegiar , não a habilidade, nem o produto desta habilidade, mas o conjunto de regras a ser seguido, é então que a arte e técnica se diferenciam. Repare-se o paralelismo entre técnica e o uso da objetividade e arte e expressão subjetiva.

        Neste ponto várias perguntas me ocorrem. Como se chegou a tal conjunto de regras? Como se faz uso delas? Uso intelectual? Se eu seguir estas regras ainda estarei no campo da arte? Ou minha atuação passará a ser robótica, despida de vida, força, intensidade, convicção?

        O compósito ‘técnicas expressivas’ põe em relevo este paradoxo e nos estimula a pensar esta contradição. Expressão é um termo no qual está embutida a ideia de espontaneidade. Técnica é uma palavra que carrega a ideia de algo laboriosamente aprendido. Como realizar a conciliação entre técnica e expressão? Se caricaturarmos o analista clássico do século passado teremos uma figura imponente, pomposa, com algumas estereotipias: uma delas é começar a comunicação com as palavras ‘você está-me dizendo que...’; outra é a permanente referência à transferência; outra ainda é fazer jogos de palavras, etc. Este analista aceita --- e mesmo, estimula --- ficar colocado na posição de um Ser onipotente que tudo sabe e tudo pode mesmo quando se declara não sabendo e não podendo. A fala deste analista será estereotipada e, portanto, não expressiva; será uma palavra intelectual que em nome de uma técnica ficará despida de emoção. Felizmente estamos nos distanciando destes tempos e o analista hoje fala como gente. Usa uma palavra expressiva, como costuma ser expressiva a palavra na comunicação leiga. A expressão deverá ser parte inerente da comunicação terapêutica. Sabemos que existe uma comunicação simbólica e uma comunicação expressiva. A comunicação puramente simbólica é pobre. Faz dormir. Não convence. Não motiva. Se eu lesse esse trabalho monocordicamente estaria realizando uma comunicação puramente simbólica. Mas vocês estariam entediados, talvez sonolentos, quem sabe dormindo. É preciso que a palavra carregue a vida do analista dentro dela. Esta pulsação básica só ocorre quando o cliente é importante para o terapeuta e vice-versa. Como diz Winnicott, quando existe uma relação de mutualidade. Cria-se então um campo afetivo-emocional-empático-identificatório; a emoção do cliente lhe é devolvida pelo terapeuta na expressividade da palavra e do comportamento. Ele, cliente, sente-se então amado, existente, tendo um lugar no coração do analista e no coração do mundo. A expressividade é a música do analista: está nas variações melódicas e rítmicas das palavras e na expressividade do corpo e dos movimentos. O analista canta: conta e canta. E o conto do analista só adquire força se for um conto cantado. Não se trata de um jogo de palavras. A música da frase é talvez ainda mais importante que o seu significado. Lembro-me de um colega, pesquisador inveterado, falando as maiores barbaridades para um clientinho de seis anos em tom carinhoso, e obtendo uma resposta, não à letra, mas à música de sua comunicação. É compreensível que assim seja. A voz é um dos mais expressivos instrumentos musicais existentes. A música, sem dúvida, é um desdobramento da voz. Encontramos na fala os elementos essenciais da arte musical: ritmo, melodia, fraseado, andamento, movimento agógico, expressividade, etc. A música da voz é anterior à fala e esta apenas acrescenta uma significação simbólica a esta música. É claro que para o adulto, diferentemente do exemplo que dei, é importante uma coerência entre significação simbólica e a expressão afetiva. Porém a significação simbólica só entrará no psiquismo do outro se for mediada por uma expressão musical apropriada. É esta expressividade que faculta as transformações. Como adquiri-la? Como aperfeiçoá-la? Sem dúvida, a expressividade é aprendida no calor das primeiras relações. Cabe ao homem e ao terapeuta mantê-la viva e atuante, permitindo-se ser sensível sempre à comunicação verbal e não-verbal do outro. Novas formas de expressão podem ser adquiridas expondo-se a homem e o terapeuta a situações inéditas. Nestes últimos dez anos, participei de alguns laboratórios que permitiram incorporar ao meu repertório pessoal, outras formas de expressão. Mais que técnico, foi um aprendizado vivencial. Nesta perspectiva, a expressividade é apreendida e aprendida através da experiência. É a ação de colocar em jogo a expressividade num estado de receptividade que a aperfeiçoa. Trata-se muito mais de poder estar sensível, em um estado de identificação, empatia e comunhão do que buscar nos arquivos a conduta adequada.

Toda essa fala anterior leva-nos à questão da espontaneidade; é uma questão complicada. Posso esperar que surja espontaneamente em mim a ação mais adequada para aquele momento terapêutico? Aperfeiçoando a pergunta: se eu estiver em estado de sensibilidade, em contato com meus sentimentos, medos, desejo e fantasias, se eu estiver ligado às manifestações transferenciais e contratransferenciais, se eu estiver num estado de empatia e identificação, então aparecerá espontaneamente a melhor conduta terapêutica? Ou haverá ocasiões em que terei de me por em estado de reflexão para encontrar o melhor caminho? Neste momento estarei fazendo uma escolha técnica? Será igualmente efetiva para a terapia, tanto um fluir artístico-espontâneo quanto uma escolha técnica? Ou haverá momentos próprios para cada uma dessas condutas?

Um conceito que poderá nos ajudar nesta busca é o de espaço potencial e área transicional de Winnicott; isso se considerarmos a técnica como o polo objetivo do espaço transicional e a arte como o polo subjetivo. Mas não estou querendo expor verdades. Estou colocando questões com o pensamento voltado para a multiplicação de nossos pontos de referência, o que, em minha opinião, permite uma maior riqueza vivencial e reflexiva e, portanto, uma compreensão mais ampla e diferenciada do universo humano. Cada um poderá pensar nestas questões de acordo com a própria cabeça e personalidade, encontrando assim caminhos que lhe serão próprios, acoplados às suas idiossincrasias. Por isto mesmo não estou buscando resolver as contradições que surgem no texto; não estou tentando trazer para uma convergência os vários feixes de ideias. Ao contrário, percebo que estes feixes podem se entrecruzar das mais variadas maneiras, que por vezes podem correr paralelos e que enfim, o caleidoscópio se formará à imagem e semelhança de cada um.

Falemos, pois, outra vez de técnica e expressividade, agora numa nova perspectiva. Pensemos num pianista que aprende laboriosamente uma técnica, e que, enquanto a está aprendendo não pode expandir-se, não pode colocar toda a sua expressividade na interpretação. Porém, no momento em que a técnica se transformar em uma segunda natureza, então sim, poderá deixar fluir toda a sua emoção. A técnica deixou de ser uma preocupação e transformou-se em forma de expressão. Não forma inata, mas aprendida e assimilada a um ponto que o inato e o adquirido não se distinguem. O inato, como ficou dito anteriormente, pode ser aperfeiçoado; a maneira condizente com tal aperfeiçoamento é a experiência viva, flexível e aberta à modificação. Pode, porém, ser aperfeiçoado por um aprendizado propriamente técnico (conjunto de regras). Este, porém se articula melhor com o não-inato. Neste caso a técnica será aprendida mediante um esforço disciplinado e enquanto estiver sendo aprendida interferirá com a espontaneidade e a arte do terapeuta. Porém, uma vez transformada em segunda natureza, dotará o analista de mais recursos tornando-o mais capaz de lidar com as variadas situações que se apresentam.

        Deixei alguns fios soltos, algumas possibilidades em aberto. Por exemplo, não examinei a possibilidade de articular técnica e arte ao falso self e verdadeiro self. Dentro do espírito de mestre Winnicott e usando a terminologia de Umberto Eco, deixo este artigo como obra aberta a ser processada pela subjetividade pessoal de quem o lê. Espero que cada um selecione os “seus” fios e os disponha e desenvolva à sua maneira. Espero ter podido transmitir, não propriamente algo original, mas a originalidade de minha singularidade, que é o que nos permite enriquecermo-nos mutuamente.  

                                               Nahman Armony

DIMENSÕES

No dar medido
Eu me arranho

Eu me arranho
Nas escarpas do medo
No vazio existencial
Na solidão fundamental
Em nada atenuada
Pelo mergulho vaginal
Declaradamente assombroso
Superficialmente saboroso
Discretamente nervoso.

O espasmo recalcitrante
Não atinge o limite.

O mergulho vazio 
No cio
Da natureza defendida
Resumida
Em forma de gente
Esculpida
A golpes de mente.

O magma da terra
O coração cantante
A estrela fulgurante
O ritmo cósmico
Tudo isto é falta.

Meu mergulho vaginal
Permanece horizontal
Os sucos apenas me molham
Não me consomem
Não me penetram.

Como retirar forças de um Universo morto?

Há uma pálida compreensão
Existencial
Da dimensão horizontal
Há uma entrega indigente
Contente
De se fingir gente
Diante
Da frente familiar.

Há que viver 
O que a vida oferece
Seja grande ou pequeno
Seja parte o total

Mas,

E quando o mergulho vaginal
Permanece horizontal?
O que fazer com tanta falta?
Onde fica a substância?
A densidade?
A inteireza?

Como andar no mundo
Em duas dimensões?

            Nahman Armony

do meu livro "O Anverso e o Verso"

VIVER SÓ OU ACOMPANHADO


        Este meu novo ofício de cronista do amor tem-me levado a ficar atento aos acontecimentos pertinentes a essa área. Em recente programa de televisão depoimentos de uma maioria de mulheres na faixa dos 30 anos dava como causa de separação as diferenças de gostos: enquanto ela apreciava a paisagem bucólica das montanhas ele preferia divertir-se na praia. Podemos multiplicar estas diferenças: gostar ou não de cinema, de ar-condicionado, de ficar em ou sair de casa, etc. Gostos que, na verdade, não são fundamentais para a vida de cada um.
        O apaixonamento passa por cima de todos os gostos. É um impulso tsunâmico avassalador que leva tudo de roldão na ânsia de abraçar e se fundir com a outra pessoa. Mas a paixão tem vida limitada. Se duas pessoas pretendem criar uma história em comum necessitam de se amar. Amor é carinho, companheirismo, ternura, confiança mútua, divisão de tarefas, satisfação de estarem juntos, mútuo amparo e outras coisas deste jaez. O sexo da paixão explode na ânsia de entredevoramento: o sexo do amor surge do carinho, da ternura, do sentimento de gratidão.
        O ideal é que paixão e amor possam caminhar juntos. Sendo a paixão um sentimento mais fugaz, a base de um relacionamento estável só poderá ser o amor. Para que paixão e amor convivam é preciso que a linha levemente sinuosa do amor seja periodicamente invadida por picos de paixão. Céu claro do amor e céu tempestuoso da paixão. Choque cósmico de estrelas espalhando brilhos fascinantes nos corações e luz mansa das auroras e vésperas enchendo as almas de calmas belezas.
        Se a paixão é irresistível, o amor está sujeito a temperaturas e temperamentos. Voltamos então ao depoimento das mulheres de 30. São mulheres socialmente e financeiramente realizadas que podem escolher entre viver sozinhas ou com um companheiro.
        A vida de casal é potencialmente mais rica e confortável. Pesquisas têm demonstrado que casados vivem mais que solteiros; os casados (ou equivalentes), podem melhor relaxar na presença de um companheiro amoroso, íntimo e confiável, recuperando-se melhor dos estresses da vida.
        Por que então, nesta amostra, a maioria dispensou o companheiro por uma banal questão de gosto? Certamente que a divergência poderia ser resolvida democraticamente, ora satisfazendo o prazer de um, ora de outro. Ou então um poderia ir ao futebol e outro ao teatro sem perturbar o básico da convivência de um casal.
        Esta pergunta merece pelo menos duas respostas. Pareceu-me que por trás da teimosia em não abrir mão em hipótese alguma de um gosto estava a necessidade de afirmação da individualidade. Ceder ao desejo do outro seria abdicar de si mesmo, da essência de sua personalidade, transformando-se em capacho, um nada, um zero à esquerda. A questão deixa de ser aquilo de que se gosta ou não e passa a ser a conservação ou não da própria essência pessoal.

        A segunda resposta está estreitamente ligada à primeira. Estamos mergulhados em uma cultura individualista. O modo de criação dos filhos da geração que agora chega aos 30 anos foi não opor obstáculos aos seus desejos. As crianças desde cedo se acostumaram a impor suas vontades aos pais. E quando adultos não conseguem conviver com desejos que limitem os seus. Com isso privam-se da delícia da íntima convivência amorosa.
        É verdade que alguns procuram vencer o individualismo e lutam por aceitar restrições às suas vontades. Alguns são bem sucedidos, outros não.
        Não quer dizer que um modo de vida seja melhor que o outro. Enquanto Tom Jobim nos diz que “é impossível ser feliz sozinho” outros dizem que amor é ilusão que só traz sofrimento. Cada um escolhe o caminho que quer e que pode. Mas não posso deixar de notar que a grande maioria das letras poéticas canta o amor e lamentam a sua perda.   
                                        Nahman Armony  

   Primeira publicação na revista CARAS

WINNICOTT, INOVADOR


        Winnicott, tendo produzido sua obra no início e durante o desenvolvimento de um período tumultuado (1950-1970) (1896-1971), dá uma importante contribuição teórica e prática para mudar a situação, criando novos paradigmas. Diante de um mundo à beira da desorganização ele encontra conceitos a partir de suas observações e de suas práticas indicando um caminho de restauração das relações humanas.
        Para melhor compreendê-lo precisamos colocá-lo em um contexto histórico. Para isso usarei o artifício de uma dialética hegeliana. Teríamos então como tese a Repressão do período vitoriano onde Freud é a figura psicanalítica proeminente; como antítese a permissividade excessiva; e para a síntese apresento paradoxalmente Winnicott e seus paradoxos um dos quais é a combinação de limites com liberdade. Exp. da folha. Nos limites da folha a liberdade é máxima.        
        Vamos rapidamente passar os olhos por esses vários períodos.
        Período repressor vitoriano. Modelos de comportamento. Estritas regras de convivência. A boa educação; o "gentleman". Autoritarismo. Verticalidade. Freud, a repressão sexual e a repressão. Recalque. Limites colocados duramente. Castração. Culpa. Medo. O limite é vivido como imposição imperativa. Desconsideração pela subjetividade e intersubjetividade; objetivação do mundo.
        Período permissivo pós-moderno. Permissividade radical. "É proibido proibir". Falta de limites. Desconsideração, violência, drogas, desordem, caos, desrespeito, desestruturação.
        Em direção à síntese. Muitos pensadores, especialmente sociólogos procuram caminhos para uma síntese. Eu não diria que Winnicott tentou propositadamente encontrar este caminho. Ele não era sociólogo. Mas sua atividade clínica especialmente com bebês levou-o a extrair vários conceitos que são novos paradigmas sendo os mais importantes, em minha opinião o conceito de "holding" e o de espaço intermediário.
        Listarei as várias mudanças de paradigma.  
        Mudança de paradigma - pulsão x relação de objeto (Fairbairn).  Na pulsão: o aparelho psíquico, pressionado por suas pulsões internas precisa descarregá-las; vai então à busca de um objeto adequado para isto. Na relação de objeto: um ser humano busca outro ser humano para se relacionar. Na linguagem de Winnicott- pulsão freudiana (instintos do id) e relação afetiva mãe-bebê (instintos do ego). Mãe-objeto e Mãe-ambiente. Maior importância à mãe-ambiente (atmosfera de afeto) que à mãe-objeto (alvo do instinto). Importância da mãe-ambiente no desenvolvimento do bebê. Importância do ambiente no desenvolvimento do ser humano. Em direção ao paradigma holístico. "Não existe esta coisa chamada bebê".
        Na relação mãe-filho o holding. Holding é uma mudança de paradigma. Nem está no paradigma do autoritarismo, nem no paradigma da permissividade.
        Paradigma holding- sustentação física e psicológica. Acolhimento. Compreensão.
Holding e limites. Limites colocados com carinho. Dos braços da mãe aos braços da lei. Atitude: firme e carinhosa. O limite é vivido como contenção necessária que não afeta a liberdade. Na castração freudiana limite como muro contra o qual a criança bate a cabeça e no holding winnicottiano como cortina que demarca o limite com flexibilidade e sem machucar. Citação de Winnicott: "... a criança provoca as reações totais do ambiente, como se buscasse uma moldura cada vez mais ampla, um círculo que teria como seu primeiro exemplo os braços ou o corpo da mãe. É possível perceber aqui uma série - o corpo da mãe, seus braços, o relacionamento dos pais, o lar, a família, incluindo os parentes próximos, a escola, o bairro com a sua delegacia, o país e suas leis". (p.411 do artigo "Tendência antissocial"). Holding é muito mais que sustentação física; é sustentação afetiva; é a percepção e mesmo a intuição das necessidades da criança e o seu atendimento
        Paradigma "mãe suficientemente boa". O conceito mãe-suficientemente boa deixa um espaço para a falha, para a falta, para o erro. O atendimento ao bebê jamais poderá ser perfeito. Mas basta que a mãe seja suficientemente boa para possibilitar o crescimento do bebê e da criança. Este conceito tem interessantes repercussões filosóficas e epistemológicas. Estamos falando de uma mãe que na maior parte do tempo, tem a sensibilidade necessária para compreender e atender as necessidades afetivas do bebê, mas que nem sempre, por uma razão ou outra, está sensível ou disponível para atender o filho. O conceito de mãe-suficientemente-boa tem repercussões filosóficas e epistemológicas influindo numa mudança paradigmática mais geral, pois a modernidade tinha como meta a busca da perfeição. Com este conceito Winnicott coloca-se fora da transcendência, pois a perfeição só lá existe. Ele nos traz para a realidade humana, isto é para a imanência. Aqui se faz necessário interrogar um outro conceito winnicottiano: o "erro necessário". É preciso que o cuidador erre para que o bebê e a criança possam se diferenciar e evoluir. Muitas vezes, diz-nos Winnicott, o analisando se empenha e faz com que o analista erre. O conceito "erro necessário" poderia nos confundir em relação à sua imanência. Mas não devemos usá-lo como pretexto para voltar a falar da Perfeição transcendente, não só porque o erro é conscientemente involuntário não estando referido a uma perfeição, como também existem erros desnecessários. Mas, mesmo estes, podem ser eventualmente aproveitados para o crescimento da díade mãe-filho ou da díade terapêutica. (Estou falando do paralelismo mãe-filho e terapeuta-cliente).
Exemplos: Simon Grolnick escreve no seu livro "O trabalho e o brinquedo": "Um dia, quase ao final da sessão estávamos tendo o que parecia uma sessão comum. Eu tinha ficado acordado até tarde, na noite anterior, e estava também evidenciando os primeiros sintomas de uma doença viral. Adormeci e tirei uma soneca durante a qual teria ocupado alguns segundos. No início, o paciente começou a conversar, enquanto eu cochilava: mais tarde, no entanto, reuniu a coragem para enfrentar-me, perguntando se a mudança de meu ritmo respiratório devia-se ao fato de eu ter adormecido. Ao mesmo tempo em que minha primeira reação seria de tentar defender-me e dar-me uma oportunidade de pensar numa estratégia, pedindo ao paciente que relacionasse ao que ele ouvira e sentira, decidi assumir a acusação e contar a ele acerca de minha ida tarde para a cama, na noite anterior, bem como acerca da sensação de estar ficando doente. Após certa hesitação, ele desandou a chorar. Quando conseguiu se conter, falou que tinha certeza de que eu não lhe contaria a verdade e que eu tentaria, tal como eu o pensara, proteger-me. Ele explicou suas lágrimas como um sinal de gratidão e de aproximação para comigo. E continuou, estabelecendo associações com o incidente. Ambos os pais haviam sempre tentado encobrir suas falhas pessoais de inúmeras maneiras. Isso o fizera sentir que teria de ser perfeito para ganhar seu amor. Estava evidente que a parte dele que poderia apresentar falhas teria que ser enterrada, e não receberia validação de parte de seus pais. Ele sentiu que eu atingira uma área que não tinha sido atingida durante sua psicoterapia anterior. Seu primeiro terapeuta não admitia erros" (ps.120-121). Outro exemplo: “Uma analisanda muito emocionada, não contendo o choro falou-me de um paciente seu que a tinha afetado profundamente. A intensidade do sentimento de minha analisanda fez com que eu me comovesse e deixa-se escapar lágrimas que ela notou. Eu disse que a intensidade de seus sentimentos tinha-me tocado. Na sessão seguinte ela apresentou duas reações: disse que se sentiu aliviada e confortada com minhas lágrimas, pois ela percebeu a dificuldade que estava tendo de, na sua tese de doutorado, fazer uma liga entre o intelectual e a vida. Por outro lado teve sonhos estranhíssimos, sonhos dentro de sonhos dos quais apresentarei alguns elementos dispersos: no sonho ela havia adormecido e ao acordar tudo estava fora de lugar em sua casa. Tinha cortado seu cabelo. Pombos invadiram sua casa e sua mãe a olhava pela janela. No sonho ela adormeceu de novo e sonhou com um cabeleireiro, com uma cabeleireira, com uma faxineira e comigo. Eu falei da dificuldade mas também da possibilidade de ultrapassar preconceitos”.
Dificilmente poderemos falar de erros em psicanálise. Talvez caiba falar em erro quando uma intervenção do psicanalista provoca situações irreversíveis como desistência de tratamento. Mas se adotarmos um ponto de vista não onipotente e holístico poderemos dizer que cada terapeuta devido ao seu temperamento e personalidade tem áreas de atuação que vão de extremamente adequadas a extremamente inadequadas. Se um tratamento não progride ou nele se criam situações irreconciliáveis podemos pensar que aquele terapeuta não era o adequado para aquele analisando e que o melhor que pode acontecer é mudar de terapeuta. Imaginemos que os psicanalistas formem uma comunidade. Dentro desta comunidade haverão aqueles mais apropriados, menos apropriados, e os inapropriados para tratar de certa pessoa. Assim, se não tivermos uma visão individualista, mas sim holística será escolhido um terapeuta apropriado. Ora, um analisando desistir de um tratamento pode ter exatamente este sentido: de buscar um terapeuta apropriado. É claro que esta é uma situação utópica impossível de existir em um sistema capitalista.   

13-   Outro paradigma - o antissocial como esperança e pedido de socorro. Uma criança que não tem um atendimento suficiente bom na fase de dependência absoluta sofre uma privação (privation - ausência [Dicionário Michaelis]), uma privação que para ela não tem rosto; é simplesmente um acontecimento da natureza assim como o terremoto, as enchentes, etc. Isso é assim porque nessa fase ainda não há uma diferenciação eu---não-eu. Já na fase da dependência relativa a criança reconhece a mãe como um não-eu e a responsabiliza pelo comportamento que a faz sofrer. Um bebê que teve um atendimento suficientemente bom e deixou de tê-lo sofre de uma deprivação (deprivation - perda). Em relação à deprivação ele pode ter reações anti-sociais que vão desde a mentira, ao roubo e à agressividade destrutiva. Com o ato anti-social ele tenta chamar a atenção para si, na esperança de voltar a ter um atendimento suficientemente bom. A agressividade destrutiva pode ser um resultado do fracasso, mas é ao mesmo tempo um repto para que se ponham limites à sua ação. A criança, o adolescente e o adulto durante um certo tempo são recuperáveis. A partir de certo ponto o comportamento anti-social se estrutura e dificilmente é reversível. De qualquer maneira, este ponto de vista estabelece um novo paradigma para delinqüentes ainda passíveis de recuperação. Um paradigma que vai para além da psicanálise. Sem dúvida poderia ser também um paradigma para juristas.    
14-   Paradigma criatividade: Criatividade não tem para Winnicott o significado de fazer algo novo. Claro que isso também. Mas, basicamente a criatividade é sentir que cada objeto do mundo foi, digamos, onipotentemente criado pela própria pessoa. Isto liga o ser humano inextricavelmente ao mundo dando-lhe um sentido e uma cor pessoal. Tudo isso começa quando a mãe suficientemente boa permite que o bebê viva um "momento de ilusão".
Momento de ilusão: Quando o bebê sente fome forma-se nele a expectativa de algo que vai terminar sua fome. Quando no momento da fome o seio aparece, ele tem a ilusão de havê-lo criado. O seio então é sentido como tendo sido criado por ele. O momento de ilusão é uma experiência de onipotência. Foi ele o bebê quem criou o mundo. Esta é uma experiência decisiva, pois lhe permite que venha a ser uma pessoa com consistência e organicamente ligada ao mundo. E esta é a fórmula geral de Winnicott para o conhecimento e relação com o mundo. O mundo é apresentado ao bebê e ao ser humano em geral no momento em que esse ser humano está indo de encontro ao mundo. O cuidador não impõe o mundo àquele que está sob seu cuidado. Ele o apresenta no momento azado, isto é, no momento em que a criança ou o analisando está pronto para criá-lo. A fórmula paradoxal aqui é: criar o que já existe. Uma variação desta formula é "recriar o que já existe" isto é, dar a sua contribuição pessoal a um objeto do mundo. Desta forma cada um acrescenta ao consenso, àquilo que é objetivamente percebido algo de sua subjetividade recriando o objeto. O objeto é ao mesmo tempo objetivamente percebido e subjetivamente concebido tal qual nos primórdios aconteceu com o seio. Esta é também uma mudança de paradigma que ficará mais evidente comparando-se uma citação de Freud a uma de Winnicott. Citação de Freud: Freud e a imposição: "O superego conservará o caráter do pai, e quanto mais intenso foi o complexo de Édipo e mais rapidamente se produziu a sua repressão (pela influência da autoridade, a doutrina religiosa, a educação, a leitura), tanto mais rigoroso será depois o império do superego como consciência moral, talvez também como sentimento inconsciente de culpa, sobre o ego".
Winnicott e a apresentação: "Fica claro que, de acordo com a teoria que uso em meu trabalho, você está possibilitando ao seu filho desenvolver um sentido de certo e de errado ao ser uma pessoa confiável nessa fase formativa inicial das experiências da vida dele. Se não tiver êxito com o seu bebê desse modo (e certamente se sairá melhor com um bebê do que com um outro), terá de tirar o melhor proveito possível de ser estritamente um ser humano, embora saiba que coisas muito melhores poderiam estar acontecendo no processo de desenvolvimento natural da criança. Se fracassar por completo, então deve tentar implantar idéias de certo e errado através do ensino e do treinamento assíduo. Mas isso é um substituto para o procedimento realmente válido, é uma confissão de fracasso e você vai detestar essa idéia; e, em todo caso, esse método só funciona desde que você, ou alguém atuando no seu lugar, esteja presente a fim de impor a sua vontade. Por outro lado, se puder dar a partida para o seu bebê de modo que, através da sua confiabilidade, ele desenvolva um sentido pessoal de certo e errado, em vez de medos primitivos e toscos de retaliação, você descobrirá mais tarde que pode reforçar as idéias de seu filho e enriquecê-lo com as suas próprias idéias".
É preciso que no gesto criativo esteja a mãe presente para recebê-lo. Caso contrário a criatividade se eclipsa. Vejamos uma carta de Winnicott a M.Klein de 17 de novembro de 1972: "o que eu queria na sexta-feira era sem dúvida que houvesse algum movimento de sua parte para com o gesto que fiz naquele trabalho. Trata-se de um gesto criativo e não posso estabelecer relacionamento algum através deste gesto se ninguém vier ao seu encontro. Acho que eu estava querendo algo que não tenho nenhum direito de esperar de seu grupo e que tem a natureza de um ato terapêutico, algo que não consegui em nenhuma de minhas duas longas análises, embora tenha conseguido muitas outras coisas" (pag.30 - "O gesto espontâneo"). Também é preciso que a Mãe aceite as contribuições transformadoras do filho. Outro trecho da mesma carta: "Pessoalmente acho que é muito importante que seu  trabalho seja reafirmado por pessoas que façam descobertas à sua própria maneira e que apresentem o que descobrem em sua própria linguagem. É desse modo que a linguagem será mantida viva". (idem).       
15-   OUTRO PARADIGMA - OBJETO E ESPAÇO POTENCIAL (TRANSICIONAL). A mãe suficientemente boa está em estado de "preocupação materna primária" durante a qual a díade vive uma fase de fusão o que permite que a mãe "adivinhe" as necessidades do bebê atendendo-as imediatamente. Bebê e mãe vivem uma experiência de fusão. Isto não significa que a mãe não se diferencie do bebê. Ela sabe que se trata de dois seres distintos. Ela continua tendo uma vida para além do bebê, embora este seja prioridade, uma prioridade acompanhada de um sentimento de fusão. O que quer dizer fusão? Quer dizer que ela é o bebê mesmo quando exerce funções, comportamentos e responsabilidades que nada têm a ver com o bebê. Ela se amplia com o filho que preenche o seu corpo-psique as 24 horas do dia. Pelo lado do bebê a psicologia experimental e a neurociência provaram a sua capacidade de uma incipiente percepção e discriminação de objetos. Sob o ponto de vista estritamente sensorial (assim como acontece com a mãe) não se poderia falar de fusão; o que a mãe percebe é diferente do que ele percebe. Mas disso ele nada sabe e sua experiência é de que a mãe e ele são um único ser. Ele é o SER parmenidiano a única existência do cosmos. Tudo o que acontece é por conta de sua onipotência. A mãe surge no momento em que ele a necessita por conta de sua onipotência.  
16-   Fase de dependência relativa- A mãe deixa de atender imediatamente as necessidades do bebê. Isso o faz sentir uma "descontinuidade de ser" provocando ansiedades impensáveis: cair para sempre, desintegrar-se, desconexão corpo-psique, desorientação, etc. Antes que tal coisa aconteça o bebê preenche o espaço vazio da descontinuidade com um intelecto incipiente e com o uso de um objeto transicional (objeto-mãe e não-mãe) que, ao aparecer cria o espaço potencial. Este espaço potencial, dependendo do contexto em que é usado, adquiriu muitos outros nomes: espaço transicional (muito usado), espaço intermediário, espaço do brincar, terceiro espaço e outros. O objeto transicional é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo (é e não é a mãe). É o que permite o brincar da criança. Ele pode destruir ilusoriamente sem destruir realmente. Por isso o espaço transicional é também chamado de espaço da ilusão. Ilusão aqui não significa engano, ser iludido. Designa um lócus epistemológico. É como se vive o mundo. A lua pode ser ao mesmo tempo um objeto material e um objeto mítico romântico. O exemplo mais didático são as brincadeiras infantis com bonecos-família, que são objetos transicionais, pois ao mesmo tempo são imagens inanimadas (objetos objetivamente percebidos), às quais a criança dá vida inventando histórias (objetos subjetivamente concebidos). Na época vitoriana cientificista os homens se esforçavam em se manter no espaço objetivo, desvalorizando e repudiando a subjetividade que era inclusive vista como epistemologicamente perigosa. Com isto eles se colocavam numa camisa de força que os impedia de realizar variações com o objeto objetivo e também os impedia de sentir o mundo como parte de si mesmos e não como algo separado.  
O espaço potencial e o objeto transicional são uma mudança de paradigma. Até então só se falava de um mundo subjetivo e de um mundo objetivo. O espaço potencial que recebeu depois vários outros nomes (o mais freqüente é espaço transicional ou área transicional usando-se também espaço intermediário), é um espaço onde o objetivo e subjetivo se entrelaçam. O objeto transicional soldado ao espaço potencial é um objeto visto por uma pessoa como tendo ao mesmo tempo propriedades subjetivas e objetivas. Um contraponto à objetividade cientifica e à subjetividade psicótica, ambas imobilizadoras do pensamento e da ação. Um exemplo didático: um viúvo de poucas posses casa-se de novo. Ele não tem condições de comprar uma nova cama. Existem 3 diferentes maneiras possíveis de sua nova esposa vivenciar o uso de uma cama já desfrutada pela ex-cônjuge: 1- ser absolutamente objetiva e não se incomodar em usá-la; nesse caso estará reprimindo seus sentimentos. Estamos no terreno da neurose 2- ser absolutamente subjetiva a ponto de não poder usá-la em circunstância nenhuma. Aqui o terreno é da psicose. 3- sentir-se importunada pelas fantasias despertadas pela cama, mas podendo negociar consigo mesma e com o marido, sendo-lhe possível até usá-la, acreditando em sua capacidade de lidar com os seus sentimentos e fantasias. É aqui que nos deparamos com o espaço intermediário no qual, brincando e se engalfinhando, mesclam-se o subjetivamente concebido e o objetivamente percebido. Traduzindo em palavras a esposa poderia sentir mais ou menos o seguinte: "Certamente me incomoda o fato do meu marido ter feito amor nesta cama com outra mulher. Mas sei que isto é um sentimento que nada tem a ver com a realidade. A cama nem é a mulher e nem as noites de amor. Não desejo que estes sentimentos venham a perturbar minha coabitação e certamente eles se diluirão no tempo e espero poder vir a ficar à vontade com meu marido no leito nupcial, sem problemas de ciúme e contaminação". Ela não nega seus sentimentos, mas estes não a impedem de enxergar e levar em consideração o externo, a realidade objetiva.
Winnicott diz que vivemos a maior parte do tempo numa zona intermediária, nem externa, nem interna. Esta zona intermediária é um prolongamento do espaço potencial, que tem este nome por justamente ser um espaço de potência, de criação, onde se brinca com o espaço interno sob as vistas do externo e vice-versa. Nem a perspectiva objetiva nem a subjetiva são criativas. Elas são imobilizadoras das transformações psíquicas. A objetiva pelo fato de nos enquadrarmos no consensualmente acordado não inovando. A subjetiva pelo fato de não permitir influências do ambiente no psiquismo mantendo-se o subjetivo tal e qual. A transicional, esta conversa entre o objetivo e subjetivo é que permite transformações no psiquismo. Sem dúvida uma visão diferente da idéia de uma objetividade que permitiria realmente conhecer o mundo.


Vimos até agora algumas mudanças de paradigma: 1- Paradigma "holding" (relação afetiva mãe-filho. Relação de ego.). 2- Paradigma "mãe suficientemente boa". Um outro conceito de "erro". 3- Paradigma holístico. 4- Paradigma "deprivação". 5- Paradigma criatividade. 6- Paradigma "espaço potencial" e objeto "transicional". Todos têm a ver com a clínica, mas também atingem outros ramos do saber humano, tais como a criminologia, a educação, a filosofia e a epistemologia. A seguir falarei --- repetindo-me um pouco, mas indo mais adiante --- daqueles paradigmas que sem deixarem de ter importância para a clínica mais fortemente se aproximam da filosofia e de uma nova epistemologia.
1- Espaço intermediário 2- Uso do paradoxo (exp.: objeto e espaço transicionais. Criar o que já existe. Adoecer sadiamente. Estar só em presença da mãe. Medo do colapso. Erro necessário. Amor cruel.). Davi L. Bogomoletz distingue a lógica clássica, da lógica dialética hegeliana e da lógica paradoxal. Na lógica clássica a contradição não é aceita; um dos termos tem de ser eliminado; é a lógica do ou isso ou aquilo. Na lógica dialética os termos contraditórios interagem e se ultrapassam criando um terceiro termo. Finalmente, na lógica paradoxal os dois oponentes coexistem sem se integrarem (como na lógica dialética) e sem se destruírem (como na lógica clássica). 3- Vida criativa 4- teoria exemplar e teoria modelar; teoria e teorização; modelo e singularidade.

 Winnicott é um pensador aberto. Não se fecha em sistemas teóricos nem tenta construir sistemas teóricos coerentes. Ele não cria teorias. Ele (a partir de certa época) faz teorizações singulares, isto é, teoriza a partir de tratamentos psicanalíticos que está realizando. Estas teorizações muitas vezes confluem e configuram uma teoria. Ou, podemos dizer que há várias confluências de teorizações e algumas teorias. Certos conceitos seus são de tal forma interligados que formam uma totalidade impossível de destrinchar. Não se consegue apresentar um conceito sem referir-se a vários outros. E, no entanto, não são conceitos fixos, mas conceitos flexíveis que se adaptam às realidades clínicas que estão sendo vividas e descritas. A principal preocupação de Winnicott não é criar teorias, mas transmitir as suas percepções e sensações em relação à clínica que está desenvolvendo. Ele não se perturba com as pequenas incongruências lógicas de seus inúmeros artigos. Isto porque ele está mais ligado no desejo de transmitir a experiência viva do que construir uma teoria coerente. E, no entanto, quando o professor tenta transmitir a teoria tem muitas vezes a sensação de que a transmissão sucessiva de idéias é fraca, sendo sua vontade transmitir todas as idéias simultaneamente o que é, claro, impossível. É verdade que existem alguns inícios, mas a partir de certo ponto parece que temos nas mãos uma bola redonda que só poderia ser apresentada na sua totalidade de bola. Uma totalidade que inclui temas sociais, familiares, biológicos, éticos, etc. Uma abordagem holística.

Finalmente --- e aqui "finalmente" tem o sentido de um fecho da maior relevância, pois abre caminho para novos desenvolvimentos que envolvem a própria posição do homem no mundo atual --- finalmente, repito, falarei do artigo "O lugar em que vivemos", capítulo VIII do livro "O Brincar e a Realidade". Lá, em resumo, ele equipara o espaço potencial a um espaço do brincar e ao espaço cultural. E diz que o homem vive neste espaço que como já vimos tem outros nomes: espaço transicional, zona intermediária, etc. O que eu diria é que na modernidade vitoriana o homem tentou viver em um espaço objetivo o que o obrigou a recalcar a sua subjetividade com conseqüências danosas para o seu viver. O homem atual aceita viver no espaço transicional, isto é, aceita a convivência do objetivo com o subjetivo, sendo-lhe menos necessário utilizar a dinâmica do recalque. A sua subjetividade e suas fantasias ficam ao seu alcance através do processo de dissociação. A dissociação mantém as fantasias e os inúmeros desejos paradoxais ao alcance da consciência permitindo que sejam acessadas e controladas.
Fazer um coquetel com doses sensatas e equilibradas de objetividade e subjetividade; viver num espaço intermediário que funcione suficientemente bem. Esta é talvez a mudança de paradigma mais ampla e promissora com a qual Winnicott nos presenteou.    
                                        Nahman Armony     

                                               Maio/2011

PEQUENA HISTÓRIA DE AMOR

Aberto em dunas
Orvalhado em sais
Duros muros de cristais
Brilhantes, alucinantes
Olhos diamantes em choro cego
Granizo ponteagudo
Ferindo carnes
Bálsamo invertido
Dardos diáfanos
Penetrando espaços
Desfazendo laços
Violando intimidades
Alvos esquivos

A flecha dor-amor
A ferida-vida
O sim-não.

Dá-me, Senhor
Doi-me, Senhor
Doi-me muito, doi-me tanto,
Doai-me todo, Senhor.

O branco, o azul
A cor.
O berço-zero
O Descanso
O Remanso
A rua interna, o som da terra;
Devagar a vida recomeça
O seu eterno recomeçar.

A lua branca
       Platinada?
       Imobilizada?
       Aprisionada?

O realejo repete o canto de amor
Antigo como a velha dor.
A vida vai começar? Recomeçar?
Por onde?
Como?

Espectador em um cinema 
Faço suspense.

                            Nahman Armony 

INSEGURANÇA/FLUTUAÇÃO


         O homem pré-histórico vivia em estado de insegurança ameaçado que estava por animais predadores, doenças, plantas venenosas, condições climáticas, etc. Provavelmente, aos poucos, na medida em que evoluía mental e tecnologicamente o sentimento de insegurança foi-se reduzindo não deixando porém de existir. A segurança proporcionada pelo domínio do fogo e pela multiplicação e aperfeiçoamento de objetos de defesa e proteção não eram suficientes para deixa-los tranquilos. Foi preciso inventar seres supra-humanos para se sentirem protegidos. Mas o sentimento dominante ainda era de imprevisibilidade, insegurança, incerteza. Com as religiões monoteístas inventou-se uma segurança pós-morte; lá, no reino dos mortos, se encontraria a paz, a tranqüilidade, o amor, a estabilidade. Com a filosofia de Descartes e a física de Newton a mentalidade do homem foi mudando. Descartes e Newton prometiam uma felicidade plena que seria alcançada através de um pensamento racional iluminista e através do desenvolvimento das ciências. Nesse período concebia-se o mundo como um grande aparelho mecânico capaz de realizar previsões e intervenções precisas. Acreditava-se que o desenvolvimento da ciência com suas incríveis descobertas e realizações transformariam o mundo em verdadeiro paraíso de felicidade, tranqüilidade, segurança, estabilidade. Não haveria mais doenças e as máquinas, substitutivas do homem e mais eficientes que ele não deixariam que faltasse nada. Estabeleceu-se um clima de otimismo e o homem que até então aceitava a incerteza como parte da vida descartou-se dela e passou a exigir de si mesmo, do mundo e dos outros, estabilidade previsibilidade, segurança, felicidade permanente. Esta é a mentalidade que ainda tem seu lugar embora já existam muitas brechas por onde a insegurança e instabilidade se infiltram provocando abalos em todos os setores da vida humana, inclusive o amoroso. Consoante as expectativas de um período do qual estamos saindo, os casais deveriam se encontrar, namorar, casar e viver felizes para sempre. Havia um simulacro de estabilidade e sossego. Uma estabilidade tipo “eu mando, você obedece”; a paz reinava à custa de sacrifício e sofrimento eclipsados, mas isto era ignorado e o maior troféu era “o casal feliz”, “a família feliz”.
         Com o advento das relações igualitárias as divergências vieram à tona. A mentalidade atual não aceita que um dos membros do casal fique numa posição submissa, reprimindo seus desejos e sentimentos para manter uma suposta harmonia. Mas aqui surge uma questão: como conciliar as diferenças. E, mais especialmente, como cada membro do casal vai lidar com a sensibilidade e susceptibilidade do outro. Se eu digo alguma coisa que fere o outro devo então deixar de dizer? Até onde devo passar por cima de meus sentimentos para respeitar a sensibilidade do parceiro? Será que o parceiro está tendo este mesmo cuidado? Será que o respeito que tenho por seus sentimentos é o mesmo que ele tem pelos meus? Até onde devo me sacrificar pelo amado (a)?
         Não existe uma resposta precisa para essas questões. Ou, se existe ela é fugidia e depende da sensibilidade momentânea, do tempo pontual acoplado às experiências cotidianas, ao estado de espírito, ao estado de saúde. A bússola se encontra no âmago temporal da relação. Realiza-se uma ação e há uma resposta que deverá ser levada em conta para a próxima ação e assim por diante. Haverá momentos em que um dos dois estará em condições de receber uma maior carga potencialmente mobilizadora e poderá ser mais compreensivo. Haverá outros momentos em que as circunstâncias o tornarão mais frágil e isto deverá ser levado em consideração. Se imaginarmos uma linha imaginária estendida entre os pólos 1- “pensando em mim” e 2-“pensando no outro” com gradações ao longo do trajeto poderemos dizer que a possibilidade de uma relação satisfatória está no deslizamento do casal pela linha imaginária, ocupando a cada momento o ponto mais conveniente para o equilíbrio flutuante do casal.
                                              
                                               Nahman Armony

    Primeira publicação na revista CARAS.            


RUÍDO EM PSICANÁLISE

                                                    
            O conceito de “ruído” surgiu com a teoria da informação e logo se difundiu para outras disciplinas: cibernética, biologia  e computação são algumas delas. É um conceito frutífero e como tal merecedor destes transplantes. Por isto mesmo quero trazê-lo para o âmbito da psicanálise, pois acredito que, também nesta disciplina, ele possa render frutos teóricos e práticos. Para estabelecer uma referência inicial, citarei a definição de ruído que Atlan[1] retirou da teoria da comunicação:

“O ruído é tomado, aqui, em seu sentido derivado do estudo das comunicações: trata-se de todos os fenômenos aleatórios parasitas que perturbam a transmissão correta das mensagens, e que geralmente procuramos eliminar ao máximo. Como veremos, existem casos em que, a despeito de um paradoxo que é apenas aparente, pode-se reconhecer nele um papel benéfico”.[2]

 Os organismos vivos (máquinas naturais) têm uma aptidão para usar o ruído em favor de seu enriquecimento que as máquinas artificiais não têm[3]. Para fazer este uso positivo do ruído, é preciso que a ele seja atribuído um sentido. A teoria da informação precisou abstrair o possível sentido do ruído para submetê-lo a um tratamento matemático e estatístico. Isto não serve à psicanálise, que necessita atribuir um sentido ao ruído para utilizá-lo de forma positiva na terapia, transformando-o em fator de organização[4]. Portanto, em psicanálise, dependendo da posição em que o terapeuta se coloca, o ruído pode ser visto ou como mero barulho sem nenhuma sentido, um trambolho que atrapalha o curso da terapia, ou pode ser olhado do ponto de vista de seu sentido ou significado, podendo então ser integrado ao sistema comunicativo analista-analisando. É a história/narrativa psicanalítica das transformações dos ruídos de obstáculos inúteis e perturbadores a ferramentas úteis que apresentarei a seguir.
            Na última década do século XIX Freud concebia a psicanálise como uma atividade que, revelando ao paciente o trauma ou os traumas iniciais, tornando-o consciente das circunstâncias geradoras dos sintomas, faria desaparecer a doença psicológica. O próprio paciente deveria ou se lembrar de tais acontecimentos ou fornecer pistas para que o analista os reconstruísse. Mas o paciente apresentava resistências; ele não queria ou não podia trazer informações que conduzissem ao trauma inicial e suas circunstâncias. Uma das mais renitentes resistências era a transferência. O paciente passava a ter sentimentos intensos pelo analista, desviando-se daquilo que deveria ser seu trabalho: o de recordar. Um obstáculo intrusivo - era como a transferência, então, se apresentava. Um ruído inútil, indesejado e perturbador.

“De início, fiquei muito aborrecido com este aumento de meu trabalho psicológico, até que vim a perceber que todo o processo obedecia a uma lei; e então também notei que a transferência desta espécie não trazia quase nenhum grande aumento ao que eu tinha de fazer”.[5]

Nesta frase de Freud, escrita em 1895, podemos perceber que a transferência não é bem-vinda pois ela é, de início, um transtorno aleatório e imprevisível; e mesmo quando, em um segundo passo teórico, a lei a alcança, é apenas um trabalho a mais a ser feito. Trata-se de um ruído que deve ser descartado para que prossiga o trabalho de investigação psicanalítica. Em pouco tempo, porém, a transferência, de ruído indesejável, passa a organizador do processo psicanalítico. Em 1912 Freud escreve:

Não se discute que controlar os fenômenos da transferência representa para o psicanalista as maiores dificuldades; mas não se deve esquecer que são precisamente eles que nos prestam o inestimável serviço de tornar imediatos e manifestos os impulsos eróticos ocultos e esquecidos do paciente. Pois, quando tudo está dito e feito, é impossível destruir alguém in absentia ou in effigie[6].

            A contratransferência percorreu um caminho semelhante. Até aproximadamente a década de 50 representava para o psicanalista um perigo para a sua condição de profissional e um obstáculo ao prosseguimento do trabalho analítico. As poucas referências diretas de Freud à contratransferência são desta natureza[7]. Foi preciso esperar pela escola kleineana[8] para que a contratransferência tivesse o seu caráter de obstáculo eclipsado por sua utilização como instrumento de compreensão do psiquismo do analisando; para certos autores (Searles[9], por exemplo) além de um instrumento de compreensão, é a contratransferência um organizador ativo da dinâmica diádica.     
            Enquanto os ruídos transferenciais e contratransferenciais não eram considerados em seu sentido e significação, atuavam como perturbações incômodas da comunicação analista-analisando. Quando, adotando um novo enfoque, apreendeu-se a significação destes ruídos, incorporando-os, desta forma, ao processo analítico, transformando-os em fator de crescimento, os ruídos tornaram-se bem-vindos e desejados.
            Examinarei agora, à luz do conceito de ruído, a contratransferência desdobrada em contratransferência alogênica e contratransferência autogênica. 
            É importante assinalar, desde já, que contratransferência tanto se refere à postura/comportamento adotada em resposta à subjetividade do analisando quanto a situações dinâmicas mais específicas de inter-relacionamento fantasmático, quando então o analista apresenta sentimentos, fantasias e impulsos em relação ao analisando. Estes sentimentos/fantasias/impulsos podem estar em sintonia com o desejo do analisando e nesse caso diremos que a contratransferência é alogênica. Se dependerem mais do mundo psíquico do analista do que das solicitações-necessidades do analisando, teremos então uma contratransferência autogênica. A contratransferência alogênica não produz ruído pois, mais que uma comunicação entendida, é uma comunicação silenciosa, em que o analista é um objeto subjetivo, um fantasma do analisando. Já a contratransferência autogênica seria “ouvida” como ruído pelo analisando, já que a ação do analista seria estranha às suas expectativas, à sua organização psíquica. Isto, porém, em uma primeira aproximação. Mas, será que este pensamento se mantém?
            Usarei Winnicott para meditar sobre estes dois aspectos da contratransferência. A idéia winnicotteana de uma adaptação perfeita da mãe às necessidades do bebê e do analista ao analisando em regressão pode ser coberta pelo conceito de contratransferência alogênica: o analista está complementarmente identificado com o analisando. Mas logo aparece uma complicação: Winnicott fala de “falhas necessárias”[10]. Como pensar estas falhas necessárias? Como contratransferência autogênica ou alogênica, como ruídos ou não? A uma primeira e distraída visada poderíamos pensar que estamos diante de uma contratransferência autogênica, e que portanto estamos produzindo um ruído, uma interferência indevida na relação. Mas Winnicott nos diz que a falha é necessária para o desenvolvimento do bebê e do analisando[11]. Podemos mesmo pensar que o analisando provoca a falha no analista quando a hora da perfeição relacional, da simbiose terapêutica,[12] já cumpriu sua função. Neste caso, tendo sido a falha provocada pelas necessidades do analisando (poderíamos dizer, da relação), estaríamos diante de um ruído necessário à organização do psiquismo do analisando.
            Aqui temos uma questão delicada. O analista falha e sente que esta falha foi provocada pelo analisando. A linguagem que estamos aqui usando separa analista de analisando e atribui ao analisando uma ação de fazer falhar o analista. Se usarmos uma linguagem que não distinga analista de analisando, considerando-os, pelo contrário, uma unidade diádica, então a falha - que representa o desejo de separação-individuação[13] - não será atribuída nem ao analista nem ao analisando, mas à própria relação; o desejo de separação-individuação é da díada mas tanto pode aparecer no pólo analista como no pólo analisando, sem que se saiba que interações invisíveis houve para que surgisse o desejo de separação-individuação, produzindo a falha, o ruído organizador. Conhece-se o seu sentido: produzir separação-individuação; mas haverá sempre uma zona nebulosa em que não se saberá se a falha surgiu de uma necessidade do analisando (em outra perspectiva, da díada) ou se de uma problemática do analista.
            É também duvidoso que se possa separar inteiramente uma da outra. O que é possível dizer, e o que realmente importa, é que a falha pode ser mais ou menos facilmente assimilada pelo analisando ou pela unidade diádica (dependendo do ponto de vista), e ainda que a medida da facilidade de assimilação está na quantidade de trabalho, na quantidade de  empenho que o analista tem de colocar em jogo para superar a falha. Talvez o empenho e o trabalho possam também indicar a origem da falha; mas esta é uma questão mais acadêmica que prática.
            Pensemos, agora na articulação ruído-falha. Será que é o inicial repúdio do analisando à falha do analista e suas reações de frustração, raiva, dor, mágoa, ressentimento, que nos fazem falar de ruído? Ruído por atrapalhar a perfeição simbiótica? Ruído pelo repúdio do analisando à falha? Ruído pelo mal-estar que a falha provoca no analista? Ruído por não estar de acordo com a organização psíquica do receptor? Mas há que considerar que eventualmente a falha produz um sentimento de alívio tanto no analista quanto no analisando e que, freqüentemente, na seqüência da situação, ela torna-se bem-vinda. Esta é uma situação em que um intrincado vir-a-ser torna difícil sua expressão conceitual. Mas as dificuldades não param aí. Podemos pensar no analista falhando não por necessidade da díada, mas por uma necessidade sua, independente do funcionamento da unidade diádica (considerando que isto seja possível); uma contratransferência autogênica. Pois bem, mesmo assim, dependendo de seu esforço, empenho e habilidade o ruído desagregador poderá adquirir sentido, sendo recuperado como estimulador de transformações benéficas.
            Estamos aqui numa zona nebulosa de trânsito, de ir-e-vir, onde os conceitos têm dificuldade de acompanhar a complexidade do devir. Por isto mesmo, insistirei - correndo o risco aborrecer o leitor - no exame dos conceitos de contratransferência alogênica e autogênica, agora mais minuciosamente, esperando que assim o pensamento possa melhor capturar o devir-ruído em seus agenciamentos com a psicanálise. Estes conceitos foram por mim desenvolvidos em um artigo de 1974[14]. Deles apresentarei um rápido resumo.
            Contratransferência é uma reação afetiva e fantasmática do analista às produções, comportamentos e atitudes do analisando. Ela pode ser alogênica ou autogênica. Será alogênica quando for

“o resultado de identificações complementares (e/ou concordantes) que, ocorrendo através da mobilização dos          fantasmas do analista, coloca-o, no seu aspecto de participante, dentro do mundo fantasmático que o cliente está predominantemente vivendo naquele momento, estruturando-se um campo paratáxico predominantemente determinado pelo analisando”.[15]

Em outras palavras, na contratransferência alogênica o analista responde complementarmente ou concordantemente às afetações do analisando. A resposta do analista encaixa-se perfeitamente na solicitação do analisando, podendo-se dizer que a mensagem foi perfeitamente apreendida e corretamente respondida; nenhum “ruído” perturbou a sua recepção.
            Outra é a situação na contratransferência autogênica: ela pode ser definida como uma resposta “errada” do analista ao estímulo do analisando, resposta “errada” geralmente causada pela ansiedade advinda de fantasias do analista projetadas no analisando.[16] Pode-se dizer que os “ruídos” do Ic. do analista perturbaram a recepção da solicitação do analisando. É aqui que, usando a teoria dos ruídos, podemos complementar o que ficou dito acima. No trabalho já citado escrevo:

“...se a partir de sua intervenção inadequada {o analista} souber se conduzir com habilidade, empenho e coragem, poderá não só evitar um sério dano para a relação, como  também fazê-la progredir apreciavelmente”.[17]

Os ruídos provindos do Ic. do analista e que o fizeram realizar uma intervenção estrangeira ao campo fantasmático vivido no momento pelo paciente, podem reverter em um extraordinário avanço na terapia, desde que bem usados pelo analista. Estes ruídos forasteiros, ao invés de prejudicarem o crescimento da díada, são metabolizados e incorporados a esse crescimento, abrindo novas possibilidades de realizações.
            A exigência teórica de uma perfeita adequação às necessidades de simbiose, separação e de uma perfeita conformidade de subjetividades que poderia surgir a partir dos conceitos de postura continente, de postura simbionte e de disponibilidade/capacidade de identificação,  encontra aqui seu antídoto na possibilidade teórica de o erro - representante da diferença - servir como alavanca de progresso. Pode-se agora aceitar, sem culpa ou tergiversação, o fato de que é impossível ao analista manter, sem manquejar e esmorecer, a capacidade de responder sincronicamente ao paciente; haverá ocasiões em que não estará sintonizado ou receptivo à subjetividade solicitada pelo analisando, assim como não estará responsivo às solicitações fantasmáticas e afetivas do analisando. Suas respostas serão então ouvidas como ruídos pelo analisando. Mas serão ruídos que, dependendo da sua freqüência e intensidade, e da maneira de tratá-los,  poderão introduzir um fator de diferenciação, de vida, de crescimento na relação. A alteridade, a diferença, o incompreensível - o ruído, enfim, se bem trabalhado, adquirirá um sentido, promovendo mudanças favoráveis na díada terapêutica.
            Finalmente, uma síntese pragmática. Se o ruído, o aleatório, é uma fonte de crescimento, então, não-sintonizar por sintonia e não-sintonizar por acaso acabam por se aproximar, produzindo ou uma confusão conceitual - uma contradição do ponto de vista do paradigma da simplificação, ou uma inclusão sintetizadora, um paradoxo, do ponto de vista do paradigma da complexificação.
            Ao fim e ao cabo, a teoria dos ruídos é útil à psicanálise, pois facilita pensar na integração do novo, do diferente, do aleatório. Facilita também o exercício da alteridade. O analista poderá se colocar alteritariamente na sessão psicanalítica sabendo que aquilo que difere da organização psíquica do paciente, sendo trabalhado como ruído organizador, poderá ser assimilado e metabolizado, produzindo efeitos de crescimento. O analista ficará assim com duas possibilidades de atitude que poderão interagir entre si de várias maneiras: a possibilidade de entrar em sintonia fina (identidade), respondendo ao analisando de forma complementar ou homóloga (com toda a ambigüidade desta colocação já vista); e a possibilidade de exercer uma individualidade (diferença), tomando o cuidado de evitar que o ruído produzido permaneça sem sentido. Um ruído sem sentido ou significação é inútil e perturbador; um ruído ao qual se dá um sentido ou significação é fator de complexificação, de crescimento, de desenvolvimento. O ruído sem sentido ou ao qual não se atribui uma significação adequada não será assimilado pela organização psíquica do analisando; aquele ruído que tenha um sentido ou ao qual se outorgue uma significação poderá ter um efeito de expansão e versatilização.
            A liberdade teórica adquirida através da noção de ruído permitirá o exercício sem culpa de uma espontaneidade na relação/comunicação psicanalítica[18], uma liberdade que na prática já vinha sendo exercida por numerosos psicanalistas, especialmente por aqueles mais quilometrados e experientes. Esta espontaneidade deverá se dar dentro de uma insinuância[19]: a do objetivo terapêutico da relação[20]. O exercício espontâneo deste objetivo no quefazer diário do analista exigirá daquele que se inicia neste mister um tempo para que o trabalho de incorporação[21] possa ser realizado.

                              Nahman Armony
                                                                 

Recorte do livro "Borderline: uma outra                             normalidade" de minha autoria. Editora Revinter.




[1]Ver Henri Atlan(1979)- “Entre o cristal e a fumaça”. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1992.
[2]Ibid, pag.250.
[3]Atribui-se “aos organismos não apenas a propriedade de resistir eficazmente ao ruído, mas também de utilizá-lo a ponto de transformá-lo num fator de organização”. Ibid, pag.38.
[4]Ibid, capítulo 2: “Ordens e Significações”.
[5]Freud,S.(1895)- “A psicoterapia da histeria” in “Estudos sobre a Histeria”, pag.361, vol.II da Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Imago Editora, Rio de Janeiro, 1974.
[6]Freud,S.(1912)- “A dinâmica da transferência”,  vol.XII, pag. 143.
[7]Ibid. Ver “As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica”, no vol. XI, e o artigo já citado “A dinâmica da transferência”.
[8]Ver o artigo de Paula Heimann(1950) “On countertransference” in International Journal of Psychoanalysis, no 31, 1960.
[9]Ver Harold Searles(1965), “Collected Papers on Schizophrenia and related subjects”. International Universities Press, New York.
[10]Ver Winnicott “Dependencia en los cudados de la primera infancia y de la niñez, y en el marco psicoanalítico”,  especialmente pag. 319 in “El proceso de maduración en el niño”. Editorial Laia, Barcelona, 1975.
[11]Ver Winnicott(1963)- “Dependencia de los cuidados en la primera infancia y de la niñez, y en el marco psicoanalítico” in “El proceso de maduración en el niño”. Editorial Laia, Barcelona.
[12]Ver Searles “Collected papers on schizophrenia and related subjects”, pag. 308. International Universities Press, New York, 1965.
[13]O conceito de separação-individuação é de Mahler e pode ser encontrado no livro “O nascimento psicológico da criança”. Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977.
[14]Armony,N.(1974)-“Contratransferência alogênica e autogênica: duas noções auxiliares para a compreensão dos fenômenos contratransferenciais” in “Psicanálise: da interpretação à vivência compartilhada”, Editora Universitária Sta Úrsula, Rio de Janeiro, 1989.
[15]Ibid, pag.30.

[16]Ver na pag.30 o conceito de contratransferência autogênica.
[17]Ibid, pag.36.
[18]A noção de ruído tem um alcance epistemológico muito além da psicanálise e de cada outra disciplina que a usa pois mina a própria  idéia de perfeição tão cara à mentalidade ocidental.
[19]Esta noção será exposta no capítulo 2, ítem 3.
[20]Ver Armony: “Novos caminhos da técnica psicanalítica”, livro citado..
[21]Ver Armony, “Utilização de técnicas expressivas em terapia” e “Modificação do enquadramenteo terapêutico no tratamento de um cliente esquizofrênico” in livro já citado.