POEMA DA IMORTALIDADE

                    Como se sabe
                    Na natureza
                    Nada se cria, nada se perde:
                    Tudo se transforma.

                    E esta é
                    A minha grande esperança
                    De imortalidade.

                    Nahman Armony

WINNICOTT E A CULTURA


                   Estou-me propondo a discorrer sobre a contribuição de Winnicott relativa às transformações culturais decorrentes da passagem da modernidade para a hipermodernidade. As contribuições de Winnicott são inúmeras. Entre elas temos as ideias revolucionárias de mãe-suficientemente-boa, de paradoxo, de espaço potencial e objeto transicional, de agressão infantil e juvenil como pedido de socorro, de borderline ‘normal’ e outras. Neste artigo vou me dedicar a tentar entender sua pessoal concepção de normalidade e patologia borderline vis a vis com a normalidade e patologia neurótica. Esta compreensão é importante pois permite uma visão mais conforme às transformações que estão ocorrendo em nossa cultura e subjetividade.
A primeira dificuldade que encontro é a miscelânea que encontramos em sua obra no que diz respeito às palavras borderline, esquizoidia, psicose, esquizofrenia, fronteiriço e outras. Farei algumas citações para que os colegas tomem contato direto com as dificuldades de delimitação que encontrei. Winnicott:
“É na análise do caso do tipo fronteiriço que se tem a oportunidade de observar os delicados fenômenos que apontam para a compreensão dos estados verdadeiramente esquizofrênicos. Pela expressão caso fronteiriço quero significar o tipo de caso em que o cerne do distúrbio do paciente é psicótico, mas onde o paciente está de posse de uma organização psiconeurótica suficiente para apresentar uma psiconeurose, ou um distúrbio psicossomático, quando a ansiedade central psicótica ameaça irromper de forma crua”.  (Winnicott, 1969, p.122).
           
“A defesa do self falso pode ser abandonada e o self verdadeiro pode ficar exposto (com grandes riscos) na transferência psicótica. A partir daqui (e fico envergonhado por ter condensado o quero dizer quase ao ponto do absurdo), comecei a ver a esquizofrenia e, especialmente, a enfermidade do caso borderline como sendo uma sofisticada organização de defesa. Não mais experimentar a angústia impensável que está na raiz da enfermidade esquizóide”. (Winnicott, 1967a, p.154)

           
“Quanto à minha experiência, aquela que mais me permitiu aprender foi a observação de regressões contínuas seguidas de progressão em casos de pacientes borderline, ou seja, de indivíduos que precisam chegar a um estado de doença do tipo psicótico no decorrer do tratamento  (Winnicott,  1990, p.172).

Freud foi capaz de descobrir a sexualidade infantil em uma nova visão porque ele a reconstruiu a partir de seu trabalho analítico com pacientes neuróticos. Ao estender seu trabalho para cobrir o tratamento de pacientes psicóticos borderline, foi possível para nós reconstruir a dinâmica da infância e da dependência infantil, e o cuidado materno que satisfaz essa dependência”.  (Winnicott, 1960, p.53).

Vamos pois guardar na mente que psicótico, esquizofrênico e borderline estão muito próximos no pensamento winnicottiano, o que significa que podemos, muitas vezes, tomar um termo por outro, ou considerar um desses termos uma condensação do três.
         Posso agora apresentar, através da palavra do próprio do próprio Winnicott um borderline revolucionário, um borderline que possui a sua própria normalidade, diferente do borderline patologizado da maioria dos outros autores.
Citando Winnicott:

“Os psicanalistas experientes concordariam em que há uma gradação da normalidade não somente no sentido da neurose mas também da psicose (...) Pode ser verdade que há um elo mais íntimo entre normalidade e psicose do que entre normalidade e neurose; isto é, em certos aspectos. Por exemplo, o artista tem a habilidade e a coragem de estar em contacto com os processos primitivos aos quais o neurótico não tolera chegar, e que as pessoas sadias podem deixar passar para o seu próprio empobrecimento”. (Winnicott, 1959-1964, p.121).

Como Winnicott diferencia o psicótico próximo da ponta da normalidade (borderline-normal) do neurótico igualmente localizado? Garimpando seletivamente sua obra encontrei algumas preciosidades:

 “Se tudo que foi dito antes pode ser dado como certo, podemos dizer, referindo-nos a um bebê total relacionado a uma mãe total, que está estabelecido o estádio no qual a posição depressiva pode ser alcançada. Se essa totalidade não pode ser levada em conta, então nada do que tenho a dizer sobre a posição depressiva é relevante. O bebê vai vivendo sem ela; e muitos conseguem [sublinhado meu]. De fato, em tipos esquizóides pode não haver uma conquista significativa da posição depressiva e, na ausência daquilo que pode ser descrito como reparação e restituição, a recriação mágica é utilizada”.(Winnicott, 1954, p.440)

Winnicott, ao que eu saiba, não mais falará de “recriação mágica”; tomarei então a liberdade de interpretar essa expressão. Como entender a recriação mágica sem fugir à teorização winnicottiana? A essa questão tentei responder da seguinte maneira: ao recriar magicamente o mundo, o borderline estaria lançando a sua fantasia onipotente (mitigada) no ambiente pessoal e cultural potencialmente receptivo. Seria a sua maneira de conseguir um relacionamento suficientemente bom com as pessoas e o cultural, não através da culpa e reparação, mas através da inclusão das pessoas e do social em seu mundo fantasmático, de tal maneira que eles são recriados magicamente de acordo com uma fantasia não alheia à realidade. Estou antecipando a próxima citação de Winnicott que é a seguinte: “Pode mesmo acontecer que [o borderline] seja capaz de aceitar o que é bom no ambiente como uma projeção simples e estável de elementos emergentes que se originam de seu próprio potencial herdado” (Winnicott, 1960, p.39). Elementos emergentes cuja origem está no potencial herdado são projetados em aspectos bons do ambiente. Esses aspectos bons do ambiente estão, por assim dizer, à espera dos elementos emergentes. Há uma amálgama entre os aspectos bons do ambiente e os elementos emergentes projetados. Essa amálgama entre o dentro e o fora nos remete exatamente ao espaço potencial.
         Winnicott:
É interessante  reparar que o artista criativo é capaz de chegar a um tipo de socialização  que obvia [em inglês “obviates”; o Michaelis traduz por “remover”, “eliminar”; em castelhano “soslaya” – “passa por alto”. No dicionário Aurélio obviar é remediar, prevenir, desviar, atalhar (seguir por um caminho mais curto)] a necessidade do sentimento de culpa e a atividade reparativa  e restitutiva associada que forma a base do trabalho construtivo habitual. O artista ou pensador criativo pode, na verdade, falhar em compreender, ou pode mesmo desprezar, o sentimento de preocupação[concern] que motiva uma pessoa menos criativa; e dos artistas se pode dizer que alguns não têm a capacidade de sentir culpa e ainda assim atingiram uma socialização através de seu talento excepcional. As pessoas habitualmente governadas pelo sentimento de culpa acham isso surpreendente; ainda assim tenho um respeito sub-reptício pela falta de piedade [ruthlessness] que leva de fato, em tais circunstâncias, a conseguir mais do que o trabalho orientado pela culpa. (Winnicott, 1958, p.28/29).

Obviamente o borderline e o artista estão no mesmo barco winnicottiano. Creio que não será nenhum abuso dizer que o artista talentoso recria magicamente o mundo através de sua arte, mesmo porque essa idéia permeia nossa subjetividade. Borderline e artista talentoso, quando não coincidem, encontram-se. Ambos recriam magicamente a realidade. O artista através da obra de arte e o borderline através da transformação da vida em obra de arte. Winnicott distinguiu os que alcançam a fase depressiva - aqueles que, em tendo a capacidade de se sentir culpados e de reparar - poderão usar o mecanismo de recalque, sendo então chamados de neuróticos, daqueles que não atingem a fase depressiva e que mesmo assim conseguirão se relacionar suficientemente bem com o ambiente através da recriação mágica – os “tipos esquizóides”, os borderlines. Winnicott fala dos artistas (que numa de suas citações aparecem lado a lado com os borderlines) que obviam a culpa e que mesmo assim se socializam devido ao seu talento excepcional. Mas ele também fala dos tipos esquizóides que se relacionam com o mundo não através da culpa, mas da recriação mágica. Repetindo: A obra artística não seria uma recriação mágica da realidade? O borderline e o artista não seriam então gêmeos em sua capacidade de recriar o mundo? Poderíamos, então, a partir dessas duas citações, (é claro que elas são apenas pontas de icebergs, usadas para argumentação, demonstração e formação de juízo) pensar que o talento do borderline brando em plantar suas fantasias no social é uma estética de existência, uma construção artística? É essa mesma concepção que os sociólogos têm do homem pós-moderno. À noção de borderline sobrepõe-se a de homem pós-moderno:

“Dentro da nova classe média pode haver efetivamente um número maior de pessoas que aceitam a concepção de que a vida estética é a vida eticamente boa, que não existe a natureza humana nem o ‘eu’ verdadeiro, que somos uma coleção de quase-eus e que a vida se presta a uma modelagem estética”. (Featherstone, 1995, p.75).


“A estetização da vida cotidiana pode designar o projeto de transformar a vida em uma obra de arte”. (Featherston, 1995, p.99).

É possível argumentar que setores da nova classe média, os intermediários culturais e as profissões de caráter assistencial retêm as disposições e sensibilidades necessárias que os fazem mais abertos à exploração emocional, à experiência estética, e à estetização da vida. De fato, para se produzir e apreciar a estetização do corpo, caracterizada como um elemento da arte pós-moderna, é preciso descontrole emocional.(Featherstone, 1995, p.72).
             
É preciso examinar desapaixonadamente a justificativa estética da vida; se isso for realizado, pode-se mostrar que o descontrole controlado das emoções e a ausência de um sistema de fé religiosa coerente e centralizado não resultam em niilismo e desintegração social; é, antes, perfeitamente possível que a mudança para critérios estéticos e conhecimento local resulte num autocontrole mutuamente esperado e no respeito para com o outro.(Featherstone, 1995, p.174)


Nessas citações o homem pós-moderno aparece como um artista da vida, uma pessoa que vive criativa e apaixonadamente a própria existência. Esse homem aproxima-se do homem winnicottiano:Desejo examinar o lugar, utilizando a palavra em seu sentido abstrato, em que permanecemos a maior parte do tempo enquanto experimentamos a vida” (Winnicott, 1971c, p.145) E mais adiante:

“Onde estamos, quando fazemos o que, na verdade, fazemos grande parte de nosso tempo, a saber, divertindo-nos? (...) Observe-se que estou examinando a fruição altamente apurada do viver, da beleza, ou da capacidade inventiva abstrata humana, quando me refiro ao indivíduo adulto, e, ao mesmo tempo, o gesto criador do bebê que estende a mão para a boca da mãe, tateia-lhe os dentes, fita-lhe os olhos vendo-a criativamente” (ibid, p.147).


Essas colocações lembram os sociólogos que falam de um homem lúdico, esteta, criativo. O homem moderno era e é o homem do dever, da disciplina, da ordem. O homem pós-moderno – e isso está dito por Winnicott e pelos sociólogos - seria o homem da criatividade, da fruição, da liberdade. O homem pós-moderno mais vive, mais experimenta a vida, do que a padroniza em comportamentos repetitivos e lugares estanques. O homem moderno mais pretendia viver no espaço objetivo; o homem contemporâneo winnicottiano sente-se mais à vontade no espaço potencial.
       Existem, pois, homens que se socializam apesar de terem atalhado o estágio da culpa. Em uma de suas citações Winnicott limita esse modo de socialização aos artistas de talento excepcional. Mas, sem dúvida, revendo a citação anterior em que fala de esquizóides capazes de uma recriação mágica, e mais, informados pelos sociólogos que fazem do homem pós-moderno um artista da vida, podemos estendê-los aos borderlines criativos em geral. Poderíamos especular que a recriação mágica (um ato onipotente) ocupa o lugar da culpa. Esta recriação mágica pode ter ou não uma função social. A próxima citação de Winnicott falará dessa função social:

“É costume fazer alusão ao ‘teste de realidade’ e efetuar uma distinção clara entre percepção e apercepção. Reivindico aqui um estado intermediário entre a inabilidade de um bebê e sua crescente habilidade em reconhecer e aceitar a realidade. Estou, portanto, estudando a substância da ilusão, aquilo que é permitido ao bebê e que, na vida adulta, é inerente à arte e à religião, mas que se torna marca distintiva de loucura quando um adulto exige demais da credulidade dos outros, forçando-os a compartilharem de uma ilusão que não é  própria deles. Podemos compartilhar do respeito pela experiência ilusória, e, se quisermos, reunir e formar um grupo com base na similaridade de nossas experiências ilusórias. Essa é a raiz natural dos agrupamentos humanos”. (Winnicott, 1971a, p.15).

Essa citação faz minha imaginação desandar:  imagino que a formação dos primeiros grupos humanos tenha exigido a presença de líderes capazes de recriar suas próprias fantasias primevas de uma forma não incompatível com a subjetividade circulante no grupo social, conseguindo apresentá-las na forma de mitos atraentes, úteis à coesão desse grupo. Certamente o grupo estaria, até certo ponto,  propenso a receber a ilusão, o mito, pois este preencheria um espaço de interrogações e necessidades. Mas também determinante seria a capacidade do líder em “vender o seu peixe”. Para isso ele teria uma sintonia fina com seus interlocutores, tato e ousadia no seu trato com eles, um certo dom encantatório, uma qualidade carismática, um charme, uma capacidade de seduzir. (Não pretendo que essa especulação corresponda a uma realidade. Eu a coloquei com o intuito de esclarecer meu pensamento a respeito da função social do borderline. Minha concepção de borderline faz dele um ser criativo apto a transformar sua subjetividade em formações transicionais). O borderline é capaz de colocar de forma palatável para a sociedade suas experiências ilusórias, suas recriações mágicas, suas fantasias primevas mitigadas[1]. E ele consegue fazê-lo quando, atravessando a camada macro, é capaz de perceber e sentir as nano-reações e os nano-acontecimentos do ser humano.
Poderíamos, à maneira de um aforismo dizer que se o borderline é o devir do mundo, o neurótico é a sua estabilidade.
       Recapitulando: se a posição depressiva não é adequadamente alcançada, a capacidade de sentir culpa fica reduzida. O sujeito poderá se relacionar com o mundo através de recursos outros que não a culpa e reparação. Winnicott fala que o borderline usa uma sofisticada organização de defesa. Isso faz com que o borderline se relacione com a realidade externa e com o semelhante de um modo diferente do neurótico. Um modo onipotente, artístico; através de uma recriação mágica da realidade. Se essa recriação mágica estiver conectada com a cultura vigente teremos uma atividade criativa cujo lócus é uma área intermediária. Por outro lado, a recriação mágica poderá ser autística se ao invés de fenômeno transicional for um fenômeno subjetivo. Estaríamos então não mais no espaço potencial, mas no espaço subjetivo, na psicose. Diferentemente do psicótico o borderline precisa de um contato razoável com a realidade compartilhada; necessita colocar as suas fantasias no social-cultural de uma maneira tal que este as aceite; e tanto mais o conseguirá quanto maior for a sua capacidade de empatia e de identificação dual-porosa e melhor souber usá-las (Armony, 1998, p.63 e seguintes).
Palavras finais: o borderline é uma força pessoal e cultural transformadora que rompe com os códigos vigentes a partir de sua íntima relação com uma subjetividade que tanto é pessoal quanto cultural.
Uma última observação: A normalidade perfeita é sempre um ideal impossível, pois não se conhecem homens sem traços neuróticos, já que aquilo que produz neurose, estrutura o caráter, nem homens sem traços psicóticos, pois a criatividade, intuição e comunicação não verbal bebem na mesma fonte da psicose. De uma certa forma todos vivemos em um espaço transicional/potencial.      
                                          Nahman Armony   

Bibliografia

ABRAM, J. A linguagem de Winnicott. Rio: Revinter, 2000.

ARMONY, N. Borderline, uma outra normalidade. Rio: Revinter, 1998

FEATHERSTON, M. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995.

FREUD, S.(1911) Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XII. Rio: Imago, 1969

MARTINS, A. O medo de ousar: entre a hiperaceleração contemporânea e a tendência à conservação. Cópia xerocada de uma conferência realizada no CPRJ. Junho de 1998.                 

WINNICOTT, D.W. (1954) A posição depressiva no desenvolvimento emocional normal. In: Da pediatria à psicanálise. Rio: Francisco Alves, 1982, 2ª edição.

------------------------- (1954/5) Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting analítico. Ibid. 

------------------------- (1958) Psicanálise do sentimento de culpa. In: O ambiente e os  processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

------------------------- (1960)  Teoria do relacionamento paterno-infantil. In: O ambiente                                               e os processos de maturação. Porto Alegre:Artes Médicas, 1983.                             

-----------------------  (1964) Classificação: existe uma contribuição psicanalítica à classificação psiquiátrica? In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

----------------------- (1967a) O conceito de regressão clínica comparado com o de organização defensiva. In: Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

---------------------- (1967b) A localização da experiência cultural. In: O brincar e a  realidade. Rio: Imago, 1975.

---------------------- (1969) O uso de um objeto e relacionamento através de identificações. In: O brincar e a realidade. Rio: Imago, 1975.

---------------------- (1971a) Objetos transicionais e fenômenos transicionais. Ibid.

---------------------- (1971b) Criatividade e suas origens. Ibid.

---------------------- (1971c) O lugar em que vivemos. Ibid.          

---------------------- Natureza Humana. Rio: Imago, 1990.




[1] Usei originalmente a palavra mitigada em referência à onipotência da fase de dependência relativa, onde o objeto é transicional, em contraste com a fase de dependência absoluta, onde o objeto é subjetivo. A materialidade do objeto transicional faz com que a onipotência absoluta não possa ser vivida, fazendo aparecer a experiência de onipotência mitigada.  

DIFERENÇAS DE CONFORMAÇÃO SUBJETIVA


Um motivo frequente de briga de casais é a diferença das constelações subjetivas. Cada membro do casal tem o seu jeito de sentir, o seu jeito de pensar, seus preconceitos conscientes e inconscientes, suas superstições, seus valores, suas preferências, etc. Cada um teve suas próprias relações pessoais formadoras da sua personalidade. Decorre que sempre há diferenças entre dois seres humanos. Algumas são irrelevantes. Outras, em constituindo o pilar de suas personalidades, podem levar a sérios conflitos. Um exemplo disto é um analisando meu que, apesar de sua formação machista, aceita que a noiva tenha os próprios amigos e que saia com eles sem a sua companhia assim como aceita que ela tenha tido namorados anteriores a ele. Mas sente-se muito incomodado em estar participando de alguma atividade onde esteja um ex-namorado “que a tinha comido”. Um resto de sua formação psicológica machista.
Mas, mesmo um assunto menos sensível pode se tornar fonte de desentendimento especialmente quando há sentimento de não estar sendo compreendido pelo parceiro. Segue-se um exemplo retirado de minha clínica. Uma analisanda relata que certa noite ela e o marido pegaram um táxi. Carro velho, motorista gordo, esparramado no assento, mal-humorado, com cara de “poucos amigos”. Rádio em altura excessiva tocando uma música desconfortável. A mulher pede de uma forma educada, para abaixar o volume. O taxista faz ouvidos moucos. O marido, após o tempo de aproximadamente 4 respirações reitera, também educadamente, o pedido. O taxista, após um tempo de suspense, atende. A mulher, sussurrando diz: “teria sido melhor chamar um taxi de cooperativa; eles são mais educados”. Apesar do esforço para não ser ouvida, o taxista mostrou que tinha uma ótima audição, pois parou o carro fazendo o casal sair com a desculpa de um defeito. O taxi se foi e eles ficaram na calçada à noite, a rua com quase nenhum movimento. A esposa ficou indignada, arrependida de não ter tomado nota do número da placa para fazer queixa no lugar apropriado. O marido não ficou indignado. Diferença de sentimentos. Seguiu-se uma conversa tendo como pano de fundo a divergência. Resultado: discussão e amuo do par. Ao analisarmos o acontecido apareceu o sentimento de ter sido expulsa, o sentimento de humilhação, o desejo de justiça/vingança e o sentimento de não ser compreendida pelo marido. A sessão girou em torno da questão da aceitação das diferenças e da possibilidade de se chegar a algum tipo de acordo. Numa sessão posterior contou que havia conversado com o marido e que tinham encontrado um ponto em comum: as autoridades competentes deviam ser informadas: a diferença inicial é que para a mulher deveria haver uma justiça punitiva, pois ela se sentira humilhada e agredida pela expulsão e estava em busca de uma justiça/vingança do tipo “olho por olho...” atenuado. O marido que não se sentira nem humilhado nem agredido achava que o mais importante seria levá-lo a fazer um curso de civilidade. Essa diferença tinha a ver com a constelação subjetiva de cada um traduzida em postura ética. O marido concordou que era compreensível ela ter-se sentido humilhada podendo então consolá-la e ela aceitou que o marido pudesse não se sentir degradado pela grosseria que poderia ser compreendida como uma reação do taxista ao ouvir o comentário sussurrado pela esposa. Foi um episódio de desavença que chegou a um final feliz graças à análise o que nem sempre acontece tão rapidamente, pois há outros fatores em jogo como ressentimentos, lutas pelo poder, necessidade imperativa de uma relação de espelho, etc. É como se a divergência fosse alimentada por antigos ressentimentos nem sempre conscientes e que aproveitavam a ocasião para terem seus afetos descarregados. Mas o desejo de entendimento pode superar estas constelações inconscientes desde que se entenda as subjetividades em jogo na conformação de um episódio.  
                                       Nahman Armony

  Primeira publicação na revista CARAS.           

POEMA DO AMOR IMPOSSÍVEL

          Esta avidez com que me atiro a ti
       Esta busca incessante do teu corpo
       Este desejo doido de te fender em mil frestas
       E nelas espalhar os mil pedaços de minha carne dolorida
       Não pode ser amor.
       É antes o desespero do que me falta
       E que me deixa faminto
       De uma fome que não se satisfaz 
                                               Nunca.

                                                             Nahman Armony

O HOMEM ATUAL E SEU MAL-ESTAR

ANOTAÇÕES

Como pensar o mal-estar do homem? Em um outro escrito chamei a atenção para o fato de que nas línguas por mim conhecidas a palavra amparo certamente antecede a palavra desamparo. Sei que a psicanálise de hoje coloca o desamparo na gênese do desenvolvimento psicológico humano com suas defesas, seus sintomas, suas estruturas de caráter. Mas eu acho significativa a precedência semântica da palavra amparo sobre desamparo que encontramos em várias linguas. Esta precedência me faz pensar que na época em que a língua se formou, portanto no início da civilização o recém-vindo ao mundo dos homens, isto é, o recém-nascido, já quando a sua cabeça apontava fora do corpo da mãe recebia um amparo que continuava pelo impulso genético que a mãe tinha em cuidar da criança. O desamparo só acontecia quando este cuidado por alguma razão não era proporcionado. E evidentemente quando as peripécias da vida provocavam frustração. Winnicott foi um grande estudioso das relações mãe-bebê e ele admite uma fase de fusão (dependência absoluta) seguida de uma fase de dependência relativa (que eu chamaria de fase simbiótica) onde uma frustração adequada não perturbaria o sentimento de amparo. O sentimento de desamparo seria uma consequência da atuação inadequada de uma mãe invasiva. 
         Certamente o amparo produz bem-estar e o desamparo mal-estar. Há, portanto, desde o início uma relação entre a ação do social e a pessoa individual. Esta, porém, é uma generalização que pouco ou nada nos diz da especificidade do mal-estar na contemporaneidade.
         Para melhor situar e compreender o mal-estar da hipermodernidade atual começarei por examinar o mal-estar da modernidade. Para isso usaremos um texto emblemático que até hoje serve de referência para psicanalistas e outros pensadores quando refletem sobre o mal-estar que a sociedade pode causar no indivíduo. Refiro-me ao texto de Freud “O mal-estar da civilização”     escrito em 1930. Lá ele aborda essa questão inicial de amparo/desamparo. Em resposta a uma carta de Romain Roland diz não acreditar no sentimento oceânico. Porém, ao desenvolver seu raciocínio acaba por admitir a existência deste sentimento no bebê e sua possível persistência residual no adulto. De qualquer forma em algum momento da vida poderá aparecer a sensação de desamparo que exige uma obturação, seja através do amor, da religião, da idolização, do poder, da submissão, da comunhão com a natureza, etc.  
         Freud fala de três fontes de mal-estar: o mal-estar que vem do corpo (doenças e decadência) o que advém de fenômenos da natureza (terremotos, eventos meteorológicos) e o que advém de nossa relação com os outros homens “na família, no Estado e na sociedade”. Vale a pena aproveitar a oportunidade e dizer que aquilo que a subjetividade social impõe ao homem tem um caráter de continuidade e persistência que a distingue dos outros mal-estares mais ou menos contingentes. Freud afirma que “a civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto”. Esta formulação tem a ver com a modernidade vitoriana altamente repressiva que procurava regular as relações humanas pela renúncia à espontaneidade. Havia um código a ser seguido e os homens de hierarquia deveriam ser os guardiões implacáveis deste código. A vida societária caracterizava-se por relações verticais de poder, saber e hierarquia, pelo autoritarismo e poder quase absoluto do pai, pelo desdém em relação aos aspectos femininos do homem tais como a sensibilidade, a empatia, a capacidade de identificação, a compaixão, a tendência inclusiva, pela supervalorização dos aspectos masculinos de virilidade, força, decisão, implacabilidade, impiedade, organização, exatidão, linearidade, coerência, pensamento lógico. Quando a sociedade e o indivíduo contestaram a subjetividade patriarcal, as leis e regras, o dever e as obrigações, desenhou-se um cenário de liberdade que de um lado tudo permitia e de outro lado obrigava o homem a fazer escolhas. Segundo Bauman, esta liberdade é a atual produtora de mal-estar. Tendo o pai e a mãe perdido em grande parte o papel de modelo e de orientação o ser humano ficou por conta própria e se sentiu desorientado diante de um vasto mundo cheio de possibilidades de prazeres e realizações.

4 HOMEM ATUAL E SEU MAL-ESTAR
1-   Desde que Freud escreveu seu artigo “O mal-estar na civilização” a expressão mal-estar quase sempre ou sempre está vinculada a este artigo. Vide “O mal-estar na pós-modernidade” de Bauman, “O mal-estar na atualidade” de Birman, “O mal-estar na globalização” de Luciano Martins Costa, e outros e agora o nosso “Mal-estar na contemporaneidade”.
2-   Vou, portanto, iniciar por ele. É um texto muito rico que aborda a questão de inúmeros ângulos permitindo uma reflexão mais complexa sobre o tema.
3-   É interessante que Freud inicie o seu artigo discutindo a noção de “sentimento oceânico” proposta numa carta a ele por Romain Roland. O que teria a ver o sentimento oceânico com o mal-estar?
4-   Freud começa por negar a existência do sentimento oceânico. Aos poucos, através de um raciocínio que começa na perda de limites no orgasmo sexual e continua com uma especulação sobre o início da vida de um ser humano, Freud admite não só a existência do sentimento oceânico nestas situações, como também a persistência de restos deste sentimento nos adultos.
5-   Esta é uma questão importante. Hoje se dá muito valor ao desamparo como o motor do desenvolvimento psicológico humano. Dizem: o ser humano nasce desamparado. Esquecem que a maioria das comunidades humanas ampara o bebê assim que sua cabeça assoma no mundo desconhecida que o aguarda. Uma evidência disto é o fato de várias línguas terem o amparo como a palavra original sendo o desamparo expresso por um prefixo ou sufixo que se acrescenta à raiz amparo. Em inglês temos help como amparo helplessness como desamparo. Em espanhol amparo e desamparo. Em alemão schutz (amparo) e schutzlosikeit (desamparo). Posso imaginar que a precedência do amparo teria a ver com o acolhimento pela mãe e pela sociedade ao novo ser humano que surge na natividade. No decorrer da vida este amparo pode ceder lugar ao desamparo, passando a pessoa de um estado básico de bem estar para um de mal-estar. Mas, sem dúvida, o primeiro acolhimento influi no estado de mal-estar.
6-   Faz parte deste amparo aquilo que R.R. chamou de sentimento oceânico do qual Freud inicialmente discordou. Porém ao trabalhar sobre esta ideia admitiu primeiro que no “no auge do sentimento do amor a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer”. Mais adiante admite que o recém-nascido “ainda não distingue o seu ego do mundo externo”. Freud reencontra o sentimento oceânico, que nada mais é que um estado de fusão ou de simbiose como colocam vários autores psicanalíticos, entre eles Winnicott que fala explicitamente de fusão na fase de dependência absoluta. Esta fusão com uma mãe suficientemente boa é necessária para um desenvolvimento saudável.
7-   Voltemos à pergunta acima: o que isto teria a ver com o sentimento de mal-estar? Sem dúvida um ser humano que não encontrasse um amparo, um holding no seu ambiente sentiria o mal-estar do desamparo. Poderíamos dizer que ele sentiria um desamparo básico, um mal-estar básico que em nada o ajudaria nos desafios e frustrações que a vida impõe. Ao contrário o sentimento de mal-estar certamente se intensificaria. Já a criança que sentiu o bem-estar do amparo enfrentará melhor os desafios da vida podendo passar melhor pelas situações pelo que Freud chamou de três fontes de sofrimento: “o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade”.
8-   Mais adiante Freud fala do mal-estar causado pela repressão das pulsões. Uma pulsão não realizada pode provocar um mal estar. Um conflito entre a pulsão que quer se realizar e o superego que impede esta realização provoca mal-estar. Os sintomas advindos do conflito provocam mal-estar. Porém todos esses mal-estares estão referidos à presença de um superego que é o representante do Pai, da lei social. É um mal-estar amparado e aprovado que faz com que a pessoa se sinta incluída no grupo social de uma maneira correta. Estamos aqui em um sistema neurótico que recalca os aspectos femininos e se identifica com os aspectos masculinos do pai, com o seu superego. Estamos na fase da modernidade vitoriana. O mal-estar está ancorado num eixo moral e a satisfação de estar tentando agir de acordo com este eixo moral é tranqüilizador. No fundo de todos os mal-estares está o sentimento de que a pessoa está agindo irrepreensivelmente. É claro que existem prejuízos: na criatividade, na abertura amorosa, na capacidade de compartilhar, etc. Em princípio trata-se de um homem auto-suficiente, inclemente, com pouca abertura para o afeto e a compreensão. É um homem do dever e seu mal-estar tem a ver com os processos de repressão/recalque vigentes na modernidade vitoriana e que produziam uma subjetividade neurótica. Quando falo de subjetividade neurótica não penso apenas em patologia, mas também em normalidade. Existem neuróticos graves prejudicados ou incapacitados em relação ao trabalho profissional e que pouco usufruem da vida afetiva, do lazer, da diversão. Existem neuróticos próximos da normalidade ideal que apresentam suaves sintomas neuróticos que pouco ou nada atrapalham sua capacidade de trabalhar, amar e se divertir.
9-   Recapitulando: o mal-estar advindo da repressão das pulsões e desejos está referido a um superego que promove e aprova esta repressão provocando uma satisfação dentro do próprio mal-estar. Este o mal-estar do neurótico, o mal-estar da modernidade. Diferente é o mal-estar da contemporaneidade. Ela é fruto de vários fatores: uma reação exagerada da sociedade à subjetividade repressiva e que veio a desembocar numa excessiva permissividade. Vou contar aqui um pequeno episódio acontecido comigo, paradigmático: estava eu visitando um casal com um filho e estávamos reunidos na mesa da cozinha. Por duas vezes eu me senti desrespeitado não só pelas intervenções de uma criança de 11 anos, mas também e talvez principalmente pelo tom das intervenções. Dei-lhe uma bronca. O casal nada falou. Mais tarde o pai me chamou para uma conversa em particular e disse que ele tinha dado uma educação excessivamente solta para o filho pois ele próprio o pai tinha se sentido excessivamente reprimido. A psicanálise influiu na mudança de subjetividade com o trabalho de desrepressão. Freud esperava que os impulsos liberados seguissem um caminho sublimatório ou que permitissem uma redistribuição racional dos recalques. Não foi o que aconteceu. Outros fatores: capitalismo de consumo que incita os desejos; extraordinária difusão da informação pela Internet; multiplicação dos contatos entre pessoas de todo o mundo através da Internet; possibilidade aumentada de difundir ideias e sentimentos através dos blogs, uma tecnologia cada vez mais avançada que exige cada vez mais do homem, um engajamento cada vez maior do pai e da mãe no trabalho que já não podem ter a mesma dedicação de antanho para os filhos, etc.
10-               Estamos, pois, falando do mal-estar da pós-modernidade, também chamada de modernidade líquida e de hipermodernidade. Didaticamente podemos dizer que o mal-estar da modernidade está atrelado à repressão/recalque e o mal-estar da pós-modernidade à permissividade. A permissividade atualmente se manifesta de alguma maneira em praticamente todas as áreas do quefazer humano. As pessoas deixam-se levar por seus impulsos e são estimuladas a isto. A arrumação estética dos vários produtos colocados à venda, a propaganda inteligente e psicologicamente sofisticada, a apresentação contínua de novos produtos levam a um consumo exagerado. Na família pai e mãe tendem a realizar todos os caprichos dos filhos não conseguindo colocar limites. Os pais têm medo de não serem amados pelos filhos. Isto teria a ver com um desmanche do superego que já não tem força para, com sua aprovação, dar tranqüilidade aos pais. Um superego fraco deixa em dúvida se os valores estão corretos e, portanto se devem ser respeitados. A relativa ausência dos pais dificulta os processos de identificação da criança tornando-a insegura e vulnerável. As babás, os programas de televisão e a internet entram neste vazio deixado pelos pais induzindo identificações múltiplas o que pode, pelo menos em um primeiro momento, causar confusão. Na escola a ordem unida e a noção de dever estão sendo substituídas substituídas pelas noções de singularidade, interesse, criatividade. Há uma charge aparecida há algum tempo em um dos jornais ou revistas que mostram a diferença entre a modernidade e a pós-modernidade na escola. Na primeira figura vemos os pais ouvindo a orientadora pedagógica e dispondo-se a tomar providências em relação ao mau comportamento ou mau aproveitamento do filho. Na segunda os pais culpam a escola das dificuldades do filho, eximindo-se da responsabilidade. Esta é outra característica encontrada na pós-modernidade. O “lavar as mãos” dos pais, o laissez-faire, a falta de disposição de participar ativamente da educação e da aculturação do filho.  
11-               Na modernidade não havia a angústia da escolha, pois os caminhos já estavam previamente traçados. Havia sim a consternação de seguir um caminho imposto pelos outros, a frustração de não poder seguir a sua vocação e de construir sua vida segundo sua singularidade, e também, todas as consequências da repressão conforme já foi visto. Este o mal-estar neurótico.
12-               Assim como o neurótico é o homem da modernidade, o borderline é o homem da pós-modernidade. A dissociação é seu principal recurso embora também recorra ao recalque. De suas várias características a que nos interessam aqui é sua porosidade, tendência ao ato, onipotência mitigada. Sem um superego forte e com um ideal de ego confuso (desaparecimento das ideologias, inclusive), tendo à disposição de sua consciência os seus pequenos eus com seus múltiplos desejos e encontrando um mundo rico de estímulos e ofertas, ele sente desorientado, confuso, sem saber o que fazer da vida. Isso pode levá-lo a buscar uma figura orientadora: busca de função mãe, de função pai ou de ambos. Neste caso ele apresentará uma viscosidade, uma fixação, uma dificuldade de separação, um estreitamento de horizontes. Em não tendo feito suficiente identificação com os pais as valências identificatórias permanecem abertas e podem se dirigir para as figuras de mãe e/ou de pai mantendo-o aprisionado a estas figuras. Ou pode dirigir ou redirigir as valências para o mundo em permanente movimento, sem saturá-las, podendo assim acompanhar as transformações da sociedade e da cultura. O seu mal-estar tem mais a ver com desamparo que o mal-estar do neurótico. O neurótico, como já vimos, tem o seu mal-estar em cima de uma plataforma de dever, de aprovação do pai e da sociedade representados pelo superego. Já o mal-estar do borderline não está ancorado em elementos internos. É um mal-estar de quem está num mundo rico, cheio de estímulos e que precisa escolher um caminho que combine com seus gostos e sua vocação. Nesta escolha ele se sente desorientado e muitas vezes cai num estado de inércia, de niilismo, de depressão, de ansiedade ou mesmo de desespero. “O que quero fazer de minha vida?” é o seu mal-estar e sua aflitiva pergunta. Quando finalmente a inquietude vem a ser aceita como uma boa e sábia companheira e ele encontra um modus vivendi ele pode fazer uso de sua porosidade, de sua onipotência mitigada e seu desejo imediato de realização de uma forma socialmente produtiva e adequada de tal maneira que acaba por fazer parte do acervo social.
  
13-               Um bom amparo no início da vida criará uma base segura para enfrentar as agruras e desafios que certamente o mundo lhe imporá.
14-               O sentimento oceânico quando pode ser sentido sem dúvida nos ampara. Não é outra coisa que Winnicott nos diz do bebê que tem uma mãe suficientemente boa com a qual, na fase da dependência absoluta pode realizar uma fusão que o ampara (ao qual deu o nome de holding) e na fase da dependência relativa pode realizar uma simbiose que já inclui frustração sem que esta provoque desamparo. Creio que ninguém duvidaria que o amparo produz bem-estar. Certamente o mal-estar não estaria aí alojado. Ele aparecerá posteriormente, mas o ser humano tem a oportunidade de uma experiência primeira de acolhimento, de bem-estar básico. Não é a toa que nas diversas línguas as palavras designativas têm como raiz o amparo ao qual se acrescentam prefixos e sufixos para designar desamparo. Em inglês temos help como amparo helplessness como desamparo. Em espanhol amparo e desamparo. Em alemão schutz (amparo) e schulozikeit (desamparo). Posso imaginar que a precedência do amparo teria a ver com o acolhimento ao novo ser humano que surge na natividade. No decorrer da vida este amparo pode ceder lugar ao desamparo, passando a pessoa de um estado básico de bem estar para um de mal-estar. Mas, sem dúvida, o primeiro acolhimento influi no estado de mal-estar.
15-               Em um de seus parágrafos Freud coloca que a repressão social, impedindo a manifestação da pulsão, provoca mal-estar. É um mal-estar que tem uma referência externa (repressão) e uma interna (recalque). Neste caso o mal-estar está acompanhado com um sentimento de dever não cumprido diante da sociedade e do superego Na hipermodernidade não há um superego orientador, nem doutrinas externas orientadoras. A pessoa entregue a si mesma, tendo de fazer suas escolhas de vida, fica cheia de dúvidas e sente-se perdida em um mundo complexo e contraditório. A ideologia familiar e social não fornece um amparo como a modernidade oferece. Trata-se de um mal-estar mais radical. As identificações com os pais são precárias. Não se criam laços fortes com os semelhantes. A mãe atual solicitada pelo seu trabalho e participando das preocupações da família, não pode ter a dedicação das mães de antigamente. O amparo inicial em algum ponto fica comprometido. Por outro lado o pai já não se oferece como figura de identificação para ser internalizada como superego que serviria de guia à pessoa. E ainda, Richard Bennet fala-nos da erosão do caráter quando as condições externas são mutáveis, como acontece em nossos tempos.
16-               Aqui ocorre uma coincidência interessante que certamente não é coincidência. A não identificação com o pai mantém a pessoa ligada aos modos e valores da mãe. Um dos modos de ser da mãe é relacionar-se através da porosidade. É este modo de ser que permite a empatia, a compaixão, o espírito de conciliação, a compreensão contextual das situações, a visão humanista para além da visão objetiva. Esta mãe está aberta para o mundo. Como diz Freud, ela tem um superego frouxo que admite influências externas. O bebê em sua interação com a mãe internaliza esse modo de relacionamento/conhecimento/comunicação. No período freudiano esta abertura era obturada, obrigando-se a criança a abandonar os valores femininos para tornar-se um verdadeiro homem, poderoso, inclemente, sem sentimentalismos que o atrapalhariam na dura luta pela vida. A identificação com o pai poderoso não é feita. As valências identificatórias que se completariam nessa identificação, criando um superego infenso às influências exteriores, mantêm-se incompletas. Ora, um superego fechado ao mundo não poderia acompanhar as suas mudanças. Já o superego com valências identificatórias em aberto permite a identificação do ser humano com o devir do mundo. Podemos dizer que ao mesmo tempo o mundo se tornou imprevisível e instável e ao mesmo tempo as subjetividades têm a capacidade de acompanhar essas transformações. Como diz Bauman, passamos do sólido para o líquido.
17-               Certamente há um preço a ser pago. O preço da ansiedade, da insônia, da inquietude, da agitação. O preço será ainda maior se as relações com a mãe tiverem sido insuficientemente boas. Neste caso não só as valências-pai permanecem abertas como também as valências-mãe. Estou por uma questão didática apresentando as situações em termos absolutos, mas há variações nas identificações, seja com o pai, seja com a mãe. As valências-mãe em aberto provocam um extremo desconforto que pode levar às drogas, à agressividade, à perversão, aos sintomas psicossomáticos. Essa agitação está relacionada a falta de uma base, de um eixo afetivo, pois esta criança não se sente aceita nem participante do mundo. As valências identificatórias abertas levam em primeira instância à busca da mãe insuficiente para tentar viver uma suficiência ou da mãe suficiente que foi perdida. O pulo do gato é poder direcionar as valências identificatórias abertas para o mundo, para a cultura, para a natureza, para a beleza. Poderia ser um dos caminhos da terapia, mas certamente é um caminho cheio de ciladas. É preciso que o analista, uma vez solicitado, aceite ser a mãe (e aqui falamos mais de uma mãe real do que transferencial), mas uma mãe que direciona as valências identificatórias que passam por ela, para o mundo. Neste processo o analisando pode se sentir rejeitado entendendo que a mãe o joga para o mundo por não desejá-lo. E teremos de lidar com este paradoxo com uma delicada sutileza.
18-               Apresentei um quadro geral e algumas noções precisaram permanecer não-ditas para que o conjunto pudesse ser abarcado na sua lógica própria.
      

                                                        Nahman Armony

INSTABILIDADE ESTÁVEL



                                   
Uma pergunta anda preocupando muitos casais atuais: será possível alcançar a estabilidade de uma união hoje, com tantas mudanças nas relações entre homem e mulher? A dúvida procede e tem raízes profundas e antigas. Ameaçados por predadores, doenças e até pelo clima, nossos ancestrais pré-históricos viviam em permanente estado de insegurança. O desenvolvimento de instrumentos de defesa e o domínio do fogo reduziram um pouco esse sentimento, mas não o eliminaram. Inventaram-se então os deuses protetores. Ainda assim, a imprevisibilidade e a insegurança persistiam. As religiões monoteístas trariam outra alternativa de alívio para o mal: a vida pós-morte, que, se vivida no paraíso, traria felicidade, segurança e tranqüilidade eternas. O homem tinha, então,  o seu olhar projetado para o além da vida. Com a filosofia do francês René Descartes (1596-1650) e a física do inglês Isaac Newton (1642-1727) as coisas mudariam: havia a promessa da felicidade plena ainda em vida, pelo desenvolvimento da ciência, que nos livraria de doenças e nos daria máquinas que resolveriam todo tipo de problema. Em tal clima de otimismo, o homem deixou de aceitar a incerteza como parte da vida e passou a exigir de si mesmo e dos outros estabilidade, previsibilidade, segurança, felicidade permanente. É essa mentalidade que ainda predomina, embora já haja brechas por onde a insegurança se infiltra. Uma dessas brechas é o setor amoroso.
Estamos saindo de um período em que esperava-se que os casais se encontrassem, namorassem, se casassem e vivessem felizes para sempre. Havia um simulacro de estabilidade e sossego. Uma estabilidade tipo “eu mando, você obedece”. A paz reinava à custa de sacrifício e sofrimento ocultos, mas isso era ignorado e o troféu era “o casal feliz”, “a família feliz”, a estabilidade, enfim.
Com o advento das relações igualitárias, as divergências vieram à tona. A mentalidade de ponta não aceita que um dos membros do casal fique em posição submissa, reprimindo desejos e sentimentos para manter suposta harmonia. E agora? Como conciliar as diferenças? Mais que isso, como cada parceiro irá lidar com a sensibilidade do outro? Se penso dizer alguma coisa que o ferirá, devo me calar? Mas e se, em emudecendo, acumulo ressentimentos que irão estourar em algum lugar e momento? Até onde devo passar por cima de meus sentimentos para respeitar a sensibilidade do outro? E será que este outro está tendo o mesmo cuidado? Até onde devo me sacrificar pela pessoa que amo?
A resposta a essas questões não é precisa, mas fugidia, pois depende da sensibilidade momentânea do casal, fruto das experiências cotidianas com o parceiro e com o mundo, do estado de espírito, do estado de saúde, e de muitos outros fatores.
A bússola se encontra no vir a ser da relação. Realiza-se uma ação e há uma resposta que deverá ser levada em conta para a próxima ação, e assim por diante. Haverá momentos em que um dos dois estará em condições de receber maior carga mobilizadora e poderá ser mais compreensivo. Haverá outros em que as circunstâncias o tornarão mais frágil e não poderá então suportar o peso da susceptibilidade do outro.
Se concebermos dois pólos extremos  “pensando em mim” e “pensando no outro” e os ligarmos por uma linha de gradação, poderemos dizer que a possibilidade de uma relação satisfatória está na flutuação do casal por essa linha imaginária, ocupando a cada momento o ponto mais conveniente para seu escorregadio equilíbrio. O par alcançará então uma segurança insegura, uma instabilidade estável. Esta poderá ser a baliza de referência para o entrosamento do casal.  


               Nahman Armony

Primeira publicação na revista CARAS



                                                                                   

POEMAS PARA MEUS FILHOS - III

                    Havia pavor nos seus olhos
             Olhei no fundo de seu pavor
             E juntos
             Enfrentamos o Inominável.

             Havia Morte em meu corpo
             E em minha alma
             Mas não em meus olhos.

             A súplica dos olhos de minha filha
             Varreu de meu ser a angústia do Além
             E me tornou Puro, Forte,
             Uma Rocha,
             A olhá-la com a força dos Deuses Benfazejos.

             Nem eu mais a olhava
             Nem ela a mim.
             Nossos olhares eram uma só Intensidade
             Lutando contra o Horror.
             Quatro olhos-infinitos
             Formando um infinito arco
             Intransponível.

             O choro era um grito de Vitória
             O grito, uma Sinfonia Guerreira
             A dor, um Amuleto, ancorado
             Nas cem correntes entrelaçadas
             Protegendo a Vida
                                a Alma
                                       O Amor.

             A paz no fundo dos olhos
             Os olhos no fundo da paz
             O fundo na paz dos olhos
             Os olhos nos olhos
             A olhar
             A trançar
                  Retraçando
                        Caminhos.
                                          
                            Nahman Armony