Como se sabe
Na natureza
Nada se cria, nada se perde:
Tudo se transforma.
E esta é
A minha grande esperança
De imortalidade.
Nahman Armony
WINNICOTT E A CULTURA
Estou-me propondo a discorrer
sobre a contribuição de Winnicott relativa às transformações culturais
decorrentes da passagem da modernidade para a hipermodernidade. As contribuições
de Winnicott são inúmeras. Entre elas temos as ideias revolucionárias de
mãe-suficientemente-boa, de paradoxo, de espaço potencial e objeto
transicional, de agressão infantil e juvenil como pedido de socorro, de
borderline ‘normal’ e outras. Neste artigo vou me dedicar a tentar entender sua
pessoal concepção de normalidade e patologia borderline vis a vis com a
normalidade e patologia neurótica. Esta compreensão é importante pois permite
uma visão mais conforme às transformações que estão ocorrendo em nossa cultura
e subjetividade.
A
primeira dificuldade que encontro é a miscelânea que encontramos em sua obra no
que diz respeito às palavras borderline, esquizoidia, psicose, esquizofrenia,
fronteiriço e outras. Farei algumas citações para que os colegas tomem contato
direto com as dificuldades de delimitação que encontrei. Winnicott:
“É na análise do caso do tipo
fronteiriço que se tem a oportunidade de observar os delicados fenômenos que
apontam para a compreensão dos estados verdadeiramente esquizofrênicos. Pela
expressão caso fronteiriço quero significar o tipo de caso em que o cerne do
distúrbio do paciente é psicótico, mas onde o paciente está de posse de uma
organização psiconeurótica suficiente para apresentar uma psiconeurose, ou um
distúrbio psicossomático, quando a ansiedade central psicótica ameaça irromper
de forma crua”. (Winnicott, 1969, p.122).
“A defesa do self falso pode ser
abandonada e o self verdadeiro pode ficar exposto (com grandes riscos) na
transferência psicótica. A partir daqui (e fico envergonhado por ter condensado
o quero dizer quase ao ponto do absurdo), comecei a ver a esquizofrenia e,
especialmente, a enfermidade do caso borderline como sendo uma sofisticada
organização de defesa. Não mais experimentar a angústia impensável que está na
raiz da enfermidade esquizóide”. (Winnicott,
1967a, p.154)
“Quanto à minha experiência,
aquela que mais me permitiu aprender foi a observação de regressões contínuas
seguidas de progressão em casos de pacientes borderline, ou seja, de indivíduos
que precisam chegar a um estado de doença do tipo psicótico no decorrer do
tratamento (Winnicott,
1990, p.172).
“Freud foi capaz de descobrir a sexualidade
infantil em uma nova visão porque ele a reconstruiu a partir de seu trabalho
analítico com pacientes neuróticos. Ao estender seu trabalho para cobrir o
tratamento de pacientes psicóticos borderline, foi possível para nós
reconstruir a dinâmica da infância e da dependência infantil, e o cuidado materno
que satisfaz essa dependência”. (Winnicott, 1960, p.53).
Vamos pois guardar na mente que psicótico, esquizofrênico e
borderline estão muito próximos no pensamento winnicottiano, o que significa
que podemos, muitas vezes, tomar um termo por outro, ou considerar um desses
termos uma condensação do três.
Posso agora
apresentar, através da palavra do próprio do próprio Winnicott um borderline revolucionário,
um borderline que possui a sua própria normalidade, diferente do borderline patologizado
da maioria dos outros autores.
Citando Winnicott:
“Os psicanalistas experientes
concordariam em que há uma gradação da normalidade não somente no sentido da
neurose mas também da psicose (...) Pode ser verdade que há um elo mais íntimo
entre normalidade e psicose do que entre normalidade e neurose; isto é, em
certos aspectos. Por exemplo, o artista tem a habilidade e a coragem de estar
em contacto com os processos primitivos aos quais o neurótico não tolera
chegar, e que as pessoas sadias podem deixar passar para o seu próprio
empobrecimento”. (Winnicott, 1959-1964, p.121).
Como Winnicott diferencia o psicótico próximo da ponta da
normalidade (borderline-normal) do neurótico igualmente localizado? Garimpando
seletivamente sua obra encontrei algumas preciosidades:
“Se tudo
que foi dito antes pode ser dado como certo, podemos dizer, referindo-nos a um
bebê total relacionado a uma mãe total, que está estabelecido o estádio no qual
a posição depressiva pode ser alcançada. Se essa totalidade não pode ser levada
em conta, então nada do que tenho a dizer sobre a posição depressiva é
relevante. O bebê vai vivendo sem ela; e muitos conseguem [sublinhado
meu]. De fato, em tipos esquizóides pode não haver uma conquista significativa
da posição depressiva e, na ausência daquilo que pode ser descrito como
reparação e restituição, a recriação mágica é utilizada”.(Winnicott, 1954,
p.440)
Winnicott, ao que eu saiba, não mais falará de “recriação
mágica”; tomarei então a liberdade de interpretar essa expressão. Como entender
a recriação mágica sem fugir à teorização winnicottiana? A essa questão tentei
responder da seguinte maneira: ao recriar magicamente o mundo, o borderline
estaria lançando a sua fantasia onipotente (mitigada) no ambiente pessoal e cultural
potencialmente receptivo. Seria a sua maneira de conseguir um relacionamento
suficientemente bom com as pessoas e o cultural, não através da culpa e
reparação, mas através da inclusão das pessoas e do social em seu mundo
fantasmático, de tal maneira que eles são recriados magicamente de acordo com
uma fantasia não alheia à realidade. Estou antecipando a próxima citação de
Winnicott que é a seguinte: “Pode mesmo acontecer que [o borderline]
seja capaz de aceitar o que é bom no
ambiente como uma projeção simples e estável de elementos emergentes que se
originam de seu próprio potencial herdado” (Winnicott, 1960, p.39). Elementos emergentes cuja origem está
no potencial herdado são projetados em aspectos bons do ambiente. Esses aspectos bons do ambiente estão,
por assim dizer, à espera dos elementos emergentes. Há uma amálgama entre os
aspectos bons do ambiente e os elementos emergentes projetados. Essa amálgama
entre o dentro e o fora nos remete exatamente ao espaço potencial.
Winnicott:
É interessante reparar que o artista criativo é capaz de
chegar a um tipo de socialização que
obvia [em inglês “obviates”; o Michaelis
traduz por “remover”, “eliminar”; em castelhano “soslaya” – “passa por alto”.
No dicionário Aurélio obviar é remediar, prevenir, desviar, atalhar (seguir por
um caminho mais curto)] a
necessidade do sentimento de culpa e a atividade reparativa e restitutiva associada que forma a base do
trabalho construtivo habitual. O artista ou pensador criativo pode, na verdade,
falhar em compreender, ou pode mesmo desprezar, o sentimento de
preocupação[concern] que motiva uma pessoa menos criativa; e dos artistas se
pode dizer que alguns não têm a capacidade de sentir culpa e ainda assim
atingiram uma socialização através de seu talento excepcional. As pessoas
habitualmente governadas pelo sentimento de culpa acham isso surpreendente;
ainda assim tenho um respeito sub-reptício pela falta de piedade [ruthlessness]
que leva de fato, em tais circunstâncias, a conseguir mais do que o trabalho
orientado pela culpa. (Winnicott, 1958, p.28/29).
Obviamente o
borderline e o artista estão no mesmo barco winnicottiano. Creio que não será
nenhum abuso dizer que o artista talentoso recria magicamente o mundo através
de sua arte, mesmo porque essa idéia permeia nossa subjetividade. Borderline e
artista talentoso, quando não coincidem, encontram-se. Ambos recriam
magicamente a realidade. O artista através da obra de arte e o borderline
através da transformação da vida em obra de arte. Winnicott distinguiu os que alcançam a fase
depressiva - aqueles que, em tendo a capacidade de se sentir culpados e de
reparar - poderão usar o mecanismo de recalque, sendo então chamados de
neuróticos, daqueles que não atingem a fase depressiva e que mesmo assim
conseguirão se relacionar suficientemente bem com o ambiente através da
recriação mágica – os “tipos esquizóides”, os borderlines. Winnicott fala dos
artistas (que numa de suas citações aparecem lado a lado com os borderlines)
que obviam a culpa e que mesmo assim se socializam devido ao seu talento excepcional.
Mas ele também fala dos tipos esquizóides que se relacionam com o mundo não
através da culpa, mas da recriação mágica. Repetindo: A obra artística não
seria uma recriação mágica da realidade? O borderline e o artista não seriam
então gêmeos em sua capacidade de recriar o mundo? Poderíamos, então, a partir
dessas duas citações, (é claro que elas são apenas pontas de icebergs, usadas
para argumentação, demonstração e formação de juízo) pensar que o talento do
borderline brando em plantar suas fantasias no social é uma estética de
existência, uma construção artística? É essa mesma concepção que os sociólogos
têm do homem pós-moderno. À noção de borderline sobrepõe-se a de homem
pós-moderno:
“Dentro da nova classe média pode haver efetivamente um número
maior de pessoas que aceitam a concepção de que a vida estética é a vida
eticamente boa, que não existe a natureza humana nem o ‘eu’ verdadeiro, que
somos uma coleção de quase-eus e que a vida se presta a uma modelagem
estética”. (Featherstone, 1995, p.75).
“
“A estetização da vida cotidiana pode designar o projeto de
transformar a vida em uma obra de arte”.
(Featherston, 1995, p.99).
É possível argumentar que setores
da nova classe média, os intermediários culturais e as profissões de caráter
assistencial retêm as disposições e sensibilidades necessárias que os fazem
mais abertos à exploração emocional, à experiência estética, e à estetização da
vida. De fato, para se produzir e apreciar a estetização do corpo,
caracterizada como um elemento da arte pós-moderna, é preciso descontrole
emocional.(Featherstone, 1995, p.72).
É preciso examinar
desapaixonadamente a justificativa estética da vida; se isso for realizado,
pode-se mostrar que o descontrole controlado das emoções e a ausência de um
sistema de fé religiosa coerente e centralizado não resultam em niilismo e
desintegração social; é, antes, perfeitamente possível que a mudança para
critérios estéticos e conhecimento local resulte num autocontrole mutuamente
esperado e no respeito para com o outro.(Featherstone,
1995, p.174)
Nessas
citações o homem pós-moderno aparece como um artista da vida, uma pessoa que
vive criativa e apaixonadamente a própria existência. Esse homem aproxima-se do
homem winnicottiano: “Desejo examinar o lugar, utilizando a palavra em seu sentido abstrato,
em que permanecemos a maior parte do tempo enquanto experimentamos a vida” (Winnicott,
1971c, p.145) E mais adiante:
“Onde estamos, quando fazemos o que, na verdade, fazemos grande parte
de nosso tempo, a saber, divertindo-nos? (...) Observe-se que estou examinando
a fruição altamente apurada do viver, da beleza, ou da capacidade inventiva
abstrata humana, quando me refiro ao indivíduo adulto, e, ao mesmo tempo, o
gesto criador do bebê que estende a mão para a boca da mãe, tateia-lhe os
dentes, fita-lhe os olhos vendo-a criativamente” (ibid, p.147).
Essas
colocações lembram os sociólogos que falam de um homem lúdico, esteta,
criativo. O homem moderno era e é o homem do dever, da disciplina, da ordem. O
homem pós-moderno – e isso está dito por Winnicott e pelos sociólogos - seria o
homem da criatividade, da fruição, da liberdade. O homem pós-moderno mais vive, mais experimenta a vida, do que a
padroniza em comportamentos repetitivos e lugares estanques. O homem moderno
mais pretendia viver no espaço objetivo; o homem contemporâneo winnicottiano
sente-se mais à vontade no espaço potencial.
Existem, pois, homens que se socializam apesar de terem
atalhado o estágio da culpa. Em uma de suas citações Winnicott limita esse modo
de socialização aos artistas de talento excepcional. Mas, sem dúvida, revendo a
citação anterior em que fala de esquizóides capazes de uma recriação mágica, e
mais, informados pelos sociólogos que fazem do homem pós-moderno um artista da
vida, podemos estendê-los aos borderlines criativos em geral. Poderíamos
especular que a recriação mágica (um ato onipotente) ocupa o lugar da culpa.
Esta recriação mágica pode ter ou não uma função social. A próxima citação de
Winnicott falará dessa função social:
“É costume fazer alusão ao ‘teste de realidade’ e efetuar uma
distinção clara entre percepção e apercepção. Reivindico aqui um estado
intermediário entre a inabilidade de um bebê e sua crescente habilidade em
reconhecer e aceitar a realidade. Estou, portanto, estudando a substância da
ilusão, aquilo que é permitido ao bebê e que, na vida adulta, é inerente à arte
e à religião, mas que se torna marca distintiva de loucura quando um adulto
exige demais da credulidade dos outros, forçando-os a compartilharem de uma
ilusão que não é própria deles. Podemos
compartilhar do respeito pela experiência ilusória, e, se quisermos, reunir e formar
um grupo com base na similaridade de nossas experiências ilusórias. Essa é a
raiz natural dos agrupamentos humanos”. (Winnicott,
1971a, p.15).
Essa
citação faz minha imaginação desandar:
imagino que a formação dos primeiros grupos humanos tenha exigido a
presença de líderes capazes de recriar suas próprias fantasias primevas de uma
forma não incompatível com a subjetividade circulante no grupo social,
conseguindo apresentá-las na forma de mitos atraentes, úteis à coesão desse
grupo. Certamente o grupo estaria, até certo ponto, propenso a receber a ilusão, o mito, pois
este preencheria um espaço de interrogações e necessidades. Mas também
determinante seria a capacidade do líder em “vender o seu peixe”. Para isso ele
teria uma sintonia fina com seus interlocutores, tato e ousadia no seu trato
com eles, um certo dom encantatório, uma qualidade carismática, um charme, uma
capacidade de seduzir. (Não pretendo que essa especulação corresponda a uma
realidade. Eu a coloquei com o intuito de esclarecer meu pensamento a respeito
da função social do borderline. Minha concepção de borderline faz dele um ser
criativo apto a transformar sua subjetividade em formações transicionais). O borderline é capaz de colocar de
forma palatável para a sociedade suas experiências ilusórias, suas recriações
mágicas, suas fantasias primevas mitigadas[1].
E ele consegue fazê-lo quando, atravessando a camada macro, é capaz de perceber
e sentir as nano-reações e os nano-acontecimentos do ser humano.
Poderíamos, à maneira de um
aforismo dizer que se o borderline é o devir do mundo, o neurótico é a sua
estabilidade.
Recapitulando: se a posição depressiva
não é adequadamente alcançada, a capacidade de sentir culpa fica reduzida. O
sujeito poderá se relacionar com o mundo através de recursos outros que não a
culpa e reparação. Winnicott fala que o borderline usa uma sofisticada
organização de defesa. Isso faz com que o borderline se relacione com a
realidade externa e com o semelhante de um modo diferente do neurótico. Um modo
onipotente, artístico; através de uma recriação mágica da realidade. Se essa
recriação mágica estiver conectada com a cultura vigente teremos uma atividade
criativa cujo lócus é uma área
intermediária. Por outro lado, a recriação mágica poderá ser autística se ao invés
de fenômeno transicional for um fenômeno subjetivo. Estaríamos então não mais
no espaço potencial, mas no espaço subjetivo, na psicose. Diferentemente do
psicótico o borderline precisa de um contato razoável com a realidade
compartilhada; necessita colocar as suas fantasias no social-cultural de uma
maneira tal que este as aceite; e tanto mais o conseguirá quanto maior for a
sua capacidade de empatia e de identificação dual-porosa e melhor souber
usá-las (Armony, 1998, p.63 e seguintes).
Palavras
finais: o borderline é uma força pessoal e cultural transformadora que rompe
com os códigos vigentes a partir de sua íntima relação com uma subjetividade
que tanto é pessoal quanto cultural.
Uma
última observação: A normalidade perfeita é sempre um ideal impossível, pois
não se conhecem homens sem traços neuróticos, já que aquilo que produz neurose,
estrutura o caráter, nem homens sem traços psicóticos, pois a criatividade,
intuição e comunicação não verbal bebem na mesma fonte da psicose. De uma certa
forma todos vivemos em um espaço transicional/potencial.
Nahman Armony
Bibliografia
ABRAM,
J. A linguagem de Winnicott. Rio:
Revinter, 2000.
ARMONY, N. Borderline,
uma outra normalidade. Rio: Revinter, 1998
FEATHERSTON,
M. Cultura de consumo e pós-modernismo.
São Paulo: Studio Nobel, 1995.
FREUD,
S.(1911) Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XII. Rio: Imago, 1969
MARTINS, A. O medo de ousar: entre a hiperaceleração
contemporânea e a tendência à conservação. Cópia
xerocada de uma conferência realizada no CPRJ. Junho de 1998.
WINNICOTT, D.W. (1954) A posição depressiva no
desenvolvimento emocional normal. In: Da
pediatria à psicanálise. Rio: Francisco Alves, 1982, 2ª edição.
------------------------- (1954/5) Aspectos clínicos e
metapsicológicos da regressão dentro do setting
analítico. Ibid.
------------------------- (1958) Psicanálise do
sentimento de culpa. In: O ambiente e
os processos de maturação. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1983.
-------------------------
(1960) Teoria do relacionamento
paterno-infantil. In: O ambiente
e os processos de maturação. Porto Alegre:Artes Médicas, 1983.
-----------------------
(1964) Classificação: existe uma contribuição psicanalítica à
classificação psiquiátrica? In: O
ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.
----------------------- (1967a) O conceito de regressão
clínica comparado com o de organização defensiva. In: Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
---------------------- (1967b) A localização da
experiência cultural. In: O brincar e
a realidade. Rio: Imago, 1975.
---------------------- (1969) O uso de um objeto e
relacionamento através de identificações. In: O brincar e a realidade. Rio: Imago, 1975.
----------------------
(1971a) Objetos transicionais e fenômenos transicionais. Ibid.
----------------------
(1971b) Criatividade e suas origens. Ibid.
----------------------
(1971c) O lugar em que vivemos. Ibid.
----------------------
Natureza Humana. Rio: Imago, 1990.
[1]
Usei originalmente a palavra mitigada em referência à onipotência da fase de
dependência relativa, onde o objeto é transicional, em contraste com a fase de
dependência absoluta, onde o objeto é subjetivo. A materialidade do objeto
transicional faz com que a onipotência absoluta não possa ser vivida, fazendo
aparecer a experiência de onipotência mitigada.
DIFERENÇAS DE CONFORMAÇÃO SUBJETIVA
Um motivo frequente de
briga de casais é a diferença das constelações subjetivas. Cada membro do casal
tem o seu jeito de sentir, o seu jeito de pensar, seus preconceitos conscientes
e inconscientes, suas superstições, seus valores, suas preferências, etc. Cada
um teve suas próprias relações pessoais formadoras da sua personalidade.
Decorre que sempre há diferenças entre dois seres humanos. Algumas são
irrelevantes. Outras, em constituindo o pilar de suas personalidades, podem
levar a sérios conflitos. Um exemplo disto é um analisando meu que, apesar de
sua formação machista, aceita que a noiva tenha os próprios amigos e que saia
com eles sem a sua companhia assim como aceita que ela tenha tido namorados
anteriores a ele. Mas sente-se muito incomodado em estar participando de alguma
atividade onde esteja um ex-namorado “que a tinha comido”. Um resto de sua
formação psicológica machista.
Mas, mesmo um assunto
menos sensível pode se tornar fonte de desentendimento especialmente quando há
sentimento de não estar sendo compreendido pelo parceiro. Segue-se um exemplo retirado
de minha clínica. Uma analisanda relata que certa noite ela e o marido pegaram
um táxi. Carro velho, motorista gordo, esparramado no assento, mal-humorado,
com cara de “poucos amigos”. Rádio em altura excessiva tocando uma música
desconfortável. A mulher pede de uma forma educada, para abaixar o volume. O
taxista faz ouvidos moucos. O marido, após o tempo de aproximadamente 4
respirações reitera, também educadamente, o pedido. O taxista, após um tempo de
suspense, atende. A mulher, sussurrando diz: “teria sido melhor chamar um taxi
de cooperativa; eles são mais educados”. Apesar do esforço para não ser ouvida,
o taxista mostrou que tinha uma ótima audição, pois parou o carro fazendo o
casal sair com a desculpa de um defeito. O taxi se foi e eles ficaram na
calçada à noite, a rua com quase nenhum movimento. A esposa ficou indignada,
arrependida de não ter tomado nota do número da placa para fazer queixa no
lugar apropriado. O marido não ficou indignado. Diferença de sentimentos.
Seguiu-se uma conversa tendo como pano de fundo a divergência. Resultado:
discussão e amuo do par. Ao analisarmos o acontecido apareceu o sentimento de
ter sido expulsa, o sentimento de humilhação, o desejo de justiça/vingança e o
sentimento de não ser compreendida pelo marido. A sessão girou em torno da
questão da aceitação das diferenças e da possibilidade de se chegar a algum
tipo de acordo. Numa sessão posterior contou que havia conversado com o marido
e que tinham encontrado um ponto em comum: as autoridades competentes deviam
ser informadas: a diferença inicial é que para a mulher deveria haver uma justiça
punitiva, pois ela se sentira humilhada e agredida pela expulsão e estava em
busca de uma justiça/vingança do tipo “olho por olho...” atenuado. O marido que
não se sentira nem humilhado nem agredido achava que o mais importante seria
levá-lo a fazer um curso de civilidade. Essa diferença tinha a ver com a
constelação subjetiva de cada um traduzida em postura ética. O marido concordou
que era compreensível ela ter-se sentido humilhada podendo então consolá-la e
ela aceitou que o marido pudesse não se sentir degradado pela grosseria que
poderia ser compreendida como uma reação do taxista ao ouvir o comentário
sussurrado pela esposa. Foi um episódio de desavença que chegou a um final
feliz graças à análise o que nem sempre acontece tão rapidamente, pois há
outros fatores em jogo como ressentimentos, lutas pelo poder, necessidade
imperativa de uma relação de espelho, etc. É como se a divergência fosse
alimentada por antigos ressentimentos nem sempre conscientes e que aproveitavam
a ocasião para terem seus afetos descarregados. Mas o desejo de entendimento
pode superar estas constelações inconscientes desde que se entenda as
subjetividades em jogo na conformação de um episódio.
Nahman Armony
Primeira publicação
na revista CARAS.
POEMA DO AMOR IMPOSSÍVEL
Esta avidez com que me atiro a ti
Esta busca incessante do teu corpo
Este desejo doido de te fender em mil frestas
E nelas espalhar os mil pedaços de minha carne dolorida
Não pode ser amor.
É antes o desespero do que me falta
E que me deixa faminto
De uma fome que não se satisfaz
Nunca.
Nahman Armony
O HOMEM ATUAL E SEU MAL-ESTAR
ANOTAÇÕES
Como pensar o mal-estar do homem? Em um outro escrito chamei a atenção para o fato de que
nas línguas por mim conhecidas a palavra amparo certamente antecede a palavra
desamparo. Sei que a psicanálise de hoje coloca o desamparo na gênese do
desenvolvimento psicológico humano com suas defesas, seus sintomas, suas estruturas
de caráter. Mas eu acho significativa a precedência semântica da palavra amparo sobre desamparo que encontramos em várias linguas. Esta precedência me faz pensar que na época em que a língua se formou,
portanto no início da civilização o recém-vindo ao mundo dos homens, isto é, o
recém-nascido, já quando a sua cabeça apontava fora do corpo da mãe recebia um
amparo que continuava pelo impulso genético que a mãe tinha em cuidar da
criança. O desamparo só acontecia quando este cuidado por alguma razão não era
proporcionado. E evidentemente quando as peripécias da vida provocavam
frustração. Winnicott foi um grande estudioso das relações mãe-bebê e ele
admite uma fase de fusão (dependência absoluta) seguida de uma fase de
dependência relativa (que eu chamaria de fase simbiótica) onde uma frustração adequada
não perturbaria o sentimento de amparo. O sentimento de desamparo seria uma consequência
da atuação inadequada de uma mãe invasiva.
Certamente o amparo produz bem-estar e
o desamparo mal-estar. Há, portanto, desde o início uma relação entre a ação do
social e a pessoa individual. Esta, porém, é uma generalização que pouco ou
nada nos diz da especificidade do mal-estar na contemporaneidade.
Para melhor situar e compreender o
mal-estar da hipermodernidade atual começarei por examinar o mal-estar da
modernidade. Para isso usaremos um texto emblemático que até hoje serve de
referência para psicanalistas e outros pensadores quando refletem sobre o
mal-estar que a sociedade pode causar no indivíduo. Refiro-me ao texto de Freud
“O mal-estar da civilização” escrito
em 1930. Lá ele aborda essa questão inicial de amparo/desamparo. Em resposta a
uma carta de Romain Roland diz não acreditar no sentimento oceânico. Porém, ao
desenvolver seu raciocínio acaba por admitir a existência deste sentimento no
bebê e sua possível persistência residual no adulto. De qualquer
forma em algum momento da vida poderá aparecer a sensação de desamparo que
exige uma obturação, seja através do amor, da religião, da idolização, do
poder, da submissão, da comunhão com a natureza, etc.
Freud fala de três fontes de mal-estar:
o mal-estar que vem do corpo (doenças e decadência) o que advém de fenômenos da
natureza (terremotos, eventos meteorológicos) e o que advém de nossa relação
com os outros homens “na família, no Estado e na sociedade”. Vale a pena
aproveitar a oportunidade e dizer que aquilo que a subjetividade social impõe
ao homem tem um caráter de continuidade e persistência que a distingue dos
outros mal-estares mais ou menos contingentes. Freud afirma que “a civilização
é construída sobre uma renúncia ao instinto”. Esta formulação tem a ver com a
modernidade vitoriana altamente repressiva que procurava regular as relações
humanas pela renúncia à espontaneidade. Havia um código a ser seguido e os
homens de hierarquia deveriam ser os guardiões implacáveis deste código. A vida
societária caracterizava-se por relações verticais de poder, saber e
hierarquia, pelo autoritarismo e poder quase absoluto do pai, pelo desdém em
relação aos aspectos femininos do homem tais como a sensibilidade, a empatia, a
capacidade de identificação, a compaixão, a tendência inclusiva, pela
supervalorização dos aspectos masculinos de virilidade, força, decisão,
implacabilidade, impiedade, organização, exatidão, linearidade, coerência,
pensamento lógico. Quando a sociedade e o indivíduo contestaram a subjetividade
patriarcal, as leis e regras, o dever e as obrigações, desenhou-se um cenário
de liberdade que de um lado tudo permitia e de outro lado obrigava o homem a
fazer escolhas. Segundo Bauman, esta liberdade é a atual produtora de
mal-estar. Tendo o pai e a mãe perdido em grande parte o papel de modelo e de
orientação o ser humano ficou por conta própria e se sentiu desorientado diante
de um vasto mundo cheio de possibilidades de prazeres e realizações.
4
HOMEM ATUAL E SEU MAL-ESTAR
1- Desde
que Freud escreveu seu artigo “O mal-estar na civilização” a expressão
mal-estar quase sempre ou sempre está vinculada a este artigo. Vide “O
mal-estar na pós-modernidade” de Bauman, “O mal-estar na atualidade” de Birman,
“O mal-estar na globalização” de Luciano Martins Costa, e outros e agora o
nosso “Mal-estar na contemporaneidade”.
2- Vou,
portanto, iniciar por ele. É um texto muito rico que aborda a questão de
inúmeros ângulos permitindo uma reflexão mais complexa sobre o tema.
3- É
interessante que Freud inicie o seu artigo discutindo a noção de “sentimento
oceânico” proposta numa carta a ele por Romain Roland. O que teria a ver o
sentimento oceânico com o mal-estar?
4- Freud
começa por negar a existência do sentimento oceânico. Aos poucos, através de um
raciocínio que começa na perda de limites no orgasmo sexual e continua com uma
especulação sobre o início da vida de um ser humano, Freud admite não só a
existência do sentimento oceânico nestas situações, como também a persistência
de restos deste sentimento nos adultos.
5- Esta
é uma questão importante. Hoje se dá muito valor ao desamparo como o motor do
desenvolvimento psicológico humano. Dizem: o ser humano nasce desamparado.
Esquecem que a maioria das comunidades humanas ampara o bebê assim que sua
cabeça assoma no mundo desconhecida que o aguarda. Uma evidência disto é o fato
de várias línguas terem o amparo como a palavra original sendo o desamparo
expresso por um prefixo ou sufixo que se acrescenta à raiz amparo. Em inglês temos
help como amparo helplessness como desamparo. Em espanhol amparo e desamparo.
Em alemão schutz (amparo) e schutzlosikeit (desamparo). Posso imaginar que a
precedência do amparo teria a ver com o acolhimento pela mãe e pela sociedade ao
novo ser humano que surge na natividade. No decorrer da vida este amparo pode
ceder lugar ao desamparo, passando a pessoa de um estado básico de bem estar
para um de mal-estar. Mas, sem dúvida, o primeiro acolhimento influi no estado
de mal-estar.
6- Faz
parte deste amparo aquilo que R.R. chamou de sentimento oceânico do qual Freud
inicialmente discordou. Porém ao trabalhar sobre esta ideia admitiu primeiro
que no “no auge do sentimento do amor a fronteira entre ego e objeto ameaça
desaparecer”. Mais adiante admite que o recém-nascido “ainda não distingue o
seu ego do mundo externo”. Freud reencontra o sentimento oceânico, que nada
mais é que um estado de fusão ou de simbiose como colocam vários autores
psicanalíticos, entre eles Winnicott que fala explicitamente de fusão na fase
de dependência absoluta. Esta fusão com uma mãe suficientemente boa é
necessária para um desenvolvimento saudável.
7- Voltemos
à pergunta acima: o que isto teria a ver com o sentimento de mal-estar? Sem
dúvida um ser humano que não encontrasse um amparo, um holding no seu ambiente
sentiria o mal-estar do desamparo. Poderíamos dizer que ele sentiria um
desamparo básico, um mal-estar básico que em nada o ajudaria nos desafios e
frustrações que a vida impõe. Ao contrário o sentimento de mal-estar certamente
se intensificaria. Já a criança que sentiu o bem-estar do amparo enfrentará
melhor os desafios da vida podendo passar melhor pelas situações pelo que Freud
chamou de três fontes de sofrimento: “o poder superior da natureza, a
fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram
ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na
sociedade”.
8- Mais
adiante Freud fala do mal-estar causado pela repressão das pulsões. Uma pulsão
não realizada pode provocar um mal estar. Um conflito entre a pulsão que quer
se realizar e o superego que impede esta realização provoca mal-estar. Os
sintomas advindos do conflito provocam mal-estar. Porém todos esses mal-estares
estão referidos à presença de um superego que é o representante do Pai, da lei social.
É um mal-estar amparado e aprovado que faz com que a pessoa se sinta incluída
no grupo social de uma maneira correta. Estamos aqui em um sistema neurótico
que recalca os aspectos femininos e se identifica com os aspectos masculinos do
pai, com o seu superego. Estamos na fase da modernidade vitoriana. O mal-estar
está ancorado num eixo moral e a satisfação de estar tentando agir de acordo
com este eixo moral é tranqüilizador. No fundo de todos os mal-estares está o
sentimento de que a pessoa está agindo irrepreensivelmente. É claro que existem
prejuízos: na criatividade, na abertura amorosa, na capacidade de compartilhar,
etc. Em princípio trata-se de um homem auto-suficiente, inclemente, com pouca
abertura para o afeto e a compreensão. É um homem do dever e seu mal-estar tem
a ver com os processos de repressão/recalque vigentes na modernidade vitoriana
e que produziam uma subjetividade neurótica. Quando falo de subjetividade
neurótica não penso apenas em patologia, mas também em normalidade. Existem
neuróticos graves prejudicados ou incapacitados em relação ao trabalho
profissional e que pouco usufruem da vida afetiva, do lazer, da diversão.
Existem neuróticos próximos da normalidade ideal que apresentam suaves sintomas
neuróticos que pouco ou nada atrapalham sua capacidade de trabalhar, amar e se
divertir.
9- Recapitulando:
o mal-estar advindo da repressão das pulsões e desejos está referido a um
superego que promove e aprova esta repressão provocando uma satisfação dentro
do próprio mal-estar. Este o mal-estar do neurótico, o mal-estar da
modernidade. Diferente é o mal-estar da contemporaneidade. Ela é fruto de vários
fatores: uma reação exagerada da sociedade à subjetividade repressiva e que
veio a desembocar numa excessiva permissividade. Vou contar aqui um pequeno
episódio acontecido comigo, paradigmático: estava eu visitando um casal com um
filho e estávamos reunidos na mesa da cozinha. Por duas vezes eu me senti
desrespeitado não só pelas intervenções de uma criança de 11 anos, mas também e
talvez principalmente pelo tom das intervenções. Dei-lhe uma bronca. O casal
nada falou. Mais tarde o pai me chamou para uma conversa em particular e disse
que ele tinha dado uma educação excessivamente solta para o filho pois ele
próprio o pai tinha se sentido excessivamente reprimido. A psicanálise influiu
na mudança de subjetividade com o trabalho de desrepressão. Freud esperava que
os impulsos liberados seguissem um caminho sublimatório ou que permitissem uma
redistribuição racional dos recalques. Não foi o que aconteceu. Outros fatores:
capitalismo de consumo que incita os desejos; extraordinária difusão da
informação pela Internet; multiplicação dos contatos entre pessoas de todo o
mundo através da Internet; possibilidade aumentada de difundir ideias e
sentimentos através dos blogs, uma tecnologia cada vez mais avançada que exige
cada vez mais do homem, um engajamento cada vez maior do pai e da mãe no
trabalho que já não podem ter a mesma dedicação de antanho para os filhos, etc.
10-
Estamos, pois, falando do mal-estar da
pós-modernidade, também chamada de modernidade líquida e de hipermodernidade.
Didaticamente podemos dizer que o mal-estar da modernidade está atrelado à
repressão/recalque e o mal-estar da pós-modernidade à permissividade. A
permissividade atualmente se manifesta de alguma maneira em praticamente todas
as áreas do quefazer humano. As pessoas deixam-se levar por seus impulsos e são
estimuladas a isto. A arrumação estética dos vários produtos colocados à venda,
a propaganda inteligente e psicologicamente sofisticada, a apresentação
contínua de novos produtos levam a um consumo exagerado. Na família pai e mãe
tendem a realizar todos os caprichos dos filhos não conseguindo colocar
limites. Os pais têm medo de não serem amados pelos filhos. Isto teria a ver
com um desmanche do superego que já não tem força para, com sua aprovação, dar tranqüilidade
aos pais. Um superego fraco deixa em dúvida se os valores estão corretos e,
portanto se devem ser respeitados. A relativa ausência dos pais dificulta os
processos de identificação da criança tornando-a insegura e vulnerável. As
babás, os programas de televisão e a internet entram neste vazio deixado pelos
pais induzindo identificações múltiplas o que pode, pelo menos em um primeiro
momento, causar confusão. Na escola a ordem unida e a noção de dever estão
sendo substituídas substituídas pelas noções de singularidade, interesse,
criatividade. Há uma charge aparecida há algum tempo em um dos jornais ou
revistas que mostram a diferença entre a modernidade e a pós-modernidade na
escola. Na primeira figura vemos os pais ouvindo a orientadora pedagógica e
dispondo-se a tomar providências em relação ao mau comportamento ou mau
aproveitamento do filho. Na segunda os pais culpam a escola das dificuldades do
filho, eximindo-se da responsabilidade. Esta é outra característica encontrada
na pós-modernidade. O “lavar as mãos” dos pais, o laissez-faire, a falta de
disposição de participar ativamente da educação e da aculturação do filho.
11-
Na modernidade não havia a angústia da
escolha, pois os caminhos já estavam previamente traçados. Havia sim a consternação
de seguir um caminho imposto pelos outros, a frustração de não poder seguir a
sua vocação e de construir sua vida segundo sua singularidade, e também, todas
as consequências da repressão conforme já foi visto. Este o mal-estar
neurótico.
12-
Assim como o neurótico é o homem da
modernidade, o borderline é o homem da pós-modernidade. A dissociação é seu
principal recurso embora também recorra ao recalque. De suas várias
características a que nos interessam aqui é sua porosidade, tendência ao ato,
onipotência mitigada. Sem um superego forte e com um ideal de ego confuso
(desaparecimento das ideologias, inclusive), tendo à disposição de sua
consciência os seus pequenos eus com seus múltiplos desejos e encontrando um
mundo rico de estímulos e ofertas, ele sente desorientado, confuso, sem saber o
que fazer da vida. Isso pode levá-lo a buscar uma figura orientadora: busca de
função mãe, de função pai ou de ambos. Neste caso ele apresentará uma viscosidade,
uma fixação, uma dificuldade de separação, um estreitamento de horizontes. Em
não tendo feito suficiente identificação com os pais as valências
identificatórias permanecem abertas e podem se dirigir para as figuras de mãe
e/ou de pai mantendo-o aprisionado a estas figuras. Ou pode dirigir ou
redirigir as valências para o mundo em permanente movimento, sem saturá-las,
podendo assim acompanhar as transformações da sociedade e da cultura. O seu
mal-estar tem mais a ver com desamparo que o mal-estar do neurótico. O
neurótico, como já vimos, tem o seu mal-estar em cima de uma plataforma de dever,
de aprovação do pai e da sociedade representados pelo superego. Já o mal-estar
do borderline não está ancorado em elementos internos. É um mal-estar de quem
está num mundo rico, cheio de estímulos e que precisa escolher um caminho que
combine com seus gostos e sua vocação. Nesta escolha ele se sente desorientado e
muitas vezes cai num estado de inércia, de niilismo, de depressão, de ansiedade
ou mesmo de desespero. “O que quero fazer de minha vida?” é o seu mal-estar e
sua aflitiva pergunta. Quando finalmente a inquietude vem a ser aceita como uma
boa e sábia companheira e ele encontra um modus vivendi ele pode fazer uso de
sua porosidade, de sua onipotência mitigada e seu desejo imediato de realização
de uma forma socialmente produtiva e adequada de tal maneira que acaba por
fazer parte do acervo social.
13-
Um bom amparo no início da vida criará
uma base segura para enfrentar as agruras e desafios que certamente o mundo lhe
imporá.
14-
O sentimento oceânico quando pode ser
sentido sem dúvida nos ampara. Não é outra coisa que Winnicott nos diz do bebê que
tem uma mãe suficientemente boa com a qual, na fase da dependência absoluta
pode realizar uma fusão que o ampara (ao qual deu o nome de holding) e na fase
da dependência relativa pode realizar uma simbiose que já inclui frustração sem
que esta provoque desamparo. Creio que ninguém duvidaria que o amparo produz
bem-estar. Certamente o mal-estar não estaria aí alojado. Ele aparecerá
posteriormente, mas o ser humano tem a oportunidade de uma experiência primeira
de acolhimento, de bem-estar básico. Não é a toa que nas diversas línguas as
palavras designativas têm como raiz o amparo ao qual se acrescentam prefixos e
sufixos para designar desamparo. Em inglês temos help como amparo helplessness
como desamparo. Em espanhol amparo e desamparo. Em alemão schutz (amparo) e
schulozikeit (desamparo). Posso imaginar que a precedência do amparo teria a
ver com o acolhimento ao novo ser humano que surge na natividade. No decorrer
da vida este amparo pode ceder lugar ao desamparo, passando a pessoa de um
estado básico de bem estar para um de mal-estar. Mas, sem dúvida, o primeiro
acolhimento influi no estado de mal-estar.
15-
Em um de seus parágrafos Freud coloca
que a repressão social, impedindo a manifestação da pulsão, provoca mal-estar. É
um mal-estar que tem uma referência externa (repressão) e uma interna
(recalque). Neste caso o mal-estar está acompanhado com um sentimento de dever
não cumprido diante da sociedade e do superego Na hipermodernidade não há um
superego orientador, nem doutrinas externas orientadoras. A pessoa entregue a
si mesma, tendo de fazer suas escolhas de vida, fica cheia de dúvidas e
sente-se perdida em um mundo complexo e contraditório. A ideologia familiar e
social não fornece um amparo como a modernidade oferece. Trata-se de um
mal-estar mais radical. As identificações com os pais são precárias. Não se
criam laços fortes com os semelhantes. A mãe atual solicitada pelo seu trabalho
e participando das preocupações da família, não pode ter a dedicação das mães
de antigamente. O amparo inicial em algum ponto fica comprometido. Por outro
lado o pai já não se oferece como figura de identificação para ser
internalizada como superego que serviria de guia à pessoa. E ainda, Richard
Bennet fala-nos da erosão do caráter quando as condições externas são mutáveis,
como acontece em nossos tempos.
16-
Aqui ocorre uma coincidência
interessante que certamente não é coincidência. A não identificação com o pai
mantém a pessoa ligada aos modos e valores da mãe. Um dos modos de ser da mãe é
relacionar-se através da porosidade. É este modo de ser que permite a empatia,
a compaixão, o espírito de conciliação, a compreensão contextual das situações,
a visão humanista para além da visão objetiva. Esta mãe está aberta para o
mundo. Como diz Freud, ela tem um superego frouxo que admite influências
externas. O bebê em sua interação com a mãe internaliza esse modo de
relacionamento/conhecimento/comunicação. No período freudiano esta abertura era
obturada, obrigando-se a criança a abandonar os valores femininos para
tornar-se um verdadeiro homem, poderoso, inclemente, sem sentimentalismos que o
atrapalhariam na dura luta pela vida. A identificação com o pai poderoso não é
feita. As valências identificatórias que se completariam nessa identificação,
criando um superego infenso às influências exteriores, mantêm-se incompletas.
Ora, um superego fechado ao mundo não poderia acompanhar as suas mudanças. Já o
superego com valências identificatórias em aberto permite a identificação do
ser humano com o devir do mundo. Podemos dizer que ao mesmo tempo o mundo se
tornou imprevisível e instável e ao mesmo tempo as subjetividades têm a
capacidade de acompanhar essas transformações. Como diz Bauman, passamos do
sólido para o líquido.
17-
Certamente há um preço a ser pago. O
preço da ansiedade, da insônia, da inquietude, da agitação. O preço será ainda
maior se as relações com a mãe tiverem sido insuficientemente boas. Neste caso
não só as valências-pai permanecem abertas como também as valências-mãe. Estou
por uma questão didática apresentando as situações em termos absolutos, mas há
variações nas identificações, seja com o pai, seja com a mãe. As valências-mãe
em aberto provocam um extremo desconforto que pode levar às drogas, à
agressividade, à perversão, aos sintomas psicossomáticos. Essa agitação está
relacionada a falta de uma base, de um eixo afetivo, pois esta criança não se
sente aceita nem participante do mundo. As valências identificatórias abertas
levam em primeira instância à busca da mãe insuficiente para tentar viver uma
suficiência ou da mãe suficiente que foi perdida. O pulo do gato é poder
direcionar as valências identificatórias abertas para o mundo, para a cultura,
para a natureza, para a beleza. Poderia ser um dos caminhos da terapia, mas
certamente é um caminho cheio de ciladas. É preciso que o analista, uma vez
solicitado, aceite ser a mãe (e aqui falamos mais de uma mãe real do que
transferencial), mas uma mãe que direciona as valências identificatórias que
passam por ela, para o mundo. Neste processo o analisando pode se sentir
rejeitado entendendo que a mãe o joga para o mundo por não desejá-lo. E teremos
de lidar com este paradoxo com uma delicada sutileza.
18-
Apresentei um quadro geral e algumas
noções precisaram permanecer não-ditas para que o conjunto pudesse ser abarcado
na sua lógica própria.
Nahman Armony
INSTABILIDADE ESTÁVEL
Uma pergunta anda preocupando muitos casais atuais: será
possível alcançar a estabilidade de uma união hoje, com tantas mudanças nas
relações entre homem e mulher? A dúvida procede e tem raízes profundas e
antigas. Ameaçados por predadores, doenças e até pelo clima, nossos ancestrais
pré-históricos viviam em permanente estado de insegurança. O desenvolvimento de
instrumentos de defesa e o domínio do fogo reduziram um pouco esse sentimento,
mas não o eliminaram. Inventaram-se então os deuses protetores. Ainda assim, a
imprevisibilidade e a insegurança persistiam. As religiões monoteístas trariam
outra alternativa de alívio para o mal: a vida pós-morte, que, se vivida no
paraíso, traria felicidade, segurança e tranqüilidade eternas. O homem tinha,
então, o seu olhar projetado para o além
da vida. Com a filosofia do francês René Descartes (1596-1650) e a
física do inglês Isaac Newton (1642-1727) as coisas mudariam: havia a promessa da felicidade plena
ainda em vida, pelo desenvolvimento da ciência, que nos livraria de doenças e
nos daria máquinas que resolveriam todo tipo de problema. Em tal clima de
otimismo, o homem deixou de aceitar a incerteza como parte da vida e passou a
exigir de si mesmo e dos outros estabilidade, previsibilidade, segurança,
felicidade permanente. É essa mentalidade que ainda predomina, embora já haja
brechas por onde a insegurança se infiltra. Uma dessas brechas é o setor
amoroso.
Estamos saindo de um período em que esperava-se que os casais se
encontrassem, namorassem, se casassem e vivessem felizes para sempre. Havia um
simulacro de estabilidade e sossego. Uma estabilidade tipo “eu mando, você
obedece”. A paz reinava à custa de sacrifício e sofrimento ocultos, mas isso
era ignorado e o troféu era “o casal feliz”, “a família feliz”, a estabilidade,
enfim.
Com o advento das relações igualitárias, as divergências vieram
à tona. A mentalidade de ponta não aceita que um dos membros do casal fique em
posição submissa, reprimindo desejos e sentimentos para manter suposta
harmonia. E agora? Como conciliar as diferenças? Mais que isso, como cada
parceiro irá lidar com a sensibilidade do outro? Se penso dizer alguma coisa
que o ferirá, devo me calar? Mas e se, em emudecendo, acumulo ressentimentos
que irão estourar em algum lugar e momento? Até onde devo passar por cima de
meus sentimentos para respeitar a sensibilidade do outro? E será que este outro
está tendo o mesmo cuidado? Até onde devo me sacrificar pela pessoa que amo?
A resposta a essas questões não é precisa, mas fugidia, pois
depende da sensibilidade momentânea do casal, fruto das experiências cotidianas
com o parceiro e com o mundo, do estado de espírito, do estado de saúde, e de
muitos outros fatores.
A bússola se encontra no vir a ser da relação. Realiza-se uma
ação e há uma resposta que deverá ser levada em conta para a próxima ação, e
assim por diante. Haverá momentos em que um dos dois estará em condições de
receber maior carga mobilizadora e poderá ser mais compreensivo. Haverá outros
em que as circunstâncias o tornarão mais frágil e não poderá então suportar o
peso da susceptibilidade do outro.
Se concebermos dois pólos extremos “pensando em mim” e “pensando no outro” e os ligarmos
por uma linha de gradação, poderemos dizer que a possibilidade de uma relação
satisfatória está na flutuação do casal por essa linha imaginária, ocupando a
cada momento o ponto mais conveniente para seu escorregadio equilíbrio. O par
alcançará então uma segurança insegura, uma instabilidade estável. Esta poderá
ser a baliza de referência para o entrosamento do casal.
Nahman Armony
Primeira
publicação na revista CARAS
POEMAS PARA MEUS FILHOS - III
Havia pavor nos seus olhos
Olhei no fundo de seu pavor
E juntos
Enfrentamos o Inominável.
Havia Morte em meu corpo
E em minha alma
Mas não em meus olhos.
A súplica dos olhos de minha filha
Varreu de meu ser a angústia do Além
E me tornou Puro, Forte,
Uma Rocha,
A olhá-la com a força dos Deuses Benfazejos.
Nem eu mais a olhava
Nem ela a mim.
Nossos olhares eram uma só Intensidade
Lutando contra o Horror.
Quatro olhos-infinitos
Formando um infinito arco
Intransponível.
O choro era um grito de Vitória
O grito, uma Sinfonia Guerreira
A dor, um Amuleto, ancorado
Nas cem correntes entrelaçadas
Protegendo a Vida
a Alma
O Amor.
A paz no fundo dos olhos
Os olhos no fundo da paz
O fundo na paz dos olhos
Os olhos nos olhos
A olhar
A trançar
Retraçando
Caminhos.
Nahman Armony
Olhei no fundo de seu pavor
E juntos
Enfrentamos o Inominável.
Havia Morte em meu corpo
E em minha alma
Mas não em meus olhos.
A súplica dos olhos de minha filha
Varreu de meu ser a angústia do Além
E me tornou Puro, Forte,
Uma Rocha,
A olhá-la com a força dos Deuses Benfazejos.
Nem eu mais a olhava
Nem ela a mim.
Nossos olhares eram uma só Intensidade
Lutando contra o Horror.
Quatro olhos-infinitos
Formando um infinito arco
Intransponível.
O choro era um grito de Vitória
O grito, uma Sinfonia Guerreira
A dor, um Amuleto, ancorado
Nas cem correntes entrelaçadas
Protegendo a Vida
a Alma
O Amor.
A paz no fundo dos olhos
Os olhos no fundo da paz
O fundo na paz dos olhos
Os olhos nos olhos
A olhar
A trançar
Retraçando
Caminhos.
Nahman Armony
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