UMA CONTRIBUIÇÃO À INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA DA PARENTALIDADE


Nossa forma de enxergar a parentalidade, isto é, a relação entre pais e filhos, modificou-se no decorrer da história. Ela depende da época histórica em que nos colocamos. É como se em cada período vivêssemos em diferentes aquários cujos vidros induzem a ver -- ou melhor -- apresentam o real de diferentes formas. É desta perspectiva que escrevo[1].          
Existe uma influência social sobre todos os aspectos da vida humana. Neste artigo focalizarei esta influência sobre a parentalidade, sobre a maneira dos pais se relacionarem com os filhos, educá-los, prepará-los para a vida adulta. Essa influência social se embaralha com o inato do ser humano a ponto de dificilmente, e eu diria, só artificialmente podermos distingui-los. Mas, sem dúvida há um inatismo, uma hereditariedade, uma genética em cada ser humano. As próprias aquisições hereditárias são o resultado da interação do mais primitivo ser vivo que quer sobreviver e perpetuar sua espécie, com o ambiente mutante que pode facilitar ou dificultar estas metas. As ações úteis são conservadas pelos genes e então transmitidas às gerações seguintes. Essas ações úteis continuam a sofrer a pressão do ambiente gerando modificações no organismo que também se transmitem. No ser humano é extraordinária a força da cultura, da subjetividade circulante, a ponto de poder obliterar a força genética. Atualmente está em voga a corrente que diz não ser instintivo o amor maternal. O livro referência desta forma de pensar tem o título “Um amor conquistado: o mito do amor materno” de Elizabeth Badinter[2].  Raciocinando com Darwin eu diria que o instinto de amor e proteção que encontramos[3] nos mamíferos em geral pode, no ser humano, ser obliterado pela força da influência social dando a impressão de que não existe como instinto. Poder-se-ia dizer que o ambiente promove uma radical modificação do instinto quando encontramos um grupo étnico em que o amor materno inexiste.
O que é fundamental para minha exposição é aquilo que pode ser modificado: o ambiente; e meu tema ambiental é a forma de relação parental. Li em algum artigo cujo nome não lembro que observamos o mundo de dentro de um aquário querendo dizer que não enxergamos diretamente o real, mas o vemos através de lentes que o presentam. Para sentir os climas que envolvem as relações parentais através da história me afundarei em dois diferentes aquários que me darão duas perspectivas de realidade. No primeiro aquário a refração de seu vidro me fará enxergar os paradigmas da dicotomia/holismo. Através do segundo poderei enxergar os paradigmas da repressão/ permissividade/ecologia.
PARADIGMA DICOTÔMICO/HOLÍSTICO - examinarei a disjunção corpo/alma e a integração corpo/psique/mente. Em criança eu tinha a ideia de que a mente pertencia a uma sustância diferente do corpo. Era uma ideia que nascia da vivência/percepção que tinha de mim. Achava, por exemplo, um absurdo ter de me alimentar como se isso nada tivesse a ver com meu verdadeiro SER. E evidentemente estendia esta sensação a todas as pessoas. A dicotomia corpo/alma era para mim uma vivência primária. Muitos anos mais tarde, ao estudar filosofia essa certeza se desfez.
CONCEPÇÕES HISTÓRICAMENTE DATADAS SOBRE CORPO, PSIQUE        E MENTE (numa visão winnicottiana)
        
         A mente não aparece nas transcrições da fala rimada (ou poesia) do aedo Homero do século VIII a.c. A concepção sobre esta questão era: um corpo animado por um sopro vital (pneuma) adquiria vida. A morte ocorria com o desaparecimento do sopro vital. O corpo não sendo mais vivificado pelo pneuma tornava-se uma sombra, um eidelon, uma espécie de robô incapaz de sentir/pensar, isto é, de pensamento intuitivo que era o único então em evidência. Não se falava do destino da alma (da mente), pois este conceito ainda não estava formado. Havia um corpo que enquanto vivo sentia e reagia ao ambiente com uma inteligência emocional, uma psique inteligente, um pensamento da sensibilidade. Tendo perdido seu sopro vital, seu pneuma, o corpo passava a habitar o Hades, local para onde iam todas as almas quaisquer que tivessem sido em vida suas virtudes e seus pecados. Só excepcionalmente, mediante rituais poderosos, um eidolon voltava a ser capaz de, por momentos, recuperar sua inteligência emocional. Se olharmos sob a ótica de Winnicott não existia então a mente, somente o corpopsique. Não se fala, pois, de uma inteligência racional, mas de uma inteligência emocional.  
         Com a escola jônica de filosofia a mente entra em cena. Seus filósofos tentam encontrar a substância ou as substâncias primordiais das quais se derivariam todas as outras por transformações. Temos aqui um raciocínio abstrato e, portanto na perspectiva winnicottiana já estaríamos na área da racionalidade mental que se acrescentaria à racionalidade emocional. Esta mente está integrada ao corpopsique.
         A dicotomia evidencia-se em Platão ao separar corpo e alma colocando-os como duas substâncias distintas.  O corpo pertence ao mundo sensível e a alma, que é uma alma racional, pertence ao mundo inteligível. Para Platão o mundo sensível é um mundo instável, um mundo de opiniões e não de verdades. E Platão deseja um mundo estável onde verdades absolutas possam ser estabelecidas. O corpo inconstante e mutável é desvalorizado. Em termos de Winnicott o psiquesoma é forçado a se separar da mente dando ensejo ao aparecimento de patologias.
         Esta desvalorização se acentua com Descartes que também separa corpo e mente e vê o corpo funcionando como um relógio mecânico, uma máquina independente precariamente ligada à mente pela glândula pineal.
         Esta última dicotomia é concomitante à retomada da observação da natureza já agora por um viés matemático que tornaram as observações precisas. Estamos no paradigma da cientificidade dicotômica extremamente útil para o desenvolvimento do pensamento racional, da lógica clássica utilizada pela física newtoniana com enormes ganhos no que diz respeito ao conhecimento e utilização da natureza. Descartes com a sua filosofia antecedeu Newton, dividindo o homem em res extensa e res cogitans onde a res extensa --- e o corpo faz parte da res extensa --- funcionando mecanicamente pode ser estudada com precisão usando-se a matemática e a lógica de causa e efeito. Separada do contexto geral da vida a física ganhou status de onipotência e onisciência tornando-se modelo para todas as atividades humanas, arrebatando da religião a aura de sacralidade intocável. O homem arrogantemente acreditava poder domar e dominar a natureza. Certamente formavam-se detritos, restos indesejáveis, mas por muito tempo o progresso que a ciência trouxe ultrapassava os malefícios causados ao ambiente e ao homem. Estes detritos foram, porém se acumulando até que se percebeu que a exploração ilimitada da natureza no seu sentido mais amplo (física, social, humana) acabaria por destruir a espécie humana.  Esta se tornou uma preocupação para muitos: Bauman, Lipovetsky e outros pensadores. Criou-se o “Novo Clube de Paris” formado por pessoas de várias profissões dedicadas ao mundo empresarial, financeiro e social preocupados com os rumos tomados pela sociedade acreditando que estamos chegando a um limite muito perigoso. Eles propõem uma mudança de paradigma a ser difundido pelo corpo social. Passaríamos do paradigma da informação para o paradigma do Conhecimento o que possibilitaria uma compreensão dos processos econômicos, sociais e psicológicos permitindo  uma ação mais humanizada. Outros pensadores falam de um paradigma holístico em que corpo e mente, não mais pertenceriam a duas regiões ontológicas diferentes, não mais seriam duas substâncias separadas e incompatíveis, mas estariam integradas formando uma unidade indissolúvel. Eventualmente por razões práticas poder-se-ia diferenciar corpo de alma não na forma de dicotomia, mas de dualidade. O que representa a possibilidade de olhar a unidade corpo/alma da perspectiva privilegiada da alma ou da perspectiva privilegiada do corpo. O que é diferente de olhar o corpo como pertencente a uma substância distinta do corpo. A contradição própria da dicotomia se apresenta como paradoxo no paradigma holístico. Aqui entre outras contribuições, temos uma de Winnicott que colocarei em destaque: o objeto transicional e o espaço potencial[4]. O objeto transicional, ao mesmo tempo subjetivamente concebido e objetivamente percebido e o espaço potencial lugar de encontro do subjetivo com o objetivo ultrapassam a dicotomia cartesiana unificando mundo interno e mundo externo.
Duas exposições exemplares são representantes fortes da dicotomia tal como é vista por Winnicott: 1- nas manifestações psicossomáticas- segundo Winnicott o excessivo desenvolvimento da mente atrai a psique para ela separando-a do soma que na tentativa de recuperar a psique recorre ao transtorno psicossomático 2- Winnicott relata uma experiência comum de consultório: o analisando fala de si mesmo distanciadamente como se estivesse falando de uma terceira pessoa. Winnicott teoriza que, ainda bebê, essa pessoa não teria tido uma mãe que cuidasse dela suficientemente bem tendo de desenvolver excessivamente o seu intelecto. A mãe deveria cuidar do bebê, mas na falta desses cuidados é a mente que cuida do psiquessoma. A terapia deverá ajudar o analisando a se envolver naquilo que fala. Não deverá falar de seus sentimentos mas deverá vivê-los na sessão[5].
         Falamos do aquário que olha a dicotomia e o holismo. O outro aquário que olha os paradigmas repressivo, permissivo e ecológico permite usar a dialética hegeliana: a tese seria o paradigma da repressão da modernidade vitoriana, a antítese o paradigma permissivo da pós-modernidade e a síntese um paradigma atual ainda em formação que na melhor das hipóteses terá uma direção que nos permitirá chamá-lo de paradigma ecológico, holístico, humanista. 
Na época vitoriana predomina o paradigma da repressão, especialmente a repressão sexual. Não ignoro a crítica de Foucault que fala da proliferação dos discursos sexuais, mas essa proliferação é compatível com uma repressão esmagadora. Consequências: a criança à época de ir para além do horizonte da mãe, de se socializar no ambiente familiar é, com fala Freud muito bem, castrada. Na minha interpretação isto significa que ela é impedida de conservar a subjetividade feminina, os sentimentos e valores da mãe tendo de se identificar com a macheza do pai abandonando a sensibilidade materna. A consequência é uma família patriarcal cujo protótipo ideal descreverei a seguir: A família patriarcal prototípica do período vitoriano era composta por uma mãe suficientemente boa e por um pai que impunha, a qualquer custo, com a aquiescência da mãe, as leis da casa; isso incluía a ação de castração na época apropriada. A mãe através da relação fusional e da mutualidade propiciava ao filho o desenvolvimento da capacidade de empatia, de identificação, da sensibilidade sutil, do sentimento de compaixão. Estas características eram consideradas, na sociedade moderna vitoriana, “frescuras de mulher”, enfraquecedoras de crianças do sexo masculino que então deveriam livrar-se desta subjetividade. Os meninos deveriam recalcar estes aspectos femininos para tornarem-se fortes, duros, impiedosos: uma masculinidade bem desenvolvida lhes permitiria vencer a dura luta pela sobrevivência, alcançando um padrão de vida consoante o seu grupo social. Para conseguir este resultado o Pai (ou a função pai) proibia duramente o acesso à mãe; ele exercia a função de castração da qual resultava uma interdição do feminino. O resultado era o provável desenvolvimento de um neurótico normal desde que a mãe fosse suficientemente boa e o pai castrador suficientemente bom; refiro-me a uma mãe suficientemente disponível, sensível e responsiva às modificações da subjetividade do filho e a um pai suficientemente presente, justo, protetor, respeitador da lei, qualidades que fariam dele uma boa figura de identificação.
Evidentemente as coisas se complicavam quando tínhamos uma mãe e/ou um pai insuficientemente bons. Falando a grosso-modo uma mãe insuficientemente boa levará o filho a se apoiar nos valores do pai suficientemente bom. Não tendo internalizado um imanente solo seguro, buscará segurança em valores transcendentes tornando-se prisioneiro de conceitos pré-formados. Poderíamos dizer que sua segurança não vem da terra-mãe, mas do astro-pai. Facilmente descambaria para um falso-self.
Tendo uma mãe suficientemente boa e um pai insuficiente bom terá de se haver com a questão de tornar-se adulto, de sentir-se adulto, já que lhe falta a figura de identificação apropriada.
Se mãe e pai forem insuficientemente bons o filho ficará desarvorado, com uma conduta errática, agressiva, dispersa, deprimida, ansiosa.
PARADIGMA PERMISSIVO
Do paradigma repressivo da modernidade passamos ao paradigma permissivo da pós-modernidade. A família patriarcal entra em declínio. As identificações sólidas com o pai sofrem com a perda de poder desse pai, com sua desorientação diante de um mundo mutável onde nada é seguro, nem o emprego, nem as amizades, nem as convenções sociais, nem a moralidade. Um pai que fica perdido entre o autoritarismo e a condescendência, agindo muitas vezes erraticamente. Um comportamento próprio de um período de transição. O homem firme, seguro, com valores sólidos, com um superego forte, perde seus parâmetros e torna-se um homem inseguro, que não sabe se expressa ou não seus sentimentos, que não sabe se desenvolve ou não sua capacidade de empatia e identificação, que não sabe se deve ou não ser autoritário. Quanto à mãe, chamada a entrar no mercado de trabalho por razões econômicas, também o faz para livrar-se do jugo do marido, para tornar-se independente, valorizar-se, igualar-se subjetiva e hierarquicamente ao marido; ela então, torna-se uma profissional dedicada a sua carreira. Duas conseqüências: menos tempo para o bebê e mais preocupação com o sustento da casa. Esses dois fatores diminuem sua disponibilidade para o bebê, e a fusão e a identificação mãe/bebê ficam prejudicadas, remetendo-nos a questões de identidade/identificação. Consolida-se a figura do borderline que segundo alguns autores tem como parte de sua genealogia uma mãe que na fase da separação-individuação, quando o bebê ora solicita a simbiose, ora a independência, não tem uma resposta sensível e adequada da mãe. Este borderline não terá sua valências identificatórias preenchidas. Duas consequências são possíveis: ele desesperadamente buscará relações anaclíticas para preencher estas valências ou poderá usá-las através das identificações dual-porosas para se conectar com o devir do mundo humano e social. Manter as valências identificatórias em aberto e portanto a capacidade de identificação dual-porosa é conservar características infantis e adolescentes: curiosidade, alegria, prazer, empatia, necessidade de identificação não apenas mental, mas principalmente psicossomática. No reverso o borderline pesado poderá procurar figuras de identificação para saturar as valências identificatórias. Ele exigirá destas figuras uma conduta incompatível com uma boa relação interpessoal; exigirá comportamento de mãe primeva e de pai primevo da pessoa escolhida para seu par, e fará demandas impossíveis de serem atendidas. Seguem-se a frustração, a separação, o abandono, o sentimento de solidão, de vazio, de incompreensão; aparecem a depressão, a ansiedade, os distúrbios de conduta, os comportamentos perversos, as somatizações, os sintomas neuróticos, as vivências psicóticas, etc.
Fazendo um pequeno desvio angular podemos dizer que na família, as identificações sólidas tornaram-se problemáticas pela solicitação que o mercado e a vida atual fazem à mãe e pela perda da posição de patriarca por parte do homem, o que o deixa confuso, em estado de busca de uma nova identidade. Frequentemente os pais e mães, traumatizados pelo comportamento castrador de seus genitores tornam-se excessivamente permissivos, com dificuldades de colocar limites para os filhos. Ainda como uma reação à posição desvalorizada em que foram colocados pelos pais/avós transmitem ao filho a ideia de que ele não é nada menos que um gênio com direitos absolutos. A criança desenvolve o sentimento de onipotência e de dever sagrado de satisfazer todos os seus desejos. Com isto o outro passa a ocupar a posição de servo a ser usado.  
O pai, até então idealizado, preservado em sua autoridade e onipotência, afetivamente distante dos filhos, alvo de um respeito reverencial, estímulo para a revolta ou a submissão dos filhos, vai-se tornando mais próximo, evitando provocar o temor reverencial, mostrando suas dúvidas e fraquezas, seu lado feminino, e sendo percebido/sentido em seu dilaceramento. O filho ou se identifica com a inconstância e cria um self criativo e um ego flexível – e aí teremos um borderline brando --- ou fica baratinado, sem ponto de referência, sem âncora, sem um eixo. As consequências negativas podem ser a busca de grupos místicos e de drogas, a depressão, a ansiedade, a desorientação, a síndrome borderline pesada, o pânico, etc. O resultado é a agressividade, as drogas, a falta de consideração, a ausência de ética, a irresponsabilidade, o egocentrismo, o uso do homem como se ele fosse uma mercadoria, etc. Uma situação perigosa para a coesão da sociedade e para a sobrevivência do planeta. O que fazer diante deste quadro? Será possível recuperar a disponibilidade da mãe? Duvido. Será que se a qualidade da relação for boa as lacunas serão preenchidas? Ou será que as valências maternas não preenchidas poderão encontrar um sentido positivo através da identificação dual-porosa com o mundo?  De uma maneira geral os pensadores mostram-se pessimistas quanto à possibilidade do aproveitamento positivo dessas novas posições subjetivas. Muitos deles, clara ou disfarçadamente preconizam uma volta diferenciada ao regime de repressão patriarcal. Outras oferecem novos caminhos. É o caso de Luc Ferry que especialmente em seu livro “A revolução do amor” fala de um novo humanismo, diferente do humanismo do iluminismo, um humanismo que não está ligado às grandes entidades transcendentes, como Pátria, Família, Ideologias, etc., mas sim dirigem-se ao ser humano em particular. Diz ele que hoje não seríamos capazes de sacrificar nossas vidas por um ideal transcendente, mas sim seríamos por um outro ser humano querido. E este querido pode se estender a todos os viventes.
Winnicott muito nos ajuda na composição do novo paradigma que se encaminha para o holístico, portanto ao ecológico e humanista. O conceito de espaço potencial onde convivem paradoxalmente o subjetivamente concebido e o objetivamente percebido deixa de lado a clássica dicotomia. Os objetos transicionais que habitam este espaço são ao mesmo tempo subjetivos e objetivos. O conceito de concern introduz uma nova forma de ética: não se trata mais de uma ética imposta nem mesmo persuasiva, mas sim uma ética que nasce da própria experiência da criança. Sem que ninguém a advirta, ela percebe que ao atacar a mãe-objeto está ameaçando de destruição a mãe-ambiente. Surge então o concern, o zelo, o cuidado com o outro que se estenderá à família e ao conjunto dos seres humanos.
O conceito winnicottiano de criatividade amarra definitivamente o homem ao ambiente: ele cria o que já existe em ato ou potência. Com isto se ultrapassa a dicotomia cultura/natureza. E finalmente o conceito de holding nos leva para além da dicotomia individual/social. Citando: Citação. Livro: “Da pediatria à psicanálise”. Artigo: “A tendência anti-social. “... a criança busca a quantidade de estabilidade ambiental necessária para suportar o embate do comportamento impulsivo. Trata-se da busca por uma provisão ambiental perdida, uma atitude humana que, por ser confiável, proporciona ao indivíduo a liberdade de mover-se e agir e excitar-se. É principalmente na direção da segunda vertente que a criança provoca as reações totais do ambiente, como se buscasse uma moldura cada vez mais ampla, um círculo que teria como seu primeiro exemplo os braços ou o corpo da mãe. É possível perceber aqui uma série – o corpo da mãe, seus braços, o relacionamento dos pais, o lar, a família, incluindo os parentes próximos, a escola, o bairro com a sua delegacia, o país e suas leis” (“A tendência antissocial” do livro “Da pediatria à psicanálise”)  p.411.
Um certo comportamento familiar-social faz-nos ter esperança que a direção apontada a partir dos conceitos winnicottianos está em andamento. Dito de chofre: o comportamento de castração está sendo substituído pela colocação de limites.
Castração e limite: coloco a castração como pertencente mais ao campo do neurótico e o limite mais ao campo do borderline. A castração, palavra evocativa de brutalidade e que em Freud se refere à proibição do incesto com a mãe, é, quando examinada de um ponto de vista mais amplo, uma metáfora da injunção ao abandono de características femininas como empatia, identificação dual-porosa, etc., para poder tornar o menino um “Verdadeiro Homem”. Ser homem com H maiúsculo é proibir o feminino no menino e no adulto do sexo masculino, estimulando a dureza, a implacabilidade, a impiedade.
        Já na colocação de limites, o carinho e sensibilidade da mãe no trato com a criança presentifica modos de relacionamento e valores que não à toa chamamos de femininos tais como empatia, dual-porosidade, compaixão, percepção sutil, intuição, impulso conciliador, etc. Em não havendo uma interferência castradora os modos de relacionamento e os valores da mãe advindos da relação afetuosa com o filho são preservados, só aparecendo a questão do incesto e fixação materna em situações de desenvolvimento distorcido quando então uma ação terapêutica se faz necessária.
A castração como conceito foi introduzido por Freud e refere-se a uma ação dura, cruel, enquanto que a colocação de limites é uma atividade realizada com benevolência, amabilidade e sensibilidade.
Na subjetividade neurótica o acesso ao feminino do homem é impedido mediante uma ação castradora. Na prática esta castração é principalmente exercida pelo pai que impede o acesso da criança aos seus aspectos femininos de empatia, capacidade de identificação, sensibilidade sutil, etc. Hoje, na classe média educada e informada a brutalidade castradora encontra-se atenuada e pode-se mesmo dizer que está se difundindo não mais uma castração crua, mas uma colocação sensível de limites. Quando falo de castração penso em violência em seus diversos graus. Quando falo de limites também penso em graus de serenidade, firmeza e sensibilidade, respeitadoras da subjetividade da criança. Gosto de usar para a castração a imagem de um muro compacto contra o qual a criança irá se chocar e se machucar; já o limite eu o vejo como uma cortina de veludo, macia e flexível que oferecerá proteção e limite à criança sem machucá-la. O pai impiedosamente castrador do século XIX que vemos em filmes como “A fita branca”, “A árvore da vida” está desaparecendo nas classes médias dos centros urbanos. Os pais em geral são amorosos com os filhos e as proibições são realizadas, o mais possível, de uma forma delicada, carinhosa e sensível. A repressão que vem dos pais já não é mais traumática, castradora, violenta e isto faz uma diferença. Não podemos, porém esquecer que as proibições que a criança impõe a si mesma podem ser poderosamente mandatórias mesmo quando os limites são dados por uma figura benigna. Esta benignidade tem sua importância, pois evita a introjeção de uma personificação despótica. Mas, mesmo quando o limite é colocado de forma adequada, a criança precisa exercer uma forte pressão sobre si mesma para conter seus poderosos desejos imaturos ainda não integrados pelo eu. A pressão emana então não do pavor/pânico provocados por uma figura tirânica assustadora vociferando ordens, mas da força impositiva das palavras em si. Esta nova maneira de colocar limites muda a qualidade do recalque que de maligno passa a benigno o que permite que processos de divisão do eu tenham um lugar mais proeminente no psiquismo, partilhando o espaço psíquico com a repressão benigna. A normalidade contemporânea começa a se apresentar para mim como um misto de neurótico e borderline onde convivem a onipotência mitigada, as divisões do eu, o recalque benigno[6], a porosidade seletiva.
            A ideia de “recalque benigno” surgiu de seu contraponto, o “recalque excessivamente traumático” (recalque maligno[7]) largamente exercido na época vitoriana.
No recalque maligno temos um pai tirânico que exerce a repressão com aspereza, violência, insensibilidade. A interdição fica indissoluvelmente ligada a uma figura assustadora que, internalizada, irá assombrar a criança como superego cruel, atacando impiedosamente o eu, dificultando a elaboração da interdição.
        No “recalque benigno” a interdição é colocada com firmeza, mas sem desabrimento e com a brandura possível, o que permite sua elaboração. Sabemos que a interdição ao se defrontar com os intensos impulsos primitivos infantis perde o seu caráter de suavidade para que os impulsos possam ser detidos. É comum ouvirmos uma criança falando para si mesma diante de um objeto ou ato interditados um “não pode” repetidas vezes, em um tom autoritário, com voz de comando. A suavidade paternal transforma-se em severidade impositiva. Porém a figura dos pais mantém-se benigna e assim é internalizada. A severidade e o rigor ficam colocados na interdição ela própria e não naqueles que a exerceram. No primeiro caso os bebês (as crianças) internalizam a proibição respeitando seus processos de homeostase subjetiva. No segundo caso há uma imposição castradora que não respeita o tempo de equilibração do bebê invadindo seu psiquismo e lá deixando sua marca danosa. Uma marca diferente daquela benigna que o próprio bebê se coloca, pois a que ele se coloca está dentro de suas possibilidades de suportar o trauma sem uma quebra significativa da continuidade de ser.
        Após todas essas reflexões atrevo-me a vislumbrar num horizonte utópico a figura do Homem Transicional. Este Ser terá tido uma mãe suficientemente boa possibilitando-lhe a internalização de valores femininos que persistem na vida adulta por não se defrontarem com a castração paterna, mas sim com a colocação graduada de limites tanto do pai quanto da mãe, ambos realizando uma mesma tarefa que poderíamos chamar de masculina. Isso aconteceria com mais frequência nas camadas sociais citadinas e esclarecidas. Por outro lado vemos nessas mesmas camadas o homem exercer o papel feminino de cuidar do bebê. Haveria, pois, um intercâmbio dos papéis masculinos e femininos que tanto poderiam ser exercidos pelo homem quanto pela mulher. É preciso, porém, assinalar que há diferenças sutis entre o feminino/masculino da mulher e o masculino/feminino do homem. Citarei uma dessas diferenças: a gestação e a amamentação ao seio pertencem exclusivamente à mulher e estabelecem um forte e indelével vínculo entre mãe e bebê o que pode vir a criar futuras dificuldades em “soltar” seu rebento para os perigos da vida em geral e do social em particular, só ultrapassados com esforço e com ajuda do pai para quem não é tão custoso expor o filho a esses perigos. Um exemplo: a mãe ao proibir o filho de velejar encontra um pai que diplomaticamente interdita a proibição levando-o ao mar. Este é um tipo de limite que deverá ser distinguido da colocação de limites em geral, pois se refere ao processo de evolução de um ser humano que passa, com a ajuda da ação balanceada dos pais, de uma situação de fusão e simbiose materna (“dependência absoluta e relativa”) ao maturando processo de responsabilização pelos seus atos (“rumo à independência”). Seria o equivalente benigno da castração freudiana. 
         No final das contas o menino que teve pai e mãe com as características acima apontadas pôde amenamente assimilar os modos de ser feminino e o de fazer masculino vivendo simultaneamente o objetivo e o subjetivo. Essa criança virá a ser, se nada atrapalhar sua trajetória, o Homem Transicional, cujo habitat será na maior parte do tempo, o espaço potencial, nele aprendendo a balancear o subjetivamente concebido e o objetivamente percebido. Os pratos oscilarão entre processos borderline e neuróides numa contínua variação de ambos.
         Uma observação final: os sinais do advento do Homem Transicional estão inseridos em um contexto mais amplo no qual indícios de transformações em outras áreas (econômica, social, política, cultural, etc.) estão presentes. As mutações acontecem em bloco e estão intrinsecamente ligadas. O Homem Transicional só poderá vingar como parte das transformações globais da sociedade.  
                                                               Nahman Armony




[1] Ver “As palavras e as coisas” de Michel Foucault. Editora Martins Fontes de São Paulo.
[2] Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1985
[3] DARWIN, C. (1859). “A origem das espécies”. E-book, Porto: Lello&Irmãos Editores. Publicações Europa-América. 2003.
[4] WINNICOTT, D.W.: Objetos transicionais e fenômenos transicionais IN: “O Brincar e a Realidade”. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.
[5] ___________________(1949): A Mente e sua relação com o Psicossoma IN: “Da Pediatria à Psicanalise”. Rio de Janeiro: Imago Editora,2000.
[6] WINNICOTT,D.W. (1965) “O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família), p.105, do livro “Explorações psicanalíticas”, Editora Artes Médicas, 1994. 
[7] Ibidem.

BENS MATERIAIS E BENS AFETIVOS

BENS MATERIAIS E BENS AFETIVOS
                                                                               Nahman Armony

        Ser jovem é ter mil planos na cabeça. A vida é um mar aberto navegado com esperança e entusiasmo; seu porto de chegada é uma bela e alegre existência sonhada. Geralmente o timoneiro almeja ter um companheiro de viagem, ao mesmo tempo seu amor e seu sócio. Como amor deverá preencher todas as necessidades afetivas&corporais vivenciadas nas primeiras relações com a mãe e desenvolvidas em subseqüentes relacionamentos amorosos. Espera-se que o carinho, a carícia e a realização sexual surjam exatamente na hora e na medida desejada; espera-se que os pontos psíquicos sensíveis de cada um sejam invariavelmente reconhecidos, respeitados e tratados com delicadeza.  Só a vida em comum irá desfazer a ilusão de um tal encaixe perfeito, onde o companheiro corresponderia exatamente ao desejo do outro. Há um difícil trabalho a ser realizado para a aceitação gradativa dos desencontros e das diferenças individuais.
Mas há outra ilusão a ser desfeita. Esta se refere à face de sócio da relação amorosa. No pólo ideal espera-se que o companheiro venha a conquistar posições profissionais, financeiras e sociais extraordinárias. A fantasia originária que corresponde a este desejo nós a encontramos na figura do Pai Primitivo, aquele que era visto pela criança como capaz de satisfazer todas as necessidades materiais&afetivas. Assim como o inconsciente sonha com um amoldamento perfeito referido à vivência com a Mãe Originária, também sonha com uma proteção onipotente referida ao Pai Primitivo. Esta proteção fantasmática ecoa nos aspectos financeiros e sociais do casal. Se esta não atende à expectativa inconsciente de um Pai Provedor a credibilidade do cônjuge fica abalada. Será então preciso todo um trabalho de discriminação entre a figura do parceiro e a personificação inconsciente do Pai Todo-Poderoso para que a relação amorosa não tome rumos tempestuosos. Os ideais excessivos, ainda ligados aos desejos e fantasias infantis onipotentes, deverão ser desbastados até corresponderem às capacidades e limitações de cada membro do casal e do casal como um todo.
Essa situação pode tornar-se mais aguda quando os proventos da mulher superam os do homem. Estamos aqui diante de uma diferença. Embora ambos esperem acolhimento carinhoso (mais associado à Mãe Primitiva) e proteção onipotente (mais associada ao Pai Primordial), estes desejos se distribuem de forma desigual. A mulher mais exige do homem sucesso financeiro e profissional e o homem mais espera da mulher agrado, meiguice e aconchego.

Estas expectativas inconscientes estão imbricadas com a mentalidade na qual estamos mergulhados. Campeia em nossa sociedade a competição predatória, o consumismo desmedido, o exibicionismo, a inveja, o desejo de estar acima dos outros, a lei do ”tomaladacá”. Esta materialidade e mercantilismo sufocantes invadem o lar e provocam picuinhas, implicâncias, comparações, acusações, brigas. Fala-se, por exemplo, do último modelo de televisão que o vizinho ou amigo já tem e que o casal ainda não pôde comprar e de quem é a culpa? quem deve trazer dinheiro para casa? A mulher dirá que a culpa é do marido e este se sentirá desvalorizado, culpado, envergonhado e então em algum momento dará o troco que poderá ser escancarado ou sutil. A retaliação poderá ser “você não sabe cuidar da casa, de mim, dos filhos” ou qualquer outra que mexa com a competência dela. Os pontos fracos de cada um serão farpeados. O amor inicial que os uniu torna-se esmaecido e é substituído pela ânsia voraz de estar o mais próximo possível do topo da pirâmide social. Para reverter essa situação é preciso ressuscitar o amor adormecido colocando-o acima das ambições financeiras e sociais. Será então possível uma convivência mais harmônica e prazerosa trazendo mais satisfação para o casal e mais segurança para os filhos.               

CASTRAÇÃO E LIMITE

CASTRAÇÃO E LIMITE
Nahman Armony
Castração é um termo usado pela primeira vez como conceito psicológico/psicanalítico por Freud e é a esta castração que vou me referir nas próximas linhas. A castração pertence ao campo do neurótico e o limite ao campo do borderline. A castração, palavra evocadora de brutalidade, duramente imposta, e que em Freud se refere à proibição do incesto com a mãe, é, quando examinada de um ponto de vista mais amplo, uma metáfora da injunção ao abandono de características femininas como empatia, identificação dual-porosa, etc., para poder se tornar um verdadeiro Homem. Ser homem com H maiúsculo é proibir o feminino no menino e no adulto do sexo masculino, estimulando a dureza, a implacabilidade, a impiedade.
Já na colocação de limites, o carinho e sensibilidade da mãe no trato com a criança presentificam modos de relacionamento e valores que não à-toa chamamos de femininos tais como empatia, dual-porosidade, compaixão, percepção sutil, intuição, atividade conciliadora, etc. Estas características se conservarão nos meninos e nos homens adultos desde que não haja uma interferência castradora. Nesse caso os modos de relacionamento e os valores da mãe advindos da relação afetuosa com o filho são preservados, só aparecendo a questão do incesto e fixação materna em situações de desenvolvimento distorcido quando então uma ação terapêutica se faz necessária. A castração é um conceito cunhado por Freud e refere-se em uma ação dura, cruel, enquanto que a colocação de limites nós a encontramos nos escritos de Winnicott como uma atividade realizada com amorosidade. Seguem-se citações de Freud e Winnicott.
Freud: “O superego conservará o caráter do pai, e quanto mais intenso foi o complexo de Édipo e mais rapidamente se produziu a sua repressão (pela influência da autoridade, a doutrina religiosa, a educação, a leitura), tanto mais rigoroso será depois o império do superego como consciência moral, talvez também como sentimento inconsciente de culpa, sobre o ego”[1]. Outra citação de Freud: “O superego reteve características essenciais das pessoas introjetadas — a sua força, sua severidade, a sua inclinação a supervisar e punir. Como já disse noutro lugar, é facilmente concebível que, graças à desfusão de instinto que ocorre juntamente com essa introdução no ego, a severidade fosse aumentada. O superego — a consciência em ação no ego — pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o ego que está a seu cargo. O Imperativo Categórico de Kant é, assim, o herdeiro direto do complexo de Édipo”[2].
Winnicott: “Fica claro que, de acordo com a teoria que uso em meu trabalho, você está possibilitando ao seu filho desenvolver um sentido de certo e de errado ao ser uma pessoa confiável nessa fase formativa inicial das experiências da vida dele. Se não tiver êxito com o seu bebê desse modo (e certamente se sairá melhor com um bebê do que com um outro), terá de tirar o melhor proveito possível de ser estritamente um ser humano, embora saiba que coisas muito melhores poderiam estar acontecendo no processo de desenvolvimento natural da criança. Se fracassar por completo, então deve tentar implantar idéias de certo e errado através do ensino e do treinamento assíduo. Mas isso é um substituto para o procedimento realmente válido, é uma confissão de fracasso e você vai detestar essa idéia; e, em todo caso, esse método só funciona desde que você, ou alguém atuando no seu lugar, esteja presente a fim de impor a sua vontade. Por outro lado, se puder dar a partida para o seu bebê de modo que, através da sua confiabilidade, ele desenvolva um sentido pessoal de certo e errado, em vez de medos primitivos e toscos de retaliação, você descobrirá mais tarde que pode reforçar as idéias de seu filho e enriquecê-lo com as suas próprias idéias”[3].
A distinção entre a castração freudiana e o limite winnicotianno é tão mais nítida quanto mais radical e traumática é a castração. Na subjetividade neurótica o acesso ao feminino do homem é impedido mediante esta ação castradora. Na prática esta castração é principalmente exercida pelo pai que impede o acesso da criança aos seus aspectos femininos de empatia, capacidade de identificação, sensibilidade sutil, etc. Hoje, na classe média educada e informada a brutalidade castradora encontra-se atenuada e pode-se mesmo dizer que está se espalhando uma ação não mais de castração, mas de colocação de limites. Quando falo de castração penso em violência em seus diversos graus. Quando falo de limites também penso em graus de tranqüilidade, amorosidade, respeitadoras da subjetividade da criança. Gosto de usar para a castração a imagem de um muro compacto contra o qual a criança irá se chocar e se machucar; já o limite eu o vejo como uma cortina de veludo, macia e flexível que oferecerá proteção e limite à criança sem machucá-la. O pai impiedosamente castrador do século XIX que vemos em filmes como “A fita branca” está desaparecendo nas classes médias dos centros urbanos. Os pais em geral são amorosos com os filhos e as proibições são realizadas de uma forma delicada, carinhosa e sensível. A repressão que vem dos pais já não é mais traumática, castradora, violenta e isto faz uma diferença. Considero este item da maior importância para o futuro psicológico do ser humano.  Por esta razão vou me estender nesse assunto.          Sabemos que as proibições que a criança impõe a si mesma podem ser muito intensas mesmo quando os limites são dados por uma figura benigna. Esta benignidade tem sua importância, pois evita a introjeção de uma personificação despótica. A pressão que a criança necessariamente tem de exercer sobre si mesma para conter seus desejos imaturos emanam da força ditatorial das palavras em si e não do pavor/pânico provocados por uma figura tirânica assustadora vociferando ordens. Esta nova maneira de colocar limites muda a qualidade do recalque e permite que processos de divisão do eu tenham um lugar mais proeminente no psiquismo.
O que quero dizer com recalque benigno? Vou abusar da boa vontade dos colegas, expondo uma outra variante da diferença existente entre um recalque provocado por palavras de ordem e outro modo de recalque que inclui uma ação repressora dura de uma figura tirânica. Desenvolvendo: recalque de boa qualidade foi uma expressão que encontrei para distinguir o recalque feito de si para si, do recalque oriundo de um trauma externo maligno(Winnicott) por choque ou por tensão cumulativa (Kris, Khan): o bebê e a criança necessitam de obsessivamente repetir para si mesmas as proibições e exercer uma suficiente pressão para conseguir conter seus desejos. Vemos então uma criança dizendo para si mesma em voz de comando: “não pode”. Acho que devemos distinguir esta voz de comando à qual a criança recorre para a aceitação de limites (que podem ter sido colocados pelos pais com a maior doçura) da imposição severa e insensível dos pais. Eu chamaria a primeira de proibição autoinduzida na qual não se dá a introjeção de uma Personificação de Pai autoritária e insensível, e a segunda de proibição autoritária na qual uma Personificação de Autoridade de Direito Olímpico Inabalável e Incontestável se impõe como figura ameaçadora. No primeiro caso o bebê e a criança criam uma proibição adequada às suas necessidades psicológicas e no segundo caso a invasão castradora não respeita a organização psíquica forçando sua entrada no psiquismo do bebê e lá deixando uma marca. Uma marca diferente da marca que o próprio bebê se coloca, pois a que ele se coloca está dentro de suas possibilidades de suportar o trauma sem uma quebra significativa da continuidade de ser. Usando os conceitos que Winnicott apresentou no artigo “O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família” (em Explorações Psicanalíticas, p.114) podemos dizer que a auto-imposição do bebê e da criança é um trauma benigno enquanto que a imposição dura, severa e insensível dos pais é um trauma que será tanto mais maligno quanto mais ríspida e insensível for a intervenção paterna. Neste caso o pai será internalizado como uma Entidade Maligna Invasiva e não como um pai amoroso protetor.



[1]FREUD, S.- “O Ego e o Id” Vol.XIX da Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.36.
[2] FREUD, S. (1924) O problema econômico do masoquismo. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.208-209. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud.)
[3]WINNICOTT, D.W. - “O desenvolvimento do sentido do certo e do errado em uma criança” in Coversando com os pais. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p.125-126. 

DELEUZE E A VELHICE

DE COMO A FILOSOFIA PODE AJUDAR UM PSICANALISTA 
         Coube-me apresentar, do dicionário de Deleuze a palavra “maladie” (doença). Deleuze encontra-se doente e a palavra maladie adquire um caráter pessoal. Em maladie já não se encontram conceitos teóricos mas sim reflexões sobre a própria vida. Aqui uma primeira questão: é válido usar-se reflexões íntimas (não tão íntimas assim pois foram expostas à entrevistadora) de um autor teórico? Terão elas um interesse teórico? Até a algumas décadas atrás os teóricos das humanidades e especialmente das ciências duras procuravam ser objetivos em sua escrita, evitando falar de si mesmos e de sua relação com seus pensamentos e teorias. Isso vem mudando aceleradamente. Muitos escritores falam de si mesmos, de como chegaram a cogitar dos problemas apresentados em seus escritos, qual a influência de suas experiências. Um autor que imediatamente me vem à lembrança é o físico Murray Gell-Mann que no prefácio de seu livro “O quark e o jaguar” escreve coisas como “O quark e o jaguar” não é uma auto-biografia, embora contenha reminiscências de minha infância e um certo número de casos sobre meus colegas de trabalho”; “No começo da primeira parte descrevo algumas experiências pessoais que me levaram a escrevê-lo”. Ambas as citações estão na p.9. Na minha opinião isto acontece porque cada vez mais se reconhece que a teoria está ligada à vida e vice-versa. Apesar do nível de abstração da filosofia de Deleuze podemos encontrar as raízes de seu pensamento na cotidianidade. Ao falar de Platão, Deleuze aponta para a questão do modelo, da boa cópia e do simulacro. A boa cópia é o verdadeiro pretendente, aquele que tem direito de dirigir a República. Os simulacros são para Platão falsos pretendentes sem direito a nenhuma reivindicação. O platonismo ao ser revertido acaba com a diferença entre modelo, cópia e simulacro. Todos podem ser pretendentes. O platonismo é uma filosofia máquina de Estado que tem a função de perpetuar a elite no poder reprimindo o simulacro. Dando-se ao simulacro o mesmo estatuto da boa cópia, e mais, acabando com a diferença entre modelo, cópia e simulacro introduz-se uma máquina de guerra que desafia o poder do Estado. Estamos portanto falando de uma teoria que tem tudo a ver com a vida. Mas antes de chegarmos a este nível vejamos o que Machado em seu livro “Deleuze e a filosofia” cita de Deleuze no que diz respeito à função da filosofia: “o verdadeiro objeto da ciência é criar funções, o verdadeiro objeto da arte é criar agregados sensíveis e o objeto da filosofia é criar conceitos”. Essa criação de conceitos filosóficos vem não só do estudo da filosofia mas de uma varredura de vários campos de conhecimento e atuação humanos. Ele examina esses campos para deles retirar conceitos filosóficos que têm um profundo parentesco pois pertencem todos a uma mesma época e subjetividade. Se fazer filosofia é criar conceitos, o que deve um psicanalista fazer diante de algum material que lhe é oferecido? A função do psicanalista, na minha opinião, é compreender o ser humano para ajudá-lo. Se eu me debruço sobre a vida de Deleuze - um ser humano singular - certamente poderei encontrar elementos de reflexão sobre o homem e a vida. Pergunta: o que a vida de Deleuze tem a ver com sua filosofia? Sua filosofia é criar conceitos. Mas os conceitos são tirados de várias disciplinas ligadas à vida. Então posso pensar os conceitos como ligados à vida, tal como mostrei acima. Posso portanto pegar os fragmentos de vida que ele apresenta e examiná-los à luz de sua teorização e de meus interesses. Posso pegar algumas falas suas referentes à velhice: “a grande maravilha é que as pessoas deixam a gente de lado, a sociedade deixa a gente de lado... Ser deixado de lado pela sociedade é uma alegria tamanha!” “Caem todos os parasitas que você carregou a vida inteira” “O velho é alguém que é...ele adquiriu o direito de ser”. “Mas um velho simplesmente, que é apenas velho, é o ser”. Em suas teorizações Deleuze fala de aparelho do Estado que é a imposição da mesmice, do platonismo e fala também de máquina de guerra que é a oposição a essa mesmice, uma oposição que tem como fulcro filosófico a filosofia da diferença. Ele opõe a teoria filosófica da representação (Platão) à teoria filosófica da diferença (Nietzsche). Encontramos claramente esta oposição nas palavras de Roberto Machado na p.135: “Différence et répétition salienta várias vezes o caráter conformista desse pensamento ortodoxo, incapaz de romper com a doxa, com a opinião, visto que apenas a universaliza ao elevá-la ao nível racional, conservando dela o essencial, isto é, a forma, ou o uso das faculdades que lhe correspondem; por outro lado, considera a finalidade prática desse pensamento como sendo a recognição, o reconhecimento dos valores estabelecidos, o que o coloca a serviço dos poderes das Igrejas, dos Estados. Mille plateaux, retomando a análise da imagem do pensamento nos quadros da dicotomia entre aparelho de Estado e máquina de guerra, expõe a mesma idéia: reafirma não só que a crítica à imagem do pensamento se faz não privilegiando os conteúdos, mas a forma, isto é, sua conformidade a um modelo, mas também ---- e principalmente ---- que esse modelo do pensamento é o aparelho de Estado ou, em outros termos, que a imagem do pensamento é a forma-Estado desenvolvida no pensamento”. “Desde que a filosofia se atribuiu o papel de fundamento não mais deixou de benzer os poderes estabelecidos e de decalcar sua doutrina sobre os órgãos de poder de Estado. O senso comum, a unidade de todas as faculdades como centro do Cogito, é o consenso do Estado levado ao absoluto. Foi notadamente a grande operação da crítica kantiana, retomada e desenvolvido pelo hegelianismo” (citação do Mille Plateaux).
         Bem que eu tinha razão de ligar as teorias em geral à vida e a vida de cada homem à sua teoria. Posso especular, sabendo que estou abusando de uma licença dramatizante, que Deleuze sentia-se incomodado por ter de atender a convites do establishment. Ele estava diante de um aparelho de Estado e reagia como uma máquina de guerra. Isto até o momento em que velhice lhe deu a oportunidade de sair da luta e simplesmente SER, o que significa DEVIR. Não posso deixar de lembrar os três momentos do homem trazido por Nietzsche: o camelo (ter de carregar o peso do establishment, dobrar-se ao aparelho de Estado); o leão, a máquina de guerra que luta contra o aparelho de Estado; e a criança que está em um tempo aiônico, portanto fora desta luta. A partir deste novo estado as forças se reconfiguram. Isto para nós analistas é importante no sentido de sabermos valorizar as circunstâncias externas e internas, não tratando o analisando fora de sua inserção de seu período histórico nem fora de sua história particular; e para conhecer a história, especialmente a particular é preciso que ele, o analisando, a conte, isto é, que o analista sem preconceitos ouça a sua história. Neste momento me vem à mente “As duas análises de Mr. Z” de Kohut. O paciente desta análise realizada por Kohut, no período dos 11 aos 13 anos teve uma relação homossexual com o seu instrutor de ginástica de 30 anos. A primeira reação é de horror, é de achar que o menino terá sido extremamente prejudicado por esta relação. E, no entanto, este foi um dos melhores períodos da vida de Z com repercussões positivas no seu futuro. Com outro analisando poderia ser o contrário, mas com esse foi dessa maneira o que mostra a importância de uma escuta não preconceituosa. Almodóvar é mestre em nos mostrar as situações por dentro, driblando os preconceitos. Isto ele o faz em vários filmes. Quero lembrar especialmente o filme “Fale com ela” em que um estupro é um estupro para a máquina de Estado mas não é um estupro para o devir da mulher que foi amorosamente possuída pelo enfermeiro. Oliver Sacks é outro mestre em nos mostrar como os horizontes humanos ao diferirem organizam formas de viver diferentes. Vou relatar e citar um de seus casos do livro “Um antropólogo em Marte”. Depois de um acidente um artista, pintor, tornou-se daltônico o que de início foi terrível e alterou sua percepção do mundo e seu modo de vida. Vejamos a continuação nesta citação: “O sr. I, com sua apurada sensibilidade visual e estética, achava essas mudanças particularmente intoleráveis .... A percepção da cor havia sido parte essencial não só do sentido visual do sr. I, mas de seu sentido estético, sua sensibilidade, sua identidade criativa, uma parte essencial de como construía seu mundo --- e agora a cor havia desaparecido, não apenas da percepção, mas também da imaginação e da memória. Os ecos dessa condição foram muito profundos. De início, ficou intensa e furiosamente consciente do que perdera (ainda que “consciente”, por assim dizer à maneira de um amnésico)). Podia olhar fixamente para uma laranja, enfurecido tentando forçá-la a recobrar sua cor verdadeira....Viu-se num mundo não apenas empobrecido, mas alienado e incoerente, quase um mundo de pesadelo..... Mas aí, com a aurora “apocalíptica”, e a pintura que fez dela, surgiu o primeiro sinal de mudança, um impulso de reconstruir o mundo, de reconstruir sua sensibilidade e identidade. Parte disso era consciente e deliberado .... Mas boa parte se passou abaixo desse nível, num nível de processamento neuronal não diretamente acessível à consciência ou ao controle”.  Houve “uma transformação de valores, de forma que a sua completa estranheza e alienação do mundo a partir de seu daltonismo, que de início tinha uma qualidade de horror e pesadelo, passou a ter um estranho fascínio e beleza”(p.52). O sr. I mudou seus hábitos de vida: tornou-se notívago. Palavras de I: “Vou me tornando aos poucos um notívago. É um mundo diferente: há muito espaço --- você não fica encurralado nas ruas, pelas pessoas... É um mundo completamente novo”. Temos aí um outro mundo a ser repeitado e que só pode ser entendido por um analista despido de quaisquer preconceitos e disposto a penetrar nesta outra subjetividade tão diferente da sua. A reorganização deste mundo pessoal depende das novas capacidades surgidas a partir da perda da visão colorida.  Um outro mundo a ser entendido e respeitado. Se tal indivíduo estivesse em análise o analista teria de se mover em águas desconhecidas apenas abrindo espaço para a reconstrução de identidade. O que é berrante neste caso apresenta-se em cores pastéis em outros, como no caso da velhice que traz novas capacidades (e perdas de outras) que permitem modificações. No caso de Deleuze ele deixa de ser uma máquina de guerra para se tornar um devir/ser. “O velho é alguém que é. Ponto final. Podem dizer que é um velho rabugento, etc. Mas ele é. Ele adquiriu o direito de ser”(p.3/4).
Vamos examinar o que é Ser para Deleuze: “Nietzsche não suprime o conceito de ser. Propõe uma nova concepção de ser. A afirmação é ser. O ser não é o objeto da afirmação... A afirmação só tem a si mesma como objeto. A afirmação como objeto da afirmação: isto é o ser. Nela mesma e como a afirmação primeira ela é o devir. Mas ela é o ser enquanto que ela é o objeto de uma outra afirmação que eleva o devir ao ser ou que extrai o ser do devir. É por isso que a afirmação em toda a sua potência é dupla: afirma-se a afirmação. É a afirmação primeira (o devir) que é ser, mas apenas como objeto da segunda afirmação. As duas afirmações constituem a potência de afirmar em seu conjunto”. (Nietzsche e a Filosofia). Na velhice Deleuze finalmente pode ser, isto é, pode devir. Para nós analistas é uma sugestão de respeito às condições históricas da vida de cada analisando.          

Nietzsche foi o primeiro a denunciar as teorias que matam a vida. Deleuze segue na esteira de Nietzsche. Ele é um pensador que pensa a vida no seu devir. O Deleuze que tenho dentro de mim não se oporia a que examinássemos suas concepções acerca de si mesmo na relação com o mundo para enriquecermos nosso acervo de experiências, assim como nos enriquecemos com suas formulações mais abstratas. Em minha opinião uma teoria psicanalítica só terá amadurecido dentro de nós quando pudermos usá-la não como referência teórica transcendente, mas como experiência incorporada tornada imanente. É claro que há uma jornada a ser percorrida e também é claro que muitas vezes recorremos a um apoio transcendente para lidar com uma situação. Mas o desenvolvimento desejável das teorizações seria passarem de uma transcendência para uma imanência. Deleuze diria que as atividades das diversas áreas do quefazer humano devem poder permitir a criação de conceitos filosóficos, pois tudo o que acontece numa época tem um fio subjetivo ligando-os. Como psicanalista interessa-me poder compreender e ajudar ao meu analisando e para isso preciso estar em contato e em intimidade com ele. Não posso ouvi-lo pensando em conceitos, mas devo relacionar-me diretamente com ele com o meu ser de experiência que é um ser que congrega tudo o que já pensei e passei: desde minhas vivências até meus estudos transformados em experiências. Para Deleuze filosofar é criar conceitos. E para criar conceitos Deleuze, segundo Roberto Machado, invade várias áreas do conhecimento humano para extrair conceitos para a sua filosofia. Se o filósofo cria conceitos o que faz o psicanalista? Ele tenta entender a maneira de ser de cada pessoa, pois ele terá de lidar com pessoas em sua clínica e quanto mais ele souber sobre pessoas, mais apto estará para ajudá-las. Se eu arranho o entendimento da pessoa Deleuze, criador de importantes conceitos da pós-modernidade, conceitos que têm a ver com a vida a ser vivida, então acrescento alguma coisa ao meu acervo psicanalítico.  Exercer a função psicanalítica é pôr minha experiência a serviço do analisando. Eu não deveria passar pela teoria para formular uma interpretação ou realizar um gesto. A fala e o gesto devem emanar diretamente da relação e são diferentes de uma fala e gesto comuns por terem uma intenção terapêutica. Esta intenção terapêutica fica incorporada à experiência como uma insinuância. 

         Voltando a Deleuze: “Adquiri todos os direitos de uma saúde fraca”. “O fato de eu ter uma saúde tão frágil me dava muita segurança para recusar qualquer viagem....A doença me libera muito. É ótima neste sentido”. “Ele (o velho) adquiriu o direito de ser”... “(Com a velhice) caem todos os parasitas que você carregou a vida inteira”... ”Mas o velho que é apenas o velho é o ser”. Todas estas frases nos mostram de como Deleuze pessoa estava condicionado à representação, à identidade, ao aparelho de Estado. A velhice o libera para o ser/devir o que significa que antes ele tinha de pautar a sua diferença pela identidade imposta pelas obrigações sociais e morais de sua convivência com as pessoas e as instituições. A diferença pura é uma utopia filosófica da qual ele se aproxima na velhice que o libera. Também o libera para ser/devir a saúde fraca. Para a psicanálise essa dualidade psicológica ---- estar subordinado ao superego cultural (identidade) e desejar ser (devir) ---- é um paradoxo que deve ser cuidado com delicadeza. O superego cultural é uma influência forte que desafiada pode desestabilizar a pessoa, mas o desejo de devir tem também a sua força. O equilíbrio entre estas forças estará a cargo do analisando e não de uma avaliação do analista. Assim como todo equilíbrio de todas as forças, todos os desejos, todos os medos e todas as defesas estão também a cargo do analisando. É ele quem pode encontrar o seu próprio equilíbrio e não o analista que apenas abre caminho para que este equilíbrio (instável) seja encontrado pelo próprio analisando de acordo com as forças e defesas que o afetam.
         Deleuze procurou formular uma filosofia da diferença pura, absoluta em que o desenvolvimento de cada um dar-se-ia não por comparação, por competição, por submissão, por reação, mas por um movimento interno de vontade de potência. Mas esta diferença pura parece ter de conviver com aspectos de identidade. Eis o que escreve Roberto Machado no seu livro “Deleuze e a filosofia”: “É difícil saber – e de todo modo é ainda bastante cedo para decidir – se essa crítica do dualismo, realizada em nome do pluralismo mas obrigada a criar novas dualidades, é uma questão terminológica, um problema de escritura, ou se aponta para uma dificuldade conceitual constitutiva da filosofia de Deleuze proveniente da inadequação entre suas propostas e seu funcionamento ou da diferença entre gritar “viva o múltiplo” e “fazer o múltiplo”. Esta questão filosófica colocada por Machado é correlata à dificuldade de escapar das obrigações sociais (identidade) e à necessidade de um certo contexto para que as obrigações sociais sejam superadas pela possibilidade de ser/devir. Continuando a citar Machado: “Não há dúvida de que a grande ambição de Deleuze é realizar, inspirado sobretudo em Bérgson, uma filosofia da multiplicidade...Isso não impede, contudo, como estamos vendo, que sua filosofia seja dualista no sentido preciso de situar o pensamento, de modo geral, em dois espaços não apenas diferentes, mas antagônicos”. Ele está falando do espaço do modelo platônico que é o espaço da identidade, da subordinação da pessoa a modelos, e do espaço da multiplicidade, do devir, da diferença pura quando desaparece essa subordinação. A dualidade persiste pois a vida nos impõe esta dualidade da qual alguns, como Deleuze tentam escapar. Esta dualidade fica explícita no livro “Diferença e repetição” onde Deleuze “salienta várias vezes o caráter conformista desse pensamento ortodoxo (o pensamento da representação, do modelo)....por outro lado considera a finalidade prática desse pensamento como sendo a recognição, o reconhecimento dos valores estabelecidos, o que o coloca a serviço dos poderes das Igrejas, dos Estados”. “Mille plateaux, retomando a análise da imagem do pensamento nos quadros da dicotomia entre aparelho de Estado e máquina de guerra, expõe a mesma idéia....esse modelo de pensamento é o aparelho de Estado... é a forma-Estado desenvolvida no pensamento”(Machado, Deleuze e a Filosofia, p.135).
         Temos aí a luta entre o aparelho do Estado e a máquina de guerra. Eu incluo no aparelho do Estado as obrigações sociais e  os constrangimentos profissionais pelos quais temos de passar. E Deleuze ao valorizar a doença e a velhice como lhe permitindo um status diferente está falando de sua antiga sujeição parcial ao aparelho do Estado por mais que ele fosse uma máquina de guerra. Como analistas temos de nos lembrar da força do aparelho do Estado para que não passemos a idéia de que ela não é uma força poderosa; é sim uma força atuante que não pode ser ignorada. O analista precisa estar ciente de que o analisando está sujeito a forças poderosas de várias origens não forçando uma barra para enfrentá-las ou negá-las. A idéia de que podemos nos desenvolver exclusivamente segundo nossas potencialidades --- uma idéia individualista que não leva em conta o meio ----- é falsa e pode ser prejudicial quando inconscientemente passada para o analisando.
         Aqui surge mais uma questão. A questão da neutralidade. Hoje sabemos que a neutralidade não é possível. De alguma maneira passamos nossas convicções, nossa weltanschauung (visão de mundo) ao nosso analisando, certamente não diretamente, mas pelo conjunto de verbalizações e expressões corporais. A idéia de que podemos ser poderosos prescindindo ou ignorando o meio ambiente é anti-terapêutica. As palavras de um Deleuze experiente são importantes para desfazer a impressão de que não estamos de forma nenhuma sujeitados ao aparelho de Estado. Deleuze enquanto saudável e jovem é uma máquina de guerra em luta com o aparelho de Estado. Na velhice o aparelho de Estado deixa de incomodá-lo e ele não precisa ser uma máquina de guerra. Na velhice ele pode apenas ser. Isto serve como um alerta para nós psicanalistas. Não podemos ignorar, descartar o aparelho de Estado em suas múltiplas manifestações, inclusive como superego social. Aqueles que desejam escapar das ordens do aparelho de estado serão máquinas de guerra. Mas, até que ponto podem ser máquinas de guerra sem se desequilibrarem excessivamente? Como fica a negociação da máquina de guerra com o aparelho do estado? Esta negociação é absolutamente individual. O que o analista pode é propiciar a negociação. A distribuição de forças não está no conhecimento do analista, mas sim do analisando. Um analisando meu queixa-se de sua analista anterior dizendo que ela tentava fazer com que ele largasse suas atividades artísticas e fizesse uma faculdade. Isto não era dito diretamente, mas passado nas entrelinhas. Certamente este tipo de intervenção ideológica é prejudicial ao analisando. É preciso que o analista tenha consciência de seus preconceitos para que eles não interfiram na análise. E não é só uma questão de palavra, mas de passar sutil e inconscientemente a própria ideologia. Neste caso é preferível por em confronto direto as duas ideologias para que o analisando possa se defender da ideologia do analista. Não é que o analista não possa dar dados de realidade em relação às possibilidades das várias carreiras. Até pode, mas ele deve parar aí. A escolha, isto é, o equilíbrio pertence ao analisando. E mais: ganhar ou não dinheiro, viver na pobreza ou riqueza, agradar ou não as figuras influentes é uma questão do analisando. A questão do analista é torná-lo o mais livre possível dentro de suas circunstâncias e limitações para escolher seus caminhos.
         De um lado a prisão da representação e de outro a liberdade do devir. No meio o leão que com sua máquina de guerra luta contra o aparelho de Estado. E que na velhice é a criança do devir. Todas estas são etapas que devem ser levadas em consideração pelo analista.

Uma outra citação de Deleuze que está em Mil Plateaux: “Desde que a filosofia se atribuiu o papel de fundamento não mais deixou de benzer os poderes estabelecidos e de decalcar sua doutrina sobre os órgãos de poder de Estado”. Ele é uma máquina de guerra ao escrever isto, mas até certo ponto submete-se ao aparelho do Estado ao concordar com atividades que ele finalmente pode recusar na velhice. Esta é, para ele, uma das vantagens da velhice.

A ideologia do analista não seria no sentido da libertação, mas das possibilidades de um acordo dentro de cada pessoa, dentro das possibilidades de cada pessoa entre as obrigações (aparelho do Estado) e a liberdade. Por um tempo ele será uma máquina de guerra, uma máquina de guerra que fará os arranjos possíveis com o aparelho do Estado. Certos fatores poderão mais ou menos liberá-lo desta luta. No caso de Deleuze é a saúde fraca e a doença.

Deleuze nos diz que a saúde fraca favorece a proposta de pensar. “Sempre me cansei facilmente. A questão é saber se isso facilita. Se alguém que se propõe ---- nem estou falando do sucesso desta empreitada ---- mas alguém que quer, que gosta e tem como proposta pensar ou tentar pensar, saber se o fato de ter uma saúde fraca lhe é favorável. ... acho que a saúde fraca favorece este tipo de escuta”(p.1).

Até aqui estive falando do homem como máquina de guerra e que pode se tornar devir em certas circunstâncias como a velhice. Seria a seqüência camelo-leão-criança de Nietzsche. Agora se trata de algo um pouco diferente embora com parentesco próximo. O conhecimento de si próprio condicionando as possibilidades de estar no mundo. É assim que estou interpretando a fala de Deleuze. Sua saúde fraca facilita o exercício do pensamento. Aquilo que cada um é dá-lhe um leque de possibilidades de ser, de estar no mundo. O analista deve ter isto em mente. Estou evidentemente pregando uma ideologia de psicanalista que é a ideologia de um psicanalista, a minha ideologia. Mas esta é a minha contribuição a partir das considerações pessoais do Deleuze. Foi o que Deleuze despertou em mim. Assim como Deleuze usa as várias áreas do conhecimento humano para delas extrair conceitos para a filosofia (filosofia para Deleuze é criar conceitos) assim eu, um psicanalista desconhecido uso as confissões de Deleuze para pôr em relevo a minha direção de pensamento referente a como encaro um ser humano na vida e principalmente um analisando na clínica. Até aqui tirei duas direções: 1- não é possível ignorar o aparelho de Estado. Cada pessoa lida com este aparelho de Estado da maneira que lhe é possível. Não adianta o analista estimular o analisando a ir contra o aparelho do Estado além da medida de suas possibilidades. Então não adianta o analista fazer exortações, provocar repressões, negações, etc. Ele deverá oferecer um ambiente onde o próprio analisando descubra suas forças e fraquezas, e, naturalmente, se quiser lutar com suas dificuldades até poderá estar de acordo com o desejo do analista, mas isto é uma decisão do analisando que “sabe” até onde pode chegar sem se prejudicar. 2- O analisando deve permanentemente estar em estado de autoconhecimento em atualização para escolher seu caminho de acordo com suas características, seus talentos, ambições, habilidades, ideais. Serve aqui o exemplo do velho e os vários exemplos de Oliver Sacks que fala do mundo individual de cada um e como este mundo muda por efeito de acontecimentos. Então o analista deverá proporcionar um ambiente que facilite este permanente saber processual de si mesmo. Não deve tentar encaminhá-lo para nenhum lugar, mas esperar que ele, o analisando, a partir do conhecimento de si decida por onde e como quer ir. Se o analisando pedir auxílio nesta busca e nesta pesquisa o analista certamente não deverá se omitir. 3 – Finalmente, a fala de Deleuze sobre Fanny abre mais um campo de reflexão no campo humano/psicanalítico, isto é, no campo do ser, estar e atuar no mundo. Repetindo a fala de Deleuze: “E com Fanny, acho que também não é um problema. Mesmo se para ela...Não sei...É difícil imaginar o que teria feito a pessoa que ama se tivesse vivido outra vida. Suponho que Fanny teria gostado de viajar. Ela certamente não viajou como talvez tenha desejado. Mas o que ela descobriu que não teria descoberto se tivesse viajado? Como ela teve uma formação literária muito forte, quantas coisas ela descobriu em romances esplendidos que valem por mil viagens? Claro que há problemas, mas estão acima de minha compreensão” (p.4). Comentário: Fanny escolheu o amor, perdeu as riquezas das viagens, mas descobriu as riquezas da literatura. Sua vocação seriam a viagem e o amor. Ela poderia ter escolhido a viagem e encontrar o amor nas viagens. Ela escolheu o amor e encontrou as viagens nos livros. Não há um único destino possível e inelutável. O destino é feito de circunstâncias momentâneas. Em dado momento vários caminhos se apresentam. Não existe aquele que é o certo. Será o conjunto de forças atuantes que fará a pessoa escolher este ou aquele caminho. Ao analista cabe facilitar ao analisando perceber quais são as forças atuantes. Ao analisando cabe escolher o caminho.  

                                                                     Nahman Armony      

AMOR E COMPROMISSO


         “Até que a morte os separe” era (e ainda é) uma frase dita pelo padre ao consagrar um casamento e tem o significado de um pacto irreversível, o de permanecerem juntos “na saúde e na doença, no infortúnio e na felicidade, até que a morte os separe”. Está embutida na idéia de infortúnio os desentendimentos menores e maiores, as pequenas e grandes incompatibilidades que ocorrem na situação de casal. O compromisso aponta para um além da manutenção do amor; também fala da indissolubilidade da união de duas pessoas que ficam amarradas para sempre e que portanto de alguma maneira deverão se suportar aconteça o que acontecer. Porém os tempos estão mudando. Como muito bem disse nosso grande poeta pop/erudito Vinicius de Moraes a respeito do amor: “que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Ao infinito no tempo (o eterno), Vinicius contrapõe um infinito em profundidade. Se no passado a assunção de um compromisso “para sempre” era a regra, hoje os casais admitem a possibilidade de um encontro sem previsão de término. No entanto, permanece latente na maioria de nós o desejo de eternidade, de constância, de solidez, de “envelhecer juntos”, de um companheiro para sempre. Tendo desaparecido de cena o contrato formal, ou mesmo informal (os casais já não mais dizem para sempre), haveria alguma coisa que permitisse vislumbrar uma indissolubilidade? Nestes tempos de narcisismo egoísta e superficialidade de sentimentos se algo incomoda o mais fácil é descarta-se do estorvo. Já não existe um compromisso assumido perante a sociedade ou perante o outro de manter a relação. A tolerância às diferenças, às susceptibilidades e idissioncrasias está mais para zero do que para infinito e, em não havendo um comprometimento formal ou informal a relação se desfaz. No entanto encontramos na maioria das pessoas, ao lado do narcisismo egoísta e superficial um anseio profundo de uma relação sólida, de um amor verdadeiro e eterno. A ausência de compromisso facilita a separação quando alguma coisa vai mal na convivência, sem que o casal se esforce por superar o desentendimento. Como então atender ao anseio profundo de segurança fora da idéia de obrigação contratual?
         Vislumbro duas possibilidades: a primeira é quando o desejo de viver em companhia de um amor é tão grande que o casal encara o sofrimento que os desentendimentos causam como menos aflitivos que uma vida solitária. Em nome do desejo de ter um companheiro para sempre se faz um esforço de superação das desavenças. A outra possibilidade, mais romântica, é quando a relação do casal é tão infinita (no sentido do verso de Vinicius de Maraes) que todo rompimento é seguido de um retorno. Após algumas experiências repetitivas de separação-retorno o casal conforma-se com os periódicos mal-estares que acontecem entre eles e os superam, pois sabem que mais cedo ou mais tarde retornarão. Em uma coluna anterior eu usei a expressão “amor visceral” para falar de um afeto cujo protótipo é a relação mãe-filho. Assim como a mãe sente o filho como uma parte sua, no amor visceral os amantes sentem-se parte um do outro não sendo admissível a idéia de separação. Vemos assim que não é só o compromisso formal que mantém duas pessoas juntas para o resto da existência. Também a valorização de um amor a dois, de uma companhia constante e a existência de amores viscerais provocam este efeito. Com a experiência as pessoas aprendem que o amor estável é imensamente reconfortante. Até certo ponto é compensador suportar as susceptibilidades, os desencontros, as agulhadas na autoestima, as eventuais farpas, desde que se consiga superar estas questões pela fala ou pelos comportamentos compensatórios. As pesquisas psicológicas e as neurociências têm confirmado isto. Portanto, amigos, mãos à obra.

                                                                                                      Nahman Armony