INSTINTO MATERNAL
PARADOXO E CONTRADIÇÃO
O tema é de difícil abordagem, pois os termos e definições usados não têm uma fronteira definida. Veja-se, por exemplo, a atividade dos castores que nas suas obras de engenharia se deparam com diferentes problemas. Existe um impulso de construção que podemos chamar de instinto, sem porém perder de vista que estamos lidando com uma ideia abstrata que irá se desdobrar em diferentes desenhos concretos. Seria conveniente usar a palavra instinto para esse impulso? Ou ficaríamos com a ideia de que a palavra instinto refere-se a uma repetição a uma repetição tal e qual? Badinter terá razão ao dizer que a contingência e o particular são exclusivos do ser humano? Diz ela: "Parece-me que devemos deixar a universalidade e necessidade aos animais e admitir que a contingência e o particular são o apanágio do homem". Então os animais de quatro patas, mamíferos e outros, são incapazes de se adaptar aos ambientes e aos comportamentos? Acho eu que a palavra 'instinto' porta tanto a necessidade e universalidade quanto a contigência e o particular. O castor e todos os castores (universalidade) têm necessidade de construir represas. Mas, ao construí-la vai se deparar com situações particulares que só poderão ser enfrentadas e resolvidas com dispares ações (contingentes e particulares). Vamos comparar o comportamento do castor com o comportamento da mulher. Em semelhança ao castor sua universalidade está no desejo de ser mãe. Mas a maneira de ter o filho diverge de pessoa para pessoa. Poderíamos então dizer que o termo instinto tem dois tempos? O tempo da universalidade e o tempo das particularidades? De qualquer forma, a palavra instinto não pertence somente aos animais irracionais. Ela se aproxima de ambos: homem e bicho. Menos uma diferença marcante (vide o conceito de inteligência emocional). Mais uma aproximação do Homem ao Animal. Menos a pulsão como uma exclusividade absoluta do Homem. Se sairmos da nomenclatura psicanalítica poderemos usar instinto/pulsão tanto para um quanto para outro sem ter de procurar um termo diferenciador.
Transportarei essa fala para a questão que orienta esta comunicação breve e sem compromisso (existe ou não um instinto maternal?). Podemos dizer que tanto o homem racional quanto o animal sofrem de um mesmo male. Impossível distinguir o genético do ambiental. E aqui não estou falando de uma observação, mas sim de algo que se aproxima de um método epistemológico de Einstein. Evidentemente este método epistemológico convive com o método das evidências. Mas vamos ao meu tecido. Desde o início o ser vivo interage com o ambiente. Este ser vivo já vem com direcionamentos que sofrerão alterações no contato com o ambiente. Na verdade o ambiente já está dentro do corpo vivo pois ele já viveu incorporações e desincorporações. A mitocôndria que poderia ser hipoteticamente inimigo para o desenvolvimento é, pelo contrário, necessário à vida.
A fórmula então seria: genética + ambiente. E isto desde o início da vida planetária.
Eu prefiro ficar com a seguinte fórmula: instinto materno em interação com acontecimentos e comportamento.
AFINAL O QUE É O
HOMEM TRANSICIONAL?
Posso
tomar “O homem transicional” como exemplo de um gesto espontâneo? Já há tempos
venho falando dele. Mas ele me surgiu na mente de forma inesperada num momento
de lazer em que toda a minha libido dirigia-se para a areia e a água do mar.
Não fui eu consciente que inventei essa expressão. É verdade que eu vinha
pensando nas características do jovem contemporâneo achando que a palavra
borderline já não dava conta de uma nova personalidade jovem e nem dava conta
da necessidade de o psicanalista encontrar novas maneiras de relacionamento com
esses jovens. E eis que me surge, vindo diretamente de um trabalho psicossomático
do qual não tive consciência a expressão Homem Transicional. Embora eu possa
chamar esse trabalho de MEU e embora se me apresentasse até certo ponto claro e
compreensível, trazia zonas nebulosas que precisariam ser mais sondadas.
Quando espontaneamente
falei de trabalho inconsciente apareceu espontaneamente a palavra MEU; já a palavra
EU aparece em contexto de consciência.
Nahman Armony
FOLHAS AO VENTO
ESTILO RABISCOS
Experiência
de Libet – o potencial de prontidão precede de 550 milisegundos a realização do
gesto. “A interpretação clássica desse experimento diz que o livre arbítrio, ou
seja, a ideia de que nós somos os arquitetos de nossas ações, é uma ilusão e
que a consciência é uma espécie de efeito colateral de um processo
inconsciente.” Crítica de Schurger: “ Libet argumentava que o nosso cérebro já
decide mover-se antes de haver uma intenção consciente. Nós argumentamos que o
que parece ser um processo de decisão pré-consciente não é reflexo de uma
decisão. Parece ser, mas apenas porque essa é a natureza da atividade cerebral espontânea.
Se estivermos certos, o experimento de Libet não fornece nenhuma evidência em
desacordo com o livre-arbitrio.”
Minha tentativa de explicação. Um pouco de neurociência especulativa. Premissa 1: necessidade de aumento da percepção do ambiente. Quanto mais ampla a percepção mais o ser vivo poderá se defender, atacar e sobreviver (Darwin). Poder-se-ia aqui falar de vontade de potência como equivalente a um instinto primário. Imagino então o seguinte. Numa primeira etapa os animais só percebiam o ambiente quando os seus corpos tocavam no ambiente. O ambiente externo ao corpo reagia ou com irritação e então se afastava do fragmento do ambiente no qual por acaso tinha tocado, ou então o introduzia no seu próprio organismo para se alimentar, fosse um fragmento mineral fosse um outro ser vivo que era então decomposto em suas partes (proteína, gordura, açúcar, etc.) Tanto um quanto outro processo só ocorria quando o acaso colocasse a substância viva com um objeto inanimado ou com um ser vivo que então lutava para não ser destruído. Interessava então à sobrevivência poder perceber o outro, antes de tocá-lo. Desenvolveram-se partes do cérebro que permitiram essa percepção. Na revista ‘Mente e Cérebro’ de novembro de 2016 aparece a figura de um verme primitivo ao qual foi dado o nome de CAENORHABDITIS ELEGANS. Esse verme se alimenta de bactérias do solo, não tem cérebro nem consciência, mas usa seus reflexos para encontrar comida, procriar e se defender tanto de predadores quanto de lesões. Imaginemos um jacaré olhando com aqueles olhões. O cérebro se desenvolveu paripasso com o aumento da capacidade de ver. Ou pode-se dizer exatamente o contrario. A necessidade de ver fez com que uma parte do cérebro se desenvolvesse. A capacidade de ver o mundo é concomitante às transformações funcionais. Uma única substância com inúmeros atributos dos quais só percebemos a atributo extensão e o atributo incorporal (mental). (Acho que hoje já se poderia heuristicamente dizer que a Teoria da Relatividade é outro atributo, assim como o é a física quântica ou talvez também as geometrias não-euclidianas, ou a representação do mundo através de equações complicadas inteiramente fora do senso comum.) Voltando aos olhos do jacaré: ele enxerga o que é externo a ele mas não desenvolveu o cérebro para enxergar os seus processos mentais e psíquicos internos. Esta proeza foi realizada pelo homem que desenvolveu uma parte do seu cérebro no sentido de ver o que se passa dentro da mente e da psique. Estou falando principalmente de autoconsciência, ou melhor, de autopercepção. Não se pode separar o desenvolvimento neuronal da conquista mental. Ambas são concomitantes, ocorrem ao mesmo tempo. Voltando ao que eu já disse são dois aspectos de um mesmo fenômeno. No dizer de Spinoza, são atributos da Natureza. Há um crescimento e arranjo cerebral que permite ver não só o externo, o que está fora do ser, como também permite ver o que está acontecendo dentro do próprio cérebromente. Isto através de dois modos: por introspecção e por aparelhos de imagens dinâmicas. Parto da seguinte premissa: a todo movimento da mente (portanto a todo pensamento) corresponde um movimento dos elementos cerebrais. É necessário que existam certas estruturas, funções e dinâmicas cerebrais para que o animal perceba com os seus órgãos de sentido aquilo que está acontecendo no mundo. A palavra ‘perceba’ poderia ser substituída por ‘consciência’. O primeiro patamar da consciência eu a chamo de ‘consciência da pura ação.’ Num segundo patamar encontramos a consciência reflexiva que é a capacidade mental/cerebral de agir inteligentemente ao resolver algum problema externo sem porém ter consciência de que está resolvendo problemas pois esta última encontra-se no patamar da autoconsciência, privilégio dos humanos que observam seus pensamentos e ações. Darei um exemplo da consciência reflexiva que os animais reflexivos partilham com o ser humano. Um cão foi deixado para trás numa encruzilhada. Ele cheira uma primeira via buscando o cheiro do dono. Não há cheiro. Entra então resolutamente na 2ª via. Estamos diante de uma inteligência ou consciência reflexiva. À sua maneira canina o cão pensou: “se só há dois caminhos e meu dono não passou por este caminho só pode ter seguido pelo outro caminho”. Seu aparato cérebromental permitiu esta percepção/ação sem que percebesse que estava fazendo um raciocínio lógico. Já o homem desenvolveu um cérebromente que lhe permite ter autoconsciência. São modificações cerebrais que ampliam o campo de conhecimento dos seres vivos. Seria possível encontrarmos modificações cerebrais para os chamados fenômenos paranormais? Dentro da premissa colocada por mim a resposta só pode ser positiva. A meditação não é um fenômeno paranormal. Mas está mais próximo desta fronteira. Foram detectadas alterações na dinâmica cerebral nos monges que realizam meditação. Esta última afirmação tira a força do que venho dizendo, mas vale a pena colocá-la para nos afastarmos de acontecimentos milagrosos ou excepcionais, pois os bons motoristas de taxi londrinos têm o córtex temporal ou parietal aumentado em comparação com a população não taxista e taxistas incompetentes. Preservamos assim a ideia de uma evolução cerebral/mental que talvez dê pulos, mas não são campeões de salto à distância.
Nahman Armony
TRANSFORMAÇÕES
DO Q
PROCESSO PRIMÁRIO – A
Q (a quantidade, a energia, a catexia, a libido, etc.) flui livre pelo sistema
nervoso. De início sem nenhum objetivo a não ser descarregar a energia. O
descarregar da energia Freud chamou de função primaria do sistema nervoso.
Mas certas redes
nervosas provocam dor e outras provocam prazer. O cérebro/psique tem de logo
aprender o ‘principio do prazer’ para evitar o desaparecimento do organismo. A
corrente cria trilhas de prazer onde o objeto bom será achado e trilhas de
desprazer onde o objeto mau será evitado. Esta é a função secundária do
processo primário. Com a evolução, ego tornando-se cada vez mais forte e
estruturado evolui para um sistema de simbolização de 2º grau. Exp.: a hóstia
católica e a hóstia protestante.
Processo primário/função
primária - caos.
Processo
primário/função secundaria – principio do prazer/desprazer. Os fluxos nervosos
buscam objetos que darão prazer e evita os que provocam desprazer.
Processo secundário –
ego bem estruturado. Função simbólica de 2º grau. Ex. da hóstia.
Ego- um grupo de
neurônios super catexizados entre si tendo por isso mesmo uma grande força
atrativa sobre os Qs, sobre os fluxos. Dificilmente esses fluxos escapam da
armadilha egóica.
Acho—existe um
superego profundamente ligado ao ego que diz como a pessoa deve se comportar.
Mais adequado seria chamá-lo de ego ideal e, dependendo das circunstâncias de
ideal do ego. Ele funciona com espontaneidade, sem necessidade de uma
auto-observação. Mas existe um segundo superego que fiscaliza o superego
embutido no ego para liberá-lo para a ação. Esse fato torna mais vagarosa a
ação. No primeiro superego não há fiscalização, pois as correntes energéticas
procuram repetir as vias de prazer. O segundo superego existe para avaliar se
existe perigo na ação espontânea.
CRIATIVIDADE
E SAÚDE PSÍQUICA EM FREUD E WINNICOTT
Tanto para Freud como para Winnicott há
uma íntima relação entre criatividade – uma qualidade da pessoa criativa --- e
saúde psíquica. São, porém duas concepções diferentes.
Freud usa a palavra “criativo”
no sentido comum: a produção de algo novo. É o significado dicionarizado.
Para Winnicott
criatividade significa “criar o que já existe” o que aparentemente contraria a
ideia de novo. O objeto subjetivamente concebido é encontrado no objeto objetivamente
concebido. O objeto já existe e, portanto fica impossível dizer que ele foi
criado. No entanto há algo novo, pois a percepção individual do objeto o
transforma. É um processo de recriação. Cada sujeito recriará o objeto à sua
maneira. Esta concepção de criatividade não substitui a comum. Não só há uma
convivência destas duas significações, mas também um elo. A verdadeira criação
de um novo objeto só se dá no encontro do subjetivamente concebido com um
objeto virtualmente ou potencialmente existente. Um precursor desse processo
nós o podemos encontrar no objeto indefinido criado pela primeira fome do bebê
que busca um seio que neste início é virtual. Assim como podemos dizer que o
seio precisava aparecer para o bebê, também podemos dizer que a civilização em
certo momento precisava da invenção da internet, que o mundo necessitava do
aparecimento da música de um Beethoven, ou da “Sagração da Primavera” de
Stravinsky. É a criação de um objeto já virtualmente existente na comunidade
humana. Um exemplo mais forte é o da criação de lanças pontudas já virtualmente
existentes antes de sua materialização. Por outro lado o objeto já
concretamente existente passa por uma transformação quando percebido por
diferentes subjetividades; ele é renovado através de uma recriação.
Vamos nos deter no dito
“criar o que já existe”. O desenvolvimento desta sentença nos mostrará de que
forma Winnicott liga a criatividade à saúde psíquica. Vamos então devagar.
Comecemos pelo bebê que tem fome. Esta fome faz com que o psiquismo crie um
objeto que ele achará no mundo real: o seio. Sendo o seio uma criação sua este
seio lhe pertence e ele se sente indissoluvelmente ligado ao seio. O mesmo
processo ocorre quando ele inventa o objeto transicional que substitui o seio e
a mãe quando ausentes. O objeto transicional aparece juntamente com o espaço
potencial. Ele cria e habita o espaço transicional. O espaço potencial só
existe com o objeto transicional e o objeto transicional só existe com o espaço
potencial. Pois bem, quando o objeto subjetivamente concebido cria o objeto
objetivamente percebido este último é vivenciado como pertencente ao sujeito já
que foi ele quem o criou. Digamos que após três horas de uma mamada o bebê
ainda não esteja com fome não se formando no seu psiquismo o objeto subjetivo
seio. Se uma mãe excessivamente apegada a esquemas força o seio na boca do
bebê, este seio não será uma criação do bebê e ele sentirá que o seio não lhe
pertence, não faz parte de seu mundo. Sua relação com este seio será puramente
intelectual, uma relação falso self. Se da mesma maneira outros objetos são
impostos ao ser humano o mundo ficará intelectualizado, perderá seu componente
afetivo. Diante da invasão o verdadeiro self se recolherá e a relação com o
mundo se dará através do falso self. Uma dissociação entre o falso e verdadeiro
self provocará um sentimento de futilidade que leva a um intenso sofrimento que
poderá chegar ao suicídio. É, portanto, a criatividade que permite que o ser
humano se sinta inserido na sociedade, pois essa sociedade foi por ele criada
quando do encontro do subjetivamente concebido com o objetivamente percebido. A
criatividade faz parte daquilo que Winnicott chama de “força vital” que é o
correspondente ao conceito de pulsão de vida de Freud. A criatividade como
parte da força vital não sofre transformações. Na primeira tópica Freud
considera que a capacidade de criar depende da sublimação; esta se dá por uma
neutralização da força libidinal que então pode ser usada para outras
finalidades que não a sexual. Portanto há um balanço entre a sexualidade e a
criatividade. Se ganha criatividade à custa da sexualidade e vice-versa.
Diferentemente do pensamento winnicottiano onde a criatividade é independente
da sexualidade. E, na minha opinião que vem de minhas observações, as pessoas
de grande força vital têm ao mesmo tempo uma forte sexualidade e uma forte
criatividade. Esta força vital e portanto, a criatividade se manifestam
diretamente nos atos e pensamentos. Diferentemente de Freud que considera a
capacidade de criar como uma transformação da libido sexual em uma força neutra
(sublimação) que então poderá ser usada para fins não sexuais.
Para Freud a libido sexual pode sofrer vários
destinos. O único destino saudável é a sublimação. O que é a sublimação para
Freud? É a transformação da libido sexual em libido neutra que então pode ser
utilizada criativamente para as realizações humanas. Assim, para ser criativo é
preciso perder uma parte da libido sexual. O ego é a instância encarregada de
transformar parte da energia sexual em energia neutra. Portanto a criatividade
para Freud não é primária, mas consequência de um processo psíquico sobre o que
seria primário: a sexualidade. Aqui não resisto a fazer uma correlação do
vivido pelo psicanalista e sua teoria. É voz corrente que Freud permanecia até
a madrugada pensando, estudando e escrevendo. Para permanecer acordado e aguçar
a inteligência usava cocaína numa época em que ainda não se conheciam os
efeitos deletérios dessa substância. E corre também um boato de que a partir
dos 40 anos Freud deixou de ter relações sexuais. Se tudo isto é verdade mais
uma vez se comprova a tese de que a teoria tem a ver com a vida e personalidade
do teorizador. Freud teria renunciado a sua sexualidade em favor de sua obra. A
libido sexual transformava-se em libido neutra direcionada por Freud para suas
elaborações teóricas. Frase de Freud em Leonardo da Vinci, v.11: “Constatamos a
veracidade deste fato se ocorrer uma atrofia estranha durante a vida sexual da
maturidade, como se uma parcela da atividade sexual houvesse sido agora
substituída pela atividade do impulso dominante”. Esta frase foi escrita em
1908, portanto na vigência da dualidade sexualidade x conservação. Joel Birman
escreve que na dualidade que passa a vigorar a partir de 1920, pulsão de vida x
pulsão de morte a sublimação já não aparece como sendo feita com o sacrifício
da sexualidade. No entanto lemos no trabalho “O Ego e o Id”, v.19 de 1924,
(portanto em plena vigência da pulsão de morte), no cap.III intitulado “O Ego e
o Superego” que “Em verdade, surge a questão, que merece consideração
cuidadosa, de saber se este não será o caminho universal à sublimação, se toda
sublimação não se efetua através da mediação do ego, que começa por transformar
a libido objetal sexual em narcísica e, depois, talvez, passa a fornecer-lhe
outro objetivo.” Não é mais a neutralização da libido sexual, mas a
transformação do libido objetal sexual em libido narcísica. Em 1932, na
Conferência 32 Freud reafirma a vinculação entre as pulsões dizendo que uma
pulsão pode ser substituída por outra. Está implícita a vinculação das pulsões.
O aumento da força de uma implica em um decréscimo na força da outra.
À diferença de Freud,
para Winnicott a criatividade manifesta-se diretamente, sem ter de passar por
transformações libidinais. Ela é pura energia de vida, ou como ele diz, é parte
da força vital, algo primário, indomável, comum a todos os seres humanos.
Nahman
Armony
QUAL É O TEMPO QUE O TEMPO TEM?
Estamos em um período de transição. Tudo é
questionável, modificável. Enquanto as gerações mais jovens têm maior
facilidade em se adaptar, as mais velhas veem-se diante de obstáculos difíceis
de ultrapassar. Assim é com a semi-abstração ‘TEMPO’. Na atualidade o
nosso primeiro tempo ainda é o de brincar. Ao brincar o tempo desaparece; deixa
de existir como tempo e passa a existir como prazer, como ilha encantada, como
paraíso.
No segundo tempo quebra-se a uniformidade e a
continuidade do tempo. Esse segundo tempo é o do dever, da obrigação. É quando
o tempo faz a sua aparição.
Será então preciso começar a nele pensar e, mais
tarde a nele se preocupar. Os primeiros contatos e contratos com os futuros
tufões temporais serão benignos. São apenas chuviscos refrescantes. É dada à
pessoa um tempo razoável, apropriado à velocidade singular humana, para
terminar ou pontuar alguma tarefa. O tempo permanece tranquilo. Não é preciso
correr mais que o tempo para realizar a tarefa, pois há uma adequação entre
tempo e realização. Vários fatores porém quebram este equilíbrio: certas
tarefas só podem ser realizadas se a velocidade de feitura ultrapassar o tempo
de brincar – o tempo descompromissado e por isso mesmo não existente. Quando
vemos a humanidade disputando os 100 m. ou 1000 m. com obstáculos percebemos
que estamos tentando correr mais rápido que o tempo, exigindo uma modificação
da velocidade dos tecidos e dos líquidos corporais que lutam pela singularidade
da pessoa. Por algum tempo o organismo mantém o seu ritmo mas, finalmente cede
à força da cultura, da mentalidade
reinante, não conseguindo resistir. Temos agora mais um robot, um boneco sem
vontade que tentará obedecer o ritmo imposto pelo social que de inicio se
insinua parecendo poder ser controlado e finalmente passa a ser uma força
poderosa de seu pensamento e comportamento.
Tudo isso se passa de uma subjetividade social que força a barra para um
comportamento acelerado, acima do limite temporal. Exigimos então que o tempo
corra mais depressa. Vemos então multidões se atropelando para não perder o
tempo e sua posição social. O tempo urge e ruge como um leão raivoso e aqueles
que não abrem mão de sua singularidade, atrasam-se em relação ao tempo que lhes
é dado pela Sociedade, pelo Estado e pelos Costumes. O Ser Humano ruge como leão e debate-se como
um touro, para se manter precariamente na cacunda do touro, a espera de tempos
mais acordes com as capacidades humanas de tarefas e fruições. Ao ser forçado a
participar da correria o ser humano que tem o seu tempo próprio e que dele não
abre mão, vai-se atrasando em relação ao tempo que lhe é dado pelo Estado e
pela Sociedade. Preserva o seu tempo mas perde o seu lugar.. Começa então a se
forçar a correr. Por enquanto a pressa não é coisa dele: é coisa dos costumes.
Ele tem seu tempo, a sociedade tem outro tempo e tudo estaria bem se não
houvessem prazos para o cumprimentos de obrigações. Torna-se cada vez mais
difícil manter o tempo pessoal autêntico. A pessoa passa a transferir a pressa
não à tarefa, mas ao corpo próprio incorporando a pressa ao organismo. Temos
agora um tempo acelerado interno. A velocidade maquínica impôs-se e agora as
pessoas correm mesmo quando isso não é necessário. A velocidade torna-se
interna e a aflição de ‘chegar lá’ já não depende do ambiente externo; depende
do próprio funcionamento de órgãos que trabalham febrilmente. Não é uma pressa
com objetivo. É agora uma pressa estrutural. Antes era: devo correr para entregar
em tempo o trabalho. Com o tempo a frase muda para “Devo correr para poder
viver nessa sociedade.” O resultado disso são ansiedades, depressões,
distúrbios psicossomáticos, incômodos, sofrimentos vários que afetam a maioria da população, criando uma espécie de irmandade.
Ainda tenho tempo de acrescentar um dito que para mim é esclarecedor e que ofereço aos leitores: uma coisa é correr depressa e outra coisa é correr com pressa. A primeira parte da frase fala de uma rapidez tranquila, uma rapidez que não exige uma transmutação funcional; a segunda fala de uma alteração corporal, psíquica, metabólica e esta sim transforma um corpo/mente tranquilo em um corpo/mente agitado.
Ainda tenho tempo de acrescentar um dito que para mim é esclarecedor e que ofereço aos leitores: uma coisa é correr depressa e outra coisa é correr com pressa. A primeira parte da frase fala de uma rapidez tranquila, uma rapidez que não exige uma transmutação funcional; a segunda fala de uma alteração corporal, psíquica, metabólica e esta sim transforma um corpo/mente tranquilo em um corpo/mente agitado.
Nahman
Armony
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