CRIATIVIDADE E SAÚDE PSÍQUICA EM FREUD E WINNICOTT

       Tanto para Freud como para Winnicott há uma íntima relação entre criatividade – uma qualidade da pessoa criativa --- e saúde psíquica. São, porém duas concepções diferentes.

Freud usa a palavra “criativo” no sentido comum: a produção de algo novo. É o significado dicionarizado.

Para Winnicott criatividade significa “criar o que já existe” o que aparentemente contraria a ideia de novo. O objeto subjetivamente concebido é encontrado no objeto objetivamente concebido. O objeto já existe e, portanto fica impossível dizer que ele foi criado. No entanto há algo novo, pois a percepção individual do objeto o transforma. É um processo de recriação. Cada sujeito recriará o objeto à sua maneira. Esta concepção de criatividade não substitui a comum. Não só há uma convivência destas duas significações, mas também um elo. A verdadeira criação de um novo objeto só se dá no encontro do subjetivamente concebido com um objeto virtualmente ou potencialmente existente. Um precursor desse processo nós o podemos encontrar no objeto indefinido criado pela primeira fome do bebê que busca um seio que neste início é virtual. Assim como podemos dizer que o seio precisava aparecer para o bebê, também podemos dizer que a civilização em certo momento precisava da invenção da internet, que o mundo necessitava do aparecimento da música de um Beethoven, ou da “Sagração da Primavera” de Stravinsky. É a criação de um objeto já virtualmente existente na comunidade humana. Um exemplo mais forte é o da criação de lanças pontudas já virtualmente existentes antes de sua materialização. Por outro lado o objeto já concretamente existente passa por uma transformação quando percebido por diferentes subjetividades; ele é renovado através de uma recriação.

Vamos nos deter no dito “criar o que já existe”. O desenvolvimento desta sentença nos mostrará de que forma Winnicott liga a criatividade à saúde psíquica. Vamos então devagar. Comecemos pelo bebê que tem fome. Esta fome faz com que o psiquismo crie um objeto que ele achará no mundo real: o seio. Sendo o seio uma criação sua este seio lhe pertence e ele se sente indissoluvelmente ligado ao seio. O mesmo processo ocorre quando ele inventa o objeto transicional que substitui o seio e a mãe quando ausentes. O objeto transicional aparece juntamente com o espaço potencial. Ele cria e habita o espaço transicional. O espaço potencial só existe com o objeto transicional e o objeto transicional só existe com o espaço potencial. Pois bem, quando o objeto subjetivamente concebido cria o objeto objetivamente percebido este último é vivenciado como pertencente ao sujeito já que foi ele quem o criou. Digamos que após três horas de uma mamada o bebê ainda não esteja com fome não se formando no seu psiquismo o objeto subjetivo seio. Se uma mãe excessivamente apegada a esquemas força o seio na boca do bebê, este seio não será uma criação do bebê e ele sentirá que o seio não lhe pertence, não faz parte de seu mundo. Sua relação com este seio será puramente intelectual, uma relação falso self. Se da mesma maneira outros objetos são impostos ao ser humano o mundo ficará intelectualizado, perderá seu componente afetivo. Diante da invasão o verdadeiro self se recolherá e a relação com o mundo se dará através do falso self. Uma dissociação entre o falso e verdadeiro self provocará um sentimento de futilidade que leva a um intenso sofrimento que poderá chegar ao suicídio. É, portanto, a criatividade que permite que o ser humano se sinta inserido na sociedade, pois essa sociedade foi por ele criada quando do encontro do subjetivamente concebido com o objetivamente percebido. A criatividade faz parte daquilo que Winnicott chama de “força vital” que é o correspondente ao conceito de pulsão de vida de Freud. A criatividade como parte da força vital não sofre transformações. Na primeira tópica Freud considera que a capacidade de criar depende da sublimação; esta se dá por uma neutralização da força libidinal que então pode ser usada para outras finalidades que não a sexual. Portanto há um balanço entre a sexualidade e a criatividade. Se ganha criatividade à custa da sexualidade e vice-versa. Diferentemente do pensamento winnicottiano onde a criatividade é independente da sexualidade. E, na minha opinião que vem de minhas observações, as pessoas de grande força vital têm ao mesmo tempo uma forte sexualidade e uma forte criatividade. Esta força vital e portanto, a criatividade se manifestam diretamente nos atos e pensamentos. Diferentemente de Freud que considera a capacidade de criar como uma transformação da libido sexual em uma força neutra (sublimação) que então poderá ser usada para fins não sexuais.       

 Para Freud a libido sexual pode sofrer vários destinos. O único destino saudável é a sublimação. O que é a sublimação para Freud? É a transformação da libido sexual em libido neutra que então pode ser utilizada criativamente para as realizações humanas. Assim, para ser criativo é preciso perder uma parte da libido sexual. O ego é a instância encarregada de transformar parte da energia sexual em energia neutra. Portanto a criatividade para Freud não é primária, mas consequência de um processo psíquico sobre o que seria primário: a sexualidade. Aqui não resisto a fazer uma correlação do vivido pelo psicanalista e sua teoria. É voz corrente que Freud permanecia até a madrugada pensando, estudando e escrevendo. Para permanecer acordado e aguçar a inteligência usava cocaína numa época em que ainda não se conheciam os efeitos deletérios dessa substância. E corre também um boato de que a partir dos 40 anos Freud deixou de ter relações sexuais. Se tudo isto é verdade mais uma vez se comprova a tese de que a teoria tem a ver com a vida e personalidade do teorizador. Freud teria renunciado a sua sexualidade em favor de sua obra. A libido sexual transformava-se em libido neutra direcionada por Freud para suas elaborações teóricas. Frase de Freud em Leonardo da Vinci, v.11: “Constatamos a veracidade deste fato se ocorrer uma atrofia estranha durante a vida sexual da maturidade, como se uma parcela da atividade sexual houvesse sido agora substituída pela atividade do impulso dominante”. Esta frase foi escrita em 1908, portanto na vigência da dualidade sexualidade x conservação. Joel Birman escreve que na dualidade que passa a vigorar a partir de 1920, pulsão de vida x pulsão de morte a sublimação já não aparece como sendo feita com o sacrifício da sexualidade. No entanto lemos no trabalho “O Ego e o Id”, v.19 de 1924, (portanto em plena vigência da pulsão de morte), no cap.III intitulado “O Ego e o Superego” que “Em verdade, surge a questão, que merece consideração cuidadosa, de saber se este não será o caminho universal à sublimação, se toda sublimação não se efetua através da mediação do ego, que começa por transformar a libido objetal sexual em narcísica e, depois, talvez, passa a fornecer-lhe outro objetivo.” Não é mais a neutralização da libido sexual, mas a transformação do libido objetal sexual em libido narcísica. Em 1932, na Conferência 32 Freud reafirma a vinculação entre as pulsões dizendo que uma pulsão pode ser substituída por outra. Está implícita a vinculação das pulsões. O aumento da força de uma implica em um decréscimo na força da outra.

À diferença de Freud, para Winnicott a criatividade manifesta-se diretamente, sem ter de passar por transformações libidinais. Ela é pura energia de vida, ou como ele diz, é parte da força vital, algo primário, indomável, comum a todos os seres humanos.

                                                                                                              Nahman Armony

                                                                                             

 

 

QUAL É O TEMPO QUE O TEMPO TEM?

Estamos em um período de transição. Tudo é questionável, modificável. Enquanto as gerações mais jovens têm maior facilidade em se adaptar, as mais velhas veem-se diante de obstáculos difíceis de ultrapassar. Assim é com a semi-abstração ‘TEMPO’. Na atualidade o nosso primeiro tempo ainda é o de brincar. Ao brincar o tempo desaparece; deixa de existir como tempo e passa a existir como prazer, como ilha encantada, como paraíso.

No segundo tempo quebra-se a uniformidade e a continuidade do tempo. Esse segundo tempo é o do dever, da obrigação. É quando o tempo faz a sua aparição.

Será então preciso começar a nele pensar e, mais tarde a nele se preocupar. Os primeiros contatos e contratos com os futuros tufões temporais serão benignos. São apenas chuviscos refrescantes. É dada à pessoa um tempo razoável, apropriado à velocidade singular humana, para terminar ou pontuar alguma tarefa. O tempo permanece tranquilo. Não é preciso correr mais que o tempo para realizar a tarefa, pois há uma adequação entre tempo e realização. Vários fatores porém quebram este equilíbrio: certas tarefas só podem ser realizadas se a velocidade de feitura ultrapassar o tempo de brincar – o tempo descompromissado e por isso mesmo não existente. Quando vemos a humanidade disputando os 100 m. ou 1000 m. com obstáculos percebemos que estamos tentando correr mais rápido que o tempo, exigindo uma modificação da velocidade dos tecidos e dos líquidos corporais que lutam pela singularidade da pessoa. Por algum tempo o organismo mantém o seu ritmo mas, finalmente cede à  força da cultura, da mentalidade reinante, não conseguindo resistir. Temos agora mais um robot, um boneco sem vontade que tentará obedecer o ritmo imposto pelo social que de inicio se insinua parecendo poder ser controlado e finalmente passa a ser uma força poderosa de seu pensamento e comportamento.  Tudo isso se passa de uma subjetividade social que força a barra para um comportamento acelerado, acima do limite temporal. Exigimos então que o tempo corra mais depressa. Vemos então multidões se atropelando para não perder o tempo e sua posição social. O tempo urge e ruge como um leão raivoso e aqueles que não abrem mão de sua singularidade, atrasam-se em relação ao tempo que lhes é dado pela Sociedade, pelo Estado e pelos Costumes.  O Ser Humano ruge como leão e debate-se como um touro, para se manter precariamente na cacunda do touro, a espera de tempos mais acordes com as capacidades humanas de tarefas e fruições. Ao ser forçado a participar da correria o ser humano que tem o seu tempo próprio e que dele não abre mão, vai-se atrasando em relação ao tempo que lhe é dado pelo Estado e pela Sociedade. Preserva o seu tempo mas perde o seu lugar.. Começa então a se forçar a correr. Por enquanto a pressa não é coisa dele: é coisa dos costumes. Ele tem seu tempo, a sociedade tem outro tempo e tudo estaria bem se não houvessem prazos para o cumprimentos de obrigações. Torna-se cada vez mais difícil manter o tempo pessoal autêntico. A pessoa passa a transferir a pressa não à tarefa, mas ao corpo próprio incorporando a pressa ao organismo. Temos agora um tempo acelerado interno. A velocidade maquínica impôs-se e agora as pessoas correm mesmo quando isso não é necessário. A velocidade torna-se interna e a aflição de ‘chegar lá’ já não depende do ambiente externo; depende do próprio funcionamento de órgãos que trabalham febrilmente. Não é uma pressa com objetivo. É agora uma pressa estrutural. Antes era: devo correr para entregar em tempo o trabalho. Com o tempo a frase muda para “Devo correr para poder viver nessa sociedade.” O resultado disso são ansiedades, depressões, distúrbios psicossomáticos, incômodos, sofrimentos vários que afetam a maioria da população, criando uma espécie de irmandade.
Ainda tenho tempo de acrescentar um dito que para mim é esclarecedor e que ofereço aos leitores: uma coisa é correr depressa e outra coisa é correr com pressa. A primeira parte da frase fala de uma rapidez tranquila, uma rapidez que não exige uma transmutação funcional; a segunda fala de uma alteração corporal, psíquica, metabólica e esta sim transforma um corpo/mente tranquilo em um corpo/mente agitado.     

 

                                                     Nahman Armony    

 

 

 

    

 

 

    

 

 

 

                                                     

 

 

 

Winnicott

 

            Vou começar recontando uma pequena história de Winnicott relatada por Susan Isaacs. Os filhos de um colega escandinavo que não falavam inglês, haviam estado com Winnicott quando tinham seus dois e quatro anos; anos depois, ao saberem que o veriam de novo, ficaram entusiasmados. Confrontados com o fato de que não tinham falado a mesma lingua, não puderam acreditar neste fato, tão viva e intensa tinha sido a comunicação entre eles.

            Winnicot foi um mestre da comunicação não só verbal mas também da não verbal. Isto o introduz, de chofre, no seio da assim chamada pós-modernidade, onde impera a crise da representação e portanto a crise da palavra representacional, o que ele tão bem expressou no seu confronto das maneiras católica e protestante de experienciar a cerimônia da comunhão. Sua capacidade de se comunicar através de afecções e não de representações está de acordo com toda uma teorização dos autores que se dedicam ao estudo do pós-modernismo. Estes autores falam justamente de uma comunicação não-mediada, de uma comunicação direta, onde o sensorial, o movimento, a expressão corporal e emocional, a postura, o gestual, a atitudinal, ganham a maior importância.

            Por suas características pessoais, por ter nascido na época em que nasceu e por ter tido a infância que teve, Winnicott não pode deixar de ser um inovador, um homem de trânsito entre o moderno e o pós-moderno.

            Winnicot teve pouco pai e muitas mães o que já poderia encaminhá-lo para uma sensibilidade especial para a relação dual. E realmente, seu principal objeto de estudo é a unidade dual mãe-filho, com a qual empatiza e à qual compreende por intuição. É em cima desta experiência que ele construiu o original de sua teoria: o espaço potencial e o objeto transicional. Esta relação remete a uma episteme não mais representacional mas já afeccional. Vemos então Winnicott antecipando em seus escritos as grandes linhas da lógica contemporânea: o paradoxo, a complexidade, a intuição, a valorização de uma experiência que escapa às palavras, o brincar, a esquiva às formalizações, a fluidez de limites, etc. Ele mesmo era um ser paradoxal, sabia-se paradoxal e aceitava-se paradoxal. Uma de suas afirmações, sobejamente conhecida, mais ou menos assim formulada “Sou psicanalista enquanto a psicanálise ajuda o meu paciente; caso contrário sou qualquer outra coisa que ele necessite” é uma frase que pode ser encarada como transdisciplinar. Existe um objeto total a ser ajudado (e não um recorte da realidade, um objeto criado pela psicanálise ou situação analítica), um objeto que em sua essência não pode ser aprisionado em nenhuma teoria e ao qual se deverá chegar pelos mais diversos caminhos convergentes. Um ser inapreensível pela palavra e que necessitará de intuição para ser compreendido.

            Mas, devo também rapidamente falar da vida de Winnicott. Nascido em 7 de abril de 1896 em Plymouth, Inglaterra, no seio de uma família abastada, em um período de relativa paz, estabilidade e prosperidade, teve uma infância tranqüila, “plenamente envolvido por mães e virtualmente privado de pai” (D.W.Winnicott: a biographical portrait de Brett Kahr). Cresceu em um ambiente de estabilidade emocional só empanada pelas periódicas depressões da mãe. Músico talentoso, bom cantor, fez do piano um companheiro para o resto de sua vida. Estudou medicina e dedicou-se à pediatria. Seu modo psicossomático de aproximação às questões infantis e à relação mãe-filho logo o encaminhou para a psicanálise. Com presumíveis problemas na área da sexualidade, fez 10 anos de análise com James Strachey, de 1924 a 1933. Foi o primeiro analista homem de crianças. Começou sua clínica psicanalítica privada em 1924. Fez supervisão com Melanie Klein, de 1935 a 1941, seis anos aproximadamente. Fez uma segunda análise com Joan Riviere durante cinco anos. Tornou-se um clínico respeitado mas, como pensador independente, encontrou dificuldades para ver aceitas suas idéias originais sobre teoria e clínica psicanalítica. Finalmente sua influência se consolidou e tornou-se o membro mais eminente do midlle group, um grupo independente que não era tributário nem de Melanie Klein nem de Anna Freud.  Casa-se uma primeira vez com Alice em 1923, uma mulher sujeita a depressões. Separa-se dela em 1949, e dois anos após casa-se uma segunda vez com Clare. Seu segundo casamento foi o que se pode chamar de um casamento feliz. Winnicott teve problemas coronários desde 1948, ano da morte de seu pai, e veio a falecer de doença cardíaca em 1971.

            Winnicott não teve filhos. Foi um homem extremamente generoso, uma generosidade que se manifestava na ajuda aos colegas, na assistência prestada até o fim da vida da ex-esposa, no estímulo aos novos analistas, e no seu esforço de traduzir a teoria psicanalítica em uma linguagem acessível a todas as pessoas, escrevendo e falando para os mais diversos grupos de pessoas, inclusive em programas radiofônicos. 

            Sua obra vem sendo cada vez mais estudada em diversos campos disciplinares o que nos revela a face genial de um homem que não tinha tal pretensão. É possível que algum dia seja ele colocado no panteón dos grandes inovadores do pensamento humano.           

 

WINNICOTT E A CRIATIVIDADE PRIMÁRIA


Winnicott nos fala de uma criatividade primária. Seria uma criatividade que surgiria a partir da subjetividade pura, ainda sem objeto. Um bebê com fome tem uma sensação física. Esta sensação física vem acompanhada da uma atávica intuição de que existe um objeto que poderá aliviar esta fome. É uma sensação vaga, nebulosa que vai se delineando cada vez mais claramente na medida em que as experiências de mamada se repetem. Usando uma linguagem fotográfica, a resolução é cada vez mais nítida. O objeto que se vai delineando, a princípio não tem existência própria. É criação e parte do bebê, pois o bebê ainda não tem noção  de eu e outro. Mas ao mesmo tempo em que o objeto seio/mãe/circunstâncias vai se tornando mais nítido o bebê começa a distinguir o eu do não-eu até o ponto de criar para si o objeto e o espaço transicional. O mesmo objeto que era apenas um paninho encostado no rosto, deixa de ser apenas um paninho e vai se transformando em  um objeto transicional externo e interno ao mesmo tempo. Pois bem, enquanto o objeto é apenas subjetivo, não havendo pois uma distinção entre eu e não-eu, a criatividade é chamada de primária. Portanto a  criatividade primária tem a ver, conceitualmente com subjetividade pura. Como estava dizendo acima a dor da fome sofre uma “elaboração imaginativa de função” e aparece como aquela sensação vaga e indefinida de existir um objeto que corresponde à fome. Quando surge o seio o bebê dirá “Ah aqui está o objeto que eu elaborei imaginativamente a partir da função digestiva”. A sensação vaga é elaboração imaginativa de função que recebe um reforço com o aparecimento do seio, mas que do ponto  de vista do bebê continua a ser uma elaboração imaginativa da função digestiva. Só quando ele distingue o eu do não-eu, o aperfeiçoamento da figura do seio deixa de ser apenas elaboração  imaginativa de função para ser também uma tomada de conhecimento do mundo exterior. Como o seio continua investido de fantasias o objeto seio continua sendo subjetivamente concebido ao mesmo tempo que objetivamente percebido. Há uma junção aqui do subjetivo com o objetivo.

O outro tipo de criatividade tem origem no espaço potencial. E aqui criatividade tem a ver com contacto vivo com o mundo externo. Significa dar um sentido à vida. Significa sentir que o mundo lhe pertence e que ele pertence ao mundo. Esta sensação tem seu precursor na dependência absoluta onde o bebê tem a experiência de onipotência, sendo onipotentemente o mundo. Sua segunda etapa nós a encontramos na experiência de transicionalidade, de espaço, objeto e fenômenos transicionais, onde ele já reconhece a realidade externa (objeto objetivamente percebido), mas impregna este objeto de subjetividade (ursinho, etc.) Enquanto protegido pelos pais e enquanto intelectualmente imaturo, predomina o subjetivamente concebido. Aos poucos a objetividade torna-se uma necessidade e encontram-se várias formas de mistura e convivência do subjetivamente concebido e objetivamente percebido. Formas estas às quais eu já me referi acima.

A criatividade depende de uma mãe suficientemente boa capaz de um holding adequado, isto é, um holding que permita ao bebê aceder ao espaço transicional. Eu já disse que o holding é uma nova maneira de viver e ver a vida, uma nova perspectiva, diferente do autoritarismo, dever, imposição, falso self, etc. Juntamente com o holding temos a espontaneidade, o espaço transicional, o verdadeiro self.

Jan Abram no seu livro “A Linguagem de Winnicott” adverte que o “ato criativo (como o pintar, o dançar, etc.) não é um sinônimo de viver criativamente. O viver criativamente tem mais a ver com a força vital que lança mão dos instintos para tornar-se um objeto ontologicamente presente no mundo. Esses instintos evocados pela força vital dão existência ao viver criativo. O viver criativo tem a ver com um sentimento de pertencimento ao mundo; tem também a ver com a capacidade de encontrar a poesia e a arte na coisas mais simples existentes no Universo. Isso fica muito claro no filme Paterson onde um simples objeto inanimado é olhado cuidadosamente, intensamente, ganhando uma  aura                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 divinal
que é pura poesia. ‘A criatividade primária apresenta-se como um impulso inato que se dirige à saúde’ (frase de Jan Abram referida à teorização winnicottiana). Ao impregnar um objeto ou um fenômeno de criatividade primária estaremos na vigência do que Winnicott chama simplesmente de ‘criatividade’.
                                                  Nahman Armony

  

 

AUSÊNCIA E PRESENÇA DE UM SENTIMENTO DE CULPA

Comentários sobre o texto “Ausência e Presença de um sentimento de culpa”  de Winnicott (Livro: Explorações psicanalíticas, p.129)

 

É um texto muito condensado. Dá a impressão de que Winnicott o escreveu para si mesmo motivado pelo desejo de compreender as razões de um erro que ele teria cometido. Um rascunho guardado para um aproveitamento futuro. Esta poderia ser a razão das dificuldades que o texto apresentou para mim. Certas passagens exigiram dedicação para serem decifrados. E não sei se minha leitura é fiel ao que Winnicott tentou transmitir. Mas, certamente houve trechos que ou não entendi, ou não fizeram sentido para mim. Talvez nas releituras eu venha a compreender o sentido e o encadeamento daquilo que não me foi possível compreender e concatenar nesta primeira abordagem do texto.

Caso 1- o que para mim é novo: frase: “tentar sentir-se culpada, sem nunca conseguir”(p.131). Para que sentir-se culpada? E por que ela não conseguia sentir-se culpada?

Tento responder à primeira pergunta: infiro que Winnicott refere-se à fase depressiva caracterizada pela culpa, fase esta necessária para que o ser humano possa chegar à maturidade, isto é, para que entre na fase “em direção à independência”.

Tentando agora responder à 2ª pergunta: por que há pacientes que não conseguem sentirem-se culpados se essa é uma etapa que naturalmente acontece no desenvolvimento sadio? Minha resposta: porque era uma retaliação que se justificava já que ela era “abominável”.  

A falha que Winnicott se atribui foi ele ter falado sobre preocupações pessoais ao paciente. Winnicott: “...caí nesta armadilha e eventualmente, em um estado de anseio por ter alguém com quem falar a respeito de mim, fiz uma ou duas referências a preocupações alternativas minhas”(p.130). A paciente ainda não estava preparada para desidealizar seu analista. “Se me fosse permitido simplificar um pouco, poderia dizer que o que fiz de errado foi exatamente equivalente ao que a mãe dela fez ao ficar grávida e dessa maneira interromper o relacionamento de filha única”(130). A paciente sentiu a falha do analista como um merecido abandono retaliatório porque ela era “abominável”. Citando: “Esta paciente entrou em um estado em que sentia que tinha de ser abominável. Ninguém teria possibilidade de fazer esse tipo de coisas exceto em reação a alguma horrível qualidade nela que levava todos a fazer o pior.”(p.130) Minha observação: portanto o ataque do analista era culpa dela. Do ponto de vista de um observador objetivo um falsa culpa. O seu analista falhar, tão bem aceito no consciente, revelou-se absolutamente inconcebível no Inconsciente. Sendo inconcebível, estaria fora de sua área de onipotência, a não ser que ela apelasse (como fez) para uma fantasia de ser uma Geny indigna, merecedora do desprezo de todos. Com esse sentimento ela enquadrou o ataque de Winnicott na sua área de onipotência. Citação de Winnicott: “O meu fracasso, portanto, foi algo que ela teve de tentar trazer para dentro da área de sua própria onipotência, e só poderia fazer isso por conhecer muito bem suas próprias ideias horríveis ideias e impulsos, sentir-se culpada e, desta maneira, explicar o que eu havia dito em termos de retribuição”(p.130).

Acredito que se possa dizer que seu ataque a si mesma era um ataque ao analista. Quando tudo corre bem, atacar o analista pode ser saudável. É o caso do amor primitivo que é voraz, que pretende devorar o objeto, assimilando-o. Citando Winnicott: “Trata-se de algo que pode desenvolver-se em comer e em ideias de incorporar aquilo que é valorizado”(ibid).

O sentimento de culpa que se manifestava pela extrema abjeção não era saudável; era um sentimento de culpa destrutivo. O sentimento de culpa saudável, construtivo é aquele que tem como referência o amor primitivo com seus componentes de amor e ódio. Quando Winnicott fala de ausência de sentimento de culpa é da ausência de culpa saudável que ele está falando. O sentimento de culpa saudável é aquele considerado como existente. E repetindo: falar de sentimento de culpa não saudável é o mesmo que falar de ausência de sentimento de culpa. A paciente procurava sentir-se culpada (no seu sentido saudável) mas não conseguia. Última citação: “Falhando-lhe, fiz o que os pais dela haviam feito, e a sua mãe fazer-lhe isto tão cedo lhe proporcionou uma vida inteira de tentar sentir-se culpada, sem nunca conseguir”(p.131).

Caso 2 –

1-  É interessante notar que ao falar da paciente Winnicott fala de esquizofrenia potencial, esquizoidia e neurose.   

2-  Ela valoriza a parte esquizóide de sua personalidade o que significa que ela se coloca em extremos e tem uma convicção inabalável de que está certa e o outro incontestavelmente errado. Winnicott: “Há um certo tipo de idealização que é essencial para o seu bem-estar”(p.131). Ela imagina encontrar o ‘homem certo’. Em outro sentido ela se acha sempre certa: “Revela-se, contudo, que todo o seu padrão de vida é determinado por um senso de valores absolutos”(132).  Sendo uma borderline muito inteligente, sua convicção e persistência acabam por fazer o oponente desistir. Winnicott: “Um dos resultados disto é que a sua doença tende a permitir-lhe alcançar o que quer e ela é inteligente o bastante para fazer funcionar isto em grau espantoso”(p.131). Esta capacidade mantém sua dinâmica dicotômica fascista e é indispensável para seu equilíbrio psíquico. Winnicott: “Com esta paciente, não existe dúvida, o julgamento é imediato”(p.132). Aquilo que ela pensa é a verdade absoluta. E tem de ser, pois faz parte de seu equilíbrio psíquico. Winnicott: “Sente que preferiria ficar doente o resto da vida do que ficar bem se isso significasse aceitar a conciliação”(p.131). O acordo, a conciliação significa para ela uma traição a si mesma e a lança numa culpa esmagadora. Esta intensidade culposa aconteceu quando apareceu a hipótese dela estar grávida. Ela que vinha lentamente aceitando o amor do um homem deu um jeito de conseguir gradualmente o término da relação porque ele não era o Homem Certo e ela só casaria com alguém que correspondesse à sua fantasia de ‘Homem Certo’. Winnicott: “O fato é que a pessoa certa teria sido um homem do passado”(p.131); seria o seu pai “alguém que apareceria em sua vida por causa do amor de sua mãe pelo seu homem”(p.132). Mas seus pais tinham falhado tanto na relação conjugal como na relação direta com ela. Seu pai “quisera um menino e nunca tivera muito interesse por ela como menina”(p.132). Com a sua mãe “seu relacionamento...era deficiente”. E temos ainda mais um fator: quando aborrecida com a mãe buscava conforto no seu pai, não o encontrando, pois ele também tinha dificuldades com ela. Não pôde pois viver uma fantasia de amor perfeito com o pai e o que  ela procura não é “um parceiro para casar mas sim [procura] o que perdeu, o primeiro caso amoroso dentro da família”(p.132). É claro que o tabu de que se fala aqui é o tabu do incesto. Por todas estas razões ela não poderia ter um filho com o pretendente e a gravidez deixou-a muito culpada porque na sua concepção de perfeição absoluta ela não poderia se deixar engravidar. O sentimento de culpa tinha a ver dela não corresponder ao seu ideal de perfeição: “Estou fornecendo isto como ilustração do tipo de senso de culpa que é muito arrebatado e pertence à catástrofe da traição de si”(p.132). Na citação seguinte vemos Winnicott devaneando com uma evolução quimérica dessa paciente:   “Imagino que se ela ficar bem, será capaz de viver entre tudo o que é sórdido, como a maioria de nós tem de fazer, mas se pode ver que esta paciente não pode olhar para o futuro e dizer: --- Quero ficar bem, exatamente por causa desta perda de coisas sagradas, em troca de algo que será feio, mal-ajambrado e sórdido”(p.132).

O sagrado aqui é o que ela pensa do mundo, de si, dos outros, do mundo. Enfim, são as suas irredutíveis convicções pessoais.

 

                                  Nahman Armony