AUSÊNCIA E PRESENÇA DE UM SENTIMENTO DE CULPA

Comentários sobre o texto “Ausência e Presença de um sentimento de culpa”  de Winnicott (Livro: Explorações psicanalíticas, p.129)

 

É um texto muito condensado. Dá a impressão de que Winnicott o escreveu para si mesmo motivado pelo desejo de compreender as razões de um erro que ele teria cometido. Um rascunho guardado para um aproveitamento futuro. Esta poderia ser a razão das dificuldades que o texto apresentou para mim. Certas passagens exigiram dedicação para serem decifrados. E não sei se minha leitura é fiel ao que Winnicott tentou transmitir. Mas, certamente houve trechos que ou não entendi, ou não fizeram sentido para mim. Talvez nas releituras eu venha a compreender o sentido e o encadeamento daquilo que não me foi possível compreender e concatenar nesta primeira abordagem do texto.

Caso 1- o que para mim é novo: frase: “tentar sentir-se culpada, sem nunca conseguir”(p.131). Para que sentir-se culpada? E por que ela não conseguia sentir-se culpada?

Tento responder à primeira pergunta: infiro que Winnicott refere-se à fase depressiva caracterizada pela culpa, fase esta necessária para que o ser humano possa chegar à maturidade, isto é, para que entre na fase “em direção à independência”.

Tentando agora responder à 2ª pergunta: por que há pacientes que não conseguem sentirem-se culpados se essa é uma etapa que naturalmente acontece no desenvolvimento sadio? Minha resposta: porque era uma retaliação que se justificava já que ela era “abominável”.  

A falha que Winnicott se atribui foi ele ter falado sobre preocupações pessoais ao paciente. Winnicott: “...caí nesta armadilha e eventualmente, em um estado de anseio por ter alguém com quem falar a respeito de mim, fiz uma ou duas referências a preocupações alternativas minhas”(p.130). A paciente ainda não estava preparada para desidealizar seu analista. “Se me fosse permitido simplificar um pouco, poderia dizer que o que fiz de errado foi exatamente equivalente ao que a mãe dela fez ao ficar grávida e dessa maneira interromper o relacionamento de filha única”(130). A paciente sentiu a falha do analista como um merecido abandono retaliatório porque ela era “abominável”. Citando: “Esta paciente entrou em um estado em que sentia que tinha de ser abominável. Ninguém teria possibilidade de fazer esse tipo de coisas exceto em reação a alguma horrível qualidade nela que levava todos a fazer o pior.”(p.130) Minha observação: portanto o ataque do analista era culpa dela. Do ponto de vista de um observador objetivo um falsa culpa. O seu analista falhar, tão bem aceito no consciente, revelou-se absolutamente inconcebível no Inconsciente. Sendo inconcebível, estaria fora de sua área de onipotência, a não ser que ela apelasse (como fez) para uma fantasia de ser uma Geny indigna, merecedora do desprezo de todos. Com esse sentimento ela enquadrou o ataque de Winnicott na sua área de onipotência. Citação de Winnicott: “O meu fracasso, portanto, foi algo que ela teve de tentar trazer para dentro da área de sua própria onipotência, e só poderia fazer isso por conhecer muito bem suas próprias ideias horríveis ideias e impulsos, sentir-se culpada e, desta maneira, explicar o que eu havia dito em termos de retribuição”(p.130).

Acredito que se possa dizer que seu ataque a si mesma era um ataque ao analista. Quando tudo corre bem, atacar o analista pode ser saudável. É o caso do amor primitivo que é voraz, que pretende devorar o objeto, assimilando-o. Citando Winnicott: “Trata-se de algo que pode desenvolver-se em comer e em ideias de incorporar aquilo que é valorizado”(ibid).

O sentimento de culpa que se manifestava pela extrema abjeção não era saudável; era um sentimento de culpa destrutivo. O sentimento de culpa saudável, construtivo é aquele que tem como referência o amor primitivo com seus componentes de amor e ódio. Quando Winnicott fala de ausência de sentimento de culpa é da ausência de culpa saudável que ele está falando. O sentimento de culpa saudável é aquele considerado como existente. E repetindo: falar de sentimento de culpa não saudável é o mesmo que falar de ausência de sentimento de culpa. A paciente procurava sentir-se culpada (no seu sentido saudável) mas não conseguia. Última citação: “Falhando-lhe, fiz o que os pais dela haviam feito, e a sua mãe fazer-lhe isto tão cedo lhe proporcionou uma vida inteira de tentar sentir-se culpada, sem nunca conseguir”(p.131).

Caso 2 –

1-  É interessante notar que ao falar da paciente Winnicott fala de esquizofrenia potencial, esquizoidia e neurose.   

2-  Ela valoriza a parte esquizóide de sua personalidade o que significa que ela se coloca em extremos e tem uma convicção inabalável de que está certa e o outro incontestavelmente errado. Winnicott: “Há um certo tipo de idealização que é essencial para o seu bem-estar”(p.131). Ela imagina encontrar o ‘homem certo’. Em outro sentido ela se acha sempre certa: “Revela-se, contudo, que todo o seu padrão de vida é determinado por um senso de valores absolutos”(132).  Sendo uma borderline muito inteligente, sua convicção e persistência acabam por fazer o oponente desistir. Winnicott: “Um dos resultados disto é que a sua doença tende a permitir-lhe alcançar o que quer e ela é inteligente o bastante para fazer funcionar isto em grau espantoso”(p.131). Esta capacidade mantém sua dinâmica dicotômica fascista e é indispensável para seu equilíbrio psíquico. Winnicott: “Com esta paciente, não existe dúvida, o julgamento é imediato”(p.132). Aquilo que ela pensa é a verdade absoluta. E tem de ser, pois faz parte de seu equilíbrio psíquico. Winnicott: “Sente que preferiria ficar doente o resto da vida do que ficar bem se isso significasse aceitar a conciliação”(p.131). O acordo, a conciliação significa para ela uma traição a si mesma e a lança numa culpa esmagadora. Esta intensidade culposa aconteceu quando apareceu a hipótese dela estar grávida. Ela que vinha lentamente aceitando o amor do um homem deu um jeito de conseguir gradualmente o término da relação porque ele não era o Homem Certo e ela só casaria com alguém que correspondesse à sua fantasia de ‘Homem Certo’. Winnicott: “O fato é que a pessoa certa teria sido um homem do passado”(p.131); seria o seu pai “alguém que apareceria em sua vida por causa do amor de sua mãe pelo seu homem”(p.132). Mas seus pais tinham falhado tanto na relação conjugal como na relação direta com ela. Seu pai “quisera um menino e nunca tivera muito interesse por ela como menina”(p.132). Com a sua mãe “seu relacionamento...era deficiente”. E temos ainda mais um fator: quando aborrecida com a mãe buscava conforto no seu pai, não o encontrando, pois ele também tinha dificuldades com ela. Não pôde pois viver uma fantasia de amor perfeito com o pai e o que  ela procura não é “um parceiro para casar mas sim [procura] o que perdeu, o primeiro caso amoroso dentro da família”(p.132). É claro que o tabu de que se fala aqui é o tabu do incesto. Por todas estas razões ela não poderia ter um filho com o pretendente e a gravidez deixou-a muito culpada porque na sua concepção de perfeição absoluta ela não poderia se deixar engravidar. O sentimento de culpa tinha a ver dela não corresponder ao seu ideal de perfeição: “Estou fornecendo isto como ilustração do tipo de senso de culpa que é muito arrebatado e pertence à catástrofe da traição de si”(p.132). Na citação seguinte vemos Winnicott devaneando com uma evolução quimérica dessa paciente:   “Imagino que se ela ficar bem, será capaz de viver entre tudo o que é sórdido, como a maioria de nós tem de fazer, mas se pode ver que esta paciente não pode olhar para o futuro e dizer: --- Quero ficar bem, exatamente por causa desta perda de coisas sagradas, em troca de algo que será feio, mal-ajambrado e sórdido”(p.132).

O sagrado aqui é o que ela pensa do mundo, de si, dos outros, do mundo. Enfim, são as suas irredutíveis convicções pessoais.

 

                                  Nahman Armony           

                     

 

        
WINNICOTT – O SELF E O EGO
 
 
                                    Anotações dispersas.

                                           Um estudo
 
 
 
Citação retirada do “Explorações Psicanalíticas”  parte 19, redigido em julho de 1964,  p.81:
         “Não é possível fornecer uma resposta direta à pergunta: o bebê possui um ego, desde o início? A razão para tal é que, de começo, o ego do bebê é, ao mesmo tempo, débil e poderoso. É débil ao extremo se não existe um meio ambiente facilitador satisfatório. Em quase todos os casos, contudo a mãe ou a figura materna fornecem apoio ao ego, e, se ela faz isso de modo suficientemente bom, o ego de bebê é muito forte e possui sua própria organização. A mãe é capaz de proporcionar este apoio ao ego mediante sua capacidade e disposição de identificar-se tempo rariamente com o seu bebê.
         É importante distinguir entre a capacidade que uma mãe tem de identificar-se com seu bebê, mantendo, naturalmente, sua própria autonomia, e o estado, próprio ao bebê, de não haver ainda emergido da dependência absoluta. É só gradualmente que ele separa o não-eu  do eu, e um estágio importante de desenvolvimento emocional ocorre quando o bebê torna-se capaz de reconhecer  o fato da dependência e conseguir ter um self que é apenas relativamente dependente – ao invés de absolutamente dependente – do estado temporário da mãe em que ela se conluia com o bebê, de maneira que este tem, por causa do conluio dela, um ego, uma organização do ego e um certo grau de força e elasticidade do ego. 
         Comentário: Creio que o self existe desde o início da vida como um impulso singular para o desenvolvimento e expansão. Seria uma espécie de id, só que à diferença desse, que é impessoal, teria uma especificidade, uma singularidade, uma ipseidade. Aquilo que Winnicott chama de núcleo do verdadeiro self seria o repositório dessa ipseidade. Esse núcleo é inabordável (creio que o incomunicável de Winnicott deva ser lido como inabordável, incorruptível). O self é pois impulsão para a vida, para a expansão, para a conquista de novos territórios. Já o ego refere-se ao aspecto do lidar com o ambiente de modo a nele sobreviver da melhor maneira possível. O ego tem uma filiação darwiniana (adaptação) e o self uma filiação nietzschiana (vontade de potência, expansão). Comentário 2: há portanto uma interpretação minha diferente do pensamento de Winnicott     
 
Do mesmo livro no. 8 IDÉIAS E DEFININIÇÕES: “O Self falso. O self verdadeiro – estes termos são utilizados na descrição de uma organização defensiva na qual se da uma, etc. [ o que eu entendo é que o falso self “é semelhante à função do Ego, voltado para o mundo, entre o Id e a realidade externa”. (p.36)
Winnicott diz: “Self verdadeiro ou fonte de impulsos pessoais” (p.36)
Winnicott fala de “self falso complacente” onde outros autores, diz ele, falam de Ego Observador(p.36). Concluo que o falso self aproxima-se conceitualmente do ego e o verdadeiro self do id. “A espontaneidade e o impulso real só podem provir do self verdadeiro e, para que isto aconteça, alguém precisa assumir as funções do self falso”(p.36) Todas as citações teriam sido escritas no começo  da década de 50, o que eu duvido. Qual a função do falso self? Defender o verdadeiro self. Defender a integridade. Defender o verdadeiro self das invasões externas. Parece uma função egóica, de preservação da personalidade, ou da individualidade.  
 
 
 
HOJE, NO DIA 25/10/99 PENSO O SEGUINTE:
         Podemos inventar um self potencial e um self consciente de si mesmo. Haveria um self desde um teórico início intra-uterino; seria o impulso à vida, que inclui o crescimento, a diferenciação e integração célular, formação dos tecidos, seria o impulso à realização, ao crescimento, à expansão que evidentemente dependem de um ambiente suficientemente bom, mas também dependem da potencialidade do bebê. Em “Recordações do nascimento, trauma do nascimento e ansiedade” de 1949 (Livro: “Da Pediatria à Psicanálise Winnicott fala de um self existente em ato antes do nascimento(p .235). Mais adiante parece falar de um self potencial que precede o self consciente de si mesmo.
         De qualquer forma este self, no seu caminho de expansão, precisa inventar funções que o ajudem a lidar com a realidade sem que ele perca o impulso de expansão. O self então inventa a função egóica, a função superegóica, etc. 
 
  • Podemos igualar o self ao potencial hereditário em processo de maturação. Se não houver uma intrusão do ambiente esse potencial hereditário poderá processar-se dentro de uma continuidade de ser.
  • O self tem um aspecto pessoal que o id não tem. A fome seria um atributo do id enquanto que a maneira da fome se manifestar, diferente para cada criança, seria uma manifestação do self que de início estaria referido ao potencial hereditário em expansão mas que poderia ser modificado por ação do ambiente.
     
     
    22- Do livro “O Brincar e a Realidade” capítulo V “A criatividade e suas origens”: “2- Examinei os elementos masculino e feminino artificialmente dissecados e descobri que associo por enquanto o impulso relacionado a objetos (e também a voz passiva disso) ao elemento masculino, enquanto postulo que a característica do elemento feminino no contexto da relação de objeto é a identidade, concedendo à criança base para ser, e depois, mais tarde, uma base para o sentimento do eu (self). Acredito que é aqui, na dependência absoluta da provisão materna, daquela qualidade especial pela qual a mãe atende, ou deixa de atender ao funcioname nto mais primitivo do elemento feminino, que podemos buscar o fundamento da experiência de ser”(p.120).
     
    Do livro “Da Pediatria à Psicanálise”. Artigo: “Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro  do setting psicanalítico” : “Ao se recuperar da regressão, o paciente, com o self agora mais completamente rendido ao ego, necessita da análise comum...”(p.480).
     
    Do artigo “Relação paterno-infantil” do livro “O ambiente e os processos de maturação”: “...como eventualmente o ego do lactente se torna livre do apoio do mãe, de modo que o lactente alcança uma separação mental da mãe, isto é, uma diferenciação em um self pessoal  e separado”(p.41). Comentário: isso pode significar que o self primitivamente não é um self pessoal, mas um self que se junta, que  se mistura ao self da mãe.  A força vital viria da soma dos dois selves. Podemos  pensar que  isso ocorre na fase de fusão; o aquisição do self separado da mãe, do self pessoal iniciar-se-ia na fase de dependência relativa.
     
Pode-se pensar, a partir dessa perspectiva, que o self tem um impulso ao crescimento, à diferenciação e à integração. Este impulso para o crescimento, que mais tarde poderá ser denominado de impulso à expansão, à realização de suas potencialidade, é chamado por Winnicott de força vital. Essa concepção está aparentada ao élan vital de Bergson e, para mim, mais fortemente, à vontade de potência de Nietzsche.    
 
. O ego é uma parte do self, ou uma função do self, que existe para possibilitar o pleno desenvolvimento do self. O ego lida com a realidade externa, com os instintos e com o superego aplainando o caminho de auto-realização do self. O self ( um de seus significados) é impulso de vida, vitalidade, vontade de potência, realização, expansão. O ego tem a função de possibilitar a expansão do self. Pode ser bem sucedido  ou mal-sucedido. Em geral, algo se perde na caminhada do self em direção à sua plena realização. 
 
. Desenvolve-se o falso self como uma reação à invasão. O verdadeiro self se recolhe e o falso self torna-se o centro de gravidade da personalidade. Esse falso self pode reagir à intrusão de duas maneiras: 1- tornando-se submisso e 2- tornando-se desafiador. No pólo submisso aparece o sentimento de vazio, tédio, futilidade. No pólo desafiador a pessoa enquanto desafiando, brigando, competindo não tem o sentimento de futilidade que porém surge quando não há uma boa briga em vista. Nos dois casos é possível que a pessoa venha a se distinguir profissionalmente.
 
. O self é tudo o que a pessoa é: seu corpo, suas fantasias, seu ego, seu id, seu superego, sua necessidade de crescimento, integração, realização e expansão. Visualizo o self como um fluido que tem a capacidade de banhar todos as partes da pessoa. Um fluido que pode se concentrar em qualquer das partes da pessoa. Já pensei que o falso self seria o ego, mas prefiro, no momento pensar que self é um todo do qual o ego é uma parte, e que o falso self é um derivado do verdadeiro self que se desenvolve devido aos problemas com que o self se defronta.
 
. Do livro “O ambiente e os processos de maturação”, artigo “Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self (1960): “Particularmente relaciono o que divido em self verdadeiro e falso com a divisão de Freud do self em uma parte que é central e controlada pelos instintos (ou pelo que Freud chamou sexualidade, pré-genital e genital), e a parte orientada para o exterior  e relacionada com o mundo” (p.128).
                                            
                                                           Nahman Armony




 
 
 
 
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UM PASSADO PERSISTENTE


 
Vivemos em um mundo incerto, no qual a rotina é freqüentemente assaltada pelo inesperado. Temos de aprender a conviver e a lidar com o imprevisto. Bem diferente do tempo de nossos avós, quando se contava com um mundo estável, de hábitos consolidados. Não havia então o imperativo de uma avaliação ininterrupta do impacto dos acontecimentos sobre a subjetividade de cada um, nem a necessidade de se olhar para além do manifesto e explícito. As estruturas em vigor absorviam as insatisfações e conflitos existentes.
Tomemos como exemplo a circulação de dinheiro em uma família tradicional para confrontá-la com uma família pós-moderna. Na primeira o homem detinha o poder econômico, pois trabalhava e sustentava a todos, enquanto a esposa cuidava da casa e dos filhos. Disponibilizar para ela maior ou menor numerário teria mais a ver com a satisfação do marido em relação ao comportamento da esposa do que com a realidade econômica do casal. A mulher, por seu lado, tentava compensar sua frustração com o casamento realizando gastos excessivos. Os conflitos e as insatisfações, porém, não ameaçavam a estabilidade do casamento, que era “para sempre”; podiam permanecer ocultos, negados, pois a hipótese da separação era impensável. Os hábitos e as convenções da época seguravam o casamento, os afetos se equilibravam nas ações e reações.

Pensemos agora em uma família pós-moderna composta de marido e mulher em segundas núpcias, uma ex-esposa e um filho do primeiro casamento. O homem terá de se relacionar com a primeira mulher, tendo em vista sua função de pai, incluindo-se aí  os gastos com a criança. A circulação de dinheiro, que na família patriarcal fluía no interior da instituição do casamento, agora obedece a uma determinação externa, a da pensão. Nesse caso, a posição de ex-esposa a deixa mais livre e motivada para reivindicar aportes extras. Estes nem sempre são por exclusiva necessidade econômica: ocorre com freqüência haver raiva e ciúme da nova relação. Ela busca então se vingar, sobrecarregando o ex com pedidos extemporâneos; ao mesmo tempo poderão persistir nela resquícios de apego, e a contribuição extra poderá ter para ela o significado de ele sentir os mesmos resquícios. E mais: se ele cede às suas demandas, ela encontra conforto na idéia de que ainda o controla.

A esposa vigente percebe inconscientemente esses significados e exacerba sua rivalidade e competição com a ex. Sua sensação é a de não ser mais a única mulher com a qual o marido se importa. Existe outra a receber agrados; o dinheiro que poderia ser utilizado por ela e pela família atual escoa-se para a antiga esposa por fraqueza e por um elo afetivo indevido do marido. O que a ex-esposa pede para o filho é percebido como um pedido pessoal. A criança, aqui, perde a sua singularidade, confundida que está com a mãe.

Como não existe uma contenção institucional para essa constelação familiar, a situação pode não se equilibrar com as ações dos implicados, vindo a atingir a região do insuportável quando sucede algo radical: ou a separação do novo casal, ou o rompimento do marido/pai com a família anterior. A fratura, no entanto, poderá ser mais facilmente evitada se cada membro da família se der conta da própria dinâmica psíquica.

A nova esposa precisa conscientizar-se de sua rivalidade e competição com a ex; esta deverá perceber o mesmo em relação à atual e, ainda, o ódio e amor residual pelo ex-marido. Já o marido terá a tarefa de compreender o que move as duas mulheres nas discussões com ele. Só assim será possível atenuar os efeitos de tão fortes emoções, protegendo a continuidade dos relacionamentos.

 

                                       Nahman Armony
        Primeira publicação na revista CARAS

O ENIGMA CÉREBROMENTE


 

Repercussões especulativas psicofisiológicas a partir de LIBET


 

Experiência de Libet – o potencial de prontidão precede de 550 milisegundos a realização do gesto. “A interpretação clássica desse experimento diz que o livre arbítrio, ou seja, a ideia de que nós somos os arquitetos de nossas ações, é uma ilusão e que a consciência é uma espécie de efeito colateral de um processo inconsciente.” Crítica de Schurger: “ Libet argumentava que o nosso cérebro já decide mover-se ante de haver uma intenção consciente. Nos argumentamos que o que parece ser um processo de decisão pré-consciente não é reflexo de uma decisão. Parece ser, mas apenas porque essa é a natureza da atividade cerebral espontânea. Se estivermos certos, o experimento de Libet não fornece nenhuma evidência em desacordo com o livre-arbítrio.”

Minha tentativa de explicação. Um pouco de neurociência especulativa.  Premissa 1: necessidade de aumento da percepção do ambiente. Quanto mais ampla a percepção mais o ser vivo poderá se defender, atacar e sobreviver (Darwin). Poder-se-ia aqui falar de vontade de potência (Nietzche) como uma pulsão ou instinto primário. Imagino então o seguinte. Numa primeira etapa os animais só percebiam o ambiente através do toque, fosse com objetos vivos ou inanimados. O ambiente externo ao corpo reagia ou com irritação e então se afastava do fragmento do ambiente no qual por acaso tinha tocado, ou então o introduzia no seu próprio organismo para se alimentar, fosse um fragmento mineral fosse um outro ser vivo que era então decomposto em suas partes (proteína, gordura, glicose, etc.) Tanto um quanto outro processo só ocorriam quando o acaso colocava a substância viva com um objeto inanimado ou com um ser vivo que então lutava para não ser destruído.  Interessava então à sobrevivência poder perceber o outro, antes de tocá-lo. Essa é a função da visão. Desenvolveram-se partes do cérebro que permitiram essa percepção.  Na revista ‘Mente e Cérebro’ de novembro de 2016 aparece a figura de um verme primitivo ao qual foi dado o nome de CAENORHABDITIS ELEGANS. Esse verme se alimenta de bactérias do solo, não tem olho, não tem cérebro nem consciência. Algumas espécies de vermes têm um olho primitivo, mas seu principal instrumento de percepção do mundo à sua volta é difuso e se dá através do seu corpo. Se examinarmos o corpo de um jacaré facilmente veremos seu olho, fazendo um enorme contraste com o corpo de vermes que ou não apresenta aparelho visual ou o tem, porém muito primitivo. O jacaré atrelou parte de suas defesas ao olho. Para isso promoveu o crescimento e reestruturações do cérebro aumentando a capacidade de enxergar. Ou pode-se dizer o contrario. A necessidade de enxergar fez com que o cérebro se desenvolvesse no sentido da sobrevivência. A capacidade de ver o mundo é concomitante às transformações funcionais. Segundo Espinoza Uma única substância com inúmeros atributos dos quais só percebemos o atributo extensão e o atributo incorporal (mental). Voltando aos olhos do jacaré: ele enxerga o que externo a ele mas não desenvolveu o cérebro para enxergar os seus processos mentais e psíquicos internos. Esta proeza foi realizada pelo homem que desenvolveu uma parte do seu cérebro no sentido de ver o que se passa dentro da mente e da psique. Estou falando principalmente de autoconsciência. Não se pode separar o desenvolvimento neuronal da conquista mental. Ambas são concomitantes, ocorrem ao mesmo tempo. Voltando ao que eu já disse são dois aspectos de um mesmo fenômeno. No dizer de Spinoza, são atributos da Natureza. Há um crescimento e arranjo cerebral que permite ver não só o externo, o que está fora do ser, como também permite ver o que está acontecendo dentro do próprio mente-cérebro. Isto através de dois modos: por introspecção e por aparelhos de imagens dinâmicas.   Parto da seguinte premissa: a todo movimento da mente (portanto a todo pensamento) corresponde um movimento dos elementos cerebrais. É necessário que existam certas estruturas, funções e dinâmicas cerebrais para que o animal perceba com os seus órgãos de sentido aquilo que está acontecendo no mundo e dentro de seu cérebromente. A palavra ‘perceber’ pode ser substituída por ‘consciência’. O primeiro patamar da consciência eu a chamo de ‘consciência da pura ação.’ Num segundo patamar encontramos a consciência reflexiva que é a capacidade mental/cerebral de agir inteligentemente ao resolver algum problema externo sem porém ter consciência de que está resolvendo problemas pois esta última encontra-se no patamar da autoconsciência, privilégio dos humanos que observam seus pensamentos e ações. Darei um exemplo da consciência reflexiva que os animais reflexivos partilham com o ser humano. Um cão foi deixado para trás numa encruzilhada. Ele cheira uma primeira via buscando o cheiro do dono. Não há cheiro. Entra então resolutamente na 2ª via. Estamos diante de uma inteligência ou consciência reflexiva. À sua maneira canina o cão pensou: “se só há dois caminhos e meu dono não passou por este caminho só pode ter seguido pelo outro caminho”. Seu aparato cérebromental permitiu esta percepção/ação sem que percebesse que estava fazendo um raciocínio lógico. Já o homem desenvolveu um cérebromente que lhe permite ter autoconsciência. São modificações cerebrais que ampliam o campo de conhecimento dos seres vivos. Seria possível encontrarmos modificações cerebrais para os chamados fenômenos paranormais? Dentro da premissa colocada por mim a resposta só pode ser positiva. A meditação não é um fenômeno paranormal. Mas está mais próximo desta fronteira. Foram detectadas alterações na dinâmica cerebral nos monges que realizam meditação. Esta última afirmação tira a força do que venho dizendo, mas vale a pena colocá-la para nos afastarmos de acontecimentos milagrosos ou excepcionais. Não nos esqueçamos que os bons motoristas de taxi londrinos têm o córtex temporal ou parietal aumentado em comparação com a população não taxista. Preservamos assim a ideia de uma evolução cerebral/mental rizomática.
                                  Nahman Armony 

SOBRE ALGUNS MEDOS ATÁVICOS


CONFLITOS DA CULTURA DISFARÇADOS DE CONFLITOS PESSOAIS

 

Os seres humanos carregam consigo um medo atávico de serem influenciados, dominados, abusados, e procuram defender e preservar sua força, individualidade e independência de pensamento e ação. Num casal, o medo de ser dominado e o desejo de dominar se revela até mesmo em pequenas disputas como, por exemplo, a ridícula luta quanto ao modo de colocar a pasta de dentes na escova. As pessoas têm um medo inconsciente de serem influenciadas e dominadas e então perder sua autonomia e identidade. Tal sentimento pode ser percebido nos vários níveis das relações humanas, desde as que envolvem povos até as que se dão entre funcionários de uma empresa e relações de casal. Porém, não é fácil reconhecê-lo. Embora sua incidência seja ampla não nos apercebemos dela o que nos dificulta fazer um trabalho psicanalítico. Este medo está incrustado em nossos neurônios/psique, pois desde o inicio de nossa vida dependemos de uma outra pessoa de uma forma indispensável, necessária e prazerosa. Porém em algum momento da vida será preciso tornar-se autoafirmativo, contrariando os interlocutores. Instala-se um conflito aberto ou larvado: interesses grupais versus interesses pessoais, sentimentos de culpa por estar contrariando uma pessoa amada, desejo de paz versus afirmação da individualidade, desejos inconsciente de se fundir com a Grande Mãe versus desejo de individuação, etc.      

As conquistas territoriais, os massacres de populações, a imposição de culturas podem ser considerados, em parte, uma defesa contra a invasão/imposição de um grupo sobre a individualidade/subjetividade de outro. Do mesmo modo, quando um casal discute sobre o modo de usar o tubo da pasta de dentes, cada um querendo provar que a sua maneira é a melhor, trata-se, no fundo, de uma luta de culturas e mentalidades. Qual cultura/mentalidade vai prevalecer? Quem vai desaparecer e virar uma sombra para que o outro possa tranquilamente ocupar um lugar protegido da ameaça de ser invadido colonizado, controlado?

Na economia das relações entre os seres vivos, o grupo funciona com mais eficiência quando se estabelecem relações de liderança. Se cada um saísse atirando para lados diferentes, se não houvesse uma sinergia de ações, o grupo tenderia a desaparecer, destruído por outros. Essa é uma herança que os humanos carregam consigo para todos os lados, em todas as situações. Inclusive nas relações amorosas. 
Aqui faço um parêntesis para tratar da espinhosa questão da liderança. O perigo da liderança é o perigo que ela se transforme em relações ditatoriais. Eu penso em uma liderança funcional onde cada membro do grupo é levado a fazer o necessário para manter a estabilidade dinâmica do grupo. O exemplo que tenho na cabeça é o da organização das formigas e de outros insetos onde a alocação política é uma questão pontual, a ser resolvida nos contextos locais que se articulam com contextos locais mais amplos sem haver disputas pelo poder. Cada um faz o que deve fazer para a equilibração do grupo. Trata-se de uma liderança rizomática (Deleuze). 
É preciso fazer um esforço para identificar o receio atávico de ser influenciado pois aquilo que parece pequeno e burlesco pode ou não estar vinculado ao mais primitivo desejo de dominar e anular.

Os casais precisam encontrar um equilíbrio. Como as culturas e os hábitos são diferentes o confronto é inevitável. E ambos devem permanecer fortes em suas vestes de autoafirmação. Dessa forma estabelecem-se os limites e espaços de cada um e o entendimento em áreas comuns de pensamento/sentimento/sensibilidade. Quando um tenta convencer o outro de que seu modo de pensar é o verdadeiro, entra-se no terreno da disputa, da conquista, do desejo de ocupar com sua personalidade o máximo de espaço, movido pelo medo de ver sua individualidade anulada pela do outro.

Quanto maior for a autoestima de cada um, quanto maior for a certeza de se ter um centro autônomo e criativo, menos esse tipo de disputa aparecerá, pois a força individual se definirá por uma potência intrínseca e não pela dominação sobre o outro.

É bom lembrar, porém, que a dominação traz lucros não só para o dominador como também para o dominado, que aceitando sua submissão goza de tranquilidade até ter seu conforto ameaçado pela voracidade e medo do dominador. Para evitar essas situações, é importante que o casal perceba que a tentativa de imposição dos pequenos gostos pessoais de cada um pode ser a materialização do medo primitivo de desaparecer como individualidade, um sentimento que, para ser administrado, precisa, antes, ser reconhecido.
                                                       Nahman Armony

 

 
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