BORDERLINE - PERSPECTIVAS (anotações preliminares)


O BORDERLINE VISTO DE VÁRIAS PERSPECTIVAS

Perspectiva psiquiátrica- Eu me basearei do DSM-IV.

Critérios diagnósticos

Esforços frenéticos no sentido de evitar um abandono real ou imaginário. Critério sintomático-comportamental. Desenvolvimento: são sensíveis às circunstâncias ambientais: abandono, rejeição, perda da estrutura externa. Raiva inadequada. [Exp.: raiva intensa de um grupo de turistas que por décimos de segundos chegou antes de minha analisando e tomou conta do restaurante ficando ela sem lugar.]

(1)       Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância de extremos de idealização e desvalorização. Critério sintomático-comportamental-objetivo, isto é, que pode ser observado diretamente. Desenvolvimento: sentem empatia e carinho pela outra pessoa com a expectativa de que o outro corresponda aos seus desejos; quando isto não acontece o borderline se frustra e passa a odiar o parceiro. [ do ponto de vista psicanalítica fala-se de uma falta de amadurecimento tendo a pessoa se mantido em um estado infantil incapaz de lidar com perdas e frustrações, necessitando de viver em permanente simbiose, não suportando ficar sozinha consigo mesma,, não tendo autonomia, não conseguindo elaborar perdas e frustrações.].

(2)       Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e persistente da auto-imagem ou do sentimento de self. Critério sintomático por narração; podemos chamar de critério subjetivo pois não é observado diretamente, mas depende da informação do borderline sobre sua subjetividade. Desenvolvimento: mudanças súbitas acerca de carreira, de opiniões, identidade sexual, valores, tipos de amigos. De suplicante a vingador implacável. Sentimento de não-existência. Aqui o DSM introduz um critério dinâmico ao dizer que o sentimento de não-existência está ligado à falta de um relacionamento significativo, à falta de carinho e apoio.

(3)       Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais a si próprio: gastos irresponsáveis, sexo inseguro, direção imprudente, reações explosivas.

(4)       Ameaça de comportamento suicida ou automutilante.

(5)       Instabilidade afetiva reativa às situações que se dissipa em horas ou dias.

(6)       Sentimentos crônicos de vazio.

(7)       Raiva inadequada e dificuldade em controlar a raiva.

(8)       Ideação paranóide transitória relacionada ao stress. Graves sintomas dissociativos (despersonalização como exp.) transitórios relacionados ao stress.


TRATAMENTO

1-  O mais importante é a psicoterapia e a minha preferência é a terapia de base psicanalítica. Pelo que pude entender de minhas leituras, todas as psicoterapias utilizam processos psicanalíticos.

2-   A medicação poderá e deverá ser usada como um coadjuvante do tratamento para situações de muito sofrimento, muita resistência, ou de perigo de vida. O principal grupo de medicamentos é o dos estabilizadores do humor. A resposta ao medicamento é muito pessoal. Podemos, porém, de uma maneira geral dizer (com base nos estudos experimentais) que a Carbamazepina tem uma ação sobre o descontrole dos impulsos e sobre a agressividade. Com isto se alcançam as reações intensas às frustrações que o borderline apresenta. Também as oficinas protegidas em alguns casos podem ser de grande ajuda, pois lá, com boa orientação, aprendem a lidar com os sentimentos que pessoas diferentes delas, nela despertam. Tive uma cliente muito exigente consigo mesmo que não admitia errar. Se alguém lhe apontasse um “erro” reagia com grande intensidade, ou sofrendo, ou agredindo. Por esta razão, embora bem preparada, não conseguia permanecer em nenhum emprego. Com a ajuda dos cuidadores de uma oficina protegida aprendeu a lidar com os seus sentimentos de menos-valia e melhorou sua capacidade de enfrentar o mundo tal como ele é.

Sobre a psicoterapia psicanalítica da atualidade falaremos mais adiante depois de entendermos a relação do borderline com a subjetividade de nosso tempo atual.


PERSPECTIVA PSICANALÍTICA

Inúmeros autores estudaram o borderline sob a perspectiva psicanalítica. Quando falo em perspectiva psicanalítica penso em ir além do fenomênico, da simples descrição dos acontecimentos. Os psicanalistas em geral e de forma geral, concordariam com a fenomenologia apresentada pelo DSM IV: medo de abandono, intolerância à frustração, relacionamentos intensos e instáveis, perturbações de identidade, impulsividade, grande reatividade aos acontecimentos, pensar com a ação mais que com o raciocínio,  sentimentos crônicos de vazio, raiva inadequada, dificuldade em controlar a raiva, ideação paranóide transitória relacionada ao stress. Na perspectiva psicanalítica procura-se encontrar motivações inconscientes para o modo de ser borderline. Aqui, porém, não posso deixar de evocar a famosa metáfora do elefante a ser descrito por um grupo de cegos. A descrição variava de acordo com a parte do corpo do elefante que o cego tocava. Repasso esta anedota para lembrar que as motivações inconscientes serão vistas de maneiras diferentes por diferentes autores. Ou porque se apresentam motivações e dinâmicas diferentes ou porque a ordem de importância das motivações varia. Vamos visitar a perspectiva de alguns autores:

WINNICOTT: a questão do borderline remete-nos a dinâmicas primitivas ocorridas na época da absoluta predominância da relação mãe-bebê, portanto de uma dinâmica dual. A questão sexual perde importância diante de problemas mais primitivos de existência, sobrevivência e identidade.


LUIZ CLÁUDIO FIGUEIREDO: em algum momento da infância a percepção da existência de um não-eu torna-se consistente. O bebê agora diferencia a si mesmo do outro e do mundo externo. Ele estabelece fronteiras. Para o autor em foco o bebê que pode vir a se tornar borderline construiu precariamente, inadequadamente estas fronteiras.. Não teria havido um investimento suficiente; a mãe não teria facilitado a formação de um eu (o senso de realidade do eu depende da realidade do não-eu); não teria estimulado o narcisismo da criança. Usando a teoria de Mahler ele se refere à fase de separação/individuação na sub-fase da reaproximação. Em algum momento a criança tenta explorar o ambiente, contatando-se com ele. Mas tem medo de perder a mãe e então volta a procurá-la. É preciso que a mãe perceba e acolha estes movimentos para a criança poder sentir-se compreendida. Um incitamento à liberdade nos momentos de reaproximação do bebê, ou um incitamento a permanecer grudado na mãe nos momentos de afastamento fará com que, na liberdade tenha medo de perder-se da mãe, e na proteção, medo de perder-se nela. Estes desencontros são chamados por Figueiredo de “ataques às fronteiras”. A precariedade das fronteiras facilita o alargamento e o retraimento do eu. Quando alargadas ficam sob o domínio do fantasmático perdendo sua objetividade e sua capacidade traumática. Quando retraídas evita manter contacto com os objetos. Figueiredo, da mesma maneira de Federn, fala da necessidade de haver um investimento narcísico nas fronteiras.


GREEN: angústia de separação e angústia de intrusão.


ARMONY: carência de identificações saudáveis, fome de identificações, valências identificatórias abertas em busca de uma personificação para dela depender.

Carência de identificações: uma identificação plena, isto é, não carente, tem a ver com a capacidade da mãe suficientemente boa – na maioria das vezes - empatizar e atender às necessidades momentâneas de proteção ou de liberdade, aceitando-as e validando-as. Caso contrário o borderline eternamente procurará uma relação do tipo maternal para tentar viver uma identificação empática. Um outro caminho possível de equilibração é desviar vicariamente as valências identificatórias abertas da figura materna (ou função paterna) para uma relação mais direta com a sociedade e a natureza.


KERNBERG: difusão de personalidade, clivagem, teste de realidade conservado. A clivagem é secundária; é uma clivagem defensiva.

BERGERET: Prioriza a busca de relações anaclíticas. A perda do objeto anaclítico provoca depressão neurótica.

ANDRÉ GREEN- medo de invasão e de abandono.  


ARMONY- função materna mal exercida. Em que época? Aqui uma hipótese: na fase de individuação-separação postulado por Margaret Mahler a pessoa materna não teria podido responder adequadamente às demandas do bebê que ora necessitava de dependência-proteção ora de liberdade-separação. Este bebê que preferirei a partir de agora chamar de ser humano não ganha uma tranqüilidade quanto a ser compreendido e amado. Um núcleo de intranqüilidade se instala nele. Ele continua necessitando preencher a lacuna que ficou, procurando para isso uma figura maternal, mas desconfia que esta figura maternal não o compreenderá e o atenderá. Fica então muito susceptível a qualquer sinal de não ser compreendido. O que pode ainda tornar o quadro mais complicado é ele ter medo ao mesmo tempo de intimidade e de distância. Paradoxalmente necessita dos dois ao mesmo tempo. É preciso muita disponibilidade e sensibilidade da figura materna para poder aos poucos dissipar em parte as dúvidas de que ele atendido em suas necessidades. A inquietude pode se manifestar por uma excitação hipomaníaca, por ansiedade e por agressividade. Há fases também de recolhimento. Como ele não sabe a quem dirigir sua insatisfação e seu ódio eles se manifestam nas mais diversas situações. O borderline fica porosamente ligado à figura materna. É possível redirecionar essa porosidade para objetos da cultura e/ou para a natureza e a beleza. Sua porosidade quando bem direcionada permite acompanhar o movimento das pessoas e da cultura. Surfar nas ondas da vida.

A POROSIDADE é uma das proposições teóricas relativas ao borderline. Ela pode se manifestar como identificação projetiva quando em estado bruto, ou, quando trabalhada, como capacidade de identificação homóloga e complementar. Quanto mais forte forem a repressão e o recalque, quanto mais sólida for a identificação com a figura ou função paterna menos porosidade existirá. As identificações poderosas e as repressões e recalques associados ao temor do “chefe da horda” entopem os canais da sensibilidade, tornando a pessoa muito objetiva por um lado, mas por outro dificultando a empatia, a capacidade de identificação transicional (dual-porosa), a experiência de compaixão, etc.

Outra proposição teórica é a ONIPOTÊNCIA MITIGADA. Dar a explicação que está no meu artigo “Do Borderline ao Homem Transicional”.

Outra proposição teórica é o uso aumentado do PROCESSO DE DIVISÃO e, portanto um uso diminuído do recalque. Quando não estão em estado de recalque os vários desejos e projetos ficam ao alcance da consciência. Como sempre existe incompatibilidade entre eles é preciso realizar uma compartimentação para evitar a instalação de uma confusão mental. Numa mesma conversa o borderline dirá que fará três coisas diferentes e incompatíveis e não ligará para a contradição. A contradição passa a ser um paradoxo.   


PERSPECTIVA SÓCIO-PSICANALÍTICA

Freud não tem em sua obra a categoria de caso-limite. Não há nenhuma menção ao borderline em sua obra, embora, segundo André Green, o “Homem dos Lobos” seja considerado por muitos psicanalistas como borderline. O universo patológico de Freud se divide entre Neurose, Psicose e Perversão. Lacan retomou com força esta classificação e afirmou que estas três diferentes estruturas não são modificáveis. Uma vez neurótico, psicótico ou perverso, para sempre o será. O recalque (verdrängung) seria o processo psíquico básico do neurótico; a rejeição (verwergung) do psicótico; e a recusa do perverso.

A PALAVRA NEUROSE apareceu na literatura por volta de 1790 trazida por William Culen para designar quadros sintomáticos sem base orgânica. Freud a retomou em 1893 e a desenvolveu. A sintomatologia da neurose dependia do “retorno do reprimido(“recalque”), e esta repressão/recalque tinha a ver com proibições em relação a objetos e acontecimentos desejados. Estas seriam as neuroses de defesa de origem psíquica. Freud admitia um outro tipo de neurose que chamou de “neuroses atuais”, esta de origem fisiológica. 

O TERMO PSICOSE apareceu na literatura em 1845, trazido por Ernst Von Feuchtersliben. Em 1894 Freud fala de uma psicose em referência a “confusão alucinatória”; neste caso o afeto seria juntamente com a representação tratados como se nunca tivessem existido. Lacan chama a esse processo de defesa de forclusão. Mais tarde, em 1911, Freud analisou através do livro “Memórias de um doente dos nervos”, publicado em 1903, a psicose paranóide de  Schreber, o autor do livro. Para essa análise usou de conceitos psicanalíticos, incluindo definitivamente a psicose na Teoria psicanalítica.

PERVERSÃO, um termo de uso comum é empregado por Freud como conceito para dar conta de relações parciais de objeto e de todos os comportamentos sexuais que não tenham como objetivo a penetração do pênis do homem na vagina da mulher com a intenção de chegar ao orgasmo, obedecendo ao mandato genético da conservação da espécie. Freud nomeia a criança com perversa polimorfa, pois ela ainda não teria canalizado a sexualidade para o pênis que deverá vir a ser o principal órgão sexual. Em janeiro de 1897 Freud já usa a palavra perversão em uma carta para Fliess. Nos Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade Freud discorre minuciosamente sobre os muitos atos perversos possíveis. Lá já está colocada a idéia de que a criança é uma “perversa polimorfa” o que virá a ser explicitado por volta de 1916 na 13ª conferência da “Introdução à Psicanálise”. Pretendo estabelecer um elo (frágil) entre borderline e perversão e por essa razão quero acentuar que toda perversão está ligada a alguma atividade sexual, enquanto que borderline é mais inclusivo abrangendo o psiquismo total. Também será preciso estudar o artigo “A cisão do ego no processo de defesa” pois lá Freud apresenta uma dinâmica que também compõe o modo de ser borderline.

Nos primeiros tempos da psicanálise os psicanalistas que seguiam estritamente os conceitos freudianos trabalhavam teoricamente com essas três estruturas. Com a releitura de Lacan da obra de Freud reforçou-se esta tendência entre os mais ortodoxos. Mas sempre houve pessoas que se permitiam um pensamento mais livre. Através dessas pessoas uma nova categoria foi-se insinuando na teoria psicanalítica: o borderline que acabou por ser aceito como parte da psicanálise. Pode-se dizer que até mesmo algumas escolas lacanianas passaram a tolerar a menção a borderline especialmente pela releitura que Jacques Alan Miller fez do que é chamado O Último Lacan, questionando o absolutismo das estruturas neurótica e psicótica e afirmando uma continuidade entre estas duas estruturas, o que permite a introdução da modalidade borderline e casos-limite. Vejamos um pouco da história do borderline.    

BORDERLINE: aparentemente este termo foi introduzido na literatura médica por C.Hugues em 1884 na forma de borderland e se referia a pessoas “passavam quase toda sua vida próximos àquela linha, às vezes de um lado, às vezes do outro”.

Em 1925 Wilhelm Reich usa a palavra borderline para pessoas que apresentam ambivalência, predomínio da agressividade sobre a amorosidade, prejuízo do ego e do superego, narcisimo acentuado.

Já próximo à década de 1940 aumenta o cerco que o  borderline faz à psicanálise até então fechada para ele.  Stern em 1938 fala da imprecisão e incerteza que o chamado por ele “neurótico borderline” desperta, pois ele aponta ao mesmo tempo em duas direções: para a psicose e a neurose. Esta é uma formulação que pode ser chamada de psiquiátrica. Em outro momento ele pensa como psicanalista ao dizer que o borderline resulta da deficiente afeição materna sofrendo um severo dano narcísico, etc. (p.11).

Deutsh em 1942 fala de “personalidade como se” que é uma modalidade de borderline.

Quem enuncia firmemente o termo borderline de uma maneira clara é Knight em 1954. Ele o faz dizendo da “difícil decisão” quanto a sua classificação, pois é e não é ao mesmo tempo neurótico e psicótico, que o leva a classificá-lo como borderline.

Outros analistas da década de 1950 já distinguem o borderline do psicótico e do neurótico. Foi uma   década muito fértil no estudo do borderline e lançou as bases deste modo de ser, fenomenologicamente e dinamicamente. E é justamente em meados do século XX que ganha força um novo paradigma, o paradigma da permissividade. Não é coincidência que o borderline tanto na sua modalidade “normal” quanto patológica tenha avultado nesse período. Logo falarei dos 3 paradigmas que, neste 3º tópico sócio-psicanalítico  iremos percorrer e que são: paradigma repressivo, paradigma permissivo e paradigma em formação. Mas sinto que, antes, é necessário fazer algumas discriminações.


NEURÓTICO, PSICÓTICO, BORDERLINE

O neurótico tem como principal defesa o recalque. Esta defesa que é, ao mesmo tempo, estruturante de sua personalidade permite-lhe uma visão mais objetiva da realidade, pois impede que seu julgamento e suas ações/reações sejam perturbados por suas fantasias e fragilidades psíquicas, evitando o uso de projeções e introjeções que distorceriam a realidade objetiva. Exemplificando: se imaginarmos o neurótico numa platéia assistindo a uma conferência, ele a ouvirá sem permitir que suas fragilidades e suas associações pré-conscientes e inconscientes desviem a sua atenção ou façam-no agir intempestiva e inadequadamente. Ele percebe o que é um conferencista, uma conferência, uma platéia, um indivíduo na platéia. Ele percebe o contexto, pois tem a atividade simbólica bem desenvolvida e evita contaminar seu conhecimento com seus problemas. Suas intervenções serão adequadas ao contexto.

O psicótico vive em um mundo de fantasia criado por ele próprio. Pode se isolar do mundo, não sendo então atingido pelos acontecimentos externos ou pode se conectar com o mundo. Mas isso ele fará através de identificações projetivas e introjetivas, o que significa que estará vivendo o seu mundo interno delirantemente exteriorizado. Talvez fosse melhor dizer que não há uma separação entre mundo interno e mundo externo. O mundo está impregnado por suas fantasias, é visto através da ótica de suas fantasias. Numa conferência ele reagiria de acordo com as fantasias suscitadas pela fala do conferencista, sem perceber sua inadequação podendo então reagir de forma dramática e extemporânea. Certamente será retirado do recinto com grandes probabilidades de vir a ser internado numa instituição psiquiátrica.

O borderline diante de um forte estímulo do conferencista sabe que, naquele contexto hierárquico (simbólico) não é adequado interferir, mas a necessidade de descarregar ou participar é tão forte que ele acaba intervindo. Ele sabe que é inadequado intervir, mas não se contém. Ele está ligado à objetividade consensual, mas não consegue deixar de transgredi-la. Porém, se o fizer com charme e inteligência – o que é freqüente entre os borderlines inteligentes conseguirá conquistar o público para aquilo que poderia ser fora de propósito, não fosse sua capacidade de sedução. Ele junta duas realidades: a de seus desejos idiossincrásicos e a realidade simbólica compartilhada pelo social.

Outra situação: na terapia analítica a objetividade ( ou sua tentativa) do neurótico dificulta ou impede o aparecimento e a percepção dos sentimentos transferenciais. Para ele o analista é um especialista, um expert, um detetive da alma que diante dos sintomas procurará suas origens fazendo uma aliança terapêutica, uma aliança investigativa com o analisando. Os dois, em conjunto, têm a tarefa detetivesca de achar as causas dos sintomas. Trata-se de uma relação de tarefa em que entraria mais a perspicácia que a sensibilidade. No decorrer da terapia a sensibilidade vai ocupando o lugar da perspicácia. Sinal de que o neurótico tornou-se mais poroso, mais sutilmente perceptivo em relação à sua própria subjetividade e à subjetividade do outro e está evoluindo no tratamento na dimensão borderline.

O psicótico faz projeções e introjeções de seu analista de acordo com seus temores, inclinação, fantasias. O analista não é um analista, mas um demiurgo onipotente e onisciente que tudo pode tanto para o bem quanto para o mal. Nas áreas psicóticas nem mesmo se pode falar de porosidade, mas sim de uma ausência de limites o que faz com que o mundo interno e externo se emaranhem tornando-se uma coisa só. O analista ora aparece como a fada benfazeja, ora como um implacável destruidor. Não há a vivência de uma hierarquia, de um contexto; os títulos do analista em nada interessam ao psicótico, assim como a vida pessoal do analista. O analista é uma figura de seus sonhos e pesadelos.

   O neurótico busca a objetividade absoluta. Para atingi-la ele teria – seguindo sua organização epistemológica – de recalcar suas fantasias, seus sentimentos e emoções, pois o aparecimento deles na consciência perturbaria a pureza do raciocínio.   Esta pureza seria mais facilmente alcançada pela adesão à palavra abstrata, aquela que é símbolo de 2º grau, isto é, aquela que representa, que substitui o acontecimento vivo. Esta noção será mais facilmente compreendida se nos reportarmos ao mundo inteligível de Platão, onde se encontraria a Verdade, em contraposição ao mundo sensível que seria um mundo ilusório e enganador.

Para o psicótico a objetividade (o espaço objetivo de Winnicott) é inalcançável, pois ele mistura aquilo que seria mundo interno com o mundo externo. Isto significa que para ele existe um só mundo, o seu mundo de sentimentos e fantasias projetados nas coisas exteriores que por sua vez são introjetadas sob a perspectiva de seus sentimentos e fantasias. Vive mergulhado no mundo sensível transformando as palavras em coisas da ordem da concretude.

O borderline está ao mesmo tempo conectado com a objetividade consensual e com sua própria subjetividade. Como o psicótico, está conectado com suas fantasias mais primitivas, cuidando porém de que elas não impeçam a sua atividade de percepção objetiva. Remeto aqui ao conceito winnicottiano de objeto objetivamente percebido e de objeto subjetivamente concebido. Enquanto o neurótico tenta viver no campo do objeto objetivamente percebido, o psicótico vive no subjetivamente concebido e o borderline vive a ambigüidade e o paradoxo destes dois espaços. Podemos dizer que o borderline tem um pé na objetividade e outro na fantasia o que o aproxima da concepção freudiana de perversão, no que diz respeito justamente à ambiguidade desta dupla inserção.

Porosidade- neurótico com fronteiras pouco porosas, borderline com fronteiras porosas, e psicótico sem fronteiras com confusão eu/não-eu. A porosidade favorece a introspecção.

Onipotência- neurótico recalca a onipotência e chega à potência. Psicótico vive na onipotência. Borderline alterna onipotência mitigada e impotência.

Ótica neurótica: dever e obediência acima de tudo, valorização da palavra representacional (símbolos de 2ª ordem), respeito à lei e às convenções.

Ótica borderline: criatividade, multiplicidade, valorização da palavra expressiva (símbolos de 1ª  ordem), predomínio da singularidade, relativização e uma certa indiferença em relação às leis e regras, acesso ao seu inconsciente e ao inconsciente alheio.  

A GRADAÇÃO BORDERLINE

GRINKER - Grinker[1] fala de quatro níveis de borderline: Grupo 1- O borderline psicótico – comportamento inapropriado e não adaptado. Deficiente senso de identidade e de realidade. Comportamento negativo e raivoso em relação às pessoas. Depressão.  Grupo 2- O borderline nuclear – Envolvimento flutuante com outros. Expressões abertas e atuadas de raiva. Depressão. Ausência de indicações de um self consistente. Grupo 3 – Personalidades ‘como se’ – comportamento adaptado e apropriado. Relações complementares. Pouca espontaneidade e afeto em resposta a situações. Defesas: afastamento e intelectualização. Grupo 4- O borderline neurótico – Depressão anaclítica (semelhante à da infância). Ansiedade. Semelhança com caráter narcisista neurótico. Influenciado por essa sistematização agrupei esse conjunto humano em borderline pesado (patológico), borderline falso-self e borderline brando (próximo da normalidade.

Exemplo de borderline pesado: Pedro é um jovem adulto da classe média, casa dos 20, mora com os pais, não trabalha e acabou de abandonar a Faculdade.

        A sua sintomatologia é múltipla e variada o que é uma característica do borderline; Vejamos: conversão  (paresia - semi-paralisia - da mão direita). Crises de grande ansiedade. Crises de grande depressão. Diarréias súbitas (somatização). Tinha medo de sair à rua e quando o fazia sentia-se superior aos transeuntes e temia ser atacado por eles. (Fobia; sentimentos paranóides; sentimentos de desvalia). Sentia-se olhado pelos passageiros da barca que o estariam criticando por não trabalhar. Sentimentos de rejeição em relação aos pais. Ia muito a festas onde participava de desordens. Em uma delas, por exemplo, foi expulso juntamente com outro rapaz por estarem se excedendo, derramando bebidas no chão, jogando pratos fora e beijando-se publicamente (conduta psicopática) Pedro mesmo fora de festas embriagava-se. Também fumava maconha. Certa ocasião, em uma bacanal, levou uma moça para um quarto onde ela se recusou a ter relações sexuais; esbofeteou-a, urinou sobre ela e chamou amigos para que juntos a currassem (conduta perversa). Participa de arruaças. Tem predominantemente relações heterossexuais mas já teve atividades homossexuais.  Muda de itinerário por medo de encontrar um guarda que o leve à prisão. Isto é mais forte quando está “levando uma mulher” para um motel. O percurso é feito com enorme ansiedade, com medo de ser interpelado por um guarda.

Exemplo de borderline leve: Paula- vive um estado constante de alegre excitação interrompido por períodos de exaustão quando descansa e dorme, o que a recupera. Seu estado de agitação é usado produtivamente no trabalho e na diversão. Está disponível para relações dual-porosas envolvendo-se intensamente com os acontecimentos externos, com histórias ficcionais, com as vitórias, fracassos, prazeres e dores de seus amigos que são muitos, de vários graus. Com isso vive grandes alegrias e grandes sofrimentos de uma maneira quase tão intensa quanto vive suas próprias derrotas, triunfos e frustrações. Diante de situações inusitadas e chocantes fica paralisada, sem reação, sem conseguir articular pensamentos e, embora raramente, com distúrbios de identidade (certa vez esqueceu o próprio nome numa situação altamente estressante). É uma pessoa bondosa, sem ressentimentos. Sempre que pode ajuda quem está à sua volta mesmo que tenha de se sacrificar pessoalmente. Mas isto tem um limite, pois seu instinto de sobrevivência é poderoso sendo capaz de fortes atos defensivos/agressivos. Muito susceptível facilmente sente-se atacada e ridicularizada; quando não se paralisa descarrega (desde que haja segurança) sua raiva no momento da situação ou, mais freqüentemente após, em ambiente protegido. Em pouco tempo recupera-se das feridas narcísicas restabelecendo relações dual-porosas. Faz também relações de amor/ódio com objetos inanimados. Exp.: Seu carro, individualizado e humanizado por um nome próprio, e amado como se fosse um ser humano, certa vez enguiçou em um momento em que dele precisava para resolver questões urgentes. Ela o tratou como um amigo que a tivesse traído, socando-o, chorando e gritando a pergunta “por que você está fazendo isto comigo? Eu não mereço isto.” Após descarregar os sentimentos gerados pela sensação de decepção pôde tomar as providências objetivas que a situação requeria. É impulsiva o que a faz agir com alguma freqüência, de forma inadequada, mas é capaz de imediatamente corrigir a conseqüência de sua impulsividade restabelecendo uma boa relação com a realidade. Por outro lado a impulsividade leva-a a querer rapidamente resolver os problemas que aparecem o que faz dela uma pessoa dinâmica e eficiente, mais acertando que errando pois está sempre disposta a corrigir seus deslizes. Quando em situações de grande desejo ou sentidas como de grande perigo, tem diminuída sua capacidade de usar o pensamento objetivo.  Um bom exemplo desta perturbação de sua relação com a realidade objetiva aconteceu em um vôo em zona de turbulência. Ela, aparentemente calma e controlada, e como se fosse a coisa mais natural do mundo, chamou a comissária de bordo e muito seriamente pediu para falar com o piloto, pois queria orientá-lo no sentido de evitar a zona de turbulência. Passado o perigo ela se deu conta do bizarro de seu ato, e pôde divertir-se com ele. Embora o desejo, o medo e fortes convicções façam com que as idéias subjetivamente concebidas imperem por períodos variáveis de tempo, elas acabam se integrando numa visão objetivamente percebida. Com isso o seu trabalho é ousado, imaginativo, original, fecundo, estimulante e bem-sucedido. Um trabalho que de início pode facilmente ser criticado e mesmo ridicularizado, mas que acaba por se impor por sua eficiência pragmática. É um trabalho amoroso que leva em consideração os aspectos subjetivos do humano. Um trabalho claramente realizado em um espaço potencial e que acabou por lhe valer um reconhecimento expresso em prestígio, homenagens e convites para trabalhos de excelência. Sofre bastante com as somatizações e frustrações decorrentes de suas relações pessoais e profissionais. Uma de suas muitas alegrias é ser muito solicitada como profissional e como amiga.

O borderline brando tende mais à multiplicidade do que ao polissintomático, o que significa que ele não inibe os vários aspectos de sua personalidade em favor de um único aspecto, mantendo as suas várias potencialidades disponíveis para serem usadas. No que diz respeito à sensibilidade/susceptibilidade narcísica ela apresenta-se menos como uma ferida e mais como um instrumento de conhecimento do outro; a permeabilidade das fronteiras do eu, que poderia torná-lo vulnerável às afetações do outro mantém-se como sensibilidade que permite conhecer o outro, propiciando o desenvolvimento de afetos e sentimentos pertinentes à relação em curso. Assim, ao invés de um fechamento nas próprias fantasias, há uma abertura para o conhecimento das fantasias do outro. A permeabilidade das fronteiras, que no borderline pesado pode ser usada contra o outro ou pode dar lugar a um excesso de identificação projetiva e introjetiva, no borderline brando muda de qualidade, transformando-se em identificação dual-porosa, uma identificação que permite um regime de trocas fantasmáticas e afetivas contínuas entre os seres humanos entre si e com o mundo circundante. A porosidade tanto funciona em relação ao mundo externo (a um outro humano, sim, mas também em relação à cultura, à natureza, ao planeta), quanto ao mundo interno, isto é, na percepção do próprio inconsciente. Em se tratando do borderline brando, as trocas fantasmáticas e afetivas ocorrem em um espaço potencial ou a ele equivalente, o que significa que ao objeto subjetivo superpõe-se o mesmo objeto objetivamente percebido. A identificação dual-porosa mostra-se um precioso instrumento de conhecimento, relação e comunicação, permitindo surfar nas ondas do devir, possibilitando ao borderline deslizar e se enlear nas sutis e infindas variações de um mundo em constante mutação. A tendência à dependência do borderline pesado, traduz-se no borderline brando pelo reconhecimento da necessidade afetiva de um outro também dual-poroso, de tal maneira que um regime de trocas, onde vigore tanto o subjetivo quanto o objetivamente percebido, possa ser estabelecido.

O estado de identificação em devir encontrado no borderline brando (o homem pós-moderno) entrelaça-o à subjetividade contemporânea como sujeito criativo e transformador.

Feitas estas discriminações podemos nos dedicar à questão sócio-psicanalítica através dos três paradigmas que arranquei da história social na qual a história da psicanálise está inserida. Começarei pelo século 19, período vitoriano que caracterizarei como um período repressivo, embora não ignore a contribuição de Foucault que acentua o aspecto da proliferação dos discursos sobre a sexualidade. Mas, ele também fala de uma sociedade disciplinar, e, em minha opinião, quando se fala de disciplina está-se falando de repressão. Para mim, não há dúvida de que a repressão é um aspecto importante do período vitoriano, especialmente para a psicanálise. Tão importante que escolho falar deste período que é justamente quando se dá a formação de Freud e a construção de suas primeiras teorias. Aos poucos a subjetividade humana vai sendo invadida pelo paradigma permissivo que por sua vez vai cedendo seu lugar a um novo paradigma que não me atrevo a nomear, pois ainda está em formação. Um paradigma não substitui outro, mas sim, convivem lado a lado, enquanto um vai sendo esquecido e o outro vai se fortalecendo na medida em que as gerações se sucedem. Pode-se também perceber uma interpenetração de paradigmas o que nos leva ao processo de evolução das idéias de Hegel, com sua tríade, tese-antítese-sintese.

GRADAÇÃO DO NEURÓTICO NORMAL AO NEURÓTICO PATOLÓGICO    

PARADIGMA REPRESSIVO

A mentalidade vitoriana domina a 2ª metade do século XIX. Na verdade sua influência estende-se até o século XX embora já partilhando com outros paradigmas o espaço social. Mesmo, hoje, em 2012, segunda década do século XXI, nos ainda o vemos em ação. A Rainha Vitória reinou de 1837 a 1901. Neste período a Inglaterra conheceu um período de crescimento econômico e de expansão de seu poder e influência no mundo. Os valores éticos da sociedade britânica estenderam-se por todo o mundo ocidental civilizado. Freud cresceu dentro desta mentalidade, destes valores éticos, dentro dos conceitos e preconceitos vitorianos. Rigidez, moralismo, intolerância, restrições e preconceitos sexuais, rígido código social de conduta pública são características da mentalidade vitoriana. Tal comportamento era obtido mediante a repressão social. Várias figuras de relevo denunciaram essa mentalidade como responsável pelo sofrimento psíquico das pessoas. Freud em 1908 escreveu o artigo “A moral civilizada e a doença nervosa moderna”. Neste artigo ele aponta a repressão sexual como responsável pelo sofrimento neurótico. O desejo recalcado ao tentar se realizar encontrava a barreira das regras morais que impedia sua realização direta, mas não impedia que esse desejo aparecesse na consciência e na ação como sintoma. Foi o que denominou de volta do reprimido. Sintomas obsessivos, fóbicos, conversivos. Freud atribuía à repressão e recalque da sexualidade a origem dos males psíquicos. Talvez se possa dizer que a repressão sexual era o mais evidente na moralidade vitoriana, tentando reger a vida sexual das pessoas e fazendo surgir a hipocrisia social, a dupla moral e as neuroses psicogênicas. Por que a sexualidade? Dois instintos básicos e de uma extrema força movem a humanidade. O instinto de sobrevivência e o instinto sexual. A sobrevivência de uma certa forma estava garantida para uma classe que podemos chamar de privilegiada mas o instinto sexual que é uma poderosa força básica ao ser impedida de se manifestar passou a ocupar o primeiro plano das preocupações humanas. A repressão sexual de tal forma dominava a cena social que as outras repressões ficaram na obscuridade.

REPRESSÃO DA PALAVRA - Até a época cientificista a palavra tinha uma imprecisão que permitia usá-la POETICAMENTE, PARADOXALMENTE, METAFORICAMENTE. A palavra estava integrada no conjunto corpopsiquemente. Havia então uma liberdade no seu uso e ela podia ser ouvida em sua polissemia permitindo ao ouvinte dar uma interpretação singular acorde à sua subjetividade. A denotação era uma parte mínima da palavra, cercada que estava por todos os lados pela conotação, permitindo seu amplo uso, uma grande liberdade de interpretação. Com a ciência aboliu-se a conotação. A palavra tinha de ser precisa e designar exata e conceitualmente o objeto, não permitindo nenhum devaneio. A palavra passou a ser um produto da mente dissociada do corpopsique. Acabava-se com a poesia e a diversidade da fala. Passou a haver a preocupação de se dizer a palavra precisa, exata, o que TRUNCAVA o discurso tornando-o esquemático e desinteressante. A palavra perdeu o seu encanto, sua liberdade, seu potencial poético. Todos deveriam entender as coisas exatamente da mesma maneira. Isto é que era ser científico. A riqueza da diversidade humana se perdia. Aquilo que na física clássica era útil, necessário, eficiente, tornou-se uma camisa de força para a manifestação da complexidade, diversidade e sutileza da alma humana. Eliminava-se parte do mundo, simplificando-o através da ciência. Tudo poderia ser explicado por cálculo. Mas para isso a palavra tinha de ser rigorosamente exata, rigorosamente intelectual, rigorosamente mental reprimindo-se o psiquecorpo e conseqüentemente as conotações da palavra. E a poesia perdida nos faz falta. Ela está ligada ao encantamento do mundo, ao afeto, ao sentimento oceânico, à criatividade, condições necessárias para um viver integrado e saudável, onde corpo e mente formam uma unidade.

REPRESSÃO DOS ASPECTOS FEMININOS DO SER HUMANO:  Numa sociedade machista, patriarcal, a mente é valorizada em detrimento do corpopsique. A objetividade, o intelecto, o poder, a riqueza material ficam em um patamar muito superior à sensibilidade, empatia, compaixão, amor. O corpopsique é ignorado, negado, colocado em segundo plano. As características femininas são vistas como fraquezas, necessárias sim, mas que devem ficar confinadas ao lar. E mesmo aí elas são desvalorizadas, servindo para realçar a força da racionalidade (isenta de sentimentos) do homem. Há uma clara dicotomia. Homem é homem, mulher é mulher. À mulher, de constituição inferior, se permitem fraquezas que vêm de seu sentimentalismo, de seu exercício da empatia, identificação, compaixão, espírito de conciliação. Já o homem não pode ter fraquezas. Tem de ser duro, não se deixar atrapalhar pelos sentimentos para poder enxergar a realidade crua, a realidade egoísta que então lhe permite oprimir, castigar, dominar os seus oponentes garantindo o sustento e quiçá o luxo de sua família. Os sentimentos reprimidos, no entanto reapareciam na forma de sintomas neuróticos, enquanto que nas mulheres a sua desvalorização e o seu confinamento provocavam distúrbios dos quais o mais freqüente era a histeria. O rapaz para poder sobreviver nesta sociedade rígida tinha de recalcar todas as suas potencialidades só permitindo o afloramento de uma delas. Com isso sua vida tinha um caráter retilíneo com um único objetivo em vista que para ser alcançado deveria sacrificar as suas outras potencialidades. Os desejos múltiplos infantis tinham de ser duramente reprimidos para que um único objetivo prevalecesse. Desta forma seu ego tornava-se inteiriço, unitário, determinado, não se desviando do caminho traçado. A dupla moral vitoriana permitia-lhe manter a unidade do ego, pois lhe dava a oportunidade de evadir-se em noitadas clandestinas que eram dissociadas da vida correta e civilizada o que em parte aliviava seu mal-estar. Assim como o ego tinha contornos nitidamente delimitados também os quadros neuróticos o tinham recebendo nomes específicos de acordo com seus sintomas e psicopatologia: neurose obsessiva, fóbica, neurose de ansiedade, neurose conversiva. O corpo manifestamente sofria com a ansiedade e com a conversão. Aparentemente não havia sofrimento corporal quando certas condições se cumpriam na neurose obsessiva e fóbica.

DICOTOMIZAÇÃO DA UNIDADE CORPO-MENTE: No paradigma repressivo predominam as relações dominador-dominado. Quem governa é a mente e o corpo obedece. Isto se repete no relacionamento professor/aluno, marido/esposa, médico/paciente, patrão/empregado, pai/filho, etc. A mente que deveria estar integrada ao corpo, exercendo seu papel de mediadora entre o corpo/afeto e realidade, e entre o corpo e o psíquico deixa de ter esta função e passa a exercer uma tirania sobre o corpo/afeto. Ela obriga o corpoafeto a ultrapassar limites até a exaustão, não dando importância aos sinais de desequilíbrio enviados pelo soma. Assim como a mente tiraniza o corpo, desconsiderando-o, as pessoas se tornam dominadoras desconsiderando os sentimentos e a humanidade da outra. Na luta pelo poder só a mente funciona; o psíquico (as emoções e sentimentos corporais) desaparece para que a impiedade, a crueldade, a implacabilidade possam funcionar livre de freios.

A REPRESSÃO NA RELAÇÃO CUIDADOR-CUIDADO – a rígida hierarquia própria do paradigma cartesiano impede a colaboração do paciente na condução de sua trajetória curativa. O cuidador não ouve as informações daquele que está sendo cuidado e autoritariamente dita normas a serem seguidas. A não participação do que está sendo cuidado dificulta a conduta terapêutica, pois o estado de submissão, diante de uma instância autoritária, inferioriza, inibe e dificulta ou impede a indispensável informação e colaboração do dominado. 

A REPRESSÃO NA RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE -- O médico possuído pelo paradigma dicotômico tratará o órgão doente sem se importar com a pessoa que porta este órgão. E com isto ele estará dando uma assistência incompleta, pois não levará em consideração a unidade psique/corpo nem a importância da mente que participa desta unidade. Ex. do CTI. Ex. das pessoas em coma. Importância do toque, do carinho, da atenção.

A REPRESSÃO NA RELAÇÃO MÃE-FILHO – Uma mãe que saiba dar carinho e estímulo, mas que não cuide do corpo do bebê estará passando a mensagem de que o corpo não é importante. A criança ao se tornar adulto tenderá a negligenciá-lo recusando-se, por exemplo, a fazer check-up, a ir ao médico para prevenção e tratamento. Também ignorará os sinais que o corpo envia quando começa a adoecer ou quando começa a ultrapassar sua capacidade de trabalho. A má alimentação é também uma negligência com o corpo assim como a obesidade. Evidentemente não só a negligência entra em pauta; há outros fatores dinâmicos influenciando os transtornos corporais.

A mãe que cuida só do corpo de seu bebê (dando-lhe comida na hora certa, mantendo-a limpa e seca, seguindo os preceitos higiênicos) estará prejudicando-a se não a tratar com carinho, se não perceber e/ou não responder às suas demandas afetivas, se não se identificar com ela para atender às suas necessidades que são ao mesmo tempo físicas e psicológicas. Ela a deixará em estado de carência afetiva que repercutirá em sua vida futura.


Uma mãe que favoreça o desenvolvimento da mente do bebê e da criança em detrimento do corpo/afeto facilitará o aparecimento de um adulto intelectualizado que dará pouca ou nenhuma importância à rica e variada vida de sentimentos. São pessoas frias, sem sensibilidade para a vida subjetiva, capazes de impiedade. Têm uma mente matemática, apta a exercer maquinações implacáveis, infensa a sentimentos de simpatia e compaixão. São capazes de tramar intelectualmente sua ascensão pessoal e profissional sem a menor consideração pelos outros que só lhes servem como degraus de uma escada a ser percorrida até o topo. Teremos um ser humano perfeitamente adaptado à feroz luta competitiva do capitalismo. Esta luta feroz é artisticamente alegorizada por Costa-Gavras em seu filme “O corte” (“Le couperet”) lançado em 2005 onde o protagonista, um homem perfeitamente “normal” segundo os critérios sociais, grande especialista em sua área, mata 3 ou 4 outros especialistas da mesma área para não ter concorrentes na busca de emprego.

Uma mãe consciente ou inconscientemente preconceituosa, reprimida e repressiva, ao mexer na zona genital (durante o banho ou a troca de fralda) o faz com dificuldade, com reserva, com desgosto, com aflição, às vezes com nojo, transmitindo ao bebê o sentimento de aquela parte é diferente das outras do corpo levando à dissociação da zona genital que é como se não existisse ou existisse de uma maneira autônoma ou como se fosse uma parte demoníaca.

Quando a mãe está ausente por um tempo demasiado, (o que pode acontecer mesmo estando fisicamente presente) a mente do bebê, tentando entender o que está acontecendo, sofre um desenvolvimento exagerado dissociando-se do corpo. A mente excessivamente desenvolvida dissocia-se do corpopsique com as conseqüências que já vimos acima.

Para que haja uma integração corpopsiquemente é preciso firmeza na sustentação (holding), cuidado psíquico e corporal. O toque amoroso é fundamental para a vida.

Uma mãe que apresenta firmeza na sustentação (holding) cuidado físico e corporal, e que mexa no corpo da criança sem vergonhas e preconceitos será certamente uma mãe bem integrada e que transmitirá esta integração para o filho dando-lhe a oportunidade de manter sua integração mesmo num ambiente adverso.

A família patriarcal prototípica do período vitoriano era composta por uma mãe suficientemente boa e por um pai que impunha, a qualquer custo, com a aquiescência da mãe, as leis da casa; isso incluía a ação de castração na época apropriada. A mãe através da relação fusional e da mutualidade propiciava ao filho o desenvolvimento da capacidade de empatia, de identificação, da sensibilidade sutil, do sentimento de compaixão. Estas características eram consideradas, na sociedade moderna vitoriana, “coisas de mulher”, enfraquecedoras de crianças do sexo masculino que então deveriam livrar-se desta subjetividade. Os meninos deveriam recalcá-la para tornarem-se fortes, duros, impiedosos: uma masculinidade bem desenvolvida lhes permitiria vencer a dura luta pela sobrevivência, alcançando um padrão de vida consoante o seu grupo social. Para conseguir este resultado o Pai (ou a função pai) proibia duramente o acesso à mãe; ele exercia a função de castração da qual resultava uma interdição do feminino. O resultado era o provável desenvolvimento de um neurótico normal desde que a mãe fosse suficientemente boa e o pai castrador suficientemente bom; refiro-me a uma mãe suficientemente disponível, sensível e responsiva às modificações da subjetividade do filho e a um pai suficientemente presente, justo, protetor, respeitador da lei, qualidades que fariam dele uma boa figura de identificação. Esta seria a situação ideal.

Na mentalidade vitoriana repressiva as regras eram estritas e aquele que as seguia era valorizado e recompensado. A sexualidade, o feminino, os sentimentos de fraqueza, dor, tristeza, a espontaneidade, a empatia e a capacidade de identificação eram desvalorizados, reprimidos e recalcados. 

A educação era repressiva. Na escola valorizava-se a disciplina, o dever, o bom comportamento. A criança era cumpridora de obrigações e entre estas, a de decorar as matérias escolares.

        As empresas procuravam funcionários “certinhos”, disciplinados, cumpridores de deveres, assíduos, burocráticos, dedicados à firma e lhes oferecia segurança e aposentadoria.

        Neste cenário vicejam as formas neuróticas de viver. O homem vitoriano ideal era educado, formal, correto, disciplinado, cumpridor de suas obrigações, honesto, íntegro, retilíneo em sua trajetória de vida, confiável, honrado. Um cavalheiro, um gentleman. Ordem, dever, organização, controle, disciplina eram os preceitos a serem seguidos. Dedicava sua vida à tarefa de crescer lenta e seguramente dentro da atividade e/ou empresa escolhida. Para isso usava o processo de repressão que impedia que desejos e fantasias desviassem a pessoa em atividade neurótica de seus objetivos. O filme “Caráter” retrata bem este aspecto. O jovem bastardo na sua determinação de conseguir “subir na vida” reprime seus afetos assim como seu pai e sua mãe seguindo as regras estritas da sociedade, reprimem seus afetos. Uma repressão suficientemente boa deixa seus rastros na forma de sintomas e comportamentos desviante que trazem pouco transtorno. Uma repressão não suficientemente boa provoca o aparecimento de sintomas e comportamentos perturbadores. Dependendo da predominância e da força dos sintomas temos as neuroses: obsessivas, fóbicas, conversivas, as histerias de angústia.

        A subjetividade neurótica, conveniente à modernidade, pede um comportamento obediente, rígido e regido pelas regras da hierarquia. Seu pensamento é dicotômico. Há os que mandam e os que obedecem sem questionamentos. Numa relação analítica o analisando é um objeto esquadrinhado por um cientista neutro, possuidor de um conhecimento inconteste de seu inconsciente. O analisando é meramente um mortal enquanto o analista habita o Olimpo dos deuses. Uma análise que não rompa esta dinâmica dicotômica tem como destino fazer do analisando uma cópia do analista, tornando-o também portador de uma verdade incontestável que todos deverão aceitar. Como veremos adiante, a psicanálise na hipermodernidade realiza-se não em um regime dicotômico, mas em um registro unitário, onde dois seres humanos se encontram para aumentar a potência de vida. Importante expor aqui uma diferença entre dicotomia e dualidade. A dualidade não nega as diferenças (nem as semelhanças), mas coloca dois sujeitos que se relacionam no mesmo patamar qualitativo, participantes do mesmo universo ontológico. Na dicotomia cada sujeito pertence a uma substância diferente. Semideuses pertenceriam a uma substância e meros mortais a outra. Em contraposição a esta concepção dicotômica existe uma concepção dualista que enxerga não um sujeito e um objeto com diferenças ontológicas, mas dois sujeitos que pertencem a uma humanidade comum, cada qual, porém, com suas características próprias. Não há semideuses e humanos, mas apenas humanos com diferentes experiências, conhecimentos e sensibilidades que se encontram para estabelecer uma relação produtiva de crescimento e criatividade através da qual se reduz o mal-estar e o sofrimento.

Outros valores da modernidade que também têm a ver com o processo de repressão/recalque são a disciplina, a ordem, o respeito, a organização, o controle, a objetificação, a reverência hierárquica, a distância afetiva, o convencionalismo. Sem dúvida são características que darão certo colorido à relação e às quais o analista deverá prestar atenção, levando-as em consideração.  

Sentimentos de honra, de pundonor derivados do recalque são encontrados no consultório. Quando estão a serviço da preservação da auto-imagem podem vir a constituir um enorme obstáculo à honestidade e à sinceridade na relação terapêutica. Exigirá do analista toda uma paciente costura que terá como alguns dos fios a aceitação incondicional, a perseverança tranqüila, e um comportamento poroso, aberto e sincero. A resultante bem-vinda será a instalação de uma relação de confiança mútua. A valorização social do sentimento de honra e pundonor é um obstáculo a mais para abertura de um espaço honesto.

A trajetória de vida do neurótico modelar é retilínea e acumulativa. Este resultado é conseguido com o recalque dos muitos desejos e pequenos eus a fim de que reine absoluto e sem contestação o Eu “Verdadeiro” com seu desejo único. O impedimento do retorno à consciência dos pequenos eus provoca sentimentos de insatisfação, de inutilidade da vida, de incompletude e vários sintomas.

Pelo seu aspecto neurótico, a pessoa está aprisionada por convenções, regras e leis ficando com a sua espontaneidade e criatividade coartadas. A barreira do recalque dificulta a percepção de seu inconsciente, do inconsciente do outro e da subjetividade circulante.

A comunicação neurótica é mais superficial que a borderline, pois está barrada pelo convencionalismo das palavras e dos valores especialmente os da hierarquia que impedem o diálogo íntimo.

A vida neurótica está normatizada e segue os trilhos consagrados pela tradição e pelos preconceitos. A saúde psíquica do neurótico “normal” está resguardada pelo recalque das grandes inquietações existenciais, mas tende a ser tensa e descolorida, pontilhada de irrelevantes sintomas e pequenas obsessões.

A culpa é um sentimento onipresente no funcionamento neurótico. Nesse modo existencial uma Personificação de Autoridade inconsciente atormenta e controla o sujeito. Sendo essa Personificação de Autoridade a responsável pela sua culpa caberia a ela tirá-lo do atoleiro da depressão. Esta expectativa atiça a culpa elevando-a a um ápice insuportável quando uma intervenção se faz necessária. A Personificação de Autoridade terá então cumprido a sua função imaginária. A culpa é também uma maneira de reter o fluxo do tempo, pois ela mantém os acontecimentos paralisados na memória.

O neurótico modelo está mais voltado para si mesmo do que para o exterior. Mais se interioriza que se exterioriza. Ele preserva a sua intimidade. Reluta em falar de suas fraquezas, de tudo aquilo que poderia, na sua concepção, ser criticado pelo analista. Envolve-se em uma capa protetora que avalia e filtra tudo o que vem de fora. Dentro de sua concepção é ele quem deverá resolver os seus problemas. O outro não tem nenhum papel a desempenhar a não ser lhe fornecer dicas de questionável importância. Estas características dificultam o estabelecimento de uma relação de intimidade.

As considerações acima se referem à primeira fase da dialética inicialmente proposta, a fase da repressão.


PARADIGMA PERMISSIVO

Acompanhamos algo do surgimento e crescimento da repressão/recalque, substrato sobre o qual se assenta o modo neurótico de viver. Vamos agora tentar realizar o mesmo processo em relação a subjetividade borderline que prospera especialmente a partir de meados do século passado. Veremos como a repressão/recalque produtora do modo neurótico de processar a experiência evolui para a onipotência/cisão, substrato do modo borderline.

A família patriarcal entra em declínio. As identificações sólidas com o pai sofrem com a perda de poder desse pai, com sua desorientação diante de um mundo mutável onde nada é seguro, nem o emprego, nem as amizades, nem as convenções sociais, nem a moralidade. Um pai que fica perdido entre o autoritarismo e a condescendência, agindo muitas vezes erraticamente. Um comportamento próprio de um período de transição. O homem firme, seguro, com valores sólidos, com um superego forte, perde seus parâmetros e torna-se um homem inseguro, que não sabe se expressa ou não seus sentimentos, que não sabe se desenvolve ou não sua capacidade de empatia e identificação, que não sabe se deve ou não ser autoritário. Quanto à mãe, chamada a entrar no mercado de trabalho por razões econômicas, também o faz para livrar-se do jugo do marido, para tornar-se independente, valorizar-se, igualar-se subjetiva e hierarquicamente ao marido; ela então, torna-se uma profissional dedicada a sua carreira. Duas conseqüências: menos tempo para o bebê e mais preocupação com o sustento da casa. Esses dois fatores diminuem sua disponibilidade para o bebê, e a fusão e a identificação mãe/bebê ficam prejudicadas, remetendo-nos a questões de identidade/identificação.

Sem dúvida, mesmo no período vitoriano havia pessoas que escapavam do modo neurótico de processar a experiência. Porém as transformações sociais, políticas, econômicas e subjetivas tornaram o modo borderline de processar a experiência mais presentes. Atualmente os psicanalistas recebem no consultório um contingente cada vez maior de borderlines, narcísicos, psicossomáticos ---- pessoas que estariam classificadas como casos-limite. Também, fora do consultório, isto é, pessoas que têm a possibilidade de lidar com seus problemas eles mesmos, sem um auxílio profissional, predomina o modo de enxergar a vida pela ótica borderline. Evidentemente aqui entra a distinção entre borderline “pesado” e borderline brando do qual já falei. Apresentarei mais um aspecto desta diferenciação.

    O borderline, visto de um ângulo negativo será dito como tendo insuficiência de identificações, expressão que poderá ser substituída por valências identificatórias abertas, se olharmos o mesmo fenômeno positivamente, à luz de uma outra episteme.

Segundo Freud, quando o complexo de Édipo se resolve satisfatoriamente o homem adquire um superego sólido que dificilmente se deixará modificar pelo ambiente. O borderline pensado na perspectiva edípica será falado como tendo um superego frouxo, lábil, influenciável, correspondente à descrição freudiana do superego feminino. Justamente é este superego poroso -- que se deixa penetrar e influenciar e ao mesmo tempo penetra e influencia -- que privilegiará o borderline tornando-o apto a acompanhar (e influenciar) as rápidas transformações da cultura.

A cultura permissiva com seus exageros tornou-se possível por todo um background. Estímulo ao consumismo, reação ao autoritarismo sofrido pelas pessoas (contar o episódio), avanços tecnológicos (computador, Google) mudanças nas relações de poder na família e na sociedade, etc.

A ideologia familiar também mudou: ao invés do pensamento de que a criança tem de ser obediente, não pode participar da vida dos adultos, tem de ser disciplinada, tem limitações próprias à idade, uma outra ideologia se desenvolveu: à criança tem absoluta prioridade, tem de ser atendida em primeiro lugar (pode interromper a conversa de adultos), não pode ser reprimida tendo de ter seus desejos satisfeitos, etc. O sentimento de onipotência advindo da experiência de onipotência e que deveria ir gradativamente perdendo sua força, é incrementado e a criança em crescimento que logo se tornará adolescente e adulto incorpora em seu ser o sentimento e o pensamento de que tudo lhe é permitido e que ninguém pode impedir a livre satisfação de seus desejos. A criança se transforma em um ser imperial a quem tudo é permitido pois o resto do mundo estaria ali para servi-lo. Evidentemente uma tal ideologia levada ao extremo inviabilizaria a convivência humana. Por isso mesmo esse paradigma tem sido objeto de preocupação de muitas pessoas e organizações que procuram meio e modos de modificar esse cenário. Há quem pense que nada de bom adveio e poderá advir desse paradigma e solução seria uma completa revolução. Muitos pensam que é preciso retornar ao paradigma anterior. O que podemos dizer é que esse conjunto de pessoas pensantes e atuantes fazem com que estejamos num momento de formação de um novo paradigma. E, para mim, aqui avulta a figura de um psicanalista inglês, Donald W. Winnicott que tem contribuições preciosos para que possamos pensar em um novo paradigma sem desprezar os ganhos obtidos pelo paradigma da permissividade. Aqui eu me permito trazer à cena a figura do filósofo Hegel que com sua doutrina de evolução espiritual da humanidade criou a tríade tese-antítese-síntese onde a síntese se transformará em novo tese que sofrerá o mesmo processo de evolução. Quero dizer com isso que o pensamento de Hegel nos permite aproveitar aspectos importantes da tese, pois antítese não é a negação da tese, mas sua elaboração, pois a tese já traz em seu âmago os elementos para a sua transformação.

        Passemos para a segunda proposição dialética. Coloco como antítese da repressão, a permissividade. É justamente a permissividade que domina a hipermodernidade. A permissividade provoca o aparecimento de outra maneira de ser e viver diferente do modo neurótico. É o modo borderline, típico do período em que vivemos. O borderline não internaliza um firme superego que lhe garantiria incontestáveis pontos de referência. Solto no mundo, com suas valências identificatórias abertas, sem uma forte identificação com os valores dos pais, necessita da aprovação do ambiente. Esta seria uma das razões das intimidades expostas nos webblogs e webcans. Seus valores não são fixos, pois não estão regidos por um código interno. Dependem da reação do ambiente. Se aprovados sentem-se bem. Se desaprovados ficam envergonhados de terem tido uma conduta inadequada. Na hipermodernidade (ou modernidade líquida) predomina a cultura da vergonha sobre a cultura da culpa.Também as formas de vivenciar o tempo e a interioridade se modificam. Paula Sibilia escreve: A eficiência e a eficácia ---- a capacidade de produzir determinados efeitos ---- tornam-se justificativas auto-suficientes que dispensam toda explicação causal e qualquer pergunta pelo sentido”..... A velha função do passado parece ter caducado: o passado não serve mais para conceder inteligibilidade ao caótico fluir do tempo, e nem para explicar o presente ou a mítica singularidade do eu. (p.40)....esses novos fenômenos revelam mais um traço no processo de reconfiguração que atravessam as subjetividades contemporâneas. Os gêneros autobiográficos que proliferam na Internet são sintomáticos destas novas torções subjetivas, por evidenciarem importantes mudanças nos valores atribuídos à idéia de interioridade e ao estatuto do passado como dois alicerces fundamentais do eu. Essas duas noções foram primordiais na constituição das subjetividades modernas e, apesar da sua permanência como fatores ainda relevantes, parecem estar perdendo seu peso na definição do que cada um é(p. 48).


Estas citações são importantes por nos remeterem a situações clínicas atuais: muitos analisandos não se interessam por ter um conhecimento penetrante de sua vida subjetiva. Esta mais parece um produto da relação analista-analisando. Há uma falta de interesse quanto à origem e resolução dos sintomas. Eles são aceitos como quase incontornáveis características idiossincráticas, algo próximo da ordem da necessidade e, portanto praticamente inacessíveis à investigação. O passado dos sintomas não lhes interessa, e a perturbação provocada por eles é aceita e integrada nas ações. Interessa-lhes o presente. Isto coloca mais um desafio para o analista que em uma primeira instância conversaria sobre as dificuldades objetivas do presente buscando soluções sem procurar suas origens no passado, tentando encontrar com o analisando um equilíbrio pessoal e social que inclua os sintomas e os dinamismos expostos ---- e isto dá lugar a um intenso diálogo entre analista e analisando; em uma segunda instância tentariam ultrapassar os obstáculos, entendendo as dinâmicas que estão ocorrendo no momento mesmo dos acontecimentos: isto parece agradar menos ao analisando que ouve sim, o que o analista diz, mas que passa batido pelo dito como se fosse uma parte não importante da conversa, não dando continuidade ao assunto, e continuando a falar como se nada lhe tivesse sido dito. Porém, com o tempo, dá para perceber que as palavras do analista tiveram efeito; em uma terceira instância procurar a dinâmica no passado. A isto o analisando é ainda mais refratário e a ocasião para fazer tais interpretações deve ser bem escolhida, isto é, deve fazer parte do devir de uma conversação normal que por acaso tocou na infância, sem uma impostação que transmita a impressão de que algo professoral e básico esteja sendo dito. Podemos perceber, dentro de certo prazo, o efeito positivo da interpretação. Mas o que predomina é o repúdio pelo passado e uma forte inserção no presente que dificilmente se estende para um futuro, pois este se apresenta imprevisível e então há pouco que falar sobre ele. É claro que as coisas não são tão simples e esquemáticas como as apresento, pois estamos lidando com situações de complexidade. Mas servem para nos situar melhor diante dos aspectos hipermodernos da subjetividade.

O que mais se pode dizer do sujeito hipermoderno? Quais outras conseqüências de uma sociedade e educação permissivas? A mais óbvia é a falta de limites; a pessoa cresce com a convicção de que tudo o que existe no meio social pertence de direito a ela. É dever de a sociedade abrir-lhe todas as portas. “É proibido proibir”. É inconcebível que se ponham limites aos seus desejos. Ser contrariada é um crime de lesa-majestade, impossível sequer de se pensar ---- uma aberração da natureza, um tabu. É evidente que nestas circunstâncias os direitos e sentimentos dos outros não conseguem ser sequer vistos. O complemento social desta atitude pessoal é a abundância potencial de ofertas e oportunidades que a sociedade coloca à disposição. O encontro dos pequenos eus desreprimidos com a virtual abundância de ofertas sociais tem várias conseqüências: os muitos pequenos eus embriagam-se com as muitas ofertas tentando dar conta de todas elas, comprimindo o tempo, e entrando em ansiedade. Muda a maneira de vivenciar o tempo: é preciso correr para dar conta de todas as tentações e para chegar antes. A velocidade assimilada pelo corpo/psique torna-se parte integrante do ser e converte-se no ritmo da hipermodernidade, um “prestissimo” febril e ansioso. Também a idéia de não perder nenhuma oportunidade provoca ansiedade e pressa. A pessoa nunca se dá por inteiramente satisfeita com suas escolhas, pois lá adiante pode haver algo muito melhor. A pergunta não é “fiz uma boa escolha?”, mas “será que perdi alguma coisa fabulosa, “irada”? As outras inúmeras possibilidades desconhecidas fazem sua ronda tentadora e constante em torno da cabeça de nosso voraz protagonista sussurrando em seus ouvidos possibilidades de escolhas melhores, de aparecimento de oportunidades incríveis que transformarão por completo sua vida. E será preciso lá chegar antes que outros se apossem da chance. É comum um movimento errático em que o jovem passa de um investimento para outro à procura daquilo que “seria o melhor dos máximos”.

Um aspecto positivo a ser considerado é a porosidade que o jovem da hipermodernidade apresenta e que lhe permite ter acesso ao seu inconsciente implícito e à subjetividade da sociedade em transformação. Este é um aspecto a ser preservado. O terapeuta deverá ter muito cuidado com o que chamamos de interpretação, pois ela poderá entupir a porosidade, impedindo o acesso aos aspectos femininos, ao inconsciente e à percepção da subjetividade social corrente. A preservação da porosidade permitirá um trabalho terapêutico que irá além do representacional, propiciando aquilo que Freud chamou de comunicação de inconsciente a inconsciente e que tem a ver com algo misterioso, sim, mas também com os sutis movimentos, expressões, mímicas faciais, olhares, modulação de voz e tantas outras coisas que freqüentemente estão fora do campo de nossa consciência e que, portanto, não controlamos. Por essa razão o analista precisa ter um “cuidado de si” que permita que seu corpo/psique demonstre, propague, passe uma verdadeira renúncia psicocorporal ao narcisismo e um verdadeiro acolhimento psicocorporal consciente e inconsciente da pessoa do analisando tal qual ele é no momento da relação. Esta seria a atitude ideal, porém nem sempre presente, já que o analista por mais que tenha “cuidado de si”, terá com alguma freqüência o seu inconsciente corporal implícito e afetivo mobilizado de uma maneira mais ou menos afastada da ideal, especialmente diante dos novos analisandos que o procuram. Deverá então ficar o mais possível atento às suas reações corporais e ao tipo de cargas afetivas que estão sendo produzidas, e então tentar progredir em direção a uma atmosfera de conforto, confiança, relaxamento, ritmos sincrônicos e interesse afetivo.

Bauman nos fala que na modernidade líquida existe um desrespeito pelo compromisso. Esta é uma experiência freqüente de todos nós. Só somos levados a sério se, no momento, apresentamos algum interesse pragmático. Caso contrário somos ignorados. A sociedade nos trata como mercadorias a serem consumidas. Isto afeta nosso sentimento de valor com direito à deferência e consideração. Não somos vistos como pessoas com uma subjetividade a ser respeitada, mas como mercadorias. Se, para ser levado em consideração é preciso que o sujeito seja mercadoria ele se esforça por sê-la. O conhecimento e assimilação destes fatos sociais podem modificar o equilíbrio narcísico de nossos analisandos. Daí a importância do analista poder apresentar um panorama da subjetividade social em que vivemos, um de cujos aspectos é não dar importância ao indivíduo como uma singularidade subjetiva a ser respeitada.

Ainda falando do narcisismo e de suas possibilidades de transformação: uma abertura pessoal que permitisse a compreensão da subjetividade do outro, colocando em suspensão as reações emocionais à crítica alheia, à desconsideração, ao apontamento de seus defeitos seria uma importante aquisição no campo do narcisismo. “Será que ele tem razão de em me ver e sentir desta maneira? Quais são os seus motivos?” são perguntas a serem feitas permanentemente. Colocar a indignação entre parêntesis para avaliar o quanto a palavra do outro é pertinente (e aí é preciso levar em consideração o contexto em que a “ofensa” acontece) para até poder se aperfeiçoar, e também compreender o outro, as razões de seus ataques e de suas críticas. Importante distinguir entre a ofensa com a intenção de ferir e o apontamento de características sem esta intenção. Não significa que se deverá adotar uma atitude indiferente, sem emoção. Esta certamente deverá estar presente, mas integrada a um questionamento não-narcísico.

O mal-estar advindo da desconsideração, da objetificação, da transformação em mercadoria pode ser fortemente atenuado por uma redistribuição dos sentimentos narcísicos. Uma compreensão da subjetividade pessoal do outro e da subjetividade social contemporânea cumprirá esta tarefa. A auto-estima advirá então desta nova distribuição narcísica. Este remanejamento encontrará enormes resistências, pois para isso deveremos vencer nossos atavismos. Será certamente uma tarefa de muitas gerações. Esta nova subjetividade difícil de se instalar diante das reações espontâneas hereditárias de cada um, só aos poucos, mediante pequenos atos, atitudes e mínimas transformações se espalhará por uma espécie de osmose psíquica pelo corpo societário. E será importante aprovar explicitamente qualquer passo nessa direção.  O sentimento de “estar ferido em seu amor-próprio” quando uma característica/“defeito” é apontada deverá ser substituído pela valorização do autoconhecimento e de heteroconhecimento das dinâmicas em jogo.

A situação de intensa disputa da hipermodernidade que aproveita qualquer brecha para atacar e diminuir o outro torna ainda mais difícil esta trajetória. Aquele que procura substituir o sentimento de honra pela sinceridade e honestidade encontrará dificuldades diante da hipercompetitividade de nosso tempo.

Este é um quadro sociológico que devemos conhecer para ajudar nosso analisando a se situar no mundo atual; sem isso ele ficaria perdido, sem compreender os acontecimentos, e atribuindo a si o que faz parte de um contexto social. 


A conjugação da abundância de ofertas vindas da sociedade (excesso de ofertas externas) com a desrepressão dos pequenos eus (excesso de demandas internas) produz uma atividade incessante e febril. Este excesso provoca desorientação, ansiedade, exaustão. Sem dúvida a psicanálise contribuiu, com o conceito e trabalho de desrepressão para a permissividade descontrolada e o mal-estar da atualidade. Não era esta, porém a intenção de Freud. Pelo contrário, um de seus postulados básicos apresenta o recalque como constitutivo da personalidade. Mas recalques obsoletos e fora de lugar são inúteis e provocam sofrimento. Faz-se necessária uma redistribuição dos recalques. Repressões úteis devem ocupar o lugar das repressões infantis irracionais. Em suas palavras: A análise, contudo, capacita o ego, que atingiu maior maturidade e força, a empreender uma revisão dessas antigas repressões; algumas são demolidas, ao passo que outras são identificadas, mas construídas de novo, a partir de um material mais sólido. O grau de firmeza dessas novas represas é bastante diferente do das anteriores; podemos confiar em que não cederão facilmente ante uma maré ascendente da força instintual. Dessa maneira, a façanha real da terapia analítica seria a subseqüente correção do processo original de repressão, correção que põe fim à dominância do fator quantitativo.

Porém o movimento da sociedade foi mais radical e ao processo de des-repressão não se seguiu uma repressão seletiva e adequada como Freud esperava. A dês-repressão tornou-se liberação geral das pulsões. Quando falo de movimento geral da sociedade refiro-me à passagem do capitalismo de acumulação para o capitalismo consumista, da contenção ao desperdício, da criação de modismos e de novas necessidades para aumento do consumo; e também da falta de limites de cada um que se sente no direito de fazer o que quer sem respeito nem à lei nem ao direito do outro, à roubalheira desenfreada, aos excessos de velocidade com aumento de mortes, à desobediência a regras necessárias ao bom convívio, ao uso do poder e das leis para  benefício próprio. Um quadro desolador. E sem dúvida, mesmo que involuntariamente, a psicanálise contribuiu para isso com a difusão da idéia de desrepressão.      

 

PARADIGMA EM FORMAÇÃO- O borderline só veio a ter existência depois que surgiu o conceito de neurose. Sem neurose não haveria borderline. A neurose é uma patologia bem estruturada e que surge depois que a repressão/recalque torna-se relevante. Borderline significa estar na borda, no limite, portanto longe do centro, da norma, do habitual. Na medida em que a repressão/recalque está menos onipresente e mais branda, os processos próprios do borderline (cisão, onipotência mitigada, porosidade) tornam-se mais presentes. Tornam-se maioria ou pelo menos formam com os processos produtores de neurose um outro modo de estar no mundo. Não cabe mais o nome do borderline, pois eles não estão mais no limite, mas sim no centro da cultura. Que outro nome poderia ser dado àquele que um dia foi chamado por mim (e ainda o é) de “borderline brando” e “borderline próximo da normalidade”? E que outro nome pode-se dar ao “paradigma em formação” que dê uma indicação do caminho que está sendo percorrido? Respondendo primeiro à segunda pergunta direi que, se dermos relevância à contribuição de Winnicott estaríamos indo em direção a um paradigma holístico, ecológico, humanístico. Quanto a primeira pergunta penso que o conceito “borderline brando” possa ser incluído em um todo mais amplo que seria representado pelo conceito de “Homem Transicional”, referido ao espaço transicional de Winnicott.

SÍNTESE – PARADIGMA EM FORMAÇÃO: em direção a um PARADIGMA ECOLÓGICO, HUMANÍSTICO.

Sinais de um paradigma em formação ecológico, ético, humanístico poderão ser encontrados desde que estejamos atentos a eles: em Portugal, a política pública para drogas adotada pelo Estado é a de não penalizar o usuário de drogas, mas compreender sua situação de viciado e tentar ajudá-lo a partir do ponto de adição em que se encontra. (procurar no Google).

A atuação de várias ONGs. Oficinas de música, teatro, esportes, etc.

A criação da rede colaborativa “Circuito fora do eixo”.

Também observamos no dia-a-dia a derrocada do comportamento patriarcal distante e severo para uma proximidade, um carinho, uma paciência, uma amorosidade, raramente encontradas no passado. Podemos presumir que estamos caminhando da Castração para o Limite.

A castração é um conceito cunhado por Freud e refere-se em uma ação dura, cruel, enquanto que a colocação de limites nós a encontramos nos escritos de Winnicott como uma atividade realizada com amorosidade e sensibilidade. Citações de Freud e Winnicott.

Freud: “O superego conservará o caráter do pai, e quanto mais intenso foi o complexo de Édipo e mais rapidamente se produziu a sua repressão (pela influência da autoridade, a doutrina religiosa, a educação, a leitura), tanto mais rigoroso será depois o império do superego como consciência moral, talvez também como sentimento inconsciente de culpa, sobre o ego”[2]. Outra citação de Freud: “O superego reteve características essenciais das pessoas introjetadas — a sua força, sua severidade, a sua inclinação a supervisar e punir. Como já disse noutro lugar, é facilmente concebível que, graças à desfusão de instinto que ocorre juntamente com essa introdução no ego, a severidade fosse aumentada. O superego — a consciência em ação no ego — pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o ego que está a seu cargo. O Imperativo Categórico de Kant é, assim, o herdeiro direto do complexo de Édipo”[3].


Winnicott: “Fica claro que, de acordo com a teoria que uso em meu trabalho, você está possibilitando ao seu filho desenvolver um sentido de certo e de errado ao ser uma pessoa confiável nessa fase formativa inicial das experiências da vida dele. Se não tiver êxito com o seu bebê desse modo (e certamente se sairá melhor com um bebê do que com um outro), terá de tirar o melhor proveito possível de ser estritamente um ser humano, embora saiba que coisas muito melhores poderiam estar acontecendo no processo de desenvolvimento natural da criança. Se fracassar por completo, então deve tentar implantar idéias de certo e errado através do ensino e do treinamento assíduo. Mas isso é um substituto para o procedimento realmente válido, é uma confissão de fracasso e você vai detestar essa idéia; e, em todo caso, esse método só funciona desde que você, ou alguém atuando no seu lugar, esteja presente a fim de impor a sua vontade. Por outro lado, se puder dar a partida para o seu bebê de modo que, através da sua confiabilidade, ele desenvolva um sentido pessoal de certo e errado, em vez de medos primitivos e toscos de retaliação, você descobrirá mais tarde que pode reforçar as idéias de seu filho e enriquecê-lo com as suas próprias idéias”[4].

A distinção entre a castração freudiana e o limite winnicotianno é tão mais nítida quanto mais radical e traumática é a castração. Na subjetividade neurótica o acesso ao feminino do homem é impedido mediante esta ação castradora. Na prática esta castração é principalmente exercida pelo pai que impede o acesso da criança aos seus aspectos femininos de empatia, capacidade de identificação, sensibilidade sutil, etc. Hoje, na classe média educada e informada a brutalidade castradora encontra-se atenuada e pode-se mesmo dizer que está se espalhando uma ação não mais de castração, mas de colocação de limites. Quando falo de castração penso em violência em seus diversos graus. Quando falo de limites também penso em graus de tranqüilidade, amorosidade, respeitadoras da subjetividade da criança. Gosto de usar para a castração a imagem de um muro compacto contra o qual a criança irá se chocar e se machucar; já o limite eu o vejo como uma cortina de veludo, macia e flexível que oferecerá proteção e limite à criança sem machucá-la. O pai impiedosamente castrador do século XIX que vemos em filmes como “A fita branca” está desaparecendo nas classes médias dos centros urbanos. Os pais em geral são amorosos com os filhos e as proibições são realizadas de uma forma delicada, carinhosa e sensível. A repressão que vem dos pais já não é mais traumática, castradora, violenta e isto faz uma diferença. Considero este item da maior importância para o futuro psicológico do ser humano.  Por esta razão vou me estender nesse assunto. Sabemos que as proibições que a criança impõe a si mesma podem ser altamente intensivas mesmo quando os limites são dados por uma figura benigna. Esta benignidade tem sua importância, pois evita a introjeção de uma personificação despótica. A pressão que a criança necessariamente tem de exercer sobre si mesma para conter seus desejos imaturos emanam da força ditatorial das palavras em si e não do pavor/pânico provocados por uma figura tirânica assustadora vociferando ordens. Esta nova maneira de colocar limites muda a qualidade do recalque e permite que processos de divisão do eu tenham um lugar mais proeminente no psiquismo.

O que quero dizer com recalque benigno? Vou abusar da boa vontade dos colegas, expondo uma outra variante da diferença existente entre um recalque provocado por palavras de ordem e outro modo de recalque que inclui uma ação repressora dura de uma figura tirânica. Desenvolvendo: recalque de boa qualidade foi uma expressão que encontrei para distinguir o recalque cuja realização é assumida pela própria pessoa, do recalque oriundo de um trauma externo maligno(Winnicott) por choque ou por tensão cumulativa (Kris, Khan): o bebê e a criança necessitam de obsessivamente repetir para si mesmas as proibições e exercer uma suficiente pressão para conseguir conter seus desejos. Vemos então uma criança dizendo para si mesma em voz de comando: “não pode”. Acho que devemos distinguir esta voz de comando à qual a criança recorre para a aceitação de limites (que podem ter sido colocados pelos pais com a maior doçura) da imposição severa e insensível dos pais. Eu chamaria a primeira de proibição auto-induzida  na qual não se dá a introjeção de uma Personificação de Pai autoritária e insensível, e a segunda de proibição autoritária na qual uma Personificação de Autoridade de Direito Olímpico Inabalável e Incontestável se impõe como figura ameaçadora. No primeiro caso o bebê e a criança criam uma proibição adequada às suas necessidades psicológicas e no segundo caso a invasão castradora não respeita a organização psíquica invadindo o psiquismo do bebê e lá deixando uma marca. Uma marca diferente da marca que o próprio bebê se coloca, pois a que ele se coloca está dentro de suas possibilidades de suportar o trauma sem uma quebra significativa da continuidade de ser. Usando os conceitos que Winnicott apresentou no artigo “O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família” (em Explorações Psicanalíticas, p.114) podemos dizer que a auto-imposição do bebê e da criança é um trauma benigno enquanto que a imposição dura, severa e insensível dos pais é um trauma que será tanto mais maligno quanto mais ríspida e insensível for a intervenção paterna. Neste caso o pai será internalizado como uma Entidade Maligna Invasiva, aparelhando o psiquismo para problemas com figuras de autoridade.

Voltando à linha principal do pensamento. Winnicott nos fornece importantes conceitos que servem para compor um novo paradigma. Estes conceitos permitem a elaboração de  um paradigma que valoriza o impulso individual, evitando reprimi-lo (um análogo ético da permissividade) e que ao mesmo tempo limita excessos por um processo psíquico interno, um processo que não é exterior ao indivíduo, mas que brota da interioridade da pessoa em desenvolvimento harmônico com o externo, e que por isso mesmo não apresenta excessos narcísicos radicais pouco compatíveis com uma sociedade ecológica e humanística. Refiro-me a uma relação de carinho, mutualidade e sensibilidade às necessidades verdadeiras da díade não cortadas por uma intervenção castradora que fará como algo intrínseco o desejo de equilibração e relação equitativa e ecológica. Um aspecto particular desta equiliração nós a encontramos num certo momento do desenvolvimento do bebê quando ele percebe que a mãe-objeto que lhe satisfaz as necessidades do id é a mesma mãe que o envolve carinhosamente dando acolhida e compreensão às suas necessidades de self. Neste momento ele modula seus impulsos instintivos de id com receio de machucar esta que agora é uma mãe unificada.

Vejamos então quais as contribuições de Winnicott para um paradigma ecológico e humanístico:


MÃE SUFICIENTEMENTE BOA

Considero esta expressão revolucionária por introduzir na estrutura mesmo das relações humanas (e, por extensão, não humanas) a noção de falha. A falha deixaria de ser um acidente indesejável e abominado para fazer parte integrante, inevitável e preciosa do devir humano. Com isso o homem se torna menos defensivo, pois não tem de resguardar a todo custo o acerto de seus atos e pode se abrir mais à subjetividade do outro, à sua critica compreendendo-o melhor. Podemos dizer que a idéia de honra foi substituída pela idéia de transparência.

HOLDING

O protótipo da noção de holding é uma mãe sustentando o bebê em seus braços e colo. Uma mãe amorosa acolhedora, não ansiosa, transmitirá uma sensação de segurança, de confiabilidade, de liberdade e de limite ao bebê. Tudo lhe é permitido no espaço abarcado pelo corpo da mãe. Mas é um corpo que provê um limite. Paradoxalmente o bebê se sente livre para expressar seus sentimentos e, ao mesmo tempo protegido pelos limites que o colo e braços da mãe proporcionam. Uma citação de Winnicott nos permitirá perceber o alcance e a importância da noção de holding:

É possível perceber aqui uma série ----- o corpo da mãe, seus braços, o relacionamento dos pais, o lar, a família, incluindo primos e parentes próximos, a escola, o bairro com sua delegacia, o país, suas leis[5].


Esta seqüência mostra-nos uma lei intimamente ligada ao holding e portanto ego-sintônica, e não como uma imposição que vem de fora. Reunem-se limite e acolhimento, correção e suporte; diferentemente da lei freudiana posta em prática através de uma intervenção impiedosa da autoridade à qual ele chamou apropriadamente de “castração”. Vejamos isto em duas citações de Freud:

O superego reteve características essenciais das pessoas introjetadas — a sua força, sua severidade, a sua inclinação a supervisar e punir. Como já disse noutro lugar, é facilmente concebível que, graças à desfusão de instinto que ocorre juntamente com essa introdução no ego, a severidade fosse aumentada. O superego — a consciência em ação no ego — pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o ego que está a seu cargo. O Imperativo Categórico de Kant é, assim, o herdeiro direto do complexo de Édipo[6].


O superego conservará o caráter do pai e quanto mais intenso foi o complexo de Édipo e mais rápido se produziu sua repressão (sob a influência da autoridade, do ensino religioso, da educação escolar, da leitura), tanto mais rigoroso virá a ser o império do superego sobre o ego como consciência moral, talvez também como sentimento inconsciente de culpa, sobre o ego[7].


Esta concepção de superego fez com que se confundissem a figura do Tirano, do Déspota, com a do Guia (Guru, Mestre), e a necessidade de limites com a castração implacável e insensível.  

A reação da sociedade a esta confusão, a este excesso foi um outro excesso: o da permissividade total bem expressa na frase de ordem “é proibido proibir”[8]. Esta a 2ª fase, a antítese de nossa dialética. Entramos agora numa 3ª fase procurando aberturas e é aí que contamos com a ajuda de Winnicott. O conceito de holding permite uma convivência pacífica da limitação com a liberdade. Faz parte do holding saber apresentar o mundo à criança de acordo com suas necessidades e possibilidades. Isto é diferente da imposição de idéias de um regime patriarcal autoritário. Permite que o ser humano sinta que a limitação necessária para a vida em sociedade é também uma criação sua. A limitação torna-se intrínseca ao sujeito e a permissividade e transgressão ganham contornos adequados[9]. Distingue-se do resultado da ação de castração da 1ª fase de nossa dialética. Naquela circunstância, tendo sido impedido o acesso da criança à mãe, ao feminino, ela perde o contacto com sua sensibilidade, a sua vida afetiva e não tem condições de exercer a intuição, a empatia, a identificação primária, etc. Transforma-se então em Homem Objetivo, poderoso e forte em sua defesa da Lei, um Homem que não aceita o mundo feminino da sensibilidade. Com a ação de holding Winnicott reconecta o ser humano com o feminino possibilitando uma colocação sensível de limites sem ter de obrigatoriamente realizar ações duras, implacáveis, impiedosas, violentas. O limite deixa de ser um duro muro de pedra que arrebenta a cabeça de quem o enfrenta e torna-se uma flexível, macia e acolhedora cortina de veludo. Estaríamos então fora da repressão excessiva e da permissividade desenfreada. E, em não havendo repressão excessiva o ser em desenvolvimento pode usar mais o dinamismo divisão, a onipotência mitigada, a identificação dual-porosa.



       

ESPAÇO POTENCIAL E OBJETO TRANSICIONAL

        Considero estes conceitos como contribuições ao aspecto holístico do paradigma que tenho esperança de que esteja se formando, um paradigma ecológico/humanista/holistíco. Vamos vê-los então um pouco mais de perto. Para o bebê recém-nascido não existe um mundo externo a ele. Tudo é sua criação e ele preenche com o seu ser todos os espaços do mundo. Ele vive uma experiência de onipotência. É uma experiência necessária para a formação de sua identidade, uma identidade que na fase que Winnicott denominou de dependência absoluta onde há uma fusão mãe-bebê, confunde-se com a identidade materna. Esse bloco domina todo o espaço psíquico do bebê. Winnicott dá como exemplo um acontecimento-prototípico à qual chama de “momento de ilusão”: o bebê ao ter fome cria a expectativa de um seio amamentador e, se atenta, a mãe se apresenta para a alimentação. Para o bebê foi ele quem criou o seio. O seio é vivido como parte de seu psiquismo. Há uma continuidade entre seu desejo e o aparecimento do seio. Quando o seio deixa de comparecer imediatamente cria-se uma fenda na continuidade de ser, logo preenchida por um objeto que presentifica o seio. Essa fenda transforma-se em espaço potencial e o objeto que criou (e foi criado por) esse espaço é denominado de objeto transicional. O objeto transicional é um objeto não-eu mas é ao mesmo tempo um objeto do self. É portanto ao mesmo tempo subjetivo e objetivo. Um objeto paradoxal. Aqui podemos inserir o conceito de criatividade que para Winnicott é conceber subjetivamente objetos objetivamente percebidos. A lua, por exemplo, pode ser ao mesmo tempo subjetivamente concebida (lua dos namorados) e objetivamente percebida (lua dos astronautas). Gilberto Gil canta: “poetas, namorados, seresteiros correi; é chegada a hora de escrever e cantar; talvez as derradeiras noites de luar”. Essa canção ele a escreve por ocasião da missão Lunik 9 que levou pela primeira vez o homem à lua e expressa seu medo de que a lua, diante da conquista da ciência, deixe de existir subjetivamente.

No período repressivo o homem tinha como ideal a objetividade absoluta proibindo, reprimindo e recalcando o modo feminino de apreender o mundo. Com isso se reforçou a dicotomia razão/emoção cujo saldo inicial foi positivo (conquistas da ciência numérica e newtoniano), mas que com o tempo as consequencias nefastas da dicotomia tanto no plano humano (colonização e impiedade) como no planetário foram se tornando insuportáveis.  O objeto transicional e o espaço potencial reconecta o homem com o outro, com o mundo e consigo mesmo (aqui podemos pensar no meu conceito de dual-porosidade). Eu colocaria que o homem winnicottiano, diferentemente do homem vitoriano e do homem psicótico, deseja viver no espaço intermediário (potencial) onde coexistem o subjetivamente concebido com o objetivamente percebido.

CRIATIVIDADE

Esta conexão com o mundo torna-se mais forte com o conceito de criatividade de Winnicott. Para esse autor criatividade tem um significado diferente do uso comum que implica obrigatoriamente em novidade: para Winnicott criar significa criar o que já existe. Mas também o que significa que ele impregna com a sua subjetividade o já existente, tornando-o assim parte de si. Ultrapassa-se assim a dicotomia razão/emoção e homem/mundo.

 

IDENTIFICAÇÃO

Capacidade de sentir o que o outro sente e de perceber a posição subjetiva em que outro coloca a si e ao outro. A castração coloca uma barreira ao processo de identificação. Na minha leitura Winnicott propõe manter a capacidade de identificação e a disponibilidade para a identificação. Na sociedade capitalista selvagemmente competitiva a capacidade e disponibilidade para a identificação são consideradas como óbice para os objetivos mercantilistas das pessoas.

MUTUALIDADE

Troca subjetiva entre duas pessoas diferenciadas quer estejam em simbiose ou não. Ex.: bebê de aproximadamente 12 semanas (portanto de 3 meses e já distinguindo o eu do não-eu embora ainda em simbiose) sendo amamentado e colocando seu dedo na boca da mãe como se a estivesse amamentando. Desfaz a hierarquia.

Tenho de pôr um ponto final neste trabalho. Deixarei este ponto final provisório aos meus leitores, seguindo os ditames de Humberto Eco e de Winnicott.

                                                       Nahman Armony





[1] Grinker,R.R., .Werble,B., Drye,R.C., 1968, p.83-90.
[2]FREUD, S.- “O Ego e o Id” Vol.XIX da Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.36.
[3] FREUD, S. (1924) O problema econômico do masoquismo. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.208-209. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud.)
[4]WINNICOTT, D.W. - “O desenvolvimento do sentido do certo e do errado em uma criança” in Coversando com os pais. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p.125-126.
[5] WINNICOTT, D.W. (2000) A tendência anti-social. In: Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1956. p.406-416.
[6] FREUD, S. (1924) O problema econômico do masoquismo. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.208-209. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud.)
[7] FREUD, S. (1923) O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.49. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud).
[8] CAETANO VELOSO, 1968.
[9] ARMONY, N. Do universal/particular ao local/global: o superego sob nova ótica. In: Winnicott, seminários cariocas. Rio de Janeiro: Revinter, 2008. p. 111-127.

PAIXÃO VISCERAL

Após algum tempo de união amorosa, eventualmente acontece de um dos parceiros começar a reclamar: “Você já não é o mesmo. Me escondeu muita coisa de sua personalidade. Me enganou para me conquistar. Antes, parecia adivinhar os meus desejos e mesmo se antecipar a eles. Agora não me entende, não tem consideração por mim.” E por aí vai. Às vezes a briga esquenta. Um chama ao outro de farsante, fingido. Uma carga de adjetivos negativos transforma o companheiro num canalha, num ser desprezível. Mas será ele de fato mau-caráter? Pode ser que sim. Também é possível, porém, que o casal seja vítima da “síndrome de apaixonamento visceral”.

Esse tipo de apaixonamento toca o mais fundo do ser e estabelece uma relação na qual o único que conta é o outro, com seus desejos, melindres, peculiaridades. A atenção é inteiramente desviada de si mesmo e dirigida para o amado. O apagamento pessoal faz do amante um serviçal, quase um escravo. As questões pessoais, as próprias necessidades, suscetibilidades e desejos deixam de ter importância, são postas de lado. O único objetivo é fazer o outro feliz. Cada membro do casal, ao esmerar-se em comprazer ao parceiro, surge como um ente caído do céu, destinado a torná-lo venturoso para todo o sempre. É uma relação que lembra a dupla mãe-bebê, em que a primeira deixa de lado os dissabores, as questões pessoais, os outros amores e interesses para se dedicar apenas ao seu rebento, àquele ser visceral gestado na intimidade de sua barriga. Em se tratando de casal amoroso, ambos são, metaforicamente, bebê e mãe. Um procura agradar e servir ao outro em detrimento de si próprio.

O apaixonamento visceral tornará o casal tão amalgamado que podemos compará-lo a irmãos siameses, unidos por vísceras comuns. Quero aqui recordar o filme O Segredo de Brockeback Mountain, no qual vemos que nada, nem mesmo a morte, pôde separar os amantes. Eis aí o problema desse tipo de relação. Quando o mútuo fascínio declina, surgem as individualidades e as diferenças pessoais. Muitas variáveis entram então em jogo: se as diferenças forem tão grandes que tornem impossível a convivência, a relação de apaixonamento visceral fará com que a necessária separação, se puder acontecer, seja extremamente dolorosa, provocando muito sofrimento psíquico e físico. Se as diferenças não ultrapassarem o limite das possibilidades de entrosamento, a força da relação visceral ajudará a superar o desconforto causado pelas dessemelhanças facilitando a renúncia ao desejo impossível de entendimento perfeito. Como surge esse tipo de amor que estou chamando de apaixonamento visceral? Para explicar, vou me valer novamente do cinema. Existe um tema recorrente na filmografia: o namorado morre e retorna posteriormente no corpo de outra pessoa. A antiga namorada que permaneceu viva, ao encontrar-se por acaso com o antigo namorado em um novo corpo evidentemente não o reconhece, mas sente que existe algo de familiar nele. Essa mistura de estranho e familiar faz daquela pessoa um ser misterioso que surpreende, intriga e atrai. Algo antigo, vindo do passado remoto, vibra e ela se sente pronta a se aproximar daquele estranho/familiar para um apaixonamento visceral. Esses filmes são alegorias de encontros em que um enxerga no outro algo de seu passado mais longínquo vivido com a mãe ou outra figura poderosa. Um tipo de amor que pode ser uma bênção — quando não há uma incompatibilidade essencial e o casal ultrapassa a idéia de encaixe exato, aceitando as imperfeições, individualidades e diferenças — ou uma maldição — quando acontece o contrário: modos de ser irreconciliáveis ou impossibilidade de renunciar à perfeição dos primeiros tempos da relação.
                                                     Nahman Armony

 

 

MUDANÇA DE PARADIGMA


 
Um psicanalista em transformação

 

           Filosoficamente falando, a humanidade vem sofrendo sucessivos abalos no fundamento sujeito/verdade, um fundamento que surgiu há mais de 24 séculos. Este fundamento é uma estratégia sem estrategista e que através de seus efeitos à distância permitiu ao mundo adquirir a fisionomia atual: um desenvolvimento científico responsável por uma incrível cultura tecnológica, por um extraordinário controle e poder do homem sobre a natureza, mas trazendo em seu bojo um potencial de deterioração, sofrimento e destruição que,  cada vez mais, se realiza.

           Ao descrever este processo sei estar mitologisando, montando uma estória que é ao mesmo tempo uma história (ou vice-versa). Estou fazendo uma genealogia e contando uma história heurística e verossímil mas não rigorosamente verdadeira se é que isso é possível. Estou me apropriando com os movimentos de meu olhar e de meu corpo de elementos do mundo à minha volta. Elementos que tanto se encontram no presente quanto no passado e futuro; fisicamente perto e distantes; visíveis e invisíveis; existentes e inexistentes. Não se pretende, com estes elementos, conseguir uma história cronológica ou um discurso regrado; tenciona-se, isso sim, lidar com a dor da existência para que, não fugindo da vida, possamos vivê-la todos os dias e o dia inteiro. A escolha e disposição destes elementos, nem cronológica nem espacialmente seriada, seguirá o irregular desenho traçado pela vida. Estes elementos do mundo, mesmo externos e estranhos a mim, me pertencem, pois é pelo meu movimento corpomental que os faço surgir.

           A mudança em curso do paradigma Ocidente torna problemática nossa relação com a vida e portanto com a multiplicidade. Esta relação com a multiplicidade parecia ter sido resolvida quando se a reduziu a uma dicotomia, instituindo-se primeiro a "certa distância" e depois a "distância certa".[2] O mundo acabou por se reduzir a um laboratório onde a vida se congelava na estufa das certezas causais. Excluiu-se a doxa deste laboratório e pôs-se na porta e janelas a figura da necessidade - uma guardiã a impedir a entrada do acaso e da eventualidade. Por muito tempo o homem sufocou, feneceu, morreu no laboratório; mas o conservou, pois naquele habitat encontravam-se a Verdade e o Poder, imagens que ao proporcionar segurança e conforto, compensavam o que se perdia em vitalidade, prazer, gozo e força. Tremores sucessivos, progressivamente mais fortes, tornaram o laboratório inseguro. As certezas ficaram abaladas e a eficácia não era mais suficiente para impedir a degradação do homem e do ambiente. Pulando a janela de um laboratório em convulsão, o homem mergulhou na vida, nos meios-tons, nas incertezas, nas imprevisibilidades. Perdida a episteme que reinava soberana no laboratório, deparou-se com a doxa da vida, figura mal vista, desprezada, denegrida, e até então desterrada. Obrigado, a contragosto, a viver o paradoxo, sentiu-se desterritorializado: nem possuía mais a pátria antiga, nem tinha ainda encontrado uma nova. Podemos dizer que o homem vivia a "experiência da meia-noite";[3] uma experiência que cada ser humano pode fazer no recolhimento de sua solidão mais radical desde que a isto se disponha.  

 

"A apreensão da meia-noite é a fulgurante apreensão de um devir, de uma simultaneidade radical, uma experiência indizível de estranhamento".[4]

 

É possível pensar esta experiência sob duas formas: uma atenuada e outra radical. A primeira como simultaneidade paradoxal e a segunda como absoluto desaparecimento de um referente temporal. Se vivermos uma simultaneidade no momento da meia noite, estaremos referidos a um tempo que, embora estranho e perturbador, é um tempo que reúne numa paradoxalidade o ontem e o amanhã. O antes e o depois desaparecem como entidades discretas, para se juntarem na paradoxalidade da meia noite, produzindo um tempo diferente do cronológico, mas que ainda dele guarda uma sombra, um indício, um tênue sopro que seja. Se pensarmos no tempo cronológico como uma nave-mãe, referente organizador do tempo sideral, um astronauta que, ao abandoná-la, vive uma paradoxalidade,  conserva de alguma maneira uma vaga idéia de sua existência, mantém um tênue fio de ligação, um translúcido cordão umbilical. As amarras foram rompidas, mas algo impalpável ainda os liga. Diferentemente de  um outro astronauta que, expulso da nave-mãe, perde todas as suas conexões com ela, mesmo as mais inefáveis.  Expelido pela nave-mãe está solto em um tempo vazio de qualquer referência; nem simultaneidade, nem paradoxalidade encontram-se à vista; o astronauta vê-se lançado em um vácuo onde sofre um angustiante sentimento de destemporalização. Talvez seja esta a mais forte experiência da meia-noite, sendo a anterior uma pálida amostra dela.

           É-me importante falar destas duas formas, pois penso ter vivido com diferentes pacientes, ambas as experiências. Mas antes de reportar-me à clínica quero, mais uma vez, expandir a "experiência da meia-noite", fazendo-a abarcar, como uma síndrome, uma história (e estória) vivida pelo Ocidente. Platão será agora a menção inicial de uma narrativa em três tempos.

           No "antes-da-meia-noite" vigora o paradigma sujeito/verdade, recalcado para o lugar do fundamento - portanto inalcançável e indizível - produzindo, à distância, efeitos de causalidade, necessidade, anulação dos tempos aiônico e cairótico.

           Na "experiência-da-meia-noite" perdemos este paradigma e somos lançados em um vácuo temporal: estamos desterritorializados e destemporalizados. Na situação de uma atenuada "experiência-da-meia-noite"  podemos viver uma simultaneidade paradoxal:  ontem e amanhã sobrepõem-se no instante vivido.

           Na radical "experiência da meia-noite" a simultaneidade e a paradoxalidade desaparecem. Estamos suspensos em um tempo estranho, vivendo radicalmente a ausência;  sentimo-nos em um vácuo sem fim como o astronauta que, perdidas todas as conexões com a nave-mãe, está à deriva em um indizível, incompreensível, terrífico tempo sideral. Não o espaço-tempo do ano-luz, mas o tempo nenhum de nenhum decurso.

           No depois-da-meia-noite - um momento que aos poucos se afirma - acostumamo-nos a viver a paradoxalidade da vida e finalmente a aceitamos com a dor que ela porta. De certa forma, fechamos um círculo, ou melhor, completamos uma espiral, retornando à Grécia Arcaica onde se vivia (isto na minha história/estória) o paradoxo como uma naturalidade. Com a intervenção de filósofos gregos – e aqui a figura que os representa é Sócrates/Platão passamos do paradigma paradoxo onde predomina a construção lethea/alethea para o paradigma da causalidade onde vigora o paradigma causa/efeito.   Desta maneira, a naturalidade, durante séculos privilégio do paradigma sujeito/verdade, estende-se e transfere-se em indecisa e flutuante intensidade à paradoxalidade.  

           É importante assinalar que a paradoxalidade do depois-da-meia-noite difere da paradoxalidade da experiência da meia-noite, pois nesta o paradoxo é vivido como absolutamente não-natural o que nos faz ansiar por uma naturalização. Um passo mais  ousado seria passar a sentir a naturalização como não-natural, naturalizando - e aqui vai um super-paradoxo - o estranhamento. Ficaríamos, assim, sempre atentos às armadilhas do pensamento.

           Em 1974 assim escrevi sobre um paciente: "Trata-se de um cliente que chamarei de Jorge. Aproximadamente dois meses antes de nossas segundas férias de análise, Jorge passou a apresentar um crescente fechamento, uma crescente resistência a deixar entrar dentro de si o que eu dizia. Eu falava de seu sentimento de abandono, dele estar me sentindo como mau e rejeitador, dele poder estar fazendo a fantasia de que eu não estava satisfeito com ele, dele estar sentindo o meu afastamento físico como um afastamento psicológico; falei de seu possível medo de que eu não o quisesse mais, de que eu não voltasse; de sua fantasia onipotente de me destruir por estar abandonando-o; de seu receio de exprimir a raiva que estava sentindo de mim. Jorge parecia ficar cada vez mais ressentido e desesperado. Busquei nos meus sentimentos contratransferenciais mais alguma indicação do que poderia estar acontecendo. O que estava predominando em mim era um sentimento de impotência. Estaria ele castigando a Mãe-Onipotente por sentir que ela (eu) o estava abandonando? Foi o que lhe transmiti. Nenhum efeito positivo. Ao contrário, ele se encerrava cada vez mais em seu mundo. Finalmente senti que estávamos em dois universos diferentes, sem possibilidade de comunicação.  Esta situação atingiu o seu clímax na pré-ante-penúltima sessão que antecedeu as férias. Jorge e eu nos sentamos e ficamos longo tempo em silêncio. Eu já não sabia mais o que fazer. Quando Jorge fala é para declarar sua impossibilidade de se ver por dentro, de tirar seu escudo, pois, se assim fizer, seu caminho natural é o suicídio. Eu compreendo que está sentindo não poder viver sem a relação simbiótica com a Mãe-Analista; compreendo que é preciso que ele me sinta como sua Mãe-Boa e que assim me conserve dentro dele durante a minha ausência. Mas, o que fazer com este conhecimento? Eu já lhe havia falado de seu mundo fantasmático; só havia servido para ele se recolher ainda mais dentro de si mesmo. Eu já não sabia mais o que fazer. Queria ajudá-lo e não estava sabendo como. Era preciso ajudá-lo. Mas de que jeito? Pode-se perceber aqui que, diante do meu fracasso, eu passei à posição de terapeuta que precisa ajudar ao seu cliente. Eu estava pois passando de um plano paratáxico para um plano sintáxico dentro do nível terapeuta-cliente.......Acabei dizendo: `Eu tenho muita vontade de te ajudar, mas não sei como; mesmo isto que estou falando é com medo de te atrapalhar mais do que de te ajudar'. Não era, porém ainda o bastante. Jorge percebeu que eu estava no nível de relação terapeuta-cliente e comunicou-me que necessitava de outro nível dizendo: ‘Não se sinta com compromisso de me ajudar. Fale comigo sem pensar em compromisso'. Passei então para o nível que realmente funcionou na situação o nível pessoa-pessoa dizendo: ‘Não sei nada de compromisso; sinto é que você está sofrendo muito e me dói ver o seu sofrimento sem nada poder fazer'. A esta altura eu estou comovido, o que reforça a atmosfera pessoa-pessoa que passa a predominar na relação’".[5]

           No momento em que não sei o que fazer, em que quero ajudá-lo sem saber como, vivo a vertigem da perda de referências. Mas é uma perda de referências que ainda mantém uma ligação com o paradigma Ocidente. Foi esta situação que me levou a idear uma "experiência atenuada da meia-noite".

           A perda de referências - o período da meia-noite - não é aqui tão dolorosa e radical, pois mesmo no momento em que as perco - em que o fundamento sujeito/verdade está ameaçado - conservo em alguma região de mim mesmo um certo modo-de-estar que, logo a seguir, permite encontrar um outro lugar de onde ver e dizer a multiplicidade. Eu simplesmente não perco o fio que me liga à nave-mãe, embora naquele momento de desorientação e perplexidade eu não esteja vivendo nenhuma causalidade e nenhum tempo cronológico. Estou vivendo sim, uma paradoxalidade, um ontem e um amanhã ao mesmo tempo, um ontem e amanhã que logo serão teorizados como níveis de relação em sobreposição: o "nível de relação transferencial-contratransferencial", o "nível de relação terapeuta-cliente" e o "nível de relação pessoa-pessoa".[6] O fundamento sujeito/verdade enraizado em mim faz com que a perda de referências se dê numa atmosfera de estranheza. Não se perde o ontem, mas a ele se acrescenta o amanhã, vivendo-se assim uma estranha simultaneidade; o fundamento sujeito/verdade vem à tona não para ser destruído, mas para permitir um duplo movimento: a "distância certa" admite uma outra "distância certa" o que faz com que ambas se transformem em "certa distância"; as várias "certas distâncias" convivem em uma simultaneidade paradoxal. Agora o fundamento sujeito/verdade, embora vigore, encontra-se exposto, sensível, vulnerável. Logo, uma outra paciente investirá mais dura e diretamente contra este fundamento. O paciente do qual estou no momento falando não pretendia me destituir da posição do analista-que-conhece. Queria apenas que eu (não ele) encontrasse novos parâmetros terapêuticos. A minha experiência da meia-noite, nesta terapia, está atenuada, pois no momento mesmo em que estou perdido, perguntando com aflição "que fazer?", mantenho uma expectativa: é possível encontrar uma outra "boa distância" que superposta à "distância certa" anterior, transforma-a e a si mesma em "certa distância" sem deixarem de ser "boa distância". É assim que encontro a relação fantasmática transferencial-contratransferencial convivendo paradoxalmente com a relação sintáxica terapeuta-cliente e com a relação pessoa-pessoa. Todas elas "certas distâncias" e "boas distâncias". Mas, com tudo isto, começa a ser questionada a validade de meus conhecimentos analíticos, tangenciando-se a questão de minha legitimidade como analista. O fundamento sujeito/verdade está agora profanado pela luz do dia e, nesta posição de maior vulnerabilidade, sua resistência aos ataques que virão tornar-se-á mais problemática.

           O decisivo ataque ao fundamento sujeito/verdade veio de  uma paciente borderline a quem chamarei de Ana. A certa altura de nossa relação terapêutica Ana, expressando sua necessidade de uma relação viva, passou a atacar esse fundamento. Meu conhecimento teórico e minha técnica de “expert” faziam-na sentir-se um objeto, excluída assim de uma relação verdadeira. Pedia desesperadamente que eu fosse apenas uma pessoa espontânea. Nada de teorias e técnicas; uma absoluta sinceridade, isto sim, a salvaria da prisão psicótica.[7] Este chamamento para uma interação pessoal livre e desinibida alimentava-se do desespero de Ana, de seu desejo de uma vida menos conturbada, da certeza de que somente um relacionamento absolutamente aberto e transparente a salvaria. Eu deixaria de ser um sujeito que sabia a verdade e tanto o sujeito quanto a verdade flutuariam ao sabor da relação; uma relação não mais apenas de palavras, mas de emoções, sentimentos, movimentos, corpo. Ela propunha uma proximidade que na verdade eliminava o espaço,  alterava o tempo e revelava o paradoxo sujeito/verdade. Ela me fazia viver a dolorosa experiência de não ser contemporâneo de mim; eu deixara de pertencer à classe dos analistas; eu não era mais uma pessoa inserida em um contexto social, familiar, histórico; estávamos ali numa relação mítica originária, onde tanto o sujeito quanto a verdade seriam re-criados. Ao se eliminar a distância prescindia-se da representação e a interpretação era substituída pela experiência covivencial: "Uma diferença essencial entre a segunda e a terceira fase, faz-se imediatamente notar. Como já ficou registrado, a ameaça de rompimento da relação simbiótica gerava em Ana raiva ou indiferença; estes sentimentos não penetravam diretamente dentro do analista. Ficavam como que colocados em um espaço intermediário e, a partir daí, eram percebidos e sentidos. Não tal ocorreu na terceira fase. Ana não sossegou enquanto não conseguiu me tirar da posição de serenidade terapêutica. Para isto recorreu a inúmeras, variadas e complexas técnicas; conseguiu finalmente eliminar o espaço-tempo existente entre nós; suas palavras, atitudes, emoções podiam agora me atingir dentro. Desaparecia o espaço intermediário protetor".[8] Nem "distância certa", nem "certa distância"; embora ladeados pelo espaço-tempo da cultura ocidental, vivíamos, no parêntesis do consultório, um tempo não cronológico, uma duração. Pensar deixava de ser representar para ser movimento, co-moção. Mas foi preciso percorrer um caminho para aí chegar. Com Jorge o questionado não é o fundamento sujeito/verdade. Jorge pretende manter o analista como um sujeito capaz de dizer uma verdade. Pretende, pois, manter uma distância entre analista e analisando, uma distância que exige a presença da representação.  Só não lhe agradava a "verdade" que vinha sendo dita pelo analista. Tratava-se de uma verdade aparentemente despida de afeto e para Jorge era fundamental que o amor estivesse presente na verdade que lhe era dita. Não podia ser uma verdade qualquer; tinha de ser uma verdade amorosa; mas ao mesmo tempo esta verdade amorosa deveria ser dita por um analista reconhecido como tal pela sociedade à qual pertencia. Desta maneira, a dicotomia neutralidade/amor transforma-se em uma simultaneidade, em um paradoxo. Um paradoxo ainda vivido em termos de proximidade/distância; o espaço é ainda o recipiente onde os eventos acontecem. Já Ana faz desaparecer o espaço questionando o próprio fundamento sujeito/verdade, obrigando-me a sair de minha posição protegida de observador e lançando-me na multiplicidade, no pensamento/corpo/movimento, na paradoxalidade vida/laboratório. A multiplicidade e a vida eram verdadeiramente vividas, mas dentro do espaço do laboratório analítico; eu estava assim radicalmente numa fenda aberta entre dois mundos, e palidamente no ponto de superposição destes mundos. Em 1980, assim descrevi o processo de conversão que Ana propiciou: "Minha atitude analítica fazia-a sentir-me falso, hipócrita, escondendo o que pensava e sentia. Pedia-me insistente e dramaticamente que expressasse o que sentia a seu respeito, que reagisse espontaneamente sem me apegar a regras psicanalíticas. Sua expectativa era de que, ao permitir-me deixar fluírem as emoções sem um controle normativo, viesse a fazer uma relação amorosa-erótica de tipo simbiótico-infantil com ela. Esta sua expectativa existia por não levar em conta a realidade mais global, a sua necessidade de ajuda terapêutica, a minha situação como psicanalista e como pessoa inserida em um contexto social. Estes aspectos que ela não vivenciava, embora os conhecesse intelectualmente, estavam vivamente incorporados em mim. Confiando, pois, no meu sentido de realidade e vencendo grandes resistências internas, terminei por aceitar o desafio, renunciando gradativamente ao aspecto normativo da psicanálise e passando a agir mais espontaneamente. Enquanto que para Ana a nossa relação era praticamente tudo, toda a sua vida e esperança, para mim era parte de uma realidade maior, tendo certas relações qualitativas com o resto de minha vida. Aceitei, pois, como disse, a sua proposta. Falei de minha raiva dela, de meus sentimentos eróticos, de meus sentimentos ternos, etc. Isto levou-a a atuar ainda mais os seus impulsos. Diante destas atuações, evitei realizar intervenções baseadas no meu conhecimento teórico, que só a desesperavam. Resolvi confiar nas minhas emoções e sentimentos, especialmente aqueles ligados à minha sobrevivência como pessoa e como profissional. Eu tinha a convicção de que nem minha agressividade, nem meu afeto ultrapassariam os limites que a terapia impunha. Tinha a certeza de poder sempre manter em mente o objetivo terapêutico psicanalítico. Respondi positivamente ao seu pedido de espontaneidade para que ela pudesse perceber que ser espontâneo não significava simplesmente dar vazão a todo e qualquer impulso com toda a sua intensidade. Eu queria que ela vivenciasse a existência de um controle não-normativo dentro de mim para que pudesse desenvolver, pela via de identificação primária, um sentido maior de realidade, saindo da fantástica simbiose que imaginava para nós dois. Quando a sua atuação chegou ao que eu senti como ultrapassando os limites de minha tolerância, aproximando-se perigosamente da fronteira daquela zona de segurança representada pelo objetivo terapêutico da relação, a situação mudou. Sua agressão e sedução agora me ameaçavam; por vezes ela parecia uma sereia querendo arrastar-me para o abismo da fusão perfeita. E então tive medo; um medo autêntico que me levou a frustrá-la; a frustração que eu lhe impunha não mais poderia ser chamada de artificial: sem dúvida nenhuma era espontânea. Desencadeou-se nela então uma raiva primitiva, transformando aquele ser franzino e aparentemente frágil em um tigre dotado de força, paixão, determinação. Chegou a minha vez de sentir um medo primitivo; e foi justamente este medo primitivo que emprestou uma convicção irrecusável à minha contenção da situação. O meu grito de "Pára com isso" tinha agora a força das paixões mais primitivas".[9]

           Ana não admitia que nenhuma distância se interpusesse entre nós. E eu terminei por compreendê-la. Para viver a multiplicidade é preciso estar imerso nela; pois, a mínima distância é sentida como um afastamento insuportável, provocador de uma esclerose do fluir de emoções e fantasias. Desfiz-me assim, respeitando o timing, do jogo aproximação-distância, e me perdi na multiplicidade Ana. Como se pode observar no relato clínico, houve momentos em que esta ausência de distância tornou-se intolerável, quando então se restabelecia um espaço, uma distância, novamente vigorando um jogo de aproximações-afastamentos. Havia, porém, outros períodos em que o espaço desaparecia, só restando o tempo-duração aiônico como um meio no qual nos movíamos.

           Se pretendemos conhecer objetivamente objetos quase-fixos e quase-imutáveis - os assim chamados objetos inanimados - não poderemos nos colocar junto a eles. Sendo a sua ação sobre os nossos sentidos constante e monótona, ao permanecermos junto deles no mesmo plano da physis e portanto com eles confundidos, deixamos de ser afetados, tornando impossível o seu conhecimento objetivo. Já os seres vivos, em permanente moção, nos afetam a cada instante; nossa permanência junto a eles não poderia, de maneira alguma, ser denominada de monótona, pois em cada momento acontece um novo estímulo, obrigando-nos a um conhecimento que passa por todo nosso corpo.  Se então, estamos diante de objetos não-vivos é preciso que deles nos afastemos para, a partir de certa distância, vê-los e dizê-los. Impõe-se, dominantemente, uma perspectiva externa, espacial. Fazemos um movimento de recuo para abarcar (reunir) estes objetos quase-estáticos.   Saímos da multiplicidade e encontramos a mínima distância que permite concomitantemente conhecer e partilhar. Esta é a "certa distância" que logo se transformará em "distância certa". Porém, em se tratando de psicanálise, qualquer espacialidade interposta entre observador e observado alterará a qualidade da relação. Se um analista se afasta de seu analisando para observá-lo em sua multiplicidade, estará transformando a relação singularidade/singularidade em relação sujeito/objeto, estará imobilizando um ser em transformação, desconsiderando a sua essência, retirando vida do relacionamento. Um micrométrico afastamento já produz este efeito; para evitá-lo torna-se necessário abandonar a espacialidade. Ainda mais que, diante de um ser vivo que se move e se transforma, a mínima demora no ponto escolhido como o lugar da "certa distância" fará com que a verdade dali vista e dita não mais encontre o ser vivo movente. A multiplicidade do ser humano acontece não num plano espacial, mas num plano temporal, exigindo do analista não um afastamento no espaço, mas uma dança no tempo, um saltarelo, um saltarilhar, um ritmo. Sai-se então da ordem do espaço e entra-se na ordem do tempo; o analista  poderá então sintonizar as suas moções com as do analisando. Neutralizando o espaço (operação inversa à realizada pelo paradigma Ocidente), o tempo manifesta-se em toda sua pujança. O fluir ganha ímpeto e em um primeiro momento o tempo aiônico domina por completo a cena analítica.

           A situação analítica, que já nos obrigou a prescindir do espaço, ensina-nos a viver a multiplicidade sem nela nos perdermos. A operação desespacializante é solidária à perda do fundamento sujeito/verdade. A perplexidade e desorientação seqüente só se atenua quando a dissolução deste fundamento permite o aparecimento de duas outras referências: o desejo de sobrevivência pessoal e social e o objetivo terapêutico psicanalítico. Se relermos o último trecho concernente ao tratamento de Ana, lá encontraremos o aparecimento destas referências, destas linhas de atração; por acreditar na possibilidade de um pensamento/corpo-ação pude renunciar ao pensamento representacional, desistindo de interpretar e deixando-me engolfar pela paciente, vivendo assim não mais no espaço da representação, mas no tempo da multiplicidade. Só pude fazer isto por me sentir impregnado pelo objetivo terapêutico da relação e por confiar no meu mais profundo desejo de sobrevivência pessoal e social. Foi um entranhamento garantido por estas duas forças mantenedoras de minha identidade de psicanalista e pessoa. Elas participavam das minhas ações e sentimentos na terapia. Não eram referências teóricas, externas a mim, mas referências imanentes que pertenciam ao cerne de minha individualidade, de minha identidade. Imerso na multiplicidade, estes dois pontos de convergência luminavam, ecoavam, impedindo minha desorientação e desintegração. Tudo fluía tudo se transformava, mas estas luminescências, estas sonoridades, persistiam. Não que não acompanhassem o devir; arrastadas pelo fluxo do tempo, ainda assim a ele se impunham; mas ao mesmo tempo, levadas de roldão, sofriam deformações que, por serem elásticas, não eram definitivas.

           Poderia parecer estar havendo simplesmente a substituição do fundamento sujeito/verdade por um outro fundamento: objetivo terapêutico/sobrevivência. Há, no entanto, diferenças evidentes.  O fundamento exerce efeitos à distância sendo ele próprio inalcançável e indizível. O fundamento se dá na espacialidade, sendo o recalcamento do tempo uma de suas origens, um de seus efeitos e um de seus sustentáculos. O fundamento não flui; pelo contrário, como um rochedo, permanece fixo, e como um Rei Midas estatua tudo que toca; seus tentáculos geometrizam o devir, imobilizando-o nas figuras da necessidade, causalidade, método. O objetivo terapêutico e a sobrevivência que doravante chamarei de insinuâncias para distingui-los de fundamento pertencem ao tempo e não ao espaço, não estão recalcados, não inibem o devir - ao contrário, o acompanham - e não produzem figuras à distância que os representem. Podemos pensar na sobrevivência como uma vibração constante dos tecidos, da mente, dos órgãos, células, moléculas, produzindo um som insinuante que banha os aconteceres vividos insistindo em/com sua freqüência e nela perseverando apesar de todos os ataques que os aconteceres lhe possam fazer. Já o objetivo terapêutico pode ser figurado como uma claridade que, lançada pelo sentimento de identidade social no campo psicanalítico, insinua-se, difunde-se pelos aconteceres. Afetado por estes mesmos aconteceres, o sentimento de identidade social maneja um diafragma que ora obscurece, ora clareia o campo psicanalítico.

           Estas insinuâncias acrescentam ao tempo aiônico um tempo cairótico, o tempo de um evento que vibra ao som e à luz destas insinuâncias. A intervenção do analista será sempre um possível aberto a eventualidades transparentes à luminescência e à sonoridade do objetivo terapêutico e da  sobrevivência.

                Temos assim um analista lançado em plena multiplicidade, aprendendo a conhecer, a se relacionar e a se comunicar para além das coordenadas espaciais. A navegação neste tempo incomensurável dele solicita uma alma de poeta.

                                      

Nahman Armony



 
[2] Expressões ouvidas em um curso de Marcio Tavares. Na “certa distância” diferentes verdades podem ser pronunciadas por um mesmo homem em diferentes momentos ou por diferentes homens. Na “distância certa” todas estas possibilidades reduzem-se a uma única verdade a ser aceita por todos.
[3]Idem.
[4]Notas de aula do curso acima citado.
[5]ARMONY, N., 1989 “Contratransferência alogênica e autogênica: duas noções auxiliares para a compreensão dos fenômenos contratransferenciais”. p. 27-28.
[6]Ibidem, p. 26.
[7]Ibidem -” Modificações do enquadramento terapêutico no tratamento de um cliente esquizofrênico”, p. 42.
[8]Ibidem, p.41.
[9]Ibidem, p. 44-45.

PRATICIDADE E TERNURA

O amor, em sua riqueza, comporta vários pares de opostos. Entre eles, a dupla sensível/prático. Na vida real, esses dois modos de expressar o amor em geral se misturam em várias proporções; mas convém separá-los em seus dois extremos para efeito de compreensão. A relação mãe-filho exemplifica bem essa duplicidade.

Podemos idear uma mãe com dificuldade de contato físico: não consegue dar ao filho o carinho, o colo, o estímulo tátil de que necessita. Não que deixe de levar o filho ao regaço; mas o faz sem muito carinho — quase, talvez, como se carregasse um embrulho. “Não se estraga o filho com mimos”, era a desculpa que antigamente se dava a essa atitude. O amor dessa mãe se expressa nos cuidados materiais. Tudo é perfeito: a mamadeira cintila de limpeza, o leite tem a temperatura certa, as roupas são imaculadas, o quarto é higienizado, a saúde física recebe atendimento imediato, e mais e mais. Este, o amor prático. Em contrapartida, a mãe de amor sensível é capaz de relação íntima com o bebê, de pele e adivinhação, de carinho extremo, de brincadeiras divertidas, de trocas que são mútuos estímulos para entrarem numa esfera de paz, enlevo, alegria, harmonia.

Mas, por outro lado é desorganizada e desleixada.

Nos adultos reconheceríamos o amor prático quando o parceiro exercesse suas funções sociais, econômicas, humanitárias e domésticas. A casa bem arrumada, abastecida, a reunião bem planejada com bufê original e saboroso, a dedicação ao consorte em situação de doença, o comparecimento a festas e reuniões importantes, a ajuda financeira nas emergências, a disposição de gastar o que for necessário para poupar sofrimento e dar conforto e segurança ao ser amado.

Quanto ao amor sensível, este acompanha a pessoa amada em seus sutis desdobramentos e derivações, permitindo uma compreensão e ação tão refinadas que a um observador pareceria bruxaria, adivinhação a ultrapassar a barreira dos sentidos. Vinicius de Moraes  o expressa muito bem no seu Soneto da Fidelidade: “De tudo, ao meu amor serei atento/ Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/ Que mesmo em face do maior encanto/ Dele se encante mais meu pensamento.”

Acompanhemos o poeta em sua comovente devoção: atento ao seu amor, capaz de sintonizar com o deslizar de afetos, emoções e desejos da amada, é a própria dedicação que a torna a mulher mais encantada do mundo. Vinicius aqui não fala dos aspectos materiais da vida. Ele está falando do amor que se realiza na aguçada percepção dos estados de espírito, dos desejos, das insatisfações e desconfortos do parceiro. A percepção permite que haja respeito à sensibilidade e tolerância à suscetibilidade. O amor sensível exige especial despojamento do casal, cuja recompensa é a intensa e deleitosa troca afetiva.

É comum encontrarem-se amores sensíveis sem seu complemento prático. São pessoas que, embora coloquem em ação uma sensibilidade que lhes permite intuir e atender à subjetividade do parceiro, criando um vínculo forte, não conseguem ajudá-lo quando se trata de questões materiais. O inverso é também verdadeiro. Algumas pessoas, com dificuldade de estabelecer relações íntimas, manifestam seu amor com extremados cuidados práticos. Não se pense, porém, em desamor, pois estamos diante de  características quase intransponíveis, advindas das vicissitudes do crescimento pessoal.

Em geral o amor sensível é acompanhado de amor prático. Mas também ocorre que a maior ou menor proporção de um e de outro criem problemas na relação. Por isso é importante tomar consciência do tipo de sentimento que nutrimos pelo outro: podemos nos dedicar a desenvolver melhor a sensibilidade ou o nosso lado prático, o que favorece o equilíbrio que leva à harmonia.
               Nahman Armony

WINNICOTT E A CRIATIVIDADE PRIMÁRIA


Winnicott nos fala de uma criatividade primária. Seria uma criatividade que surgiria a partir da subjetividade pura, ainda sem objeto. Um bebê com fome tem uma sensação física. Esta sensação física vem acompanhada da uma atávica intuição de que existe um objeto que poderá aliviar esta fome. É uma sensação vaga, nebulosa que vai se delineando cada vez mais claramente na medida em que as experiências de mamada em um seio se repetem. Usando uma linguagem fotográfica, a resolução é cada vez mais nítida. O objeto que se vai delineando, a princípio não tem existência própria. É criação e parte do bebê, pois o bebê ainda não tem noção  de eu e outro. Mas ao mesmo tempo em que o objeto seio/mãe/circunstâncias vai se tornando mais nítido o bebê começa a distinguir o eu do não-eu até o ponto de criar para si o objeto e o espaço transicional. O mesmo objeto que era apenas ele – um paninho encostado no rosto -- quando chega o momento, transforma-se em um objeto transicional externo e interno ao mesmo tempo. Pois bem, enquanto o objeto é apenas subjetivo, isto é, não há distinção entre eu e não-eu a criatividade é chamada de primária. Portanto a  criatividade primária tem a ver, conceitualmente com subjetividade pura. Como estava dizendo acima a dor da fome sofre uma “elaboração imaginativa de função” e aparece como aquela sensação vaga e indefinida de existir um objeto que corresponde à fome. Quando surge o seio o bebê dirá “Ah aqui está o objeto que eu elaborei imaginativamente a partir da função digestiva”. A sensação vaga é elaboração imaginativa de função que recebe um reforço com o aparecimento do seio, mas que do ponto  de vista do bebê continua a ser uma elaboração imaginativa da função digestiva. Só quando ele distingue o eu do não-eu o aperfeiçoamento da figura do seio deixa de ser elaboração  imaginativa de função para ser um tomada de conhecimento do mundo exterior. Como o seio continua investido de fantasias o objeto seio agora é subjetivamente concebido como o fora no época inaugural e objetivamente percebido. Há uma junção aqui do subjetivo com o objetivo.
O outro tipo de criatividade tem origem no espaço transicional. E aqui criatividade tem a ver com contacto vivo com o mundo externo. Significa dar um sentido à vida. Significa sentir que o mundo lhe pertence e que ele pertence ao mundo. Esta sensação tem seu precursor na dependência absoluta onde o bebê é onipotentemente o mundo, é onde ele tem a sua experiência de onipotência. Sua segunda etapa nós a encontramos na experiência de transicionalidade, de espaço, objeto e fenômenos transicionais, onde ele já reconhece a realidade externa (objeto objetivamente percebido), mas impregna este objeto de subjetividade (ursinho, etc.) Enquanto protegido pelos pais e enquanto intelectualmente imaturo, predomina o subjetivamente concebido. Aos poucos a objetivo torna-se uma necessidade e encontram-se várias formas de mistura e convivência do subjetivamente concebido e objetivamente percebido. Formas estas às quais eu já me referi acima.
A criatividade depende de uma mãe suficientemente boa capaz de um holding adequado, isto é, um holding que permita o bebê aceder ao espaço transicional. Eu já disse que o holding é uma nova maneira de viver e ver a vida, uma nova perspectiva, diferente do autoritarismo, dever, imposição, falso self, etc. Juntamente com o holding temos a espontaneidade, o espaço transicional, o verdadeiro self.
Jan Abram no seu livro “A Linguagem de Winnicott” adverte que o “ato criativo (como o pintar, o dançar, etc.) não é um sinônimo de viver criativamente. O viver criativamente tem mais a ver com a força vital que lança mão dos instintos para tornar-se um objeto ontologicamente presente no mundo. Esses instintos evocados pela força vital dão existência ao viver criativo. O viver criativo tem a ver com um sentimento de pertencimento ao mundo; tem também a ver com a capacidade de encontrar a poesia e a arte na coisas mais simples existentes no Universo. Isso fica muito claro no filme Paterson onde um simples objeto inanimado é olhado cuidadosamente, intensamente, ganhando uma aura                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  divinal que é pura poesia. ‘A criatividade primária apresenta-se como um impulso inato que se dirige à saúde’ (frase de Jan Abram apresentando uma ideia de Winnicott). Ao impregnar um objeto ou um fenômeno de criatividade primária estaremos na vigência do que Winnicott chama simplesmente de ‘criatividade’.

  

DIFICULDADES DO RELACIONAMENTO AMOROSO


FALSO E VERDADEIRO DIÁLOGO

 

Desde que a mulher conquistou independência financeira e autonomia pessoal, o diálogo passou a fazer parte da vida de casal. Antes prevalecia a voz masculina, dona do dinheiro e do poder, voz que ditava as regras de convivência e que, em querendo se manter no domínio absoluto da situação, abafava o clamor feminino. O diálogo permitiu à mulher fazer reivindicações, introduzir o modo feminino de ver o mundo, afirmar sua individualidade e lutar por desejos e valores. Estabeleceu-se uma relação igualitária na qual é preciso negociar e chegar a ajustes. A mulher, que até então reprimia a própria singularidade, pôde aparecer com a sua potência, enriquecendo a relação, a família e a sociedade. Por isso mesmo, devemos saudar o entranhamento do diálogo na mentalidade atual. Permite uma convivência afetuosa e democrática; oferece a oportunidade de exercer a intimidade e a diferença; e, ao mesmo tempo em que flui o amor, cada membro do casal afirma a sua singularidade. Os enfrentamentos enriquecem a ambos, pois abrem espaço para a compreensão da subjetividade do parceiro por meio de um exercício de identificação. Isso lhes permitirá serem tolerantes com as diferenças individuais, podendo então aceitar limites. Comunicações verdadeiras são guias preciosos no cipoal de suscetibilidades, fantasias, introjeções e projeções que acontecem em uma relação; quando desejos e sentimentos deixam de ser expressos, o casal fica perdido quanto à conduta do outro. Posso pensar, por exemplo, que a cara fechada com que minha parceira me recebe significa zanga comigo. É possível. Mas também pode ter ocorrido algo desagradável independente de mim. Só uma conversa esclarecerá a situação. Por outro lado, o diálogo passou a ser tão valorizado que se transformou em valor absoluto. A recusa em dialogar ou a sua interrupção tornaram-se politicamente incorretos podendo então criar um ponto de atrito prévio à conversação. Mas o diálogo apresenta outro grande perigo que o destrói como entendimento e acordo. Vejamos por quê:

O diálogo é produtivo até o ponto em que, por ele, se chega a perceber as diferenças. Ultrapassado este estágio, negocia-se uma convivência. A paz reinará enquanto o casal aceitar as dessemelhanças. Mas, se um deles quiser fazer prevalecer seu ponto de vista, poderá usar o diálogo para pressionar o parceiro a mudar seu modo de ser e/ou seus pontos de vista. O perigo maior acontece quando há convicção de que está acontecendo um verdadeiro diálogo, quando na realidade entra em cena o perigoso pseudodiálogo. Um exemplo: imaginemos o casal em que um seja aventureiro e goste de correr riscos, e o outro, conservador, prefira a segurança à ousadia. Depois de um período de desentendimentos, em que a ação de um é questionada pelo outro, resolvem sentar-se e dialogar. Imaginemos que constatem diferenças de temperamento e negociem um acordo. Pode ser que o acordo seja aceito. Ou não. Neste último caso, é possível que o parceiro insatisfeito queira reabrir o diálogo. Acontece que o diálogo deu o que tinha de dar. Reabri-lo seria repetir as falas. E fala repetida não é mais uma tentativa de conhecer e entender, mas forma de pressão e manipulação. Contudo, tendo o diálogo adquirido o status de politicamente correto, torna-se peremptório; assim, cai-se em uma armadilha. Este é o momento de desmitificar o diálogo como panacéia universal. Nesse ponto transformou-se em pseudodiálogo, que esconde um desejo de domínio, uma forma de fazer prevalecer uma opinião e maneira de ser.

É preciso ter lucidez a respeito de suas verdadeiras intenções ao encetar um diálogo. É preciso lembrar de que o objetivo é conhecer as motivações do parceiro, expor as suas, aprofundar o respeito e o conhecimento mútuos, e alegrar-se com a convivência de diferentes como fonte de aprendizado.
                                                                Nahman Armony