PSICANÁLISE - UMA ALEGORIA MUSICAL

                  Tendemos hoje a dizer que  o homem está imerso na fala. Pois bem, perdendo as pernas do passo da história, mas ganhando as asas de vôo de um pensamento que não teme a poesia, diremos que tanto  fala quanto  homem estão mergulhados em música. Música do universo, música da natureza, música da vida, música da civilização, música harmoniosa dos rios, ventos, folhas, cachoeiras, música assustadora dos vulcões, incêndios, tufões, tempestades, música rascante, ferruginosa e dissonante do tráfego, construções, consumo, competição, música eletrônica da pós-modernidade, música primeva que compomos e ouvimos junto à mãe, no nascimento do primeiro choro e nos gemidos de dor e gorjeios de felicidade que irrompem no parto.

Aqui nos encontramos com uma música muito especial; a música da voz humana em seus timbres, inflexões, delicadezas, ritmos, vigor, expressividade. A mãe que emite um oceano de sons maviosos, onde palavras são minúsculas ondulações, pequenos navios perdidos numa imensidão inefável, realiza um predestinado dueto no retorno musical de seu pequeno ser dependente. Obedecendo sua fatal vocação, a música acrescenta novas embarcações ao mar sonoro; e então este mar, este oceano, coalha-se de pequenos pontos que servem à nossa comunicação. Palavras, frases, sentenças, discursos embalados por ventos musicais, pela música das ondas, adquirem mais e mais significações, sutilizam-se impregnando-se destes ventos, embalos, ondas, movimentos, incorporando a música universal, incorporando-se à música universal.

O dueto inicial que, em fluindo, transforma-se em afinada polifonia, poderá sofrer, nas vicissitudes do desenvolvimento humano, paradas, distorções, desvios, recuos, constrições. É tarefa do psicanalista recuperar a fluência musical da vida, revolvendo, se preciso for, os acordes inaugurais da existência, o choro, a dor, o deslumbramento primevos, onde as palavras - pequenos navios - são liliputianas ondulações criadas e tragadas pelo  mar do inefável. Se preciso for, diante do borderline, há que entoar os cantos primitivos, o ritmo originário do coração e respiração, o ruído do regato e das tempestades. O analista terá como musa - aquela que o transportará para uma região atemporal de origem - a mãe que fala musicalmente com o seu bebê, esculpindo sons de inexcedível doçura, de maviosidade extraterrena, produzindo um mundo de mágico encantamento, uma ilha, um ovo cercado e penetrado por música. É lá que as coisas se passam com os borderline. Lá encontramos a dor pungente do 1o movimento da Sonata ao Luar, as expansões de amor, ternura e êxtase do Concerto para Violino e do "Romeu e Julieta" de Tchaikovsky, a explosão de alegria da Ode da 9a. sinfonia de Beethoven; lá está a máxima beatitude e o desespero supremo. Lá desencadeiam-se ternuras e ódios, tempestades e calmarias. O mar paradisíaco encrespa-se,  as ondas alteiam-se e despencam formando um côncavo, um oco faminto, devorador, capaz de engolir as embarcações e seus seres - o oceano profundo, trágico e denso, brame; a díada primeva está em face de um poderoso buraco negro, que atrai e tritura. É com estas paixões, as mais primitivas, que o analista se defronta e só a mobilização de uma sensibilidade, um desejo, uma palavra e um amor primitivos - um primitivo que remonta aos primeiros tempos de vida - poderá servir de guia para o seu proceder.

Mas, no encontro com o borderline, não só situações psicóticas se expõem ao analista. Também as neuróticas se fazem presentes. Qual a sua música?

Pensemos em Mozart, um mestre do classicismo que sublima, com suas formas perfeitas e em suas formas perfeitas, as intensidades e as pulsões, permitindo que delas se evole apenas o aroma, extrato depurado em serena beleza; o apolíneo reina ainda nos mais fortes e intensos momentos das sinfonias. Somos delicadamente impregnados pelas forças que fluem através de sua amálgama com a forma. É também brandamente que os conflitos, fantasias e emoções de nossos analisandos em estado de neurose nos afetam. As tempestades d’alma que campeiam no inconsciente, passam pelo filtro das representações e das defesas e se nos apresentam mitigadas, estruturadas, um sopro do tufão caótico original. A palavra aqui torna-se mais diferenciada, ganha contornos mais nítidos, menos imprecisos. Esta é uma região mais confortável mas prenhe de perigos; aqui exerce-se a atração da palavra dura, distanciadora, dicotomizadora, científica, precisa, rígida, à qual Pannikar20 chamou de designativa. Portanto há que tomar cuidado com o classicismo. A preocupação com a forma e com a formalização pode gerar uma dicotomia radical, onde  palavra e experiência vivida se separam, criando um vazio afetivo, uma relação problemática com a criatividade e a vida.

Tenho um disco curioso. Dois concertos de violino, um em cada face do disco. Ambos de Haydn: um do genial Joseph Haydn e outro de seu irmão Michael Haydn. Ambos tocados por Robert Gerle. Mas, que diferença! Em Joseph Haydn a forma está repleta de um sentimento volátil que, por volteios e melindres, galga escarpas, percorre aléias, descobre cantos e recantos, mansos e remansos, inventa climas, sutiliza madeiras e metais, mantendo um equilíbrio múltiplo entre  variação e  constância. Desfilam diante de nossos ouvidos jóias de ourivesaria, talhadas em infinitos detalhes, jóias a serem viradas e reviradas em todos os seus quadros e ângulos para que sua sutil beleza possa ser descoberta e redescoberta até uma saciedade impossível. Estamos diante da Palavra Real de Pannikar.[1] Outra,  a música de Michael Haydn. Ela já nasce saciada; nela tudo é previsível, convencional, uma larga estrada percorrida em linha reta com paisagens de estúdio onde mesmo acelerações e curvas não desfazem a monotonia de formas vazias, de melodias sem volutas, harmonias sem inventividade, orquestração presa à materialidade dos instrumentos musicais - palavra designativa.

Teríamos aqui duas faces da linguagem. Uma, melodia inventiva, modulante, surpreendente, sonoridade que penetra na alma, coração e mente e outra convencional, burocrática, intelectualizada, formal. Numa face, palavras possuidoras de alma sonora mobilizam, emocionam, transmutam; na outra, termos despojados de alma permanecem vagando  no limbo da racionalidade estéril. 

Mozart, clássico dos clássicos, tal como Haydn, embebe suas formas musicais perfeitas em fluidos originários. Mas mesmo Mozart, Haydn e neuróticos perfeitos são  por vezes acossados por uma emoção desbordante; o sentimento ultrapassa a própria forma e a estética apolínea hesita diante de  uma intensidade desbordante. A Sonata em Mi menor para violino e piano, Köchel 304, em dois movimentos, de Mozart, escrita após a morte de sua mãe, deixa transparecer profunda tristeza e imensa nostalgia. Nos neuróticos as representações e defesas mal conseguem vincular sentimentos profundos de desvalimento, medo, amor, ódio, provocando um desequilíbrio no tranqüilo curso da análise.

Mas estamos aqui falando de um neurótico ideal, talvez um neurótico obsessivo sem sintomatologia florida; falando mais de sintomas primários de defesa que de sintomas de conciliação, mais de uma caracterologia que de formações sintomáticas. Um neurótico ideal, cujo ego absorveria e simbolizaria toda a atividade pulsional do inconsciente. Portanto um neurótico absurdamente normal, um ser ideal a pairar acima de nosso imperfeito mundo sublunar.                                  

Mozart, mestre do classicismo, impregna suas criações irretocáveis com os rios primordiais de suas experiências mais remotas. Habitante do mundo celestial platônico, gera formas perfeitas, produzindo uma excelsa música das esferas.

Beethoven, caminhando a passos largos para a modernidade, quebra a compostura dos salões nobiliárquicos, introduzindo a inquietude, a rebeldia, o sarcasmo, abalando a tranqüila continuidade das consciências e das seqüências sinfônicas. Beethoven brinca, agride, desconcerta, violenta, desafia a forma, criando a música do homem moderno:  heróico, ruminativo, idealista, preso pela má-consciência, algemado por modelos, atormentado por um ideal-de-ego exigente e por um superego cruel e implacável. Um superego que tem de dar conta de singularidades que pressionando as estruturas rígidas formais, pessoais, sociais, realizam,constantemente, aparições  intempestivas.

Em Beethoven a constância do imprevisível; uma pausa súbita, uma querela inopinada, uma dissonância sem preparação e sem resolução, uma galhofa, um jogo bravio, afável ou brincalhão de temas confluentes, uma repentina delicadeza, um fortíssimo, contrastes extremos e o que mais se possa pensar de vivo, mutável, inesperado. A emoção ultrapassa a forma clássica criando novas formas de expressão, construções singulares de grande plasticidade, mais acordes às mutações da modernidade. O analista discute o setting, o valor da interpretação e da palavra, desmistificando o enquadramento rígido do classicismo psicanalítico, deixando emergir, aparecer, surgir formas de comunicação sutis, aceitando a identificação e a empatia que irrompem na interação com o borderline como modos válidos de comunicação, relacionamento e conhecimento, afinando-se assim com as modificações do entorno social/pessoal. A psicanálise expande-se ao infantil, ao institucional, à família, ao corpo, ao casal, ao social, superando seu próprio formalismo e construindo novas formas, mais pertinentes à contemporaneidade. Aprende-se que a elasticidade das formas é fundamental para atender à variedade e multiplicidade de uma sociedade em processo de acelerada transformação. Beethoven realiza um  percurso que, do clássico ao moderno, passa por um  romantismo modulante, desemboca no cromatismo de Wagner, evolui para o dodecafonismo e o atonalismo para finalmente, perdendo seus parâmetros, ganhar uma liberdade pós-moderna onde, em princípio, tudo está de antemão validado: do modal ao atonal, dos mais primitivos instrumentos às realizações eletroacústicas, da forma sonata às formas livres.

É neste mundo complexo e vário que - penetrados pela trepidante música da vida hodierna, entoando-a com nossa própria voz, amalgamando-a às nossas palavras - produzimos uma subjetividade com seus modos próprios de comunicação e relacionamento.
 
                                        Nahman Armony




[1] PANNIKAR, R., 1979.

AMADURECIMENTO

Este texto dirige-se aos jovens, que, devido ao privilégio provisório da juventude, não tiveram tempo de consolidar a autoestima e seu sentimento de identidade adulta. Espera-se que tais condições ocorram no futuro, quando se realizarem na profissão que escolheram, obtendo o reconhecimento dos pares, integrando-se na comunidade e sentindo competência ao aprenderem a lidar com fracassos ocasionais. Por enquanto, estão vulneráveis e precisam defender a autoestima e a identidade adulta em formação. São circunstâncias que complicam relações interpessoais, em especial as amorosas. Por exemplo, uma simples discordância poderá ser vivida como rejeição se atingir profundos sentimentos inconscientes. “Se você não concorda comigo é porque não me ama, não me valoriza, não me reconhece”, diria o inconsciente da pessoa.

Existe aí um complicador. Casais jovens tendem a fantasiar uma relação perfeita, sem discrepâncias: um parceiro-espelho que pensa e sente exatamente igual. Aqui, ultrapassamos a questão da auto-estima e da identidade para entrarmos na fantasia do ser completo.

A auto-estima e o sentimento de identidade ainda não consolidados exigem defesas que aparecem nas relações amorosas como competição e luta pelo poder. A pessoa tem medo de mostrar seus desejos e carências, sua necessidade do outro, pois acha que isso a coloca em posição inferior, à mercê do parceiro, sem poder se defender se for atacada. Um modo de eliminar o perigo é controlar o companheiro, tentando obrigá-lo a agir conforme o desejado, monitorando seus passos. Abole-se a sua autonomia e neutraliza-se a periculosidade, tornando-o escravo obediente e solícito. A ameaça, aqui, não se refere só a autoestima e identidade. Tem a ver também com o medo de abandono. Uma pessoa controlada jamais poderá deixar a relação. A idéia é a de que ela permanece na relação não por amor, mas por um controle onipotente.

A pessoa ainda insegura de sua identidade adulta poderá afivelar uma máscara de perfeição, com a expectativa de que o escolhido para cúmplice amoroso a auxilie a mantê-la: uma observação que aponte uma falha, um erro ou diferença entre ambos corre o risco de ser sentida como traição do papel assegurador que lhe foi atribuído.

Tais dinâmicas se formam nas relações primitivas com figuras significativas (pai, mãe, família) e condicionam a entrada da pessoa no mundo adulto.

Alguns felizardos chegam à maturidade fácil e rapidamente, enquanto outros, atrapalhados por seus fantasmas, terão mais ou menos dificuldades em alcançá-la. A aquisição de uma identidade adulta, ligada à luta por um lugar no social, é mais um auxiliar para a superação de obstáculos psíquicos que adquirimos ao longo de nosso desenvolvimento.

Quanto mais próximos estivermos da maturidade, mais transformaremos a relação competitiva em relação de compreensão. Se não nos preocuparmos com a preservação de nossa auto-estima, mais livres estaremos para perceber e compreender a subjetividade do parceiro. O caminho que vai da competição à compreensão exige um esforço psíquico, que se apoiará no amor pelo outro e na importância do amor para a vida de cada um.

Carece apostar no futuro, na capacidade de auto-realização que trará maior consistência pessoal. Entrementes, será vantajoso sentir que o esforço em renunciar à suscetibilidade narcísica, trocando-a por uma compreensão da subjetividade do outro é, a médio ou longo prazo, recompensador. “Agüentem o tranco que vale a pena”, é o que tenho a dizer para jovens de todas as idades — o que inclui, pois, todos os que estão em processo de consolidação da identidade adulta. Vale a pena confiar no parceiro e no poder do amor. E amadurecer.

                                                                              Nahman Armony

    Primeira publicação na revista CARAS

 

 

 

 

MONUMENTO À CIVILIZAÇÃO CONSUMISTA - Parte 2

continuação

Os compromissos assumidos
Realizados pelo meu Ser externo
Revolvem minha intimidade
Que se rebela, se contorce,
Dá nó de angústia
Serpenteia de impotência.

Rebentar esta casca
E sair livre para as ilhas
Para a música
É impossível.

Estou marcado em meu íntimo
A ferro e fogo
Estou acorrentado
Estigmatizado
Pelos dentes finos do Pássaro-Rotor.

A carne comida por dentro
Pelo movimento
Do pássaro a bailar
A codificar
A exigir afeto
Atenção
Carinho
Proteção
Aderido ao meu corpo
E à minha alma
A me devorar
A engordar de meu ser
Definhante.

Quero minha liberdade
E não a tenho
Não consigo
Ou não quero.

Talvez eu queira ser prisioneiro,
Talvez seja minha maneira de ter
A vida
O impulso
E, incoerência,
A paz.

Uma paz feita de gritos
Gemidos
Sangue.
Uma paz feita de luta
Primeiro contra mim
Depois contra o mundo
Uma paz feita de falta
De sofrimento
Um sofrimento que dá
Dignidade
Altura
Dimensão
Para encarar de frente as feras.

Eu também tenho uma fera
Escondida em minhas vísceras;
Com ela me aprumo
Recolho seus dentes
E os transfiguro em dardos
Funcionais.                                           (continua na próxima edição do Blog)

                                         Nahman Armony

MONUMENTO À CIVILIZAÇÃO CONSUMISTA - parte 1

Este é um poema longo que vou dividir em quatro partes que serão postadas semanalmente.

MONUMENTO À CIVILIZAÇÃO CONSUMISTA - parte 1

Ah terrível Deus Moloch
Insaciável comedor
De pílulas e consciências
É para ti que construo o monumento
De meu sofrimento
Imagem terrena
De tua força translunar
É de ti que recebo
A vida amedrontada
Deprimida
Angustiada
 
O sangue aprisionado
Poreja dos edifícios
Corróe-se nos compromissos
Abre crateras no seio
Íntimo da integridade
 
Há um ar carcomido
Bichado
Brilhando à espreita
Da morte da margarida.
 
Os dentes da engrenagem
Se agarram, se fixam,
Dominam a vontade ambigual
E mexem, e rodam, e corroem
Em movimento circular.
Nada de felicidade
Nem o seu arremedo
Nem o pequeno folguedo
Nenhuma gota de prazer
Nenhum gesto de ternura.
Deus Moloch tem fome
Exige mais ração
Devora sentimentos, iniciativas
Todo prazer e desejo
Todo impulso e força
Toda criação.
Deus Moloch é insaciável.
Precisa de dormir
Comigo
O sono cego.        (continua na próxima semana)
 
                                     Nahman Armony
 
 


A PERSISTÊNCIA EM AMAR POR QUEM NÃO É AMADO

Muitas vezes as pessoas, ao enfrentarem um rompimento, têm dificuldade de entender o que se passou e de esquecer o amado ou a amada. A abordagem central quando se vive uma situação dessas é perguntar-se: não posso deixar de amar ou não quero fazê-lo? E por que não quero fazê-lo? O vazio dói mais do que a uma presença constrangedora?

Uma resposta sincera é capaz de esclarecer os próprios sentimentos e abrir novos caminhos.

Um jovem amigo procurou-me há alguns dias com marcas de sofrimento no rosto. A esposa, para sua surpresa, lhe dissera que não mais o amava e queria separar-se. Meu amigo tentou demovê-la com o argumento de que tudo contribuía para continuarem a se dar bem, felizes. De nada adiantou o esforço. E lá se foi ela com inabalável convicção, levando o filho do casal. Tudo se resolveu do ponto de vista jurídico: visitas, contato com o filho, recursos. Mas em termos afetivos foi um desastre: sofrimento, desespero, noites mal dormidas, raiva.

Ele pediu a minha ajuda. Ajudar como? A única coisa que eu poderia fazer era escutá-lo com simpatia e compreensão, acolhendo seu sofrimento. Vocês sabem que nessa situação as pessoas se tornam monotemáticas e repetitivas. Claro que meu amigo disse o quanto a amava; insistia que ela não tinha motivos para abandoná-lo; perguntava-se o que ocorreria em sua relação com o filho; afirmava que jamais deixaria de querê-la. Eis que, num golpe de inspiração, lhe perguntei. “Mas você quer deixar de amá-la?” A resposta, até certo ponto surpreendente, foi: “Não”. “Mas como?”, perguntei. “Como pode querer continuar a amá-la sabendo que isso causa enorme sofrimento? Uma coisa é você não poder deixar de amá-la, outra é não querer. Assim, perpetuará seu sofrimento e fechará a possibilidade de novas relações.” Tive a impressão de um vislumbre de luz no olhar de meu amigo. O sofrido de seu rosto pareceu atenuar-se com um sinal de sorriso. Fui para casa disposto a matutar — não tivesse eu o vício da psicanálise — sobre tão estranho desejo, que levaria a sofrimento permanente. Como disse, sou psicanalista, e essa classe de seres tem a pretensão de poder falar algo sobre as origens dos desejos nocivos. Com isso — aí está outra presunção — crê que pode direcionar o desejo para caminhos mais amenos.

Por que desejar manter um amor que só traz sofrimento era, pois, a minha questão.

A primeira e mais óbvia hipótese ligava-se à esperança de reconciliação. Meu amigo queria manter seu amor intacto para, caso a ex-esposa reconsiderasse a decisão, recebê-la com um amor em nada diminuído, já que o alimentara pelo seu querer. Uma hipótese mais trabalhada foi a seguinte: a convicção de ter uma esposa para sempre passou a fazer parte de seu psiquismo e participava de seu equilíbrio mental. Perder a imagem da esposa o jogaria em uma crise impensável, tornando sua vida caótica. Podemos entender melhor o que quero dizer ao pensar na angústia da criança ao se separar da mãe; e que, se colocada diante da ameaça de ela nunca mais voltar, depara-se com um abismo insondável no qual cairá para sempre. É nesse momento que a criança precisa conservar a todo o custo a imagem mental da mãe.

Assim munido, voltei a falar com ele. Com surpresa notei-o um pouco melhor. Tivera interesse passageiro por outra mulher, acontecimento ínfimo, porém indicativo de mudança de direção. Resolvi nada dizer, mesmo porque não estávamos em situação analítica. Mas me espantei mais uma vez com os mistérios da psique. O que teria acontecido? Fora uma melhora espontânea, que teria ocorrido houvesse ele conversado ou não comigo? Teria sido meu acolhimento? Ou a diferença que apontei entre o não poder e o não querer deixar de amá-la fizera efeito? Faço a hipótese de que ele tem a insegurança controlada pela fantasia de uma esposa que, à semelhança da mãe da infância, lhe traria equilíbrio à vida e ao psiquismo: família, filhos, tranquilidade. Manter a esperança conservaria a estrutura psíquica anterior e a estabilidade que se perderiam não fosse a expectativa de reconciliação.

Espero que esse recorte do cotidiano possa dar esperança e ajudar as pessoas que passam ou virão a passar por sofrimento semelhante.

                                Nahman Armony

 

 

A ANÁLISE POSSÍVEL


A ANÁLISE POSSÍVEL: REFLEXÕES SOBRE O ALCANCE E LIMITES DA TÉCNICA ANALÍTICA.

Embora eu disponha de um tempo limitado não conseguirei ir adiante sem antes confessar que a palavra ‘técnica’, atualmente, gera-me um certo desconforto não obstante eu a use.  Para mim ela transmite a ideia de que se o aprendiz seguir as regras expostas pelo mestre, ele (o aprendiz) se tornará um bom profissional. Creio que ninguém concorda com este tipo de aprendizado, pois o bom profissional é mais um artista que um técnico. Por isso a análise pessoal e as supervisões são indispensáveis numa formação psicanalítica. E o supervisor sempre deverá estar atento para evitar uma cópia (uma técnica) sem alma. Talvez fosse melhor substituir a expressão ‘técnica analítica’ por techné analítico. Esta antiga palavra grega não separa a arte da técnica. Elas formam uma unidade: uma amalgama-se à outra. 

 

        Desde que Freud contaminou a sociedade patriarcal com a peste da psicanálise suas mutações não cessaram de inquietar a sociedade provocando em muitos profissionais um tumulto psíquico que se traduzia numa frase superegóica repetida até a exaustão: “isto não é psicanálise”. Uma frase que, sem agravos, poderia ser substituída por um esconjurativo ‘vade retro Satanás’. Pois é justamente esta capacidade viral de transformação que mantém a psicanálise viva. O Freud da ciência da observação minuciosa sabia disso e fez da psicanálise uma ciência em transformação. Mas aqui se faz necessária uma ressalva. Em relação a alguns conceitos ele era intransigente, acreditando proteger a psicanálise naquilo que acreditava ser constitutivo de sua singularidade. De qualquer maneira, com ou sem a aprovação dos grandes mestres, a psicanálise não cessou de ampliar suas fronteiras e nem cessará, pois para permanecer viva terá de participar das aceleradas mudanças de mentalidade, de paradigma, de subjetividade.

Para expor a trajetória da clínica (techné) psicanalítica clássica à clínica da intersubjetividade certamente terei de começar por Freud. Ele viveu num regime vitoriano/patriarcal em que as pessoas em posição de poder colocavam-se em um patamar superior ao das pessoas que deles dependiam. Assim eram as relações pai/família, professor/aluno, médico/paciente, marido/mulher, etc. e naturalmente analista/analisando. Esta posição hierárquica fazia do analista um sujeito de um pretenso saber; uma tentação que tomava várias formas. Também criava um distanciamento quase impossível de ultrapassar.  

Nas “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise” Freud adverte: “O médico deve ser opaco aos seus clientes e como um espelho não mostrar-lhes nada exceto o que lhe é mostrado”. No meu artigo “Posturas terapêuticas na prática clínica” chamei a esta atitude de postura-espelho (atualmente prefiro a expressão modo-espelho).  E mais adiante, neste mesmo artigo: “Não posso aconselhar insistentemente demais os meus colegas a tomarem como modelo, durante o tratamento analítico o cirurgião que põe de lado todos os sentimentos, até mesmo a solidariedade humana, e concentra suas forças mentais no objetivo único de realizar a operação tão competentemente quanto possível...” A clássica liturgia psicanalítica facilita e mantém estas recomendações. O analista, fora do alcance do olhar do analisando não se revela através das expressões faciais, das movimentações do corpo e das atitudes globais, facilitando assim a manutenção da idealização. Ao mesmo tempo cria uma distância entre ele e o analisando. O modo-espelho seria pois acompanhado de uma configuração em que de um lado está o analista, do outro o analisando e entre eles um espaço neutro onde o analista coloca as suas interpretações e de onde o analisando as recolhe. Não há um contato direto, corpo/afetivo entre ambos; o procedimento do analista é verbal/interpretativo. Temos de um lado o sujeito do saber que interpreta e do outro o fulano do não saber cujo inconsciente é interpretado pelo psicanalista. Este era e eventualmente ainda é considerado o estado basilar da relação analítica. O analista revela ao Cs. do analisando o seu Ic. (do analisando) até então não desvendado e aguarda pacientemente o encontro da representação de palavra consciente dita pelo analista e guardada na mente do analisando, com a representação de objeto inconsciente para que se dê o insight. Nesta configuração o instrumento mais importante (para não dizer o único) da terapia psicanalítica é a interpretação.  Creio que aqui cabe uma nota: estou apresentando um esqueleto teórico da clínica de inspiração freudiana (que não é a clínica de Freud). O preenchimento deste esqueleto cabia (e cabe) aos analistas que usam esta teoria. E cada um a preencherá à sua maneira. O que não pode faltar nesse preenchimento é o procedimento interpretativo (comportamento interpretativo).

Para manter o procedimento interpretativo e o modo espelho, o analista necessitava colocar barreiras evitando uma porosidade psíquica generalizada, pois essa propiciaria uma perigosa mistura afetiva que destruiria a possibilidade de um tratamento analítico. Com o conceito de identificação projetiva de Melanie Klein a fobia dos analistas em relação a serem afetados pelos analisandos começa a se desfazer, pois falar de identificação projetiva é falar da afetação provocada pelo analisando no analista. Aparece uma zona de porosidade ampliando-se o escopo da psicanálise. Já é possível tratar de crianças através de brinquedos. Mas a interpretação continua a ser o eixo central da análise. Quanto à porosidade ela é ainda limitada.  Ilustrando através de minha alegoria: as produções dos analisandos pulam o espaço intermediário que separa analista de analisando e forçam sua direta entrada no mundo psíquico do analista ainda refratário a esta invasão. Estou-me referindo à identificação projetiva e introjetiva; elas caem diretamente no mundo psíquico do analista que então tem a tarefa de aproveitá-las para apontar uma dinâmica relacional. A ideia não era mantê-las por um tempo no psiquismo aguardando seu amadurecimento e sim esperar uma oportunidade para, logo que possível, livrar-se daquela carga transferencial perturbadora e transformadora. Há uma abertura porosa para receber o conteúdo, mas não há a preocupação de deixá-lo amadurecer. Ele será usado para uma interpretação transferencial quando as condições estiverem propícias. Melanie Klein não se deu conta de que a identificação projetiva era um cavalo de Troia, pois só pode existir identificação projetiva e introjetiva quando o analista está apto e disposto a receber dentro de sua psique afetiva as fantasias dos analisandos, criando-se um potencial de perturbação relacional. Uma citação preciosa de H.Segal traz um esclarecimento da concepção kleiniana: “A técnica kleiniana baseia-se rígida e psicanaliticamente nos conceitos psicanalíticos freudianos ---- O papel do analista limita-se à interpretação do material do paciente e toda crítica, conselho, encorajamento, tranquilização e coisas semelhantes são rigorosamente evitadas... Poder-se-ia dizer, em consequência disso que não há lugar para o termo ‘técnica’ kleiniana?” Hanna Segal responde que diante de um material até então desconhecido da psicanálise surgiram “novas interpretações, raramente ou nunca utilizadas na técnica clássica”. A novidade que Klein e sua escola não alcançaram e que veio a dar uma reviravolta na psicanálise foi o conceito de ‘tempo de maturação’, implícito na sua teoria e que estou explicitando através de um batismo. Este foi o primeiro e imperceptível passo na direção da vivencia compartilhada (covivência) e, portanto, da intersubjetividade.

Bion, a partir dos conceitos de identificação projetiva acrescenta as palavras ‘continente’ e conteúdo. Ao usá-las Bion amplia a área de porosidade. É este continente que receberá a identificação projetiva. Mas este autor parece temer reificar os conceitos e não diz claramente que o continente é aquele locus do analista que acolhe as identificações projetivas do analisando. Por esta mesma razão ele não fala de tempo de maturação embora seu exemplo princeps (bebê que projeta os elementos beta na mãe que após uma elaboração os devolve como elementos alfa) deixe perceber que lá está o conceito.

Bleger se aproxima ainda mais do conceito de tempo de maturação e de modo continente: “Temos de constituir-nos em depositários fiéis da parte psicótica e atuar como pais tolerantes; damos tempo para crescer e não sobrecarregamos com problemas demasiado prematuros para o ego do paciente.” Essa citação refere-se mais particularmente ao que Bleger chama de personalidade ambígua, que nada mais é que o nosso borderline.

A obra de Winnicott tem dado, e cada vez mais, uma fundamental contribuição à difusão do modo covivencial de tratamento, acrescentando ao eixo clínico centrado na interpretação, na transferência e na contratransferência, um outro eixo clínico: a covivência, o modo continente e o tempo de maturação. Tendo vivido, vivenciado e estudado profundamente a relação mãe-filho ele colocava-se poroso na relação, especialmente nas situações em que o analisando solicitava transferencialmente a presença da Personificação da Mãe. Evidentemente esta posição transferencial mantém uma hierarquização ontológica (obs.: que nem sempre está presente na atividade terapêutica de Winnicott.). E mesmo a hierarquização era suavizada por sua sensibilidade à vida emocional dos seus analisandos. Para que se entenda melhor meu pensamento recorrerei a um símile com uma mãe real: seria uma mãe que conseguiria ser amiga sem perder a autoridade hierárquica criativa/educativa. Como todo símile este é também imperfeito, mas útil para efeito de transmissão de uma ideia.

Uma das raízes da intersubjetividade é a psicologia do self de Kohut, especialmente com seus conceitos de empatia, introspecção vicariante, self/objeto, transferências selfobjetais; acrescente-se a ideia de narcisismo como qualidade humana com tendência a amadurecer independentemente da sexualidade e “a ideia de que os únicos dados adequados para a compreensão psicanalítica são aqueles acessíveis por introspecção e empatia”(Peter Lessen).

SEARLES E A SIMBIOSE TERAPÊUTICA

Searles ganhou prestígio como analista de psicóticos e borderlines. Dentre suas muitas contribuições interessa-nos o seu conceito de simbiose terapêutica onde se juntam o procedimento covivencial e o modo simbiótico. O modo espelho é a expressão máxima de afastamento afetivo. O modo simbiótico-fusional é o estado máximo de intimidade e de mutualidade afetiva. O analista está, da mesma maneira que o analisando, envolvido na simbiose; exagerando pode-se dizer que já não se sabe quem está em tratamento. Embora o tratamento seja de mão dupla, a maior experiência afetivo-cognitiva do analista no que diz respeito aos fenômenos intersubjetivos fará dele o principal terapeuta e o responsável pela análise. De qualquer forma os transtornos já não são privilégio do analisando; o analista deles participa. Esta inclusão do analista nas dificuldades do par amplia consideravelmente o alcance da psicanálise tanto em extensão quanto em profundidade.

Estas ideias se coadunam com uma corrente que vem se desenvolvendo nos Estados Unidos com o nome genérico de intersubjetividade. Há muitos pensadores nesta área que concordam no fundamental, mas discordam nos detalhes. A ideia fundamental é a de um encontro de duas pessoas com intenções terapêuticas, cada uma delas trazendo as suas complexidades subjetivas que ao entrarem em relação criam um campo intersubjetivo comum onde não há lugar para hierarquias. A pergunta que se coloca é: até que ponto as duas subjetividades poderão se ajudar? Os obstáculos não podem ser ignorados. Uma ideia que aflora quase instantaneamente é de que, como todos os seres humanos, os analistas têm um inconsciente dinâmico que se vela e desvela; pode ser que na terapia a relação funcione como um modificador de dinâmicas importunas beneficiando os dois participantes; mas pode ser que não; a análise então encontra um limite. Um outro encontro intersubjetivo, com outro analista, de mesma orientação ou não, poderá abrir novas sendas. O limite será, portanto um limite relativo (contingente) que poderá ser considerado intransponível até um eventual momento feliz, que poderá acontecer ou não, em que será ultrapassado. Um recurso que poderá transformar a impossibilidade em possibilidade de ajuda psicanalítica é o uso de medicamentos. Uma adequada diminuição de ansiedade ou de depressão poderá ser o suficiente para o prosseguimento do tratamento psicoterápico psicanalítico. (Aqui fica claro que considero a psicanálise uma forma de psicoterapia. Esta formulação é uma derivação espúria de uma fala de Winnicott: “Faço psicanálise porque é do que o paciente necessita. Se o paciente não necessita análise faço alguma outra coisa”.)

Até aqui tenho falado de limites contingentes. E os limites inerentes às próprias teorias? Eu acredito que se a psicanálise continuar a participar das transformações da subjetividade/mentalidade/cultura certamente ela sobreviverá, certamente com novas diferenças clínicas e teóricas aparecendo. Chamar a essas novas teorias de psicanálise ou não, é uma questão entre esquecer nossas raízes ou sentirmo-nos como galhos de uma árvore genealógica tão fértil que deu e continuará a dar muitos e muitos frutos.

                                                       Nahman Armony       

  

 

           

          

NIHIL (de meu livro "O Anverso e o Verso")

Retratos espalhados na voragem do Tempo
Revolvidos pelo destino
Derivam ao seu sabor.
Pedaços de minha vida
              Passada, presente, futura.
Alguns talvez bons
Outros maus, belos, heróicos, infelizes...
                 Que importa?
Que adianta?

Passado. Presente. Futuro
  
           NÃO

Futuro apenas.
Só o Futuro existe
Assustadoramente eterno
Assustadoramente imutável.

Retratos espalhados na voragem dos séculos
Revolvidos pelo tempo indiferente que os consumiu todos,
Todos.

Futuro tragando passado e presente.
Senhor absoluto.
Entidade única.

O Nada

                                               Nahman Armony