BORDERLINE E ESPAÇO POTENCIAL WINNICOTTIANO

                     Publicado originalmente em meu livro "O Homem Transicional".                                            

 

Sinopse: Este trabalho busca encontrar na obra winnicottiana a figura do borderline brando(normal),- aquele que tem como contrapartida o assim chamado neurótico normal. A partir daí tenta obter um modo de abordagem dos borderlines no contexto econômico-social da atualidade. 

Palavras-chave: Borderline, espaço potencial, espaço de intimidade, criatividade.                 

 

 Não é tarefa fácil expor o pensamento de Winnicott sobre borderline. Nosso autor poucas vezes usa esse termo, e geralmente o faz em conexão com psicose, esquizoidia, esquizofrenia. Algumas citações ilustrarão essa afirmativa. Vejamos:

 

“É na análise do caso do tipo fronteiriço que se tem a oportunidade de observar os delicados fenômenos que apontam para a compreensão dos estados verdadeiramente esquizofrênicos. Pela expressão caso fronteiriço quero significar o tipo de caso em que o cerne do distúrbio do paciente é psicótico, mas onde o paciente está de posse de uma organização psiconeurótica suficiente para apresentar uma psiconeurose, ou um distúrbio psicossomático, quando a ansiedade central psicótica ameaça irromper de forma crua”.  (Winnicott, 1969, p.122).

                               

“A defesa do self falso pode ser abandonada e o self verdadeiro pode ficar exposto (com grandes riscos) na transferência psicótica. A partir daqui (e fico envergonhado por ter condensado o quero dizer quase ao ponto do absurdo), comecei a ver a esquizofrenia e, especialmente, a enfermidade do caso borderline como sendo uma sofisticada organização de defesa. Não mais experimentar a angústia impensável que está na raiz da enfermidade esquizóide”. (Winnicott, 1967a, p.154)

 

                               

“Quanto à minha experiência, aquela que mais me permitiu aprender foi a observação de regressões contínuas seguidas de progressão em casos de pacientes borderline, ou seja, de indivíduos que precisam chegar a um estado de doença do tipo psicótico no decorrer do tratamento  (Winnicott,  1990, p.172).

 

Freud foi capaz de descobrir a sexualidade infantil em uma nova visão porque ele a reconstruiu a partir de seu trabalho analítico com pacientes neuróticos. Ao estender seu trabalho para cobrir o tratamento de pacientes psicóticos borderline, foi possível para nós reconstruir a dinâmica da infância e da dependência infantil, e o cuidado materno que satisfaz essa dependência”.  (Winnicott, 1960, p.53).

 

Vamos pois guardar na mente que psicótico, esquizofrênico e borderline estão muito próximos no pensamento winnicottiano, o que significa que podemos, muitas vezes, tomar um termo por outro, ou considerar um desses termos uma condensação do três.

         Farei, agora, uma citação que direcionará este trabalho no sentido da idéia de um borderline “normal” que preferirei chamar de borderline brando. Diz Winnicott:

 

“Os psicanalistas experientes concordariam em que há uma gradação da normalidade não somente no sentido da neurose mas também da psicose (...) Pode ser verdade que há um elo mais íntimo entre normalidade e psicose do que entre normalidade e neurose; isto é, em certos aspectos. Por exemplo, o artista tem a habilidade e a coragem de estar em contacto com os processos primitivos aos quais o neurótico não tolera chegar, e que as pessoas sadias podem deixar passar para o seu próprio empobrecimento”. (Winnicott, 1959-1964, p.121).

 

Como Winnicott diferencia o psicótico próximo da ponta da normalidade (borderline-normal) do neurótico igualmente localizado? Garimpando seletivamente sua obra encontramos algumas preciosidades:

 

 “Se tudo que foi dito  antes pode ser dado como certo, podemos dizer, referindo-nos a um bebê total relacionado a uma mãe total, que está estabelecido o estádio no qual a posição depressiva pode ser alcançada. Se essa totalidade não pode ser levada em conta, então nada do que tenho a dizer sobre a posição depressiva é relevante. O bebê vai vivendo sem ela; e muitos conseguem [sublinhado meu]. De fato, em tipos esquizóides pode não haver uma conquista significativa da posição depressiva e, na ausência daquilo que pode ser descrito como reparação e restituição, a recriação mágica é utilizada”.(Winnicott, 1954, p.440)

 

Winnicott, ao que eu saiba, não mais falará de “recriação mágica”; tomarei então a liberdade de interpretar essa expressão. Como entender a recriação mágica sem fugir à teorização winnicottiana? A essa questão tentei responder da seguinte maneira: ao recriar magicamente o mundo, o borderline estaria lançando a sua fantasia onipotente (mitigada) no ambiente pessoal e social potencialmente receptivo. Seria a sua maneira de conseguir um relacionamento suficientemente bom com as pessoas e o social, não através da culpa e reparação, mas através da inclusão das pessoas e do social em seu mundo fantasmático, de tal maneira que eles são recriados magicamente de acordo com uma fantasia não alheia à realidade. Estou antecipando a próxima citação de Winnicott que é a seguinte: “Pode mesmo acontecer que  [o borderline] seja capaz de aceitar o que é bom no ambiente como uma projeção simples e estável de elementos emergentes que se originam de seu próprio potencial herdado” (Winnicott, 1960, p.39). Elementos emergentes cuja origem está no potencial herdado são projetados em aspectos bons do ambiente. Esses aspectos bons do ambiente estão, por assim dizer, à espera dos elementos emergentes. Há uma amálgama entre os aspectos bons do ambiente e os elementos emergentes projetados. Essa amálgama entre o dentro e o fora nos remete exatamente ao espaço potencial. Peço aos leitores que retenham na memória a idéia de “recriação mágica”.

         Winnicott:

É interessante  reparar que o artista criativo é capaz de chegar a um tipo de socialização  que obvia [em inglês “obviates”; o Michaelis traduz por “remover”, “eliminar”; em castelhano “soslaya” – “passa por alto”. No dicionário Aurélio obviar é remediar, prevenir, desviar, atalhar (seguir por um caminho mais curto)] a necessidade do sentimento de culpa e a atividade reparativa  e restitutiva associada que forma a base do trabalho construtivo habitual. O artista ou pensador criativo pode, na verdade, falhar em compreender, ou pode mesmo desprezar, o sentimento de preocupação[concern] que motiva uma pessoa menos criativa; e dos artistas se pode dizer que alguns não têm a capacidade de sentir culpa e ainda assim atingiram uma socialização através de seu talento excepcional. As pessoas habitualmente governadas pelo sentimento de culpa acham isso surpreendente; ainda assim tenho um respeito sub-reptício pela falta de piedade [ruthlessness] que leva de fato, em tais circunstâncias, a conseguir mais do que o trabalho orientado pela culpa. (Winnicott, 1958, p.28/29).

 

Obviamente o borderline e o artista estão no mesmo barco winnicottiano. Creio que não será nenhum abuso dizer que o artista talentoso recria magicamente o mundo através de sua arte, mesmo porque essa idéia permeia nossa subjetividade. Borderline e artista talentoso, quando não coincidem, encontram-se. Ambos recriam magicamente a realidade. O artista através da obra de arte e o borderline através da transformação da vida em obra de arte.

         Winnicott distinguiu os que alcançam a fase depressiva - aqueles que, em tendo a capacidade de se sentir culpados e de reparar poderão usar o mecanismo de recalque, sendo então chamados de neuróticos, daqueles que não atingem a fase depressiva e que mesmo assim conseguirão se relacionar suficientemente bem com o ambiente através da recriação mágica – os “tipos esquizóides”, os borderlines. Winnicott fala dos artistas (que numa de suas citações aparecem lado a lado com os borderlines) que obviam a culpa e que mesmo assim se socializam devido ao seu talento excepcional. Mas ele também fala dos tipos esquizóides que se relacionam com o mundo não através da culpa, mas da recriação mágica. Repetindo: A obra artística não seria uma recriação mágica da realidade? O borderline e o artista não seriam então gêmeos em sua capacidade de recriar o mundo? Poderíamos, então, a partir dessas duas citações, (é claro que elas são apenas pontas de icebergs, usadas para argumentação, demonstração e formação de juízo) pensar que o talento do borderline brando em plantar suas fantasias no social é uma estética de existência, uma construção artística? É essa mesma concepção que os sociólogos têm do homem pós-moderno. À noção de borderline sobrepõe-se a de homem pós-moderno:

 

“Dentro da nova classe média pode haver efetivamente um número maior de pessoas que aceitam a concepção de que a vida estética é a vida eticamente boa, que não existe a natureza humana nem o ‘eu’ verdadeiro, que somos uma coleção de quase-eus e que a vida se presta a uma modelagem estética”. (Featherstone, 1995, p.75).

 

Um artista é originalmente um homem que se afasta da realidade, porque não pode concordar com a renúncia à satisfação instintual que ela a princípio exige, e que concede a seus desejos eróticos e ambiciosos completa liberdade na vida de fantasia. Todavia, encontra o caminho de volta deste mundo de fantasia para a realidade fazendo uso de dons especiais que transformam suas fantasias em verdades de um novo tipo, que são valorizadas pelos homens como reflexos preciosos da realidade”. (Freud, 1911, p.284).

 

“A estetização da vida cotidiana pode designar o projeto de transformar a vida em uma obra de arte”. (Featherston, 1995, p.99).

 

É possível argumentar que setores da nova classe média, os intermediários culturais e as profissões de caráter assistencial retêm as disposições e sensibilidades necessárias que os fazem mais abertos à exploração emocional, à experiência estética, e à estetização da vida. De fato, para se produzir e apreciar a estetização do corpo, caracterizada como um elemento da arte pós-moderna, é preciso descontrole emocional.(Featherstone, 1995, p.72).

                                 

É preciso examinar desapaixonadamente a justificativa estética da vida; se isso for realizado, pode-se mostrar que o descontrole controlado das emoções e a ausência de um sistema de fé religiosa coerente e centralizado não resultam em niilismo e desintegração social; é, antes, perfeitamente possível que a mudança para critérios estéticos e conhecimento local resulte num autocontrole mutuamente esperado e no respeito para com o outro.(Featherstone, 1995, p.174)

 

 

Nessas citações o homem pós-moderno aparece como um artista da vida, uma pessoa que vive criativa e apaixonadamente a própria existência. Esse homem aproxima-se do homem winnicottiano: “Desejo examinar o lugar, utilizando a palavra em seu sentido abstrato, em que permanecemos a maior parte do tempo enquanto experimentamos a vida” (Winnicott, 1971c, p.145) E mais adiante:

 

“Onde estamos, quando fazemos o que, na verdade, fazemos grande parte de nosso tempo, a saber, divertindo-nos? (...) Observe-se que estou examinando a fruição altamente apurada do viver, da beleza, ou da capacidade inventiva abstrata humana, quando me refiro ao indivíduo adulto, e, ao mesmo tempo, o gesto criador do bebê que estende a mão para a boca da mãe, tateia-lhe os dentes, fita-lhe os olhos vendo-a criativamente” (ibid, p.147).

 

 

E na p. 137 do mesmo livro: “Poderia empregar a frase de Buffon: ‘Le style est l’homme même’. Essas colocações lembram os sociólogos que falam de um homem lúdico, esteta, criativo. O homem moderno era e é o homem do dever, da disciplina, da ordem. O homem pós-moderno – e isso está dito por Winnicott e pelos sociólogos - é o homem da criatividade, da fruição. O homem pós-moderno mais vive, mais experimenta a vida, do que a padroniza em comportamentos repetitivos e lugares estanques. O homem moderno mais pretendia viver no espaço objetivo; o homem contemporâneo winnicottiano sente-se mais à vontade no espaço potencial.

         Em minha tese de doutorado, que se transformou em livro, tentei demonstrar que homem pós-moderno e borderline brando se sobrepõem. Mas disso falarei mais adiante. Por enquanto, voltemos a Winnicott.

         Existem, pois, homens que se socializam apesar de terem atalhado o estágio da culpa. Em uma de suas citações Winnicott limita esse modo de socialização aos artistas de talento excepcional. Mas, sem dúvida, revendo a citação anterior em que fala de esquizóides capazes de uma recriação mágica, e mais, informados pelos sociólogos que fazem do homem pós-moderno um artista da vida, podemos estendê-los aos borderlines criativos em geral. Poderíamos especular que a recriação mágica (um ato onipotente) ocupa o lugar da culpa. Esta recriação mágica pode ter ou não uma função social. A próxima citação de Winnicott falará dessa função social:

 

“É costume fazer alusão ao ‘teste de realidade’ e efetuar uma distinção clara entre percepção e apercepção. Reivindico aqui um estado intermediário entre a inabilidade de um bebê e sua crescente habilidade em reconhecer e aceitar a realidade. Estou, portanto, estudando a substância da ilusão, aquilo que é permitido ao bebê e que, na vida adulta, é inerente à arte e à religião, mas que se torna marca distintiva de loucura quando um adulto exige demais da credulidade dos outros, forçando-os a compartilharem de uma ilusão que não é  própria deles. Podemos compartilhar do respeito pela experiência ilusória, e, se quisermos, reunir e formar um grupo com base na similaridade de nossas experiências ilusórias. Essa é a raiz natural dos agrupamentos humanos”. (Winnicott, 1971a, p.15).

 

Essa citação faz minha imaginação desandar:  imagino que a formação dos primeiros grupos humanos tenha exigido a presença de líderes capazes de recriar suas próprias fantasias primevas de uma forma não incompatível com a subjetividade circulante no grupo social, conseguindo apresentá-las na forma de mitos atraentes, úteis à coesão desse grupo. Certamente o grupo estaria, até certo ponto,  propenso a receber a ilusão, o mito, pois este preencheria um espaço de interrogações e necessidades. Mas também determinante seria a capacidade do líder em “vender o seu peixe”. Para isso ele teria uma sintonia fina com seus interlocutores, tato e ousadia no seu trato com eles, um certo dom encantatório, uma qualidade carismática, um charme, uma capacidade de seduzir. (Não pretendo que essa especulação corresponda a uma realidade. Eu a coloquei com o intuito de esclarecer meu pensamento a respeito da função social do borderline. Minha concepção de borderline faz dele um ser criativo apto a transformar sua subjetividade em formações transicionais). O borderline é capaz de colocar de forma palatável para a sociedade suas experiências ilusórias, suas recriações mágicas, suas fantasias primevas mitigadas[1]. E ele consegue fazê-lo quando, atravessando a camada macro, é capaz de perceber e sentir as nano-reações e os nano-acontecimentos do ser humano.

Poderíamos, à maneira de um aforismo dizer que se o borderline é o devir do mundo, o neurótico é a sua estabilidade.

         Recapitulando: se a posição depressiva não é adequadamente alcançada, a capacidade de sentir culpa fica reduzida. O sujeito poderá se relacionar com o mundo através de recursos outros que não a culpa e reparação. Winnicott fala que o borderline usa uma sofisticada organização de defesa. Isso faz com que o borderline se relacione com a realidade externa e com o semelhante de um modo diferente do neurótico. Um modo onipotente, artístico; através de uma recriação mágica da realidade. Se essa recriação mágica estiver conectada com o mundo circundante teremos uma atividade criativa cujo lócus é uma área intermediária. Por outro lado, a recriação mágica poderá ser autística se ao invés de fenômeno transicional for um fenômeno subjetivo. Estaríamos então não mais no espaço potencial, mas no espaço subjetivo, na psicose. Diferentemente do psicótico o borderline precisa de um contato razoável com a realidade compartilhada; necessita colocar as suas fantasias no social de uma maneira tal que este as aceite; e tanto mais o conseguirá quanto maior for a sua capacidade de empatia e de identificação dual-porosa e melhor souber usá-las (Armony, 1998, p.63 e seguintes)

         A normalidade perfeita é sempre um ideal impossível pois não se conhecem homens sem traços neuróticos, já que aquilo que produz neurose, estrutura o caráter, nem homens sem traços psicóticos, pois a criatividade, intuição e comunicação não verbal bebem na mesma fonte da psicose.

         De que maneira a clínica pode conservar as características desejáveis do borderline? Como deveremos proceder no tratamento do borderline de tal maneira que no decorrer do processo nos encaminhemos mais para a normalidade borderline e menos para a normalidade neurótica? Winnicott:

“Vemos portanto que na infância e no manejo dos lactentes há uma distinção muito sutil entre a compreensão da mãe das necessidades do lactente baseada na empatia, e sua mudança para uma compreensão baseada em algo no lactente ou criança pequena que indica a necessidade. Isto é especialmente difícil para as mães por causa do fato das crianças vacilarem de um estado e outro; em um minuto estão fundidas com a mãe e requerem empatia, enquanto que no seguinte estão separadas dela, e então, se ela souber suas necessidade por antecipação, ela é perigosa, uma bruxa. É muito estranho que mães que não são nada instruídas se adaptem a estas mudanças no desenvolvimento satisfatório do lactente, e sem nenhum conhecimento da teoria. Este detalhe é reproduzido no trabalho analítico com pacientes borderline, e em todos os casos em certos momentos de grande importância quando a dependência na transferência é máxima”. (Winnicott, 1960, p.50/1).

 

 

O analista, tal qual a mãe de um bebê, deverá estar apto a perceber qual a solicitação feita pelo analisando em um determinado momento, para poder responder adequadamente, ora priorizando os cuidados com o setting (que sempre vigorarão) ora dando primazia à comunicação simbólica de 2ª ordem. Assim, ele ajudará o paciente a não reprimir o seu verdadeiro self, mantendo atuantes a sua capacidade empática, a sua capacidade de identificação dual-porosa, a sua criatividade.

Winnicott destaca a primazia da criatividade/vida como uma insinuância que deverá permear o tratamento. Citação:

 

Para nós é de suma importância reconhecer que a ausência de doença psiconeurótica pode ser saúde, mas não é vida. Os pacientes psicóticos que pairam permanentemente entre o viver e o não viver, forçam-nos a encarar esse problema, problema que realmente é próprio, não dos psiconeuróticos, mas de todos os seres humanos”. (Winnicott, 1967b, p.139).

 

 

 Direi, simplificadamente, que o perigo da saúde está no empobrecimento da personalidade e o do borderline criativo, na inadequação, dispersão e fragmentação. A priorização da linha normalidade-psicose, e, portanto, do borderline, fará com que o analista tenha uma atitude diferente daquele que prioriza a linha normalidade-neurose. Na normalidade-psicose o não verbal ganhará presença encaminhando o sujeito para a manutenção da disponibilidade e capacidade para a identificação, uma das insinuâncias dos analistas dessa linha.  

Creio ter conseguido uma cabeça de ponte para o meu borderline brando na obra de Winnicott. Vou, pois, daqui para a frente, me despreocupar com essa questão dando-a, pelo menos provisoriamente, por estabelecida. 

Antes de prosseguir devo-me dedicar à tarefa de desenredar o que a seqüência de meu discurso trouxe à baila: a questão do borderline pesado (patológico) em confronto com o borderline brando (normal) e a questão das semelhanças entre o borderline brando e o homem pós-moderno.

Como a idéia de borderline brando é nova, chegarei a ela através do borderline tradicionalmente conhecido, o borderline mais ou menos severamente perturbado.

Encontra-se a palavra borderline, na forma de “borderland”, já em 1884 em Hughes, significando que o paciente vivia próximo a uma fronteira que separava a psicose da neurose, “às vezes de um lado, às vezes de outro”(apud Armony, 1998, p.91). O que em Hughes aparece na forma de alternância, logo será proferido como mistura de neurose e psicose, uma idéia que perdurará por muito tempo na literatura tanto  psiquiátrica quanto psicanalítica. Em 1938, um autor chamado Stern já faz uso de conceitos psicanalíticos para falar do borderline. É a psicanálise se apropriando da palavra, o que vai acontecer com maior intensidade a partir da década de 50. Aos poucos o borderline deixa de ser visto como uma mistura que pode ser decomposta em psicótico e neurótico e passa a se constituir em uma entidade de direito próprio, com uma dinâmica específica que tanto difere da dinâmica do psicótico quanto do neurótico. O borderline passa a ocupar um terceiro território, o que, para orelhas predispostas, lembra o espaço potencial winnicottiano, criando uma esperança de poder articular esse terceiro território com o terceiro espaço winnicottiano - o espaço potencial.

Ainda hoje há bastante controvérsia sobre o que seja um borderline. Não estou aqui falando do borderline brando, que é uma bolação minha, mas do borderline, digamos assim, patológico. Como acontece com quase todos os termos da psicanálise, borderline é também uma palavra polissêmica, permitindo diversas visões, que, de alguma maneira, se aproximam e se suplementam. Tentando fazer um resumo direi que  o borderline pesado (ou patológico) é polissintomático, ambulatório, com dificuldades nas relações interpessoais por suas susceptibilidades narcísicas exacerbadas, com problemas na área afetiva, impulsivo, usuário do dinamismo da divisão, com tendência à atuação, com questões nas áreas das identificações e da identidade, necessitando de uma circunvizinhança humana para atuar os seus fantasmas, com labilidade de humor, com tendência à exacerbada dependência afetiva muitas vezes negada reativamente, com extrema sensibilidade e susceptibilidade,   incomumente e seletivamente permeável ao próprio inconsciente,  ao inconsciente do outro e à subjetividade circulante. Confusão entre suas necessidades e as demandas do objeto: excesso de identificação projetiva. Desaparecimento de suas necessidades diante das demandas do outro: excesso de identificação introjetiva. Dificuldade de contenção dos sentimentos e pensamentos que pressionam por uma expressão imediata; tendência à atuação. Uma diminuída função egóica. Não há uma sólida fronteira egóica; trata-se de um ego plasmático que se deixa arrastar pelos acontecimentos. Confusão do interno com o externo, do inconsciente com o consciente. Confusão entre suas necessidades e as demandas do objeto. Oscilação entre intimidade e retraimento. Confusão entre fantasia e realidade. Dificuldade de distinguir figura e fundo. Concretismo. Objetos e realidade interna instáveis o que faz com que a realidade externa se apresente também instável. Depressão (Bergeret), vazio. Sentimentos de fragmentação, descontínuidade, desmoralização, humilhação, exclusão. Para Grotstein o borderline caracteriza-se por sua inabilidade em disfarçar suas tendências psicóticas e seu subjacente primitivismo sob condições não estruturadas. Para Kernberg caracteriza-se por uma divisão defensiva (não primária) e para Bergeret por uma anaclise (adesividade) proveniente  da depressão.

Se peneirarmos o borderline acima de modo a obtermos a farinha purificada do borderline brando, encontraremos a tendência à atuação, a necessidade afetivo/dinâmica de uma circunvizinhança humana para nela atuar seus fantasmas e realizar seus desejos infantis, o uso da divisão/compartimentação e da onipotência mitigada de forma não incompatível com o social, a extrema sensibilidade, a incomum permeabilidade ao próprio inconsciente, ao inconsciente do outro e à subjetividade circulante; tal permeabilidade permite-lhe identificar-se continuamente, em devir, com o que o rodeia. A essa identificação dei o nome de “identificação dual-porosa”, “identificação transital”, “identificação contínua”, e, posso agora acrescentar, “identificação em devir”.

O borderline brando tende mais à multiplicidade do que ao polissintomático, o que significa que não inibe os vários aspectos de sua criatividade em favor de um único aspecto, mantendo as suas várias capacidades disponíveis para serem usadas. No que diz respeito à sensibilidade/susceptibilidade narcísica ela apresenta-se menos como uma ferida e mais como um instrumento de conhecimento  do outro; a permeabilidade das fronteiras do eu, que poderia torná-lo vulnerável às afetações do outro mantém-se como sensibilidade que permite conhecer o outro, propiciando o desenvolvimento de afetos e sentimentos pertinentes à relação em curso. Assim, ao invés de um fechamento nas próprias fantasias, há uma abertura para o conhecimento das fantasias do outro. A permeabilidade das fronteiras, que no borderline pesado pode ser usada contra o outro ou pode dar lugar a um excesso de identificação projetiva e introjetiva, no borderline brando muda de qualidade, transformando-se em identificação dual-porosa, uma identificação que permite um regime de trocas fantasmáticas e afetivas contínuas entre os seres humanos entre si e com o mundo que o rodeia. A porosidade tanto funciona em relação ao mundo externo (a um outro humano, sim, mas também em relação à cultura, à natureza, ao planeta), quanto ao mundo interno, isto é, na percepção do próprio inconsciente. Em se tratando do borderline brando, as trocas fantasmáticas e afetivas criam um espaço potencial ou equivalente, onde o objeto subjetivamente concebido é, ao mesmo tempo, objetivamente percebido. A identificação dual-porosa mostra-se um precioso instrumento de conhecimento, relação e comunicação, permitindo surfar nas ondas do devir, possibilitando ao borderline deslizar e se enlear nas sutis e infindas variações de um mundo em constante mutação. A necessidade de dependência do borderline pesado, traduz-se no borderline brando pelo reconhecimento da necessidade afetiva de um outro também dual-poroso, de tal maneira que um regime de trocas, onde vigore tanto o subjetivamente concebido quanto o objetivamente percebido, possa ser estabelecido. 

De certa perspectiva, o borderline traz como restos/relíquias da infância mais arcaica uma insuficiência de identificações. Isso o conduz a uma busca de identificações alimentadoras mantendo-o aberto e poroso ao seu ambiente e às pessoas à sua volta. A insuficiência de identificações tanto pode se dar com a função-pai quanto com a função-mãe, e as diferentes combinações dessas suficiências/insuficiências conduzirão a resultados diversos. De uma maneira geral, pode-se distinguir dois tipos de borderline: um primeiro, com insuficiente identificação com a mãe (mas, eventualmente com uma suficientemente boa identificação com o pai) e um segundo com identificações suficientemente boas com a função-mãe e insuficientes com a função-pai. Em ambos os casos eles podem se apresentar ao terapeuta como borderlines pesados, podendo evoluir, porém para o estado de borderlines brandos.

O borderline pesado tenta tampar suas falhas identificatórias através de relações simbióticas e fusionais; suas carências, embora eventualmente preenchidas, permanecem atuantes, podendo criar cegas e excessivas exigências nos relacionamentos afetivos, sociais e profissionais, o que certamente causará transtornos. Já o borderline brando sobreleva suas lacunas através de uma identificação dual-porosa com os seres humanos e com o mundo. Aquilo que no borderline pesado se apresenta como fome de identificações por fantasmas parentais, aparece no borderline brando como uma identificação contínua em devir com os acontecimentos. É justamente esse modo de utilização de sua capacidade de identificação dual-porosa que lhe permitirá tornar-se inovador, criativo, socialmente produtivo.

 Esse borderline brando da psicanálise equivale ao homem pós-moderno dos sociólogos. Se fizermos uma sobreposição do perfil do borderline e do homem pós-moderno encontraremos características comuns. Reproduzirei aqui um trecho do 6º e último capítulo de meu livro “Borderline: uma outra normalidade”:

“O processo de superposição de rostos humanos, inventado por Galton, cuja resultante é um rosto único, é uma boa metáfora da fusão do borderline clínico com o homem pós-moderno da sociologia. A figura resultante é lúdica, curiosa, transgressora, vive um descontrole controlado das emoções, valoriza as experiências afetivas, as sensações imediatas. Usa o corpo, a mente, o movimento, a emoção para pensar. Sujeita a identificações transitórias, sua identidade é fluida, móvel, elástica. Comunica-se, relaciona-se e conhece sem mediações. Acossada pelas intensidades, impelida à ação, tenta realizar suas fantasias infantis no social, sobrepondo fantasia e realidade. Tende a esgotar suas emoções, busca o alargamento do eu, explora novas possibilidades indo à procura do inédito. Preserva o frescor infantil, a curiosidade, o interesse, a multiplicidade, a busca de prazer, a construção e expansão de si mesmo. A vida passa a ser uma arte. A porosidade de suas fronteiras promove uma variante ética na qual o outro e o mundo ficam incluídos no campo narcísico, ou melhor, no campo transicional. Este homem, tendo preservado/readquirido sua aptidão empática e sua capacidade para a identificação dual-porosa, mantém uma liberdade, flexibilidade e rapidez de deslocamento que lhe permite acompanhar a velocidade adquirida pelos acontecimentos na civilização pós-industrial. A aceleração crescente das modificações técnicas, culturais, sociais e econômicas tem, justamente, sua resposta na flexibilização das mentalidades, na capacidade para a apreensão do novo, na coragem em abandonar convicções e posições anteriores, na possibilidade de embarcar no embalo dos acontecimentos. O modo borderline de existência coloca o homem na dimensão do desafio da velocidade, da inconsistência e inconstância da pós-modernidade. (Armony, 1998, p.165).

 

De todas as possibilidades existenciais do borderline brando, a que mais nos interessa no momento é a sua capacidade de identificação contínua, dual-porosa, que justamente responde ao desafio da aceleração, incerteza e mutabilidade dos tempos atuais.  No campo inter-pessoal a identificação dual-porosa dá origem a um espaço singular comum a dois entes, espaço que denominei de íntimo. É este espaço íntimo - nem subjetivo, nem objetivo - que nos encaminha para o espaço potencial de Winnicott.

           Vamos, pois, examinar o espaço potencial para depois, de alguma maneira, articulá-lo com a identificação dual-porosa própria do modo borderline de ser/estar.

 

O ESPAÇO POTENCIAL

Começarei com uma citação de Winnicott:

“Apresentei para discussão de seu valor como idéia, a tese de que o brincar criativo e a experiência cultural, incluindo seus desenvolvimentos mais apurados têm como posição o espaço potencial existente entre o bebê e a mãe. Refiro-me à área hipotética que existe (mas pode não existir) entre o bebê e o objeto (mãe ou parte desta) durante a fase do repúdio do objeto como não-eu, isto é, ao final da fase de estar fundido com o objeto. (...)A separação [“separating-out” que traduzirei tentativamente por separação absoluta ou separação dissociada] que o bebê faz entre o mundo dos objetos e o eu (self) só é conseguida pela ausência de um espaço intermédio, sendo o espaço potencial preenchido do modo como estou descrevendo. (Winnicott, 1971b, p. 149).


 

Portanto, a ausência de um espaço potencial faz com que haja uma dissociação entre subjetivo e objetivo. Se prevalecer o primeiro, teremos a psicose. Se predominar o segundo, a personalidade “como se”. É preciso um espaço potencial para que haja ao mesmo  tempo separação e união. Quais as condições necessárias para que venha a existir um espaço potencial, um espaço em que união e separação se conjuguem? A resposta é múltipla e, evidentemente, aberta. Vejamos um aspecto da questão através de uma citação de Winnicott:

 

“A resposta pode ser a de que, na experiência  que o bebê tem da vida, na realidade em relação à mãe ou figura materna, se desenvolve geralmente certo grau de confiança na fidedignidade da mãe, ou (em outra linguagem, própria da psicoterapia), o paciente começa a sentir que o interesse do terapeuta não se origina da necessidade de um dependente, mas de uma capacidade, nesse terapeuta, de se identificar com o paciente, a partir de um sentimento do tipo ‘se eu estivesse no seu lugar’”... (Winnicott, 1971, p.150).

 

A partir desse e de outros textos de Winnicott. pode-se estabelecer uma diferença entre a fase em que a criança se encontra confundida com o meio e a fase em que a criança começa a se perceber como um eu em oposição a um não-eu[2]. Em ambas as fases a mãe, segundo Winnicott, deverá se identificar com o seu filho. Mas são identificações que apresentam diferenças. Na fase de fusão a identificação é imediata, sem barreiras, já que há uma indiferenciação mãe-filho; a mãe encontra-se na psicose “normal” da “preocupação materna primária” e identifica-se psicoticamente com o seu filho. Ao sair da fase de fusão, o bebê passa a distinguir um eu de um não-eu, preenchendo a fenda com  objetos e fenômenos  transicionais, inaugurando assim o espaço potencial; por sua vez, a mãe, saindo da psicose normal da preocupação materna primária, recupera a sua individualidade, percebe o filho como um outro, devendo agora estar em um estado de disponibilidade para a identificação para poder perceber as necessidades de seu baby. Teríamos aqui uma identificação secundária. A identificação primária se dá antes da relação de objeto.  A identificação secundária implica uma relação de objeto[3]. O objeto transicional e consequentemente o espaço potencial surgem justo no período em que a criança, saindo da fusão, começa a perceber o não-eu; o objeto transicional que então aparece, mantém a mãe ao mesmo tempo presente e ausente. E é nesse espaço potencial que a mãe e o terapeuta necessitariam de ter uma disponibilidade para a identificação para manter um alto nível de sensibilidade.

O espaço potencial é o espaço da criatividade propriamente dita. Mas existe uma criatividade anterior a esta que é a “criatividade primária”. Acontece que para Winnicott, o borderline está aquém do espaço potencial. Como então explicar teoricamente sua capacidade criativa, sua “recriação mágica” ? De onde viria a criatividade do borderline se para Winnicott a criatividade propriamente dita acontece a partir do espaço potencial, e, segundo esse autor, o borderline está pelo menos um passo aquém desse espaço, não tendo atingido a condição de integração eu-não eu. Isto nos é dito claramente por Jan Abram no seu livro “A Linguagem de Winnicott”. Segundo ela os borderlines pertencem a terceiro grupo postulado por Winnicott em seu artigo “Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting analítico”. Esse terceiro grupo é apresentado por Winnicott da seguinte maneira:

 

“No terceiro agrupamento coloco todos os pacientes cuja análise deve lidar com os estádios primitivos do desenvolvimento emocional, antes e até o estabelecimento da personalidade como uma entidade, e antes da aquisição do status de unidade espaço-tempo. A estrutura pessoal ainda não está fundada de forma segura”. (Winnicott, 1954/5, p.460) 

 

A propósito desse terceiro agrupamento Winnicott nos remete a uma analisanda borderline. Por isso Jan Abram pode afirmar:

 

 O terceiro grupo consiste daqueles indivíduos que sofreram as conseqüências de uma falha da adaptação do ambiente nos primeiros estágios da vida, quando eram absolutamente dependentes. Esses pacientes são geralmente classificados como regredidos e rotulados como borderlines, esquizóides, esquizofrênicos, e assim por diante(Abram, 1996, p.209).

 

Portanto, para Winnicott/Abram, a origem da situação borderline encontra-se antes do aparecimento do objeto transicional e do espaço potencial. Ao mesmo tempo, ao falar da “recriação mágica” do borderline, ele está falando de um borderline criativo. Mas, evidentemente, não está se referindo à criatividade propriamente dita, aquela que aparece no espaço potencial. Só podemos então adjudicar ao borderline àquilo que Winnicott chamou de “criatividade primária”, uma criatividade que antecede a criatividade tout-court. Existe pois um espaço para a manifestação da criatividade do borderline, que não é o espaço potencial, mas que pode ser considerado um equivalente do espaço potencial. Esse equivalente ao espaço potencial eu chamei  -- a partir de minhas especulações sobre o borderline --  de espaço de intimidade. São essas semelhanças e diferenças entre esses espaços que veremos a seguir.

 

ESPAÇO POTENCIAL E ESPAÇO DE INTIMIDADE

IDENTIFICAÇÃO DUAL-POROSA

 

Vejamos as diferenças, semelhanças e equivalências existentes entre o espaço potencial e o espaço íntimo conceitualmente atrelado à identificação dual-porosa.

Iniciarei com uma citação de Winnicott:   

 

“O espaço potencial acontece apenas em relação a um sentimento de confiança por parte do bebê, isto é, confiança relacionada à fidedignidade da figura materna ou dos elementos ambientais, com a confiança sendo a prova da fidedignidade que se está introjetando” (Winnicott, 1967, p.139).

 

A confiança depende da disponibilidade e capacidade de identificação dual-porosa da mãe-ambiente. O pensamento winnicottiano leva-nos a supor que o espaço potencial só pode se desenvolver e ser ocupado por aqueles que tiveram uma suficientemente boa maternagem primitiva. Quero propor aqui um equivalente do espaço potencial: o espaço íntimo. Este espaço é freqüentado por aqueles que não tiveram uma maternagem primitiva suficientemente boa e que puderam superar essa desvantagem através da utilização da identificação dual-porosa. Em outras palavras: mesmo não tendo realizado uma identificação suficientemente boa com a mãe primeva poderá o borderline criar para si um equivalente ao espaço potencial, onde a mãe pessoa é substituída pela mãe-cultura, ou, se preferirmos, pela mãe-natureza, no  sentido espinoziano  de natureza. E é a abertura em leque infinito da identificação dual-porosa que permite criar esse espaço equivalente ao espaço potencial winnicottiano. André Martins (Martins, 1998, p.6) distingue a mãe restrita da mãe ampliada para a Natureza. Ele se pergunta a respeito do ventre materno:

 

“Mas qual ventre? O de uma simples regressão paralisadora? Acho que não. O ventre que nos convém seria o ventre da vida em nós. [E cita Nietzsche:] ‘No dionisíaco, é  com sua voz não camuflada que a Natureza nos fala: ‘Sejam tais como eu sou ! Eu, a mãe originária, que cria eternamente a partir da incessante variação dos fenômenos, que força eternamente à existência e que, eternamente, jubilo-me destas metamorfoses!’ (O nascimento da tragédia, parágrafo 16). [E Martins prossegue:] O sentimento de acolhimento por esta ‘mãe originária’ não se confundiria, portanto, com o sentimento oceânico de que nos fala Freud no “Mal estar na cultura”, como um substitutivo para a angústia de castração (...)  [Comentário meu: não se trata pois, de regredir para o estado de dependência absoluta.]  A mãe originária, vista como Natureza, no sentido espinosiano, traria já dentro de si a idéia de variação, metamorfoses, transitoriedade. Mas ao mesmo tempo de acolhimento... (Martins, 1998, p.6)

 

O borderline insuficientemente identificado com a mãe primeva usaria a sua fome de identificações para se identificar com a Natureza, com a Cultura, com o Mundo, com o Universo, um Universo em constante mutação, exercendo produtivamente a sua capacidade de identificação dual-porosa.

         Aqui, um adendo clínico: nas condições econômicas e sociais atuais torna-se difícil estabelecer um setting que facilite uma regressão à dependência absoluta. Temos então de contar com a sede de identificações que subsiste.

         Portanto, mesmo aqueles borderlines que não tivessem tido, nem uma maternagem suficientemente boa na passagem da indiferenciação absoluta para a diferenciação relativa (do um ao eu/não-eu), nem tivessem possibilidade de regredir a essa condição primitiva para reviver e refazer o vínculo materno-filial, poderiam abrir para si um espaço que se assemelharia ao espaço potencial. As pessoas que não tiveram a dádiva de uma maternagem primeva satisfatória podem enveredar pelo caminho de busca de mães substitutas através da vida; mas podem também, através do uso da identificação dual-porosa, encontrar um acolhimento na mãe-natureza (no sentido espinosiano de natureza) que os capacita a entrar em íntimo contato com as pessoas, os acontecimentos, a subjetividade circulante, a cultura. Esse seria um equivalente do espaço potencial ao qual proponho o nome de espaço íntimo. Nesse espaço vigoraria a criatividade primária e não a criatividade propriamente dita, já que esta última é própria do espaço potencial, aonde o borderline não teria adequadamente chegado.

         Haveria, então, sob o ponto de vista de utilização do espaço potencial, dois tipos de borderline brandos: um que tendo tido uma relação suficientemente boa com a mãe na passagem da dependência absoluta para a dependência relativa, pôde alcançar o espaço potencial, e outro que não tendo tido uma passagem satisfatória da relação fusional à relação alteritária simbiótica, consegue, nessas circunstâncias, criar um espaço equivalente ao espaço potencial – o espaço de intimidade, onde vige a criatividade primária.

         Se nós, terapeutas, tivermos em mente a equivalência proposta acima, melhor e mais facilmente poderemos encaminhar a terapia do borderline pesado. Não só poderemos acolhê-lo em uma regressão personificada, como também será possível entender e acolher o dinamismo de transmutação de seu vazio em identificação contínua – dual-porosa – com o mundo circundante. Uma combinação dessas duas insinuâncias tornará menos espinhoso o caminho a ser percorrido pelo borderline pesado e seu terapeuta, rumo ao borderline brando – o homem pós-moderno.

 

                                                        Rio, março de 2000
                                                                  Nahman  Armony

 

Bibliografia

 

ABRAM, J. A linguagem de Winnicott. Rio: Revinter, 2000.

 

ARMONY, N. Borderline, uma outra normalidade. Rio: Revinter, 1998

 

FEATHERSTON, M. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995.

 

FREUD, S.(1911) Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XII. Rio: Imago, 1969

 

MARTINS, A. O medo de ousar: entre  a hiperaceleração contemporânea e a tendência à conservação. Cópia xerocada de uma conferência realizada no CPRJ. Junho de 1998.                 

 

WINNICOTT, D.W. (1954) A posição depressiva no desenvolvimento emocional normal. In: Da pediatria à psicanálise. Rio: Francisco Alves, 1982, 2ª edição.

 

------------------------- (1954/5) Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting analítico. Ibid. 

 

------------------------- (1958) Psicanálise do sentimento de culpa. In: O ambiente e os  processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

 

------------------------- (1960)  Teoria do relacionamento paterno-infantil. In: O ambiente                                               e os processos de maturação. Porto Alegre:Artes Médicas, 1983.                             

 

-----------------------  (1964) Classificação: existe uma contribuição psicanalítica à classificação psiquiátrica? In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

 

----------------------- (1967a) O conceito de regressão clínica comparado com o de organização defensiva. In: Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

 

---------------------- (1967b) A localização da experiência cultural. In: O brincar e a  realidade. Rio: Imago, 1975.

 

---------------------- (1969) O uso de um objeto e relacionamento através de identificações. In: O brincar e a realidade. Rio: Imago, 1975.

 

---------------------- (1971a) Objetos transicionais e fenômenos transicionais. Ibid.

 

---------------------- (1971b) Criatividade e suas origens. Ibid.

 

---------------------- (1971c) O lugar em que vivemos. Ibid.          

 

---------------------- Natureza Humana. Rio: Imago, 1990.

 

                                                       




[1] Usei originalmente a palavra mitigada em referência à onipotência da fase de dependência relativa, onde o objeto é transicional, em contraste com a fase de dependência absoluta, onde o objeto é subjetivo. A materialidade do objeto transicional faz com que a onipotência absoluta não possa ser vivida, fazendo aparecer a experiência de onipotência mitigada. 
[2] “Duas pessoas separadas podem-se sentir-se em união, mas aqui, nessa área que examino, o bebê e o objeto são um. O termo identificação primária talvez tenha sido usado para designar exatamente isto que descrevo...”(Winnicott, 1971b, pag.114).
[3] “No crescimento do bebê humano, à medida que o ego começa a organizar-se, isso que chamo de relação de objeto do elemento feminino puro estabelece o que é talvez a mais simples de todas as experiências, a experiência de ser (...) Em contraste, a relação de objeto do elemento masculino com o objeto pressupõe uma separação. Assim que se acha disponível a organização do ego, o bebê concede ao objeto a qualidade de ser não-eu, ou separado (...) tratando-se do elemento masculino, a identificação necessitas basear-se em mecanismos mentais complexos, aos quais se tem de conceder tempo para surgirem, se desenvolverem e se estabelecerem como parte da aparelhagem do novo bebê. Tratando-se do elemento feminino, contudo, a identidade exige tão pouca estrutura mental, que essa identidade primária pode constituir uma característica desde muito cedo, e o alicerce para o simples ser pode ser lançado (digamos assim) a partir da data do nascimento (...)”. (Winnicott, 1971b, p.114/5). 

POEMA DA EMOÇÃO DEMAIS

Este manto de emoção que me envolve
Ora camisa de força
Contida em si mesma
Ora luz penetrante
Irradiação solar
Som liberto

Este manto
Com o qual tenho de viver
E conviver
É meu êxtase
E meu tormento.
                                    Nahman Armony.

LUTA PELO PODER



Muitos casais que se amam e desejam permanecer unidos vêm-se perplexos quando percebem que a relação está deteriorada. O que poderia ter acontecido? é a pergunta que se fazem. Eles querem permanecer juntos, mas, acontecimentos inapreensíveis levaram-nos àquela situação indesejada. O que será que podemos, como observadores não envolvidos, apreender do inapreensível? Os fatores de discórdia são tantos que se torna impossível abarcá-los. Mas podemos selecionar uma dinâmica bastante encontrada na relação de casal. Trata-se de uma dinâmica darwiniana pois se apóia numa emoção atávica existente desde o aparecimento da vida animal. Numa das partes mais primitivas de nossos circuitos cerebrais está de plantão um sistema de defesa/medo que se desencadeia quando está em jogo a hierarquia social, o domínio de um bicho por outro da mesma espécie. É a luta pela liderança cujo prêmio é ter o melhor quinhão, seja de comida seja de fêmeas. Ser líder tem sua importância na luta pela sobrevivência individual e na permanência para as futuras gerações de seus genes. Isto está incrustado em todos os seres vivos, inclusive no homem. Neste último a civilização produziu modificações. Um casal não pretende estragar seu convívio, sua mútua atração e seu amor por disputas de poder. E, no entanto, em um plano subterrâneo, fora do conhecimento consciente do casal elas existem e podem ser justamente um dos fatores da ruína da relação. Aqui estou-me referindo às dinâmicas implícitas. No explícito ouvimos frequentemente o homem do casal dizer: “minha mulher é quem manda”. Há uma admissão explícita de que o poder é exercido pela mulher. Além de ter um caráter jocoso esta afirmação refere-se a questões de natureza objetiva tais como escolha de móveis, decoração da casa, organização do dia a dia da família, etc. A disputa pelo poder ao qual me refiro ocorre em outro nível. Por exemplo: em um casal a discussão de um tópico qualquer lido em um jornal ou revista gera uma discussão interminável sendo-lhes impossível chegar a um acordo ou à admissão que existem dois pontos de vista. O que há por trás da ardor com que se lançam a esse tipo de discussão é a idéia de que aquele que tem a verdade está mais qualificado, é superior ao parceiro, e, portanto detém o poder. Pode ser que um dos dois ceda, mas nele provavelmente permanecerá um traço de ressentimento que, se acumulado, o afastará do parceiro. A desvalorização constante e sutil do companheiro em várias situações de vida também provoca ressentimentos. Instruções no trânsito como se soubesse dirigir melhor, apontamento constante de defeitos realizado não com o intuito de corrigir, mas de diminuir o outro fazendo com que se sinta inferior e garantindo o poder ou a fantasia de poder para si. Não se trata de mais ou menos amor, mas de um traço de personalidade que exige a ocupação de uma posição superior para sentir-se mais poderoso que o parceiro. É um traço de personalidade que se apóia em um desejo atávico que tinha a sua função em épocas pré-históricas e em outros momentos da História, mas que hoje já não é necessário à sobrevivência. Um exemplo desse anacronismo nós o vemos na adoção de crianças geneticamente diferentes dos pais adotivos. Por outro lado os efeitos práticos de uma luta de poder na família é desestruturante. É, pois uma disputa que já não se justifica. Sendo implícita, o casal não se dá conta do que está acontecendo. A ajuda de um terapeuta de casal porá a descoberto as fontes de mútuos ressentimentos possibilitando a evitação de comportamentos e verbalizações sutis que diminuam o companheiro e evitando o desencadeamento de uma guerra surda que só se manifestará claramente quando a aversão já tiver ido longe demais.

                                                                                                      Nov./11

                                                                                              Nahman Armony

                                   Primeira publicação na revista CARAS. 

TÉCNICA PSICANALÍTICA OU ARTE PSICANALÍTICA?


        A palavra técnica é usada -- embora cada vez menos -- para dar conta dos procedimentos a serem realizados na sessão analítica. Com a evolução da psicanálise a palavra ‘técnica’ passou a incomodar por dar a ideia de uma utilização mecânica de preceitos, retirando o que é fundamental para uma relação analítica: a arte do relacionamento, a sensibilidade amorosa, cujos paradigmas são encontrados no conceito winnicottiano de ‘preocupação materna primária’.  Procurou-se atenuar este incômodo adjetivando-se a técnica: passamos a falar de ‘técnica expressiva’. Esta foi uma maneira que alguns psicanalistas encontraram para evitar usar a palavra ‘arte’ pois esta retiraria a cientificidade da psicanálise. No dicionário de filosofia de José Ferrater Mora a palavra ‘expressão’ é usada em três contextos: na filosofia, na semiótica e lógica e na estética. Foi esta última que me interessou. Citação: “Discutiu-se muitas vezes qual a relação entre conteúdo estético e sua expressão. Esta expressão tem sido às vezes identificada com a forma. Porém, como a forma tem um caráter universal, objetou-se que em tal caso há que identificar a expressão como um conjunto de norma ou regras de caráter objetivo. Em suma, a expressão seria simplesmente a imitação. Para evitar esta objetivação da expressão, disse-se que a expressão é sempre e em todos os casos, de índole subjetiva; dependendo da experiência estética e de suas numerosas variações.” O verbete técnica revela o seguinte: “Os gregos usavam o termo ‘téchne’ (com frequência traduzido por ‘ars’, ‘arte’ que é a raiz etimológica de ‘técnica’) para designar uma habilidade mediante a qual” se faz algo”... “Em geral ‘téchne’ é toda uma séria de regras por meio das quais se consegue algo.” Há que chamar a atenção para o seguinte: na primeira proposição, onde a ênfase é colocada na habilidade produtiva, ars e téchne, arte e técnica ficam confundidas; é quando a palavra ‘técnica’ (e aí estamos na segunda proposição) passa a privilegiar , não a habilidade, nem o produto desta habilidade, mas o conjunto de regras a ser seguido, é então que a arte e técnica se diferenciam. Repare-se o paralelismo entre técnica e o uso da objetividade e arte e expressão subjetiva.

        Neste ponto várias perguntas me ocorrem. Como se chegou a tal conjunto de regras? Como se faz uso delas? Uso intelectual? Se eu seguir estas regras ainda estarei no campo da arte? Ou minha atuação passará a ser robótica, despida de vida, força, intensidade, convicção?

        O compósito ‘técnicas expressivas’ põe em relevo este paradoxo e nos estimula a pensar esta contradição. Expressão é um termo no qual está embutida a ideia de espontaneidade. Técnica é uma palavra que carrega a ideia de algo laboriosamente aprendido. Como realizar a conciliação entre técnica e expressão? Se caricaturarmos o analista clássico do século passado teremos uma figura imponente, pomposa, com algumas estereotipias: uma delas é começar a comunicação com as palavras ‘você está-me dizendo que...’; outra é a permanente referência à transferência; outra ainda é fazer jogos de palavras, etc. Este analista aceita --- e mesmo, estimula --- ficar colocado na posição de um Ser onipotente que tudo sabe e tudo pode mesmo quando se declara não sabendo e não podendo. A fala deste analista será estereotipada e, portanto, não expressiva; será uma palavra intelectual que em nome de uma técnica ficará despida de emoção. Felizmente estamos nos distanciando destes tempos e o analista hoje fala como gente. Usa uma palavra expressiva, como costuma ser expressiva a palavra na comunicação leiga. A expressão deverá ser parte inerente da comunicação terapêutica. Sabemos que existe uma comunicação simbólica e uma comunicação expressiva. A comunicação puramente simbólica é pobre. Faz dormir. Não convence. Não motiva. Se eu lesse esse trabalho monocordicamente estaria realizando uma comunicação puramente simbólica. Mas vocês estariam entediados, talvez sonolentos, quem sabe dormindo. É preciso que a palavra carregue a vida do analista dentro dela. Esta pulsação básica só ocorre quando o cliente é importante para o terapeuta e vice-versa. Como diz Winnicott, quando existe uma relação de mutualidade. Cria-se então um campo afetivo-emocional-empático-identificatório; a emoção do cliente lhe é devolvida pelo terapeuta na expressividade da palavra e do comportamento. Ele, cliente, sente-se então amado, existente, tendo um lugar no coração do analista e no coração do mundo. A expressividade é a música do analista: está nas variações melódicas e rítmicas das palavras e na expressividade do corpo e dos movimentos. O analista canta: conta e canta. E o conto do analista só adquire força se for um conto cantado. Não se trata de um jogo de palavras. A música da frase é talvez ainda mais importante que o seu significado. Lembro-me de um colega, pesquisador inveterado, falando as maiores barbaridades para um clientinho de seis anos em tom carinhoso, e obtendo uma resposta, não à letra, mas à música de sua comunicação. É compreensível que assim seja. A voz é um dos mais expressivos instrumentos musicais existentes. A música, sem dúvida, é um desdobramento da voz. Encontramos na fala os elementos essenciais da arte musical: ritmo, melodia, fraseado, andamento, movimento agógico, expressividade, etc. A música da voz é anterior à fala e esta apenas acrescenta uma significação simbólica a esta música. É claro que para o adulto, diferentemente do exemplo que dei, é importante uma coerência entre significação simbólica e a expressão afetiva. Porém a significação simbólica só entrará no psiquismo do outro se for mediada por uma expressão musical apropriada. É esta expressividade que faculta as transformações. Como adquiri-la? Como aperfeiçoá-la? Sem dúvida, a expressividade é aprendida no calor das primeiras relações. Cabe ao homem e ao terapeuta mantê-la viva e atuante, permitindo-se ser sensível sempre à comunicação verbal e não-verbal do outro. Novas formas de expressão podem ser adquiridas expondo-se a homem e o terapeuta a situações inéditas. Nestes últimos dez anos, participei de alguns laboratórios que permitiram incorporar ao meu repertório pessoal, outras formas de expressão. Mais que técnico, foi um aprendizado vivencial. Nesta perspectiva, a expressividade é apreendida e aprendida através da experiência. É a ação de colocar em jogo a expressividade num estado de receptividade que a aperfeiçoa. Trata-se muito mais de poder estar sensível, em um estado de identificação, empatia e comunhão do que buscar nos arquivos a conduta adequada.

Toda essa fala anterior leva-nos à questão da espontaneidade; é uma questão complicada. Posso esperar que surja espontaneamente em mim a ação mais adequada para aquele momento terapêutico? Aperfeiçoando a pergunta: se eu estiver em estado de sensibilidade, em contato com meus sentimentos, medos, desejo e fantasias, se eu estiver ligado às manifestações transferenciais e contratransferenciais, se eu estiver num estado de empatia e identificação, então aparecerá espontaneamente a melhor conduta terapêutica? Ou haverá ocasiões em que terei de me por em estado de reflexão para encontrar o melhor caminho? Neste momento estarei fazendo uma escolha técnica? Será igualmente efetiva para a terapia, tanto um fluir artístico-espontâneo quanto uma escolha técnica? Ou haverá momentos próprios para cada uma dessas condutas?

Um conceito que poderá nos ajudar nesta busca é o de espaço potencial e área transicional de Winnicott; isso se considerarmos a técnica como o polo objetivo do espaço transicional e a arte como o polo subjetivo. Mas não estou querendo expor verdades. Estou colocando questões com o pensamento voltado para a multiplicação de nossos pontos de referência, o que, em minha opinião, permite uma maior riqueza vivencial e reflexiva e, portanto, uma compreensão mais ampla e diferenciada do universo humano. Cada um poderá pensar nestas questões de acordo com a própria cabeça e personalidade, encontrando assim caminhos que lhe serão próprios, acoplados às suas idiossincrasias. Por isto mesmo não estou buscando resolver as contradições que surgem no texto; não estou tentando trazer para uma convergência os vários feixes de ideias. Ao contrário, percebo que estes feixes podem se entrecruzar das mais variadas maneiras, que por vezes podem correr paralelos e que enfim, o caleidoscópio se formará à imagem e semelhança de cada um.

Falemos, pois, outra vez de técnica e expressividade, agora numa nova perspectiva. Pensemos num pianista que aprende laboriosamente uma técnica, e que, enquanto a está aprendendo não pode expandir-se, não pode colocar toda a sua expressividade na interpretação. Porém, no momento em que a técnica se transformar em uma segunda natureza, então sim, poderá deixar fluir toda a sua emoção. A técnica deixou de ser uma preocupação e transformou-se em forma de expressão. Não forma inata, mas aprendida e assimilada a um ponto que o inato e o adquirido não se distinguem. O inato, como ficou dito anteriormente, pode ser aperfeiçoado; a maneira condizente com tal aperfeiçoamento é a experiência viva, flexível e aberta à modificação. Pode, porém, ser aperfeiçoado por um aprendizado propriamente técnico (conjunto de regras). Este, porém se articula melhor com o não-inato. Neste caso a técnica será aprendida mediante um esforço disciplinado e enquanto estiver sendo aprendida interferirá com a espontaneidade e a arte do terapeuta. Porém, uma vez transformada em segunda natureza, dotará o analista de mais recursos tornando-o mais capaz de lidar com as variadas situações que se apresentam.

        Deixei alguns fios soltos, algumas possibilidades em aberto. Por exemplo, não examinei a possibilidade de articular técnica e arte ao falso self e verdadeiro self. Dentro do espírito de mestre Winnicott e usando a terminologia de Umberto Eco, deixo este artigo como obra aberta a ser processada pela subjetividade pessoal de quem o lê. Espero que cada um selecione os “seus” fios e os disponha e desenvolva à sua maneira. Espero ter podido transmitir, não propriamente algo original, mas a originalidade de minha singularidade, que é o que nos permite enriquecermo-nos mutuamente.  

                                               Nahman Armony

DIMENSÕES

No dar medido
Eu me arranho

Eu me arranho
Nas escarpas do medo
No vazio existencial
Na solidão fundamental
Em nada atenuada
Pelo mergulho vaginal
Declaradamente assombroso
Superficialmente saboroso
Discretamente nervoso.

O espasmo recalcitrante
Não atinge o limite.

O mergulho vazio 
No cio
Da natureza defendida
Resumida
Em forma de gente
Esculpida
A golpes de mente.

O magma da terra
O coração cantante
A estrela fulgurante
O ritmo cósmico
Tudo isto é falta.

Meu mergulho vaginal
Permanece horizontal
Os sucos apenas me molham
Não me consomem
Não me penetram.

Como retirar forças de um Universo morto?

Há uma pálida compreensão
Existencial
Da dimensão horizontal
Há uma entrega indigente
Contente
De se fingir gente
Diante
Da frente familiar.

Há que viver 
O que a vida oferece
Seja grande ou pequeno
Seja parte o total

Mas,

E quando o mergulho vaginal
Permanece horizontal?
O que fazer com tanta falta?
Onde fica a substância?
A densidade?
A inteireza?

Como andar no mundo
Em duas dimensões?

            Nahman Armony

do meu livro "O Anverso e o Verso"

VIVER SÓ OU ACOMPANHADO


        Este meu novo ofício de cronista do amor tem-me levado a ficar atento aos acontecimentos pertinentes a essa área. Em recente programa de televisão depoimentos de uma maioria de mulheres na faixa dos 30 anos dava como causa de separação as diferenças de gostos: enquanto ela apreciava a paisagem bucólica das montanhas ele preferia divertir-se na praia. Podemos multiplicar estas diferenças: gostar ou não de cinema, de ar-condicionado, de ficar em ou sair de casa, etc. Gostos que, na verdade, não são fundamentais para a vida de cada um.
        O apaixonamento passa por cima de todos os gostos. É um impulso tsunâmico avassalador que leva tudo de roldão na ânsia de abraçar e se fundir com a outra pessoa. Mas a paixão tem vida limitada. Se duas pessoas pretendem criar uma história em comum necessitam de se amar. Amor é carinho, companheirismo, ternura, confiança mútua, divisão de tarefas, satisfação de estarem juntos, mútuo amparo e outras coisas deste jaez. O sexo da paixão explode na ânsia de entredevoramento: o sexo do amor surge do carinho, da ternura, do sentimento de gratidão.
        O ideal é que paixão e amor possam caminhar juntos. Sendo a paixão um sentimento mais fugaz, a base de um relacionamento estável só poderá ser o amor. Para que paixão e amor convivam é preciso que a linha levemente sinuosa do amor seja periodicamente invadida por picos de paixão. Céu claro do amor e céu tempestuoso da paixão. Choque cósmico de estrelas espalhando brilhos fascinantes nos corações e luz mansa das auroras e vésperas enchendo as almas de calmas belezas.
        Se a paixão é irresistível, o amor está sujeito a temperaturas e temperamentos. Voltamos então ao depoimento das mulheres de 30. São mulheres socialmente e financeiramente realizadas que podem escolher entre viver sozinhas ou com um companheiro.
        A vida de casal é potencialmente mais rica e confortável. Pesquisas têm demonstrado que casados vivem mais que solteiros; os casados (ou equivalentes), podem melhor relaxar na presença de um companheiro amoroso, íntimo e confiável, recuperando-se melhor dos estresses da vida.
        Por que então, nesta amostra, a maioria dispensou o companheiro por uma banal questão de gosto? Certamente que a divergência poderia ser resolvida democraticamente, ora satisfazendo o prazer de um, ora de outro. Ou então um poderia ir ao futebol e outro ao teatro sem perturbar o básico da convivência de um casal.
        Esta pergunta merece pelo menos duas respostas. Pareceu-me que por trás da teimosia em não abrir mão em hipótese alguma de um gosto estava a necessidade de afirmação da individualidade. Ceder ao desejo do outro seria abdicar de si mesmo, da essência de sua personalidade, transformando-se em capacho, um nada, um zero à esquerda. A questão deixa de ser aquilo de que se gosta ou não e passa a ser a conservação ou não da própria essência pessoal.

        A segunda resposta está estreitamente ligada à primeira. Estamos mergulhados em uma cultura individualista. O modo de criação dos filhos da geração que agora chega aos 30 anos foi não opor obstáculos aos seus desejos. As crianças desde cedo se acostumaram a impor suas vontades aos pais. E quando adultos não conseguem conviver com desejos que limitem os seus. Com isso privam-se da delícia da íntima convivência amorosa.
        É verdade que alguns procuram vencer o individualismo e lutam por aceitar restrições às suas vontades. Alguns são bem sucedidos, outros não.
        Não quer dizer que um modo de vida seja melhor que o outro. Enquanto Tom Jobim nos diz que “é impossível ser feliz sozinho” outros dizem que amor é ilusão que só traz sofrimento. Cada um escolhe o caminho que quer e que pode. Mas não posso deixar de notar que a grande maioria das letras poéticas canta o amor e lamentam a sua perda.   
                                        Nahman Armony  

   Primeira publicação na revista CARAS

WINNICOTT, INOVADOR


        Winnicott, tendo produzido sua obra no início e durante o desenvolvimento de um período tumultuado (1950-1970) (1896-1971), dá uma importante contribuição teórica e prática para mudar a situação, criando novos paradigmas. Diante de um mundo à beira da desorganização ele encontra conceitos a partir de suas observações e de suas práticas indicando um caminho de restauração das relações humanas.
        Para melhor compreendê-lo precisamos colocá-lo em um contexto histórico. Para isso usarei o artifício de uma dialética hegeliana. Teríamos então como tese a Repressão do período vitoriano onde Freud é a figura psicanalítica proeminente; como antítese a permissividade excessiva; e para a síntese apresento paradoxalmente Winnicott e seus paradoxos um dos quais é a combinação de limites com liberdade. Exp. da folha. Nos limites da folha a liberdade é máxima.        
        Vamos rapidamente passar os olhos por esses vários períodos.
        Período repressor vitoriano. Modelos de comportamento. Estritas regras de convivência. A boa educação; o "gentleman". Autoritarismo. Verticalidade. Freud, a repressão sexual e a repressão. Recalque. Limites colocados duramente. Castração. Culpa. Medo. O limite é vivido como imposição imperativa. Desconsideração pela subjetividade e intersubjetividade; objetivação do mundo.
        Período permissivo pós-moderno. Permissividade radical. "É proibido proibir". Falta de limites. Desconsideração, violência, drogas, desordem, caos, desrespeito, desestruturação.
        Em direção à síntese. Muitos pensadores, especialmente sociólogos procuram caminhos para uma síntese. Eu não diria que Winnicott tentou propositadamente encontrar este caminho. Ele não era sociólogo. Mas sua atividade clínica especialmente com bebês levou-o a extrair vários conceitos que são novos paradigmas sendo os mais importantes, em minha opinião o conceito de "holding" e o de espaço intermediário.
        Listarei as várias mudanças de paradigma.  
        Mudança de paradigma - pulsão x relação de objeto (Fairbairn).  Na pulsão: o aparelho psíquico, pressionado por suas pulsões internas precisa descarregá-las; vai então à busca de um objeto adequado para isto. Na relação de objeto: um ser humano busca outro ser humano para se relacionar. Na linguagem de Winnicott- pulsão freudiana (instintos do id) e relação afetiva mãe-bebê (instintos do ego). Mãe-objeto e Mãe-ambiente. Maior importância à mãe-ambiente (atmosfera de afeto) que à mãe-objeto (alvo do instinto). Importância da mãe-ambiente no desenvolvimento do bebê. Importância do ambiente no desenvolvimento do ser humano. Em direção ao paradigma holístico. "Não existe esta coisa chamada bebê".
        Na relação mãe-filho o holding. Holding é uma mudança de paradigma. Nem está no paradigma do autoritarismo, nem no paradigma da permissividade.
        Paradigma holding- sustentação física e psicológica. Acolhimento. Compreensão.
Holding e limites. Limites colocados com carinho. Dos braços da mãe aos braços da lei. Atitude: firme e carinhosa. O limite é vivido como contenção necessária que não afeta a liberdade. Na castração freudiana limite como muro contra o qual a criança bate a cabeça e no holding winnicottiano como cortina que demarca o limite com flexibilidade e sem machucar. Citação de Winnicott: "... a criança provoca as reações totais do ambiente, como se buscasse uma moldura cada vez mais ampla, um círculo que teria como seu primeiro exemplo os braços ou o corpo da mãe. É possível perceber aqui uma série - o corpo da mãe, seus braços, o relacionamento dos pais, o lar, a família, incluindo os parentes próximos, a escola, o bairro com a sua delegacia, o país e suas leis". (p.411 do artigo "Tendência antissocial"). Holding é muito mais que sustentação física; é sustentação afetiva; é a percepção e mesmo a intuição das necessidades da criança e o seu atendimento
        Paradigma "mãe suficientemente boa". O conceito mãe-suficientemente boa deixa um espaço para a falha, para a falta, para o erro. O atendimento ao bebê jamais poderá ser perfeito. Mas basta que a mãe seja suficientemente boa para possibilitar o crescimento do bebê e da criança. Este conceito tem interessantes repercussões filosóficas e epistemológicas. Estamos falando de uma mãe que na maior parte do tempo, tem a sensibilidade necessária para compreender e atender as necessidades afetivas do bebê, mas que nem sempre, por uma razão ou outra, está sensível ou disponível para atender o filho. O conceito de mãe-suficientemente-boa tem repercussões filosóficas e epistemológicas influindo numa mudança paradigmática mais geral, pois a modernidade tinha como meta a busca da perfeição. Com este conceito Winnicott coloca-se fora da transcendência, pois a perfeição só lá existe. Ele nos traz para a realidade humana, isto é para a imanência. Aqui se faz necessário interrogar um outro conceito winnicottiano: o "erro necessário". É preciso que o cuidador erre para que o bebê e a criança possam se diferenciar e evoluir. Muitas vezes, diz-nos Winnicott, o analisando se empenha e faz com que o analista erre. O conceito "erro necessário" poderia nos confundir em relação à sua imanência. Mas não devemos usá-lo como pretexto para voltar a falar da Perfeição transcendente, não só porque o erro é conscientemente involuntário não estando referido a uma perfeição, como também existem erros desnecessários. Mas, mesmo estes, podem ser eventualmente aproveitados para o crescimento da díade mãe-filho ou da díade terapêutica. (Estou falando do paralelismo mãe-filho e terapeuta-cliente).
Exemplos: Simon Grolnick escreve no seu livro "O trabalho e o brinquedo": "Um dia, quase ao final da sessão estávamos tendo o que parecia uma sessão comum. Eu tinha ficado acordado até tarde, na noite anterior, e estava também evidenciando os primeiros sintomas de uma doença viral. Adormeci e tirei uma soneca durante a qual teria ocupado alguns segundos. No início, o paciente começou a conversar, enquanto eu cochilava: mais tarde, no entanto, reuniu a coragem para enfrentar-me, perguntando se a mudança de meu ritmo respiratório devia-se ao fato de eu ter adormecido. Ao mesmo tempo em que minha primeira reação seria de tentar defender-me e dar-me uma oportunidade de pensar numa estratégia, pedindo ao paciente que relacionasse ao que ele ouvira e sentira, decidi assumir a acusação e contar a ele acerca de minha ida tarde para a cama, na noite anterior, bem como acerca da sensação de estar ficando doente. Após certa hesitação, ele desandou a chorar. Quando conseguiu se conter, falou que tinha certeza de que eu não lhe contaria a verdade e que eu tentaria, tal como eu o pensara, proteger-me. Ele explicou suas lágrimas como um sinal de gratidão e de aproximação para comigo. E continuou, estabelecendo associações com o incidente. Ambos os pais haviam sempre tentado encobrir suas falhas pessoais de inúmeras maneiras. Isso o fizera sentir que teria de ser perfeito para ganhar seu amor. Estava evidente que a parte dele que poderia apresentar falhas teria que ser enterrada, e não receberia validação de parte de seus pais. Ele sentiu que eu atingira uma área que não tinha sido atingida durante sua psicoterapia anterior. Seu primeiro terapeuta não admitia erros" (ps.120-121). Outro exemplo: “Uma analisanda muito emocionada, não contendo o choro falou-me de um paciente seu que a tinha afetado profundamente. A intensidade do sentimento de minha analisanda fez com que eu me comovesse e deixa-se escapar lágrimas que ela notou. Eu disse que a intensidade de seus sentimentos tinha-me tocado. Na sessão seguinte ela apresentou duas reações: disse que se sentiu aliviada e confortada com minhas lágrimas, pois ela percebeu a dificuldade que estava tendo de, na sua tese de doutorado, fazer uma liga entre o intelectual e a vida. Por outro lado teve sonhos estranhíssimos, sonhos dentro de sonhos dos quais apresentarei alguns elementos dispersos: no sonho ela havia adormecido e ao acordar tudo estava fora de lugar em sua casa. Tinha cortado seu cabelo. Pombos invadiram sua casa e sua mãe a olhava pela janela. No sonho ela adormeceu de novo e sonhou com um cabeleireiro, com uma cabeleireira, com uma faxineira e comigo. Eu falei da dificuldade mas também da possibilidade de ultrapassar preconceitos”.
Dificilmente poderemos falar de erros em psicanálise. Talvez caiba falar em erro quando uma intervenção do psicanalista provoca situações irreversíveis como desistência de tratamento. Mas se adotarmos um ponto de vista não onipotente e holístico poderemos dizer que cada terapeuta devido ao seu temperamento e personalidade tem áreas de atuação que vão de extremamente adequadas a extremamente inadequadas. Se um tratamento não progride ou nele se criam situações irreconciliáveis podemos pensar que aquele terapeuta não era o adequado para aquele analisando e que o melhor que pode acontecer é mudar de terapeuta. Imaginemos que os psicanalistas formem uma comunidade. Dentro desta comunidade haverão aqueles mais apropriados, menos apropriados, e os inapropriados para tratar de certa pessoa. Assim, se não tivermos uma visão individualista, mas sim holística será escolhido um terapeuta apropriado. Ora, um analisando desistir de um tratamento pode ter exatamente este sentido: de buscar um terapeuta apropriado. É claro que esta é uma situação utópica impossível de existir em um sistema capitalista.   

13-   Outro paradigma - o antissocial como esperança e pedido de socorro. Uma criança que não tem um atendimento suficiente bom na fase de dependência absoluta sofre uma privação (privation - ausência [Dicionário Michaelis]), uma privação que para ela não tem rosto; é simplesmente um acontecimento da natureza assim como o terremoto, as enchentes, etc. Isso é assim porque nessa fase ainda não há uma diferenciação eu---não-eu. Já na fase da dependência relativa a criança reconhece a mãe como um não-eu e a responsabiliza pelo comportamento que a faz sofrer. Um bebê que teve um atendimento suficientemente bom e deixou de tê-lo sofre de uma deprivação (deprivation - perda). Em relação à deprivação ele pode ter reações anti-sociais que vão desde a mentira, ao roubo e à agressividade destrutiva. Com o ato anti-social ele tenta chamar a atenção para si, na esperança de voltar a ter um atendimento suficientemente bom. A agressividade destrutiva pode ser um resultado do fracasso, mas é ao mesmo tempo um repto para que se ponham limites à sua ação. A criança, o adolescente e o adulto durante um certo tempo são recuperáveis. A partir de certo ponto o comportamento anti-social se estrutura e dificilmente é reversível. De qualquer maneira, este ponto de vista estabelece um novo paradigma para delinqüentes ainda passíveis de recuperação. Um paradigma que vai para além da psicanálise. Sem dúvida poderia ser também um paradigma para juristas.    
14-   Paradigma criatividade: Criatividade não tem para Winnicott o significado de fazer algo novo. Claro que isso também. Mas, basicamente a criatividade é sentir que cada objeto do mundo foi, digamos, onipotentemente criado pela própria pessoa. Isto liga o ser humano inextricavelmente ao mundo dando-lhe um sentido e uma cor pessoal. Tudo isso começa quando a mãe suficientemente boa permite que o bebê viva um "momento de ilusão".
Momento de ilusão: Quando o bebê sente fome forma-se nele a expectativa de algo que vai terminar sua fome. Quando no momento da fome o seio aparece, ele tem a ilusão de havê-lo criado. O seio então é sentido como tendo sido criado por ele. O momento de ilusão é uma experiência de onipotência. Foi ele o bebê quem criou o mundo. Esta é uma experiência decisiva, pois lhe permite que venha a ser uma pessoa com consistência e organicamente ligada ao mundo. E esta é a fórmula geral de Winnicott para o conhecimento e relação com o mundo. O mundo é apresentado ao bebê e ao ser humano em geral no momento em que esse ser humano está indo de encontro ao mundo. O cuidador não impõe o mundo àquele que está sob seu cuidado. Ele o apresenta no momento azado, isto é, no momento em que a criança ou o analisando está pronto para criá-lo. A fórmula paradoxal aqui é: criar o que já existe. Uma variação desta formula é "recriar o que já existe" isto é, dar a sua contribuição pessoal a um objeto do mundo. Desta forma cada um acrescenta ao consenso, àquilo que é objetivamente percebido algo de sua subjetividade recriando o objeto. O objeto é ao mesmo tempo objetivamente percebido e subjetivamente concebido tal qual nos primórdios aconteceu com o seio. Esta é também uma mudança de paradigma que ficará mais evidente comparando-se uma citação de Freud a uma de Winnicott. Citação de Freud: Freud e a imposição: "O superego conservará o caráter do pai, e quanto mais intenso foi o complexo de Édipo e mais rapidamente se produziu a sua repressão (pela influência da autoridade, a doutrina religiosa, a educação, a leitura), tanto mais rigoroso será depois o império do superego como consciência moral, talvez também como sentimento inconsciente de culpa, sobre o ego".
Winnicott e a apresentação: "Fica claro que, de acordo com a teoria que uso em meu trabalho, você está possibilitando ao seu filho desenvolver um sentido de certo e de errado ao ser uma pessoa confiável nessa fase formativa inicial das experiências da vida dele. Se não tiver êxito com o seu bebê desse modo (e certamente se sairá melhor com um bebê do que com um outro), terá de tirar o melhor proveito possível de ser estritamente um ser humano, embora saiba que coisas muito melhores poderiam estar acontecendo no processo de desenvolvimento natural da criança. Se fracassar por completo, então deve tentar implantar idéias de certo e errado através do ensino e do treinamento assíduo. Mas isso é um substituto para o procedimento realmente válido, é uma confissão de fracasso e você vai detestar essa idéia; e, em todo caso, esse método só funciona desde que você, ou alguém atuando no seu lugar, esteja presente a fim de impor a sua vontade. Por outro lado, se puder dar a partida para o seu bebê de modo que, através da sua confiabilidade, ele desenvolva um sentido pessoal de certo e errado, em vez de medos primitivos e toscos de retaliação, você descobrirá mais tarde que pode reforçar as idéias de seu filho e enriquecê-lo com as suas próprias idéias".
É preciso que no gesto criativo esteja a mãe presente para recebê-lo. Caso contrário a criatividade se eclipsa. Vejamos uma carta de Winnicott a M.Klein de 17 de novembro de 1972: "o que eu queria na sexta-feira era sem dúvida que houvesse algum movimento de sua parte para com o gesto que fiz naquele trabalho. Trata-se de um gesto criativo e não posso estabelecer relacionamento algum através deste gesto se ninguém vier ao seu encontro. Acho que eu estava querendo algo que não tenho nenhum direito de esperar de seu grupo e que tem a natureza de um ato terapêutico, algo que não consegui em nenhuma de minhas duas longas análises, embora tenha conseguido muitas outras coisas" (pag.30 - "O gesto espontâneo"). Também é preciso que a Mãe aceite as contribuições transformadoras do filho. Outro trecho da mesma carta: "Pessoalmente acho que é muito importante que seu  trabalho seja reafirmado por pessoas que façam descobertas à sua própria maneira e que apresentem o que descobrem em sua própria linguagem. É desse modo que a linguagem será mantida viva". (idem).       
15-   OUTRO PARADIGMA - OBJETO E ESPAÇO POTENCIAL (TRANSICIONAL). A mãe suficientemente boa está em estado de "preocupação materna primária" durante a qual a díade vive uma fase de fusão o que permite que a mãe "adivinhe" as necessidades do bebê atendendo-as imediatamente. Bebê e mãe vivem uma experiência de fusão. Isto não significa que a mãe não se diferencie do bebê. Ela sabe que se trata de dois seres distintos. Ela continua tendo uma vida para além do bebê, embora este seja prioridade, uma prioridade acompanhada de um sentimento de fusão. O que quer dizer fusão? Quer dizer que ela é o bebê mesmo quando exerce funções, comportamentos e responsabilidades que nada têm a ver com o bebê. Ela se amplia com o filho que preenche o seu corpo-psique as 24 horas do dia. Pelo lado do bebê a psicologia experimental e a neurociência provaram a sua capacidade de uma incipiente percepção e discriminação de objetos. Sob o ponto de vista estritamente sensorial (assim como acontece com a mãe) não se poderia falar de fusão; o que a mãe percebe é diferente do que ele percebe. Mas disso ele nada sabe e sua experiência é de que a mãe e ele são um único ser. Ele é o SER parmenidiano a única existência do cosmos. Tudo o que acontece é por conta de sua onipotência. A mãe surge no momento em que ele a necessita por conta de sua onipotência.  
16-   Fase de dependência relativa- A mãe deixa de atender imediatamente as necessidades do bebê. Isso o faz sentir uma "descontinuidade de ser" provocando ansiedades impensáveis: cair para sempre, desintegrar-se, desconexão corpo-psique, desorientação, etc. Antes que tal coisa aconteça o bebê preenche o espaço vazio da descontinuidade com um intelecto incipiente e com o uso de um objeto transicional (objeto-mãe e não-mãe) que, ao aparecer cria o espaço potencial. Este espaço potencial, dependendo do contexto em que é usado, adquiriu muitos outros nomes: espaço transicional (muito usado), espaço intermediário, espaço do brincar, terceiro espaço e outros. O objeto transicional é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo (é e não é a mãe). É o que permite o brincar da criança. Ele pode destruir ilusoriamente sem destruir realmente. Por isso o espaço transicional é também chamado de espaço da ilusão. Ilusão aqui não significa engano, ser iludido. Designa um lócus epistemológico. É como se vive o mundo. A lua pode ser ao mesmo tempo um objeto material e um objeto mítico romântico. O exemplo mais didático são as brincadeiras infantis com bonecos-família, que são objetos transicionais, pois ao mesmo tempo são imagens inanimadas (objetos objetivamente percebidos), às quais a criança dá vida inventando histórias (objetos subjetivamente concebidos). Na época vitoriana cientificista os homens se esforçavam em se manter no espaço objetivo, desvalorizando e repudiando a subjetividade que era inclusive vista como epistemologicamente perigosa. Com isto eles se colocavam numa camisa de força que os impedia de realizar variações com o objeto objetivo e também os impedia de sentir o mundo como parte de si mesmos e não como algo separado.  
O espaço potencial e o objeto transicional são uma mudança de paradigma. Até então só se falava de um mundo subjetivo e de um mundo objetivo. O espaço potencial que recebeu depois vários outros nomes (o mais freqüente é espaço transicional ou área transicional usando-se também espaço intermediário), é um espaço onde o objetivo e subjetivo se entrelaçam. O objeto transicional soldado ao espaço potencial é um objeto visto por uma pessoa como tendo ao mesmo tempo propriedades subjetivas e objetivas. Um contraponto à objetividade cientifica e à subjetividade psicótica, ambas imobilizadoras do pensamento e da ação. Um exemplo didático: um viúvo de poucas posses casa-se de novo. Ele não tem condições de comprar uma nova cama. Existem 3 diferentes maneiras possíveis de sua nova esposa vivenciar o uso de uma cama já desfrutada pela ex-cônjuge: 1- ser absolutamente objetiva e não se incomodar em usá-la; nesse caso estará reprimindo seus sentimentos. Estamos no terreno da neurose 2- ser absolutamente subjetiva a ponto de não poder usá-la em circunstância nenhuma. Aqui o terreno é da psicose. 3- sentir-se importunada pelas fantasias despertadas pela cama, mas podendo negociar consigo mesma e com o marido, sendo-lhe possível até usá-la, acreditando em sua capacidade de lidar com os seus sentimentos e fantasias. É aqui que nos deparamos com o espaço intermediário no qual, brincando e se engalfinhando, mesclam-se o subjetivamente concebido e o objetivamente percebido. Traduzindo em palavras a esposa poderia sentir mais ou menos o seguinte: "Certamente me incomoda o fato do meu marido ter feito amor nesta cama com outra mulher. Mas sei que isto é um sentimento que nada tem a ver com a realidade. A cama nem é a mulher e nem as noites de amor. Não desejo que estes sentimentos venham a perturbar minha coabitação e certamente eles se diluirão no tempo e espero poder vir a ficar à vontade com meu marido no leito nupcial, sem problemas de ciúme e contaminação". Ela não nega seus sentimentos, mas estes não a impedem de enxergar e levar em consideração o externo, a realidade objetiva.
Winnicott diz que vivemos a maior parte do tempo numa zona intermediária, nem externa, nem interna. Esta zona intermediária é um prolongamento do espaço potencial, que tem este nome por justamente ser um espaço de potência, de criação, onde se brinca com o espaço interno sob as vistas do externo e vice-versa. Nem a perspectiva objetiva nem a subjetiva são criativas. Elas são imobilizadoras das transformações psíquicas. A objetiva pelo fato de nos enquadrarmos no consensualmente acordado não inovando. A subjetiva pelo fato de não permitir influências do ambiente no psiquismo mantendo-se o subjetivo tal e qual. A transicional, esta conversa entre o objetivo e subjetivo é que permite transformações no psiquismo. Sem dúvida uma visão diferente da idéia de uma objetividade que permitiria realmente conhecer o mundo.


Vimos até agora algumas mudanças de paradigma: 1- Paradigma "holding" (relação afetiva mãe-filho. Relação de ego.). 2- Paradigma "mãe suficientemente boa". Um outro conceito de "erro". 3- Paradigma holístico. 4- Paradigma "deprivação". 5- Paradigma criatividade. 6- Paradigma "espaço potencial" e objeto "transicional". Todos têm a ver com a clínica, mas também atingem outros ramos do saber humano, tais como a criminologia, a educação, a filosofia e a epistemologia. A seguir falarei --- repetindo-me um pouco, mas indo mais adiante --- daqueles paradigmas que sem deixarem de ter importância para a clínica mais fortemente se aproximam da filosofia e de uma nova epistemologia.
1- Espaço intermediário 2- Uso do paradoxo (exp.: objeto e espaço transicionais. Criar o que já existe. Adoecer sadiamente. Estar só em presença da mãe. Medo do colapso. Erro necessário. Amor cruel.). Davi L. Bogomoletz distingue a lógica clássica, da lógica dialética hegeliana e da lógica paradoxal. Na lógica clássica a contradição não é aceita; um dos termos tem de ser eliminado; é a lógica do ou isso ou aquilo. Na lógica dialética os termos contraditórios interagem e se ultrapassam criando um terceiro termo. Finalmente, na lógica paradoxal os dois oponentes coexistem sem se integrarem (como na lógica dialética) e sem se destruírem (como na lógica clássica). 3- Vida criativa 4- teoria exemplar e teoria modelar; teoria e teorização; modelo e singularidade.

 Winnicott é um pensador aberto. Não se fecha em sistemas teóricos nem tenta construir sistemas teóricos coerentes. Ele não cria teorias. Ele (a partir de certa época) faz teorizações singulares, isto é, teoriza a partir de tratamentos psicanalíticos que está realizando. Estas teorizações muitas vezes confluem e configuram uma teoria. Ou, podemos dizer que há várias confluências de teorizações e algumas teorias. Certos conceitos seus são de tal forma interligados que formam uma totalidade impossível de destrinchar. Não se consegue apresentar um conceito sem referir-se a vários outros. E, no entanto, não são conceitos fixos, mas conceitos flexíveis que se adaptam às realidades clínicas que estão sendo vividas e descritas. A principal preocupação de Winnicott não é criar teorias, mas transmitir as suas percepções e sensações em relação à clínica que está desenvolvendo. Ele não se perturba com as pequenas incongruências lógicas de seus inúmeros artigos. Isto porque ele está mais ligado no desejo de transmitir a experiência viva do que construir uma teoria coerente. E, no entanto, quando o professor tenta transmitir a teoria tem muitas vezes a sensação de que a transmissão sucessiva de idéias é fraca, sendo sua vontade transmitir todas as idéias simultaneamente o que é, claro, impossível. É verdade que existem alguns inícios, mas a partir de certo ponto parece que temos nas mãos uma bola redonda que só poderia ser apresentada na sua totalidade de bola. Uma totalidade que inclui temas sociais, familiares, biológicos, éticos, etc. Uma abordagem holística.

Finalmente --- e aqui "finalmente" tem o sentido de um fecho da maior relevância, pois abre caminho para novos desenvolvimentos que envolvem a própria posição do homem no mundo atual --- finalmente, repito, falarei do artigo "O lugar em que vivemos", capítulo VIII do livro "O Brincar e a Realidade". Lá, em resumo, ele equipara o espaço potencial a um espaço do brincar e ao espaço cultural. E diz que o homem vive neste espaço que como já vimos tem outros nomes: espaço transicional, zona intermediária, etc. O que eu diria é que na modernidade vitoriana o homem tentou viver em um espaço objetivo o que o obrigou a recalcar a sua subjetividade com conseqüências danosas para o seu viver. O homem atual aceita viver no espaço transicional, isto é, aceita a convivência do objetivo com o subjetivo, sendo-lhe menos necessário utilizar a dinâmica do recalque. A sua subjetividade e suas fantasias ficam ao seu alcance através do processo de dissociação. A dissociação mantém as fantasias e os inúmeros desejos paradoxais ao alcance da consciência permitindo que sejam acessadas e controladas.
Fazer um coquetel com doses sensatas e equilibradas de objetividade e subjetividade; viver num espaço intermediário que funcione suficientemente bem. Esta é talvez a mudança de paradigma mais ampla e promissora com a qual Winnicott nos presenteou.    
                                        Nahman Armony     

                                               Maio/2011