Grande pássaro metálico
De altos vôos noturnos
Grande mãe indiferente
Cumprindo seu destino cósmico
Varando espaços
Cavalgando nuvens
Dominando infinitos
Iluminando astros.
Como podes amar os filhos que carregas em teu bojo?
Se eles são tão fracos, tão mesquinhos
Tão sem asas
Se eles apenas pensam em voltar para a Terra?
Eles estão em segurança dentro de seu corpo
E isto lhes basta.
Isto a liberta para as estrelas,
Para o infinito.
Para aquilo que só pode ser adivinhado
De dentro da Noite Onírica
Fendida pelo Grande Pássaro Mitológico.
Pobres filhos abandonados
Pobres filhos feitos de barro e medo,
De desejo e ambição.
Pobres filhos que mal podem entrever
O etéreo mundo habitado
Pelos Grandes Pássaros Mitológicos.
Nahman Armony
VIOLÊNCIA
VIOLÊNCIA:
UMA VISÃO TRANSDISCIPLINAR COM ÊNFASE NA PSICANÁLISE
A violência é um fenômeno onipresente no
tempo e no espaço; atravessa toda a história e todas as culturas. Algumas
culturas estimulam a violência e outras a inibem. O capitalismo contemporâneo, mercadológico
e consumista estimula a competição e o consumo desenfreados criando condições
para o exercício da impiedade. Uma crueldade que se infiltra em todas as
atividades humanas e cujos primórdios já aparecem nas primeiras relações humanas.
O modo pelo qual a sociedade, através dos pais, criam seus bebês em crescimento
insere-se numa totalidade que produz para uma subjetividade que estimula e
valoriza a competição, o consumo, a impiedade, as relações de submissão, a
manutenção do statu quo, etc. Veremos no decorrer do artigo como Winnicott
propõe outra forma de criação/educação baseada na transmissão de princípios
organizadores diferentes dos princípios organizadores do capitalismo
consumista.
As culturas agem sobre as subjetividades
desde o início da vida. Eric Erikson em seu livro “Infância e Sociedade” nos
mostra que a criança é criada e educada para se tornar um adulto com os
valores, preconceitos e costumes do grupo. Margaret Mead confirma essa visão em
seu livro “Sexo e temperamento” ao estudar as tribos Mudungumor e Arapesh. A
cultura é um aparelhamento de uma força extraordinária, podendo mesmo superar
instintos básicos do ser humano, inclusive o de auto- preservação. Dois
exemplos: monges ateiam fogo em si mesmos; guerrilheiros explodem seus corpos
em atentados terroristas.
A ação cultural se
inicia muito cedo, ainda quando o ser humano é um bebê. A mãe é a grande transmissora
dos preceitos culturais da sociedade em que vive. As vivências iniciais do ser
humano exercem extrema influência sobre o restante da vida e estão fora do
alcance da consciência. Daí a força e a importância da relação mãe-bebê.
Winnicott e Piera Aulagnier divergem quanto ao modo de criar/educar o ser
humano. Piera Aulagnier preconiza uma criação-educação predominantemente de
fora para dentro. Winnicott inverte a direção dando maior crédito à assimilação
da cultura, assimilação essa que é o par inseparável da criatividade. Bruno
Cancio fez uma resenha do livro “A violência da interpretação” de P.Aulagnier
bastante esclarecedora. Citando-o: “Dos conceptos de importancia
establecidos en la obra son los de violencia primaria y secundaria. Por violencia
primaria se entiende ‘...lo que en un campo psíquico se impone desde el
exterior a expensas de una primera violación de un espacio y de una actividad
que obedece a leyes heterogéneas al yo...’(Piera Aulagnier). Se trata de una
acción necesaria y que contribuirá a la futura constitución del yo. A través de
ésta se le impone a la psique ajena un pensamiento, acción o elección
producidos por el deseo de quien lo impone, pero que da respuesta a una
necesidad a quien le es impuesto. De esta forma, se consigue entrelazar deseo
de uno y necesidad del otro, dando lugar a la demanda. El deseo de quien ejerce
la violencia pasará, a partir de allí, a ser demandado por quien la padece.
Por otro lado, violencia secundaria hace referencia a ‘un exceso por lo general perjudicial y nunca necesario para el funcionamiento del Yo’(Piera Aulagnier) y que se apoya en su precedente, la violencia primaria. En este caso se trata de una violencia ejercida contra el yo, ya sea por un conflicto con otro ‘yo’ o con un discurso social que intenta oponerse a toda suerte de cambios que pudieran producirse en los modelos por él previamente instituídos”.
Por otro lado, violencia secundaria hace referencia a ‘un exceso por lo general perjudicial y nunca necesario para el funcionamiento del Yo’(Piera Aulagnier) y que se apoya en su precedente, la violencia primaria. En este caso se trata de una violencia ejercida contra el yo, ya sea por un conflicto con otro ‘yo’ o con un discurso social que intenta oponerse a toda suerte de cambios que pudieran producirse en los modelos por él previamente instituídos”.
Winnicott não concorda
com uma criação/educação impositiva como Aulagnier propõe. Um exemplo
esclarecedor nós o encontramos no artigo “Moral e Educação”. Tentando
sintetizar um artigo longo e complexo, consigo dizer o seguinte: Winnicott está
respondendo a uma palestra anterior à sua onde foi citada a seguinte fala de um
reitor para uma criança: “Você acreditará no Espírito Santo às 5 horas desta
tarde ou a espancarei até que o faça”. Os exemplos extremos servem para deixar
claro uma orientação paradigmática que neste caso é um paradigma autoritário
não aceito por Winnicott. Para ele o autoritarismo é uma invasão/intrusão no
self do outro, tornando-o submisso e dependente. Neste artigo ele, confronta o
autoritarismo adoecedor que tenta impor conceitos exteriores à experiência do
outro, com uma experiência interior, uma “crença em” que resulta de uma
convivência suficientemente boa com os pais.
Quando o horizonte se abre para além dos pais, a criança que está
crescendo precisa algo maior em que acreditar. É hora dos pais, da escola, da
sociedade apresentarem as diversas possibilidades de crenças existentes,
respeitando sua eventual busca por outra crença que não aquelas que lhe foram
mostradas. A imposição é uma invasão do psiquismo do outro, uma tentativa de
dominá-lo, colonizá-lo, tornando-o revoltado, conformado e violento em vários
graus. Mesmo os conformados --- que engolem os traumas advindos das invasões e
os acumulam não sabendo de onde veem, pois a relação dominador-dominado é
frequentemente inconsciente e aceita como algo natural --- podem ter explosões
espontâneas de ódio indiscriminado muitas vezes despertados por fatos insignificantes.
Ao invés de tentar
impingir uma crença dever-se-ia, segundo Winnicott, aceitar a criatividade espontânea
do ser humano. Criatividade tem dois sentidos: um primeiro que todos nós
conhecemos, e um winnicottiano que é um paradoxo: criamos o que já existe. Não
é preciso forçar a realidade para dentro da cabeça das pessoas, mas sim cuidar
para que a criatividade de cada um encontre a sua realidade que é um arranjo
pessoal do subjetivamente concebido e objetivamente percebido.
Desenvolverei um pouco
mais a ideia de criatividade winnicottiana. O ser humano cria o que já existe.
Seu exemplo mor é o bebê que ainda não teve a primeira mamada e que ao sentir
fome procura algo que termine com o seu anseio. Este algo é uma vagueza impressionista de seio que ele virá a conhecer
tanto melhor quanto mais com ele se relacionar. A vivência do bebê é de que foi
ele quem criou o seio desde que o seio apareça na hora da fome. Da mesma
maneira a função da sociedade é apresentar diversas alternativas para escolha
aceitando a contribuição de novas opções e não impor, seja por que meio for,
suas crenças. Mesmo porque o ser humano tem um impulso inerente de
pertencimento e precisará escolher um gancho na cultura para exercer sua
criatividade. A imposição, o conformismo e a revolta são combustíveis para a
violência. Precisamos deixar para trás tanto o paradigma autoritário quanto o
paradigma permissivo e aperfeiçoar um paradigma
ecológico/poroso/humanitário/holístico.
Ao que parece já nos
adentramos firmemente na psicanálise de inspiração predominantemente
winnicottiana. É claro que os fatores que levam à violência são inúmeros e é
preciso a colaboração de muitas disciplinas para um maior entendimento deste fenômeno
que parece estar se intensificando tanto no nível macro (guerra, terrorismo,
tráfico, repressão violenta, etc.), no micro (assaltos, furtos, roubos, mortes,
balas perdidas, violência doméstica, violências discriminatórias, etc.) e no
nano (dinâmicas bi e plurisubjetivas). Não podemos esquecer os fatores
psicossociais como, por exemplo, as consequências psíquicas de um sentimento de
exclusão das benesses dos mais afortunados que pode levar a ações violentas, o
fanatismo religioso fundametalista, a glamorização dos traficantes e especialmente
dos chefes do tráfico que se tornam figuras fortes de identificação para uma
parcela das crianças e adolescentes das comunidades que eram chamadas de
favelas . O que também vemos são jovens das classes médias altas exercendo
violência através de roubos, ataques a populações marginalizadas (incendiar
índios, atacar mendigos, atacar homossexuais, etc.). Podemos compreender o
comportamento violento dos que se sentem inferiorizados, excluídos,
injustiçados e que necessitam de figuras fortes de identificação e de uma
cultura e ética próprias. Mas, e os jovens da classe média alta que têm acesso
ao conforto, diversão e que estão up-to-date com as tecnologias emergentes?
Aqui é onde melhor a psicanálise pode dar a sua colaboração.
O ritmo atual de vida
faz com que tanto o pai quanto a mãe fiquem, por muito tempo, ausentes do lar.
Com isto a assistência afetiva aos filhos sofre danos. Isto é especialmente
grave para os infantes, pois eles necessitam de cuidados maiores. Segundo
Winnicott para que a criatura humana crie uma base psicomentessomática sólida (integração,
personalização) necessita de um tempo de fusão com a mãe à qual ele deu o nome
de dependência absoluta, seguida de um outro período que denominou de
dependência relativa. A primeira se caracteriza pelo imediato atendimento pela
mãe ou figura substituta das necessidades físicas e psicológicas do bebê. Para
isso a mãe deverá estar em um estado de “preocupação materna primária” na qual
ela se encontra hiperatenta e hipersensível em relação ao bebê de tal maneira
que possa atendê-lo imediatamente ou até mesmo prever o desconforto do filho.
Na dependência relativa não é mais necessário que a mãe esteja em estado de
preocupação materna primária, pois é uma fase em que o bebê, ao se diferenciar
da mãe, sofrerá frustrações (desilusões). De qualquer maneira, embora em nível
diferente, a mãe deverá continuar sensível e afinada com seu rebento,
especialmente para certos comportamentos. Um dos mais relevantes é a conduta de
aproximação e afastamento da mãe. A mãe sensível e sem grandes problemas em
relação à oscilação do bebê entre dependência e independência, aceitará de bom
grado tanto o seu afastamento quanto o seu retorno à segurança do colo materno.
Para que essa dinâmica funcione bem é necessário não só que a mãe esteja
presente, mas que não seja solicitada pelo trabalho profissional do qual se
afastou, nem esteja preocupada com a
contabilidade da família. Este é um item problemático. Não só a vida atual envolve
a mãe, deixando-a preocupada e, portanto, afetivamente menos disponível para o
bebê do ponto de vista da sensibilidade porosa, mas também o hedonismo
característico de nossa cultura faz com que a mãe se separe do bebê quando ele
ainda não está preparado para isto. Sem falar das ausências que acontecem por
conta do trabalho executivo ou de outro tipo.
Na área da
criminalidade Winnicott também dá a sua contribuição. Mais que uma contribuição
é uma revolução, pois ele ao procurar, nas crianças, as origens dos atos
antissociais percebe que estes estão além da agressão: são pedidos de socorro
e, no caso de roubos, uma apropriação simbólica de uma mãe que o está
abandonando. Para entender melhor esta dinâmica vou recorrer a dois conceitos
winnicottianos relacionados entre si: privação e deprivação (anglicismo
derivado da palavra deprivation). O
atendimento insuficiente às necessidades do bebê na fase de dependência
absoluta ---- quando o ambiente ainda não se distingue do si-mesmo, só
existindo um bebê que é o próprio mundo ---- facilita o ingresso no delírio e
na psicose. Ele foi privado de um ambiente suficientemente bom, mas não sabe
disso por não possuir ainda um eu distinto do não-eu. Porém, se ele teve a
experiência de ser bem cuidado na fase de fusão, sentir-se-á lesado se na fase
de dependência relativa os pais não forem suficientemente presentes e
sensíveis. Ele se perceberá deprivado, pois
diferentemente do privado, perdeu o que já havia tido. Sentindo-se negligenciado pelos pais passa a aborrecê-los através
de birras, desafios, e também de pequenos atos delituosos como roubar,
maltratar pequenos animais, exercer ações destrutivas, etc. Estes atos são
gestos de esperança, tentativas de recuperar os pais, maneiras de chamar a
atenção, pedidos de socorro. Exp.: (p.407 – Da pediatria à psicanálise –
Tendência antissocial) Winnicott foi
procurado por uma mãe cujo filho mais velho tinha a compulsão de roubar que
“estava se transformando em algo bastante sério. Ele estava roubando muito,
tanto em lojas quanto em casa”. Winnicott sugeriu: “Por que você não lhe diz
que sabe que quando ele rouba, não são realmente aquelas coisas que ele quer, e
sim alguma outra coisa à qual ele acha que tem direito? Que é como se ele
estivesse fazendo uma reclamação a seu pai e sua mãe, por sentir a falta do seu
amor?” Winnicott continua: “Algum tempo depois recebi uma carta contando-me que
ela havia feito o que sugeri. Dizia ela: ‘Eu lhe disse que o que ele realmente
queria, quando roubava dinheiro e comida e outras coisas, era sua mãe. E devo
dizer que na verdade eu não esperava que ele compreendesse, mas ele pareceu
compreender. Eu lhe perguntei se ele achava que nós não o amávamos por ele ser
às vezes tão difícil, e ele disse imediatamente que em sua opinião nós não o
amávamos muito..... Então eu lhe disse que ele nunca, nunca deveria duvidar
disso de novo, e se em algum momento ele tivesse alguma dúvida era só me
lembrar que eu lhe diria de novo..... De modo que tenho feito muito mais
demonstrações, a fim de evitar que ele venha a duvidar outra vez. E até este
momento não houve um único roubo’. Agora oito meses depois, é possível relatar
que não houve mais roubos e que o relacionamento entre o menino e a sua família
melhorou muito”. (Ibid, p.407/8). Se a tendência antissocial não for tratada na
fase de crescimento, tenderá, com o passar dos anos, a se tornar uma
psicopatia.
Uma criança com o eu
inflado e sem limites por ação/omissão dos pais não sairá da situação de “Sua
Majestade, o Bebê”. O mundo lhe deverá obediência e reverência. Nada poderá se
interpor no seu caminho. Todos seus desejos terão de ser atendidos. Uma cabeça
dessas acaba tomando o caminho da agressividade e violência. Isso se torna
ainda mais problemático quando a mãe necessitada de simbiose não consegue
colocar limites para o filho adolescente ou adulto.
Há outras condições
psicológicas que facilitam o aparecimento da violência. A intolerância à
frustração, as fantasias persecutórias inconscientes, a excessiva
competitividade, a autoestima baixa, dificuldades na transição da dependência
absoluta à dependência relativa, etc.
HANNA
ARENDT E A BANALIDADE DO MAL
Quando foi designada
para a cobertura do julgamento de Adolf Eichman --- um criminoso de guerra
nazista, encarregado da organização e envio de prisioneiros a campos de
extermínio --- esperava encontrar um monstro e se surpreendeu ao encontrar um
homem comum como muitos outros. “O problema de Eichman era exatamente que
muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram
e ainda são terrível e assustadoramente normais” (Arendt, 1999, p.299 do livro
“Eichmann em Jerusalém). Adolf Eichmann era um eficiente e dedicado burocrata,
cumpridor fiel dos seus deveres e leal aos seus superiores hierárquicos,
obedecendo diligentemente às suas ordens. Era um bom pai de família, um filho
exemplar e um irmão dedicado. Quanto ao assassinato eficiente de milhões de
pessoas ele apenas, burocraticamente, cumpria ordens superiores como todo bom
cidadão, em sua opinião, deveria fazer. Mas não teria Eichmann consciência da
monstruosidade de sua ação? Hanna Arendt estava convencida de que sim, pois
Eichmann declarou várias vezes que estava com a consciência tranquila, já que
cumprira seu dever e sabia que sua ação era moralmente correta. Palavras de
Arendt: “Sua consciência [de Eichman] ficou efetivamente tranquila quando ele
viu o zelo e o empenho com que a ‘boa sociedade’ de todas as partes reagia ao
que ele fazia. Ele não precisava ‘cerrar
os ouvidos para a voz da consciência’, como diz o preceito, não porque ele não
tivesse nenhuma consciência, mas porque sua consciência falava com a ‘voz
respeitável’, com a voz da sociedade respeitável à sua volta” (Ibid, p.143). O
conceito banalidade do mal expressa o fato do mal ser exercido não só por psicopatas
e degenerados, mas também por homens comuns como qualquer um de nós. Todas as
formas sociais de totalitarismo impõem uma obediência cega e servil a seus
cidadãos. Difícil escapar de tal mandato pois a punição que se segue é
terrível.
Hanna Arendt fala de
alguns fatores que se encontram na gênese da banalidade do mal. Entre eles
estão: a superficialidade das pessoas, o utilitarismo nas relações humanas ----
que torna as pessoas supérfluas e descartáveis (p. 115) ----, o servilismo como
fator supostamente moral da obediência.
Pois é o servilismo e
a obediência que quero examinar, sob o ponto de vista da psicologia social e da
psicologia psicanalítica.
Na década de 1960 o
psicólogo social Stanley Milgram, pesquisador da Universidade de Yale, realizou
experimentos sobre obediência a uma figura de autoridade sancionada pelo social
logo repoicados por outros pesquisadores com o mesmo resultado. O esquema geral
destas experimentações é o seguinte: um grupo de pessoas é dividido em dois. A
um deles cabe fazer uma tarefa (Estudantes). Ao outro cabe punir as pessoas do
primeiro grupo se a tarefa não é bem realizada (Professores). Ao condutor da
experiência (Experimentador) cabe estabelecer a intensidade do castigo que é
passar uma corrente elétrica pelo corpo dos que erraram. Na verdade o castigo é
uma simulação, mas o grupo punitivo não sabe disto. Para este existe realmente
uma corrente elétrica passando pelo corpo das pessoas do outro grupo. Pois bem,
se o Experimentador ordenar que uma corrente máxima seja acionada, ela o será
por aproximadamente 60% dos Professores. A obediência é automática não sendo
levado em consideração o sofrimento que possa causar ou mesmo o perigo que
representa.
Existe, pois, em nossa
sociedade ocidental a forte tendência em obedecer a autoridade socialmente
constituída mesmo que resulte em um ato desumano. Sugiro que isto se deva a uma
educação autoritária onde a criança é ensinada a obedecer sem refletir. Na
psicanálise esta situação se replica, como vimos anteriormente, no conceito de
violência primária de Piera Aulagnier assim como vimos que a concepção de
desenvolvimento psíquico e mental de Winnicott privilegia a criatividade: os
objetos da cultura são apresentados e a criatividade os inclui no espaço
transicional onde o subjetivo improvisa um dueto com o objetivo. Não sei se é
correto dizer que essa concepção é nova e revolucionária e que vai ao âmago da
questão colonização versus independência. Acredito que por vários séculos a
criação/educação do ser humano em crescimento foi dominada pela imposição,
dificultando o pensamento livre, situação que ainda perdura. O ser humano ao
ser criado/educado tendo como insinuância principal a criatividade, podendo
então construir o mundo mediante sua própria ação está mais apto a resistir às
convenções e mandatos da cultura e de suas figuras representativas, julgando
por si próprio o que mais se coaduna com seus pensamentos e sentimentos. Já o
ser humano criado através de atos predominantemente impositivos tenderá a
aceitar a orientação da cultura e de seus representantes de uma forma submissa,
obedecendo automaticamente às ordens, por mais desumanas que sejam.
Tenho a esperança de
que usando a criatividade como guia, teremos uma integração ética do homem com
a natureza e com seu semelhante/diferente que, narcisicamente (conforme meu
artigo “Narcisismo secundário inclusivo”), passarão a fazer parte dele,
diminuindo a violência no mundo.
Outubro/2014
Nahman
Armony
FLUTUAÇÕES NO AMOR
O
Homem deseja ao mesmo tempo estabilidade e aventura. Nas sagas dos heróis há um
período de aventuras que exige força, habilidade para enfrentar os perigos do
inesperado e depois de tudo, o herói é recompensado com uma vida tranqüila ao
lado de seus entes queridos. Para muitos de nós estas histórias satisfazem o
nosso desejo de aventura. Lemos estes mitos no conforto de nossos lares, na
nossa poltrona preferida ou em nossa cama aconchegante. Enquanto o herói
enfrenta perigos terríveis nós também os enfrentamos, porém na segurança de
nossas casas. Muitas vezes nosso desejo de aventura se aplaca vicariamente
nessas leituras; mas não sempre. Premidos pela nossa curiosidade e pela nossa insatisfação
com a monotonia e rotina da vida procuramos “sarna para nos coçar” como diriam
nossos sábios e aposentados avós. Mas, sem dúvida o desejo de estabilidade
permanece. Uma estabilidade que se mostra cada vez mais problemática. Hoje tudo
se move. Karl Marx já dizia que “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. De um
universo estático da Idade Média quando o homem tinha o conforto da
previsibilidade inclusive no após a morte, passo a passo chegamos a um mundo em
perene movimento em todos os seus recantos. Lemos no último livro de Mario
Novello “Do Big Bang ao Universo Eterno” que um dos últimos redutos que ainda
pensávamos como estático ----- o Universo ------ é atualmente visto como dinâmico e histórico.
Tudo se agita. E, no entanto, continuamos precisando tanto de estabilidade
quanto de instabilidade. O leitor de aventuras está estável no seu canto lendo
o seu livro e ao mesmo tempo instável identificando-se com o herói da estória.
O soldado na frente de batalha está dentro de um cenário convulso com bombas ameaçando
explodir seu acampamento e neste panorama de absoluta instabilidade ele busca
estabilidade na fotografia da amada que de tempos em tempos contempla e beija
para se assegurar de que existe um corpo e uma alma que para sempre o acolherão.
Para
duas pessoas apaixonadas a estabilidade existe na forma de ininterrupção. Eles
desejam estar e estão sempre que podem juntos. E isto para eles é o amor. Só
têm olhos um para o outro e nada que não seja a sua própria paixão os distrai.
Porém mais cedo ou mais tarde a paixão dá lugar a um sentimento mais tranqüilo
que permite agora que se olhe para os lados, para fora da relação apaixonada. A
pessoa que estava inteiramente perdida dentro da outra retoma a sua
individualidade e ao fazê-lo vive processos e sentimentos que permaneceram
latentes durante o período de paixão. Seu amor pelo parceiro mesmo que sólido e
incontestável não se traduz mais em um comportamento inteiramente dedicado a ele.
Agora existem aproximações e afastamentos, flutuações de intensidade e de
qualidade, sentimentos paradoxais, ambivalências, fantasias várias,
curiosidades que fazem olhar para além da relação. Isto pode acontecer em
tempos diferentes para cada um. E aquele que continua perdidamente apaixonado
não entende que o parceiro deixe de ter olhos só para o casal. A idéia é de que não
é mais amado o que se torna fonte de mal-entendidos. É importante que a pessoa
possa se colocar no lugar da outra para entender o que está acontecendo com
ela. Pedir isto a um apaixonado é quase uma perda de tempo, pois dificilmente
de dentro de sua paixão ele poderá compreender a subjetividade do outro. E, no
entanto em nome de um amor promissor será preciso fazer um esforço. Esforço que
mais facilmente virá daquele que já passou o período de paixão absoluta e que
deverá compreender e acolher a incompreensão do parceiro, sem se revoltar com o
que poderá ser sentido como tentativa de controle e dominação. Talvez valha
mais a pena este esforço do que simplesmente se afastar de uma relação amorosa
promissora.
Nahman Armony
POEMA DA SOBREVIVÊNCIA
O espectro dos dias intermináveis a desfilar diante de meus olhos fatigados
Me anima
A prosseguir minha marcha pesada
Rumo ao país das somas cansadas de somarem-se a si mesmas
Sem fim
E sem finalidade.
Me anima
A prosseguir minha marcha pesada
Rumo ao país das somas cansadas de somarem-se a si mesmas
Sem fim
E sem finalidade.
WINNICOTT - O HOMEM E SUA OBRA
A pessoa que nos procura
para tratamento traz consigo uma certa forma de
pensar, agir, um certo modo de conhecer e de se relacionar com o mundo. Essa maneira de ser é diferente
do homem de gerações anteriores. Portanto, a maneira de realizar o tratamento
atual certamente diferirá da anterior.
Pode-se pensar que tendo mudado a subjetividade do homem em
geral, certamente a dos terapeutas terá também mudado e que, portanto há um
ajuste na terapia psicanalítica. Acontece que os especialistas, de uma maneira
geral, se apegam às teorias, tendo receio de libertar-se delas e acabarem
responsáveis por um fracasso indesejado e ameaçador. Enquanto a subjetividade
da vida corre livre, a subjetividade dos especialistas, dos técnicos fica
amarrada a teorias já ultrapassadas pelos acontecimentos.
A libertação ou a modificação de teorias
que estão sendo ultrapassadas pelos acontecimentos acaba ficando a cargo de
alguns homens que poderíamos chamar de excepcionais, sendo que neste conceito
de excepcional estão embutidas muitas variáveis: a história de vida, a
liberdade interior, a conjunto da personalidade, as condições ambientais, o
acaso, a força afirmativa, o grau de submissão à sociedade, a habilidade
política e social, a autoestima, a paixão pela profissão, a filosofia de vida,
os valores e ideais, e certamente outros aspectos que não percebo.
Creio que todos concordam que um desses
homens excepcionais foi Freud. Homem extremamente inteligente, honesto na sua
busca da verdade, íntegro, idealista, político, ambicioso, versátil, culto,
implacável, conseguiu implantar a psicanálise como uma nova disciplina,
tornando-a universal e polivalente.
Uma vez aberto o campo psicanalítico
tornou-se mais fácil seu desbravamento. Mas, mesmo assim, foi necessário que houvesse
homens de visão para fazer andar a psicanálise. Poderíamos pensar em vários,
mas nos interessará um em especial que por uma razão ou outra, tornou-se hoje a
referência principal de quem busca uma nova epistemologia para compreender o
novo homem. Estou-me referindo a Winnicott.
Sua história:
Nasceu em 1896 em Plymouth,
Devon, Inglaterra, um baluarte da tradição metodista não conformista. Morreu em
1971. É, portanto um analista situado no século XX, um século em que as
alterações epistemológicas ganharam uma força e consistência cada vez maiores.
Era o único filho homem, com duas irmãs mais velhas, fazendo parte de uma
família rica e influente. “Cresceu em um universo marcado pela presença das
mulheres. A mãe, a avó, uma babá, uma governanta e as duas irmãs tiveram um
papel maior na sua educação, enquanto o lugar do pai permanecia vago”.
COMENTÁRIO: Daí
viria a sua sensibilidade para as relações
mãe-filho, e portanto, para a subjetividade feminina. Podemos, para melhor
marcar este aspecto de sua subjetividade, confrontar sua capacidade de se
colocar no papel de mãe, realizando o “holding”, o “handling” e a “apresentação
de objeto” com uma fala de Freud citada por Doolittle: “É preciso que eu lhe
diga (você foi franca comigo e eu serei com você), eu não gosto de ser a mãe na
transferência. Isto me surpreende e choca um pouco”. Um exemplo de apresentação
de objeto para uma analisanda minha. Após um ano e meio de terapia ela disse
uma frase altamente significativa. “Fulano nunca erra; entre uma afirmativa de
Fulano e uma afirmativa minha ele sempre estará certo”. Depois de dita a frase
riu como que percebendo o significado dela. Mais adiante eu lhe falei de dois
mundos, um mundo perfeito onde existe um rabi que está sempre certo e um mundo
imperfeito onde qualquer um pode errar. Pode-se dizer que nesse momento eu lhe
“apresentei” o mundo real, embora ela mesma já o tivesse feito pelo menos em
parte. Mas mesmo a sua possibilidade de deixar escapar sua fantasia, sua
maneira de organizar o seu psiquismo e o mundo tiveram a ver com minha atuação
passada que procurava mostrar-lhe a realidade e a ilusão em relação a si mesma
e ao mundo.
O
pai era um bem-sucedido e admirado comerciante e prefeito da cidade e recebeu o
título de cavaleiro em reconhecimento a seu trabalho cívico.
UMA
LEMBRANÇA DE WINNICOTT: “Meu pai tinha
uma fé religiosa simples. Um dia, quando lhe fiz uma pergunta que poderia nos
levar a uma discussão sem fim, ele se limitou a dizer: ‘Leia a Bíblia que você
encontrará a resposta certa’. Foi assim que ele deixou ---
graças a Deus ---- que eu me virasse sozinho”. COMENTÁRIO: podemos
associar a importância que esse episódio teve para Winnicott com a importância
por ele dada ao encontro da verdade não por imposição externa, mas por um
encontro com ela (a verdade pessoal) a partir dos recursos da própria pessoa.
Isto aparece em vários escritos seus. Lembro-me particularmente do artigo
“Moral e Educação” do livro “O ambiente e os processos de maturação”. Também
associo com sua conduta na terapia (uma conduta, que, não podemos esquecer,
apareceu mais tarde) de deixar o próprio analisando chegar à interpretação de
si mesmo. Penso também na idéia de que a terapia é a superposição do brincar do
analisando com o brincar do terapeuta, formulação essa que aponta para uma
certa independência das produções do analista em relação às produções do
analisando e vice-versa, o que não significa que não haja interações, mas não
situações hierárquicas de autoridade e muito menos imposições.
OUTRO
ACONTECIMENTO SIGNIFICATIVO: num acesso de raiva estragou a cabeça de uma
boneca da irmã; o pai a reconstituiu e esse
foi um acontecimento significativo que fez com que ele vivesse a experiência de
reparação.
Continuando a história: aos
14 anos (1910) passou a estudar em escola interna em Cambridge. Ao quebrar, no
ano seguinte, a clavícula, decidiu ser médico. Apaixonou-se pelas ideias de
Darwin e resolveu estudar biologia. Em seguida fez medicina. Na faculdade de
medicina converteu-se ao anglicanismo. Através de um livro de Oskar Pfister entrou em contato
com textos psicanalíticos.
Em 1923 tornou-se médico no
Padington Green Children’s Hospital onde clinicou por 40 anos. Sua clínica
evoluiu da pediatria tradicional para a psiquiatria infantil. Neste mesmo ano
iniciou uma análise com James Strachey que durou 10 anos. Segundo a correspondência
de seu analista com a esposa, Winnicott tinha problemas sexuais. Entre
1933 e 1938 fez sua segunda análise com
Joan Riviere.
Casou-se
com Alice uma pessoa com problemas psiquiátricos e que teve várias internações.
Divorciou-se em 1949. Em 1951 casou-se com Clare Britton, uma assistente social
com quem havia trabalhado na 2a. Guerra Mundial tratando da instalação de crianças
evacuadas das cidades britânicas bombardeadas. Lá supervisionou o tratamento de
delinqüentes e desenvolveu suas idéias sobre “a tendência anti-social”. Foi
presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise por dois períodos. Vários
títulos e presidências. Palestras na BBC freqüentemente para pais.
Era um homem de grande
coragem pessoal tendo se recusado a receber supervisão de M.Klein no tratamento
de Erich, um de seus filhos. Ela era então um membro todo-poderoso da Sociedade
Britânica de Psicanálise e ele estava em supervisão com ela (supervisão entre
1935 e 1941). Ele fez parte do grupo dos independentes, não ficando nem no grupo
de M.Klein, nem no grupo de Anna Freud. Sua coragem e independência apareciam
nas suas intervenções deste conflito e nas cartas que escrevia. Há uma carta
dirigida à M.Klein em que ele fala da ditadura terminológica e conceitual por
ela imposta e o quanto isso era perigoso para o progresso da psicanálise(carta
de 17/11/1952 – p.30). Em outra carta que se tornou famosa, datada de 3/6/954,
denuncia a hipocrisia das duas líderes da escola inglesa: “considero que é de importância vital para a
Sociedade, que ambas destruam seus grupos em seu aspecto oficial. Não tenho
razões para pensar que viverei mais tempo que as sras., mas ter que lidar com
agrupamentos rígidos, que com a sua morte se tornariam automaticamente
instituições de Estado, é uma perspectiva que me apavora”. Ele próprio
foi um autor original, mas nunca desejou ser líder de uma escola ou de um
movimento. Preconizava a liberdade de pensamento para todos os psicanalistas.
Ele próprio tomou liberdades técnicas, prolongando sessões (até 3 horas de sessão),
usando o corpo como forma de comunicação e terapia, e realizando sessões
psicanalíticas avulsas ou com longos intervalos, escrevendo cartas terapêuticas
para clientes e mães de clientes. Segundo Elizabeth Roudinesco ele “não
hesitava, na linhagem da herança ferencziana, em manter relações de amizade
calorosa com seus pacientes, reencontrando sempre a criança neles e em si
mesmo”.
Tornou-se
popular fazendo conferências radiofônicas na BBC entre 1939 e 1962.
Verberou
Françoise Dolto por achá-la demasiadamente carismática e favorecedora de uma
idolatria por parte dos alunos. “Independente sem ser solitário, não gostava de
seitas, de discípulos, de imitadores. Foi por isso que, mostrando-se ao mesmo
tempo transgressor em sua prática e rigoroso em sua doutrina, não hesitou em
apoiar os rebeldes e os dissidentes
--- principalmente Ronald Laing,
um dos artífices da anti-psiquiatria”.
Sofria
de problemas cardíacos desde 1948. Morreu de ataque cardíaco em 1971. Sobre a
morte dizia: “quero estar vivo no momento
de minha morte”. Pontalis escreveu a seu respeito: “Talvez não haja nenhum
sucessor, ninguém para se dizer seu seguidor. E é melhor assim. Com mestres, a
psicanálise pode sobreviver durante algum tempo. Sem juízes nem mestres, ela
tem a possibilidade de viver indefinidamente”. COMENTÁRIO: Não é o que vemos hoje em dias. Há psicanalistas tentando
aprisioná-lo em uma metapsicologia winnicottiana, matando a essência de suas
contribuições. Uma questão a ser discutida. Focos de poder institucionalizados
tentam fazer isto.
Winnicott
preocupou-se em manter-se sensível ao sofrimento e sentimentos dos seres
humanos. Isso aparece mais claramente quando declina do convite para cuidar de
leitos do Hospital Infantil. Carta de 5/9/967: “...o sofrimento de bebês e crianças pequenas numa ala de hospital,
mesmo que muito bom, é algo terrível. Entrar na enfermaria me perturba muito.
Se eu me tornar médico de pacientes internados terei de desenvolver a
capacidade de não me deixar perturbar pelo sofrimento das crianças, do
contrário não poderei ser um médico eficiente. Portanto, vou me concentrar em
meu trabalho de ambulatório e em não me tornar insensível com a finalidade de
ser eficiente”.
Winnicott é contemporâneo
quando diz que o ambiente deve prover condições para o aparecimento do
verdadeiro self. A moralidade virá de um movimento espontâneo do ser humano em
direção ao social, não há um modelo de comportamento a ser adotado, pois cada
ser humano é singular, etc. Ele está na passagem epistemológica do modelo para
a singularidade, do indivíduo como é entendido por Foucault, para o self como o
próprio Winnicott conceitualiza.
Winnicott colocava-se como
necessitado de um movimento de aceitação, de reconhecimento do ambiente. Neste
sentido ele modifica a concepção moderna de auto-suficiência. É uma versão
adulta da mãe que aceita o objeto subjetivo da criança tornando-o transicional
pela sua aceitação. Winnicott reconhecia a importância de ser reconhecido,
aceito pelo ambiente e teoriza sobre a falta de uma reação de M.Klein a um trabalho que apresentara: Parte da carta de
17 de novembro de 1952 para M.Klein: “ o
que eu queria na sexta-feira era sem dúvida que houvesse algum movimento de sua
parte para com o gesto que fiz naquele trabalho. Trata-se de um gesto criativo
e não posso estabelecer relacionamento algum através desse gesto se ninguém
vier ao seu encontro. Acho que eu estava querendo algo que não tenho nenhum
direito de esperar de seu grupo e que tem a natureza de um ato terapêutico,
algo que não consegui em nenhuma de minhas duas longas análise, embora tenha
conseguido muitas outras coisas” (p.XVIII e p.30). Em cima desse fragmento
de carta muito se pode especular a respeito de Winnicott. Primeiro: sua teoria
e sua vida estão intimamente entrelaçadas: ele está falando do gesto criativo,
espontâneo que deverá ser aceito pelo que sobrou da personificação materna para
passar a ter existência. Em outras palavras: o gesto criativo, isto é, o objeto
subjetivo só se tornará um objeto pleno, um objeto transicional se a ele
corresponder um objeto objetivo, que, no caso, é um objeto consensual. Enquanto
apenas eu penso algo este pensamento é puramente subjetivo. É, como diz
Winnicott, um objeto subjetivamente concebido. Para que, além de subjetivamente
concebido ele seja também objetivamente percebido é preciso que ele exista na
realidade externa, no caso, numa realidade consensual. M.Klein, com a força de
seu prestígio tinha o poder de tornar consensual, e portanto objetivo, um
pensamento; tinha o poder de introduzir pensamentos originais na cultura. É
disso que Winnicott reclama, é sobre isto que ele teoriza. Segundo: existem e
devem existir atos terapêuticos na vida. Ato terapêutico aqui é mais do que um
ato limitado a um contexto de consultório; na verdade, todo ato deveria ser
terapêutico, embora muitos sejam anti-terapêuticos. Winnicott rompe pois as
barreiras do consultório, os limites de atuação. Terceiro: introduz a idéia de
que na análise as produções subjetivas do analisando, os objetos subjetivamente
concebidos deverão ser acolhidos pelo terapeuta, assim como a mãe acolhe os
gestos criativos do seu filho, colocando no lugar que o bebê está criando o
objeto objetivo de tal forma que o objeto subjetivamente concebido pelo bebê
seja também objetivamente percebido. Quando um objeto é ao mesmo tempo subjetivamente
concebido e objetivamente percebido teremos então um objeto transicional, nem
objetivo, nem subjetivo, mas transicional. Tive um exemplo da importância
clínica, isto é, da importância para a conduta do analista numa reunião
científica da Associação Brasileira de Psicossomática. Um analista apresentou
um caso clínico em que uma recém-casada não aceitou que a cama do casal fosse
aquela em que o marido dormia com a ex-mulher. Segundo este analista havia aí
um colamento (confusão) da cama – algo objetivo – com ex-mulher – um sentimento
subjetivo, pois a mulher não viria junto com a cama. O analista chamou ao
objetivo de símbolo, ao puramente subjetivo de signo, e à junção signo-símbolo
de equação simbólica. Seu trabalho analítico consistiu em separar signo e
símbolo que estavam acoplados constituindo a equação simbólica, fazendo então
que ela se tornasse razoável e aceitasse a entrada da cama no seu lar. Eu
contrapus o seguinte: que essa área intermediária em que convivem subjetivo e
objetivo é a área em que predominantemente vivemos, uma área paradoxal, mas uma
área humana e não uma área despida de afeto, robótica que aparece quando
tentamos expurgar o subjetivo de nossos atos. Em outros termos o marido deveria
ter a sensibilidade suficiente (e o terapeuta também) de aceitar o mal-estar da
esposa em relação a uma cama na qual ele tinha dormido com a ex-esposa. Essa
tentativa de alcançar o objetivo absoluto, o simbólico absoluto é ainda uma
herança cartesiana que separava corpo (sentimentos) de mente (raciocínio objetivo).
Faz portanto diferença ter uma teoria que valoriza o espaço transicional, que
leva em conta a área em que o subjetivamente concebido convive sem questões com
o objetivamente percebido. É uma área onde não cabem questões como dizer “mas é
só uma cama e minha ex-esposa não está mais nela”. Se interpretamos
cama/ex-esposa como deslocamento ou confusão (exp.: “você está confundindo a ex
com a cama”) estaremos na lógica da exclusão, na lógica cartesiana pois estarei
dizendo que ou é ex-esposa ou é cama. Se estou na lógica paradoxal, no
objeto transicional, a lógica é a
paradoxal, contemporânea, pois ex-esposa e cama convivem sem choques, e sem
necessidade de ultrapassamento.
A equação simbólica está no paradigma
dicotômico pois ou é psicose ou é simbólico. O objeto transicional está no paradigma não-dicotômico pois ele é simbólico
e subjetivo, signo e símbolo ao mesmo tempo.
3- No paradigma moderno dar-se-ia uma interpretação enquanto que no
paradigma pós-moderno o analista simplesmente ouviria a queixa do analisando aceitando
o paradoxo objetivo-subjetivo e portanto acolhendo os sentimentos da analisanda.
A maneira do analista proceder (se dando
holding e fazendo intervenções sensíveis, ou
se interpretando sem levar em conta a subjetividade, a vulnerabilidade,
a sensibilidade do paciente) dá uma forte pista da maneira dele proceder: se
ele leva em conta a subjetividade ou se exige que a subjetividade seja
recalcada para que reine a
objetividade.
Dessa mesma carta podemos retirar o seguinte: Winnicott
achava que uma teoria poderia correr o risco de se esclerosar nas palavras que
a constituíam. Palavras para ele não eram conceitos fixos, mas uma forma
especificamente humana de tentar transmitir uma experiência. O importante era
poder transmitir uma experiência e não usar palavras conceituais. (ver p.XXI ou
p.31 do livro “O Gesto Espontâneo).
Ainda nesta mesma carta de
17 de novembro, para M.Klein, podemos retirar mais uma contribuição de
Winnicott, uma contribuição que aponta para uma concepção contemporânea da
saúde e da doença. Não é que Winnicott tenha falado explicitamente dessa
questão, mas, se dirigirmos um olhar intencional para o que ele escreve,
poderemos lá encontrar essa idéia. Vou reproduzir o trecho da carta que nos
interessará. Está na pag. 33: “A questão
que estou discutindo toca bem na raiz de minha dificuldade pessoal, de modo que
o que você vê sempre pode ser posto de lado como doença de Winnicott, mas se
você desconsiderá-lo desse modo, pode perder algo que, no fundo, é uma
contribuição positiva. Minha doença é algo com que posso lidar ao meu modo e
que não está longe de ser a dificuldade inerente ao contato humano com a
realidade”. Comentário: Winnicott está falando de
saúde e doença. Sua última frase permite-me pensar doença e saúde como parte do
fluir da vida. A doença aparece então como uma reação aos obstáculos
inevitáveis que o ser humano encontra no seu percurso de vida. Este obstáculo
tanto pode ser uma bactéria que o invade, à qual ele responderá com uma
infecção que é a doença, como pode ser uma invasão materna, à qual ele poderá responder com ansiedade ou
retraimento que serão a doença. Tanto num caso como no outro haverá um desvio
ou uma parada no desenvolvimento que será retomado ou retificado após o
obstáculo colocado pela vida for removido. A diferença entre o
predominantemente psíquico e o predominantemente extra-psíquico está no
ultrapassamento do obstáculo, que é geralmente total no extra-psíquico, mas
que, quando se trata do psíquico, é internalizado continuando a exercer os seus
efeitos. O obstáculo, ou a invasão predominantemente extra-psíquica pode deixar
sequelas, e a saúde que para Winnicott é vida, terá de ser exercida com a
seqüela. Pensemos em Itzhak Perelman que exerceu a sua saúde mesmo com a
paresia, quase paralisia das pernas. Com o psíquico não é diferente. Temos de
exercer nossa saúde, nosso viver, a partir do limites que temos e que
aconteceram no processo de desenvolvimento. A reportagem de VEJA n. 37 de 2003,
o psicólogo Roger Gould que escreve na
revista americana Psychology Today, é citado: ”Quem é fisicamente mais
saudável? Um campeão olímpico fora das pistas
por causa de uma torção no
tornozelo ou um diabético do tipo I cujo nível de açucar no sangue está
temporariamente normal?” Esta é uma boa questão e entra na linha de pensamento
que coloca as doenças como vicissitudes, como parte de um viver onde saúde e
doença realizam uma dança complexa impedindo que se saiba exatamente onde está
a saúde e onde está a doença, ou ainda, emaranhando saúde e doença de maneira a
não se poder distingui-las, a não ser por um golpe de inteligência, um golpe
epistemológico. Se de um ponto de vista a gripe da criança é doença, de outro é
saúde. Saúde e doença convivem paradoxalmente. Talvez o importante seja dizer
que os dois pontos de vista epistemológicos são produtivos e necessários. Outro
comentário: “...saúde compreendida como processo e não como ausência de doença
na perspectiva da produção de qualidade
de vida, enfatizando ações integrais e promocionais de saúde”( III Conferência
Nacional de Saúde Mental, 2002).
Winnicott não abria mão de estar integralmente presente na
sessão. Pôde então falar e analisar o seu ódio pessoal do paciente. Nisto ele
foi além da relação analista-analisando colocando a sua pessoalidade na
relação. Masud Khan, um conhecido analista ex-analisando de Winnicott falou da
forte “presença psicossomática” de Winnicott na relação. Comentário: Estar “todo” presente é ultrapassar a dicotomia
corpo-/alma, presente nos primeiros cem anos de psicanálise quando o analista
tentava ocultar o seu corpo para não perturbar com a sua presença as
associações do paciente e para não se perturbar com o olhar do analisando. Essa
presença global ultrapassa a dicotomia corpo/alma. Neste sentido Winnicott é
monista. Mas é também monista na sua recusa em aceitar uma pulsão de morte. Para
ele a pulsão que temos é a pulsão de vida que em algum momento chamou de “força
vital”. A agressividade e destrutividade nascem da força vital.
Podemos colocar como
característica da modernidade o conjunto dever/disciplina/obrigação e como
característica da pós-modernidade o conjunto
criatividade/espontaneidade/surpresa. E encontramos ao longo da vida e obra de
Winnicott momentos privilegiados em que o segundo trinômio se manifesta.
Winnicott estava em uma reunião científica quando se viu dizendo “não existe
esta coisa chamada bebê”. Ele próprio ficou surpreso com a formulação, mas
compreendeu que ela vinha de um longo período de observação e elaboração. Posso
acrescentar que Winnicott ao dizer esta frase estava mudando de paradigma. Para
usar a linguagem de Edgar Morin posso dizer que ele estava complexificando o
objeto de estudo. Estudar o bebê separado da mãe pode ser considerado um
recorte da realidade caindo no paradigma da simplificação enquanto que a
inclusão da mãe complexifica e permite enxergar uma realidade mais ampla. Recorte
refere-se ao ambiente e à história e permite um estudo em profundidade de
características particulares, mas torna o homem cego ao conjunto em movimento.
Os operadores da complexificação (conjunção, distinção e implicação) permite
ver o todo, as partes, e os todos parciais que interessam para o objetivo a ser
alcançado. Uma outra frase que tem o
mesmo significado nós a encontramos em EXPLORAÇÕES PSICANALÍTICAS,
p.196/7: “Não se deve permitir que a
existência dos padrões de enfermidade obscureça a realidade de que a criança em
questão é uma criança com um irmão ou
uma irmã mais novos”. Outra surpresa para Winnicott: “Foi minha observação seguinte que me
surpreendeu tocando um ponto importante”. Está na p. 105 do O Brincar e
a Realidade.
No livro EXPLORAÇÕES
PSICANALÍTICAS Winnicott fala explicitamente de “abandonar alguns princípios dos quais esteve corretamente orgulhoso”.
A psicanálise tradicional adota o ponto de vista do “indivíduo antes do
ambiente” e Winnicott fala da necessidade de se olhar “o ambiente antes do
indivíduo”. Diz mais: “Ele [o bebê] é um
fenômeno complexo que inclui o seu potencial e mais o seu meio ambiente”. “Não
se deve permitir que a existência dos padrões de enfermidade obscureça a
realidade de que a criança em questão é uma criança com um irmão ou uma irmã” (p.196)
Comentário:
é uma frase interessante: existem padrões de enfermidade que são modelares e
que portanto caem na categoria da modernidade e da dicotomia, sim. Mas esses padrões
devem ser olhados em um contexto maior, devem ser incluídos em uma complexidade,
devem realizar uma conjunção. Ou o contrário: pode-se começar pela conjunção,
e, se necessário, chegar à disjunção, para posteriormente voltar à conjunção.
Meu exemplo: criança que faz uma gripe por falta de atenção. Portanto a gripe
tem a função de trazer o olhar dos pais para essa criança. Digamos que não seja
uma gripe, mas uma infecção. Procedimento moderno, causal, redutor: levar
material para o laboratório, fazer cultura, estabelecer o antibiótico eficiente
e receitá-lo para a criança. Este procedimento não deve ser redutor de uma
situação mais complexa. Portanto, não se deve parar nele. É preciso incluí-lo
na situação de vida. Ele passou, por algum motivo, a receber menos atenção dos
pais ou da mãe, por exemplo. A mãe pode ter tido um filho, ou pode ter ficado
deprimida, ou qualquer outra coisa. Com isso as suas defesas baixaram, sim,
mas, do ponto de vista holístico, a infecção e o resultado de uma complexidade
da qual faz parte a tentativa de recuperar a
atenção perdida e ainda necessária.
A questão da teoria modelar
e da teoria ou teorização exemplar. Acho que essas palavras adjetivantes são
boas. Há uma diferença entre se seguir um modelo (filosofia platônica,
cartesiana, kantiana) e tomar a teoria não como um modelo fixo, mas como uma
formulação advinda de uma prática clínica.
Terminarei com uma frase de
Peter Tizard que se encontra na Introdução ao livro “Os bebês e suas mães” de
Winnicott: “O Dr. Winnicott foi um bom
escritor, às vezes muito bom, outras vezes nem tanto, mas foi muito melhor como
professor e brilhante como conferencista. Para expressar suas idéias de
modo claro e vívido, precisava da proximidade de uma platéia; além
disso, tinha a capacidade de mudar de estilo e de conteúdo em função do nível
de compreensão e do humor da platéia, fosse ela constituída de uma pessoa ou de
centenas delas”(p.VIII).
Winnicott tinha alma de
aedo: mais Homero do que Platão.
Nahman Armony
A ÉTICA E O AMOR
Os pensadores da atualidade
chamam a atenção para uma mudança fundamental na mentalidade humana. No
passado, acreditava-se em princípios universais que, mesmo transgredidos, eram
aceitos por todos em uma cultura. A pessoa, ao transgredir, sabia estar indo de
encontro à Verdade de seu grupo.
Hoje temos uma dispersão da
Verdade. Cada um constrói a sua ética e tenta agir de acordo com ela. A
elaboração dessa ética varia de pessoa para pessoa. Nela, misturam-se mandatos
advindos da educação, da realização dos desejos próprios e de um cuidado com os
outros, seja por amor ou por convicção filosófica. Não estou falando de
elaboração consciente, que pode existir, ou se manifestar em algum momento, mas
de uma forma não-consciente de agir.
Muitas vezes a ética explícita
não é a mesma do inconsciente, o que provoca mal-estar e sentimento de culpa em
determinadas situações. Por exemplo: a ética de uma pessoa lhe diz que a
infidelidade não é um ato reprovável e, no entanto, ela se sente culpada quando
acontece. Vamos pensar em um caso concreto: um jovem adulto, criado em ambiente
religioso e repressor, apresenta dificuldades sexuais, as quais o desvalorizam
e revoltam. Ele se rebela contra a educação recebida e elabora uma ética
própria, em que a sexualidade é um direito de todos. Algo importante está
acontecendo. O rapaz desafia, a partir de seus instintos e desejos, a força dos
mandatos parentais que, à sua revelia, se tornaram parte dele mesmo. E sua
elaboração ética vai além. Para ele, é possível haver infidelidade na relação
amorosa, pois esta não deve impedir que um desejo sexual de grande intensidade
seja realizado. Sua ética está no respeito ao impulso. Pode-se pensar que este
fragmento ético tem sua origem afetiva no desejo de experimentação e variedade
(não quero repetir o argumento biológico darwiniano da máxima transmissão dos
caracteres hereditários).
Pois bem, esta é a ética que ele
apresenta à namorada: ambos teriam o direito a aventuras sexuais. Talvez peça a
ela discrição, pois se vier a saber da infidelidade sofrerá. A moça, porém, tem
outra ética. Para ela a fidelidade sexual é um princípio cuja quebra é inaceitável.
Se o namorado tiver uma aventura, terminará o namoro. Temos aqui duas éticas em
confronto, o que não acontecia no tempo em que havia apenas uma Verdade: para o
rapaz o ético é não impedir a realização de um forte impulso; para a moça o
ético é preservar a fidelidade a qualquer custo. Uma diferença de ajuizamento e
um impasse.
O mais coerente seria terminarem
o namoro antes que um aprofundamento da relação viesse a fazê-los sofrer na
eventualidade de uma traição. Acontece que os dois se amam. Um deles irá ceder.
Mas será uma frágil renúncia. Ou ela se sentirá ofendida se houver infidelidade
ou ele se sentirá cerceado por não poder se entregar a um desejo intenso que
surja. A situação poderá dar origem à dubiedade. Mantendo-se fiel a sua ética,
à qual não pode renunciar já que se trata de um princípio básico, ele “sabe”
que em situações excepcionais cederá ao desejo. Mas como está muito interessado
na namorada, não deixa claros, nem para si nem para ela, os seus sentimentos.
Ela aceita esse estado ambíguo porque não quer um rompimento. Ambos concordam
em manter uma semi-mentira e uma semi-verdade. Está criado o cenário para muito
sofrimento futuro.
Nahman Armony
Primeira
publicação na revista CARAS
POEMA DA LIBERDADE
Minha máquina relojoeira
Está trabalhando diferente
Não só aponta para o Norte
Para o Sul também
Para o Leste e para Oeste
Para qualquer de todos os lados,
Mas é sempre para o meu caminho.
Nahman Armony
Está trabalhando diferente
Não só aponta para o Norte
Para o Sul também
Para o Leste e para Oeste
Para qualquer de todos os lados,
Mas é sempre para o meu caminho.
Nahman Armony
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