Havia pavor nos seus olhos
Olhei no fundo de seu pavor
E juntos
Enfrentamos o Inominável.
Havia Morte em meu corpo
E em minha alma
Mas não em meus olhos.
A súplica dos olhos de minha filha
Varreu de meu ser a angústia do Além
E me tornou Puro, Forte,
Uma Rocha,
A olhá-la com a força dos Deuses Benfazejos.
Nem eu mais a olhava
Nem ela a mim.
Nossos olhares eram uma só Intensidade
Lutando contra o Horror.
Quatro olhos-infinitos
Formando um infinito arco
Intransponível.
O choro era um grito de Vitória
O grito, uma Sinfonia Guerreira
A dor, um Amuleto, ancorado
Nas cem correntes entrelaçadas
Protegendo a Vida
a Alma
O Amor.
A paz no fundo dos olhos
Os olhos no fundo da paz
O fundo na paz dos olhos
Os olhos nos olhos
A olhar
A trançar
Retraçando
Caminhos.
Nahman Armony
IDENTIDADE ONTOLÓGICA
Identidade e identificação
A maioria dos autores considera que a identidade é o
resultado das inúmeras identificações vividas, especialmente aquelas dos
períodos iniciais da vida. Freud fala-nos de uma identificação primária,
anobjetal, anterior ao investimento objetal e de uma identificação secundária
que acontece depois de estabelecida a diferenciação entre o eu e o não-eu,
entre o eu e os objetos do mundo. Winnicott desenvolve esta idéia de
identificação primária; com ele podemos dizer que existe uma identidade
primária, resultado de identificações primárias e uma identidade propriamente
dita que podemos conectar às identificações secundárias de Freud.
Essas questões colocadas em termos
winnicottianos, assim ficariam: ao nascer, o bebê estaria numa situação de
“dependência absoluta” e a mãe com uma “preocupação materna primária”. Nessa
fase haveria uma fusão mãe/bebê. Esta formulação é diferente da exposta acima.
Winnicott tanto fala de uma identificação primária quanto de fusão. E estes
dois conceitos (ou noções) parecem não se superpor. Não sei se isso importa,
pois quer falemos de identificação primária, quer falemos de fusão, o resultado
é uma identidade que podemos nomear de primária.
Se falarmos de fusão estaremos pensando
numa maior participação da mãe no processo de constituição da identidade. As
fantasias, temores, sentimentos, esperanças da mãe interagem com as
potencialidades do bebê e a identidade primária estará impregnada pela
subjetividade da mãe. Posso usar como analogia, com vistas à maior compreensão
do que estou querendo dizer, a idéia winnicottiana de superposição de duas
áreas de brincar. Claro que a analogia é imperfeita, pois neste último caso já
terão acontecido identificações secundárias, estando o eu já bem constituído no
sentido de se diferenciar de um não-eu.
Se falarmos de identificação primária
estaremos remetidos a uma mãe que mais atende às necessidades do bebê do que
contribui com seu desejo para a formação de uma identidade. Outeiral em seu
livro “Conhece-te a ti mesmo” escreve a propósito: “E esta mãe não é sempre uma
única coisa ou coisa alguma, ela é aquilo que o bebê necessita que ela
seja”(p.69)
Podemos para além dessas duas
formulações, fazer, ainda baseados em Winnicott, uma outra não incompatível com
a idéia de fusão e podendo ser considerado um de seus aspectos. A fusão vista
em sua feição macro, global: a identidade primária seria simplesmente SER e
esse SER do bebê depende da mãe poder SER na relação com o seu bebê. A palavra “simplesmente”
não pretende tirar a importância de SER. Significa que é um processo que está
além das possibilidades de uma descrição ou de uma rememoração, podendo apenas
ser intuído, talvez a partir de uma hipotética memória arcaica não-verbal a ser
despertada mais pela capacidade impressionista/nebulosa da palavra poética do
que pelo discurso logicamente coerente. Voltando à questão do SER. Na
preocupação materna primária a mãe está inteiramente e integralmente voltada
para o bebê, estando presente psicossomaticamente. Ela está SENDO para o bebê
que então tem a experiência de SER. Impossível definir este SER da mãe. Podemos
recorrer a Lacan que em seu seminário sobre a lógica do fantasma (e aqui estou
me reportando ao artigo de Luiz Eduardo Prado de Oliveira (p.83) publicado na
Revista Panamericana de Psicopatologia Fundamental, III, 3, 73-102 intitulado
“Jeremias, criança, luta contra o autismo, a esquizofrenia e a paranóia”) diz
que o corpo é o primeiro significante que virá a adquirir significado para o
sujeito, se tiver sido antes significante para a mãe. Ainda em busca de uma
compreensão/intuição podemos parafrasear Masud-Kahn que dizia de Winnicott,
estar ele psicossomaticamente presente e voltado para o seu paciente. O mesmo
pode dizer-se da mãe que está SENDO para o seu bebê. É cabível usar as palavras
devotada (palavra winnicottiana), dedicada, capturada, fascinada; pode-se dizer
que o bebê é a razão e foco de sua existência. Estas palavras e expressões só
serviriam para tentar despertar no leitor a intuição do que é estar SENDO na
relação com o bebê. Se na fase de fusão a mãe É para o bebê, então este
pode também SER, o que significa que ele poderá ver confirmada a sua
experiência de onipotência começando por aí a usar o seu potencial hereditário
na interação com o ambiente. Como estamos falando de SER não nos será difícil
aceitar que está aparecendo uma primeira e primitiva identidade que podemos
chamar de ontológica. O bebê tem uma presença tão verdadeira, sólida,
consistente quanto a pedra ou qualquer outro objeto animado ou inanimado da
natureza. Não há dúvida de que esse pensamento apresenta dificuldades. A
tendência seria só poder pensar o SER em oposição um não-SER. Não é, porém o
que Parmênides nos diz quando separa radicalmente o Ser do não-Ser em sua
famosa frase: “o que é, é, e o que não-é não é”. Ou: “uma coisa não pode ser e
não-ser ao mesmo tempo”, concluindo a partir daí, através de um raciocínio
sofisticado, que tudo é Ser e que não existe o não-Ser. A argumentação de
Parmênides permite que aceitemos melhor – já que estamos apoiados em um mestre
da filosofia – a idéia de que um bebê em estado de onipotência absoluta onde só
ele existe e o universo todo é ele próprio, está em um estado de Ser com
exclusão de todo não-Ser. O não-Ser não existe. Como em Parmênides, há aí uma
espécie de plenitude que preenche todo o universo. Este SER absoluto do bebê,
filosoficamente alcançado, permite intuir uma situação psíquica importante para
o desenvolvimento de uma certa teorização, uma teorização que tem a ver com uma
prática. É importante que também o analista SEJA para que o analisando possa
SER. Isto é particularmente importante em pacientes nos quais, o sentimento
de SER está prejudicado. Podemos aqui encontrar os fundamentos teóricos para
que o analista esteja presente na sua relação com o paciente com o seu corpo e
alma, ou melhor, com o seu soma, psique e mente, e que este corpo/psique/mente
integrado esteja inteiramente voltado - disponível e atento - para o seu
analisando.
Falei aqui de três caminhos: a mãe como
espelho do bebê, a mãe como parceira contribuinte e a mãe como possibilitando o
SER do bebê através de seu SER. Este último pode ou não ser incluído no
segundo, de acordo com o gosto de cada um.
Estamos, pois, diante de três caminhos.
Qual deles o verdadeiro? Esta, acredito, é uma falsa questão. Quando
construímos nossas teorias ou nossas teorizações, valemo-nos de observações
fenomênicas que serão organizadas, valoradas e selecionadas segundo nossas
concepções inconscientes (penso também nas pré-concepções de Bion). Tendemos a
nos relacionar com os nossos analisandos segundo dinamismos que se formaram ao
longo de nossa vida, dinamismos estes criados no contato com figuras
significativas, desde pais até psicanalistas. É nossa experiência total,
incluindo-se aí leituras, teorias, e o que mais seja, que está em jogo quando
estamos trabalhando em nossos consultórios. Temos predisposições afetivas,
intelectuais, psicomentessomáticas e buscamos ou inventamos teorias que
permitam balizar a nossa forma de ser e proceder. Interpretamos assim os fatos
segundo nosso direcionamento como analistas. Um símile: quando se escreve uma
biografia a subjetividade do autor está presente. Duas biografias sempre serão
diferentes, embora se refiram a uma mesma vida. O mesmo pode-se dizer da adaptação
de livros ao cinemas: o livro “Ligações perigosas” foi filmado por dois grandes
cineastas, Stephen Frears e Milos Forman que deram versões diferentes ao mesmo
livro. (um dos filmes tem o mesmo nome do livro e outro se chama “Valmont - uma
história de seduções. Valmont é o nome de um dos personagens do livro. Houve
ainda uma adaptação do livro (ou do filme) à época atual, resultando em uma
outra perspectiva). São apenas analogias que pretendem tão somente clarificar a
idéia de que os fatos, desde sua captação estão impregnados de subjetividade e
são selecionados, organizados, valorados a partir das necessidades subjetivas
do analista em ação no seu trabalho.
Teoricamente podemos imaginar que
existe uma primeira identidade que chamei de ontológica. Corresponde à fase de
fusão onde a mãe deverá estar presente com o seu SER, denso, consistente,
voltando-se integralmente para o bebê afim de que este possa se apossar de sua
identidade primeira, uma identidade prévia à identificação(a identificação
pressupõe a presença de dois). Acho que a expressão “estar inteiramente voltado
para o bebê com o seu SER integral” exprime aproximadamente a idéia. Aqueles
que não tiveram uma mãe suficientemente boa nesse período apresentariam uma
dificuldade de se sentirem existindo e ficariam em um nível muito primitivo de
comportamento e defesa. Se minimamente a criança se experimentou como SER pode
apresentar angústia de aniquilamento que a ameaça de desintegração, desperta.
Estou aqui ligando teoria e prática. A hipótese teórica organiza para o
analista 1-a fala dispersa, ansiosa, pouco coerente onde ele se sente chamado a
acolher a fragmentação, 2- as atividades múltiplas sem objetivo que não seja a
própria atividade, 3- o desajeitamento corporal resultante de uma coordenação motora
falha. Supõe que o autismo e a confusão mental, a falta de referências na
realidade (como na esquizofrenia hebefrênica ou na esquizofrenia simples) são
formas derivadas da falta de SER. Não fica porém claro, em suas minúcias como
isto se daria. Devo então renunciar a esta formulação, ou deixá-la como uma
intuição a ser justificada?
Em seguida encontraríamos, na linha da
dependência, uma regressão à transição entre a dependência absoluta e a
dependência relativa. Se esta transição foi mal vivida, a passagem da
onipotência absoluta (identidade ôntica) para a onipotência mitigada, da
experiência unária de onipotência para a experiência dual eu----não-eu fica
prejudicada. A segunda identidade que é a separação de si mesmo do mundo não se
faz adequadamente. Estaríamos basicamente, segundo Winnicott/Abram no reino dos
borderlines, esquizofrênicos, esquizóides. Teríamos uma identidade difusa, uma
identidade que através das identificações projetivas e introjetivas excessivas
tenderia a se espalhar para fora de si mesmo e a se deixar penetrar
excessivamente pelo externo. Basicamente, a mãe não teria conseguido acompanhar
os movimentos de retração e expansão do bebê. Não estaria suficientemente
identificada com o seu bebê para perceber seu movimento de retorno à fase de
dependência absoluta a partir da dependência relativa e vice-versa. Ou, numa
outra linguagem que muitas vezes eu adoto, uma oscilação entre simbiose e
fusão. Winnicott: “Vemos portanto que na
infância e no manejo dos lactentes há uma distinção muito sutil entre a
compreensão da mãe das necessidades do lactente baseada na empatia, e sua
mudança para uma compreensão baseada em algo no lactente ou criança pequena que
indica a necessidade. Isto é especialmente difícil para as mães por causa do
fato das crianças vacilarem de um estado e outro; em um minuto estão fundidas
com a mãe e requerem empatia, enquanto que no seguinte estão separadas dela, e
então, se ela souber suas necessidade por antecipação, ela é perigosa, uma
bruxa. É muito estranho que mães que não são nada instruídas se adaptem a estas
mudanças no desenvolvimento satisfatório do lactente, e sem nenhum conhecimento
da teoria. Este detalhe é reproduzido no trabalho analítico com pacientes
borderline, e em todos os casos em certos momentos de grande importância quando
a dependência na transferência é máxima”. (“O Brincar e a Realidade”,
p.51/2). Se a mãe não acompanha o vai-e-vem de seu bebê este apresentará
problemas na área de identificação/identidade. Pode sentir-se não aceito, não
reconhecido, não autorizado quando da passagem da simbiose para a fusão e
vice-versa. A flexibilidade da vida psíquica fica prejudicada pela intrusão
materna. As necessidades do self do bebê (que aqui talvez já seja conveniente
chamar de verdadeiro self) não são atendidas. Os dois estados não podem se
suceder dentro de uma integração temporal. Diante da intrusão o bebê reagirá
ativamente ou passivamente: poderá se revoltar e enraivecer-se, tentando a
integração no tempo, ou se conformar, cindindo então os estados de fusão e de
simbiose; deixa então de haver um fluxo livre entre estes dois estados,
tendendo o bebê a privilegiar um dos estados, ficando o outro dissociado, mas
passível de, de repente ser retomado.
O que haveria de novo no que foi aqui
apresentado? Creio que teremos uma referência teórica a mais para
compreendermos personalidades que não se sentem consistentes e que aparecem em
número crescente em nossos consultórios. São pessoas que para se sentirem
existentes precisam muitas vezes de emoções fortíssimas, entre elas a emoção da
violência/destruição. Creio que a minha principal contribuição neste trabalho é
a noção de “identidade ontológica” que depende da capacidade de SER da mãe, e, posteriormente, do analista.
Nahman
Armony
CONTRADIÇÃO E PARADOXO
Mesmo que não saibamos, a mentalidade
da época em que vivemos influi em nossas emoções, sofrimentos, prazeres e
alegrias. Quando nos deparamos com um dilema afetivo sentimo-nos na obrigação
de resolvê-lo. Não se trata de um dever consciente, mas de uma mentalidade que
nos penetra e que nos obriga a fazer uma escolha. Esta mentalidade nem sempre
vigorou no Ocidente. Houve época, antes dos filósofos gregos da natureza em que
os dilemas não tinham que ser resolvidos. Não se falava de verdadeiro e falso,
mas sim de velamento e desvelamento; aquilo que estava encoberto num certo
momento não era uma falsidade pois poderia ser descoberto a qualquer momento
enquanto que o que estava exposto passava à condição de encoberto. A
convivência do coberto e encoberto fazia parte da mentalidade dos gregos
arcaicos. Com Parmênides e os filósofos da natureza surgiram as figuras lógicas
da verdade e da falsidade, logo adotado por Platão com a sua concepção de um
mundo das idéias verdadeiras, modelares e eternas. Durante muito tempo, e ainda
hoje, vivemos sob a influência de Platão o que causa um a mais de sofrimento
que poderia ser evitado.
Uma das dificuldades nas relações
amorosas é a conciliação da preservação da individualidade com a plena entrega
ao outro. Se por um lado necessitamos de um núcleo sólido de personalidade para
sentirmo-nos estáveis, por outro somos impelidos na direção do outro pela
necessidade de dar e receber amor. Isto se torna mais difícil quando
pretendemos nos entregar por inteiro ao amor pelo outro. Esta entrega exige uma
abertura de todos os recantos do ser e assim ficamos vulneráveis às influências
da personalidade do parceiro amoroso. É claro que existe uma gradação no amor
que vai do máximo da reserva possível, além da qual não é possível uma relação
amorosa, até o máximo da entrega de si mesmo. Enquanto o amor se encontra
naquela fase em que o parceiro amoroso não é visto em sua realidade, sendo nada
mais nada menos do que a projeção de sua fantasia, situação facilitada pelo
desejo de cada um ser como o outro deseja, a individualidade de cada um
encontra-se a salvo. Sinto aqui necessidade de fazer uma distinção: ao ver o
outro não como ele mesmo, mas como sua fantasia é claro que a individualidade
fica preservada e até reforçado pelo que se imagina que seja um duplo ou um
complemento perfeito seu. Mas, junto com esta ilusão existe o desejo de ser
como o parceiro o idealiza; é claro que este impulso poderia ameaçar a
individualidade do sujeito. No entanto, nessa fase, não aparece o medo de
“perder a personalidade”. Nessa fase o que cada um quer é perder-se no outro, é
ser como o outro deseja, já que esse outro está idealizado e tudo o que ele
pensa, sente e é traz a marca da perfeição. Sabemos todos que este estado não é
duradouro, e após um certo lapso de tempo a pessoa recupera-se da “doença” do
apaixonamento, reencontrando-se a si mesma. Mas para que a relação possa
persistir é preciso que algo da doença, algo da ilusão sobre o outro se
mantenha. Agora, porém devem andar lado a lado a preservação do núcleo da
individualidade que foi negligenciado no período de paixão máxima e absoluta e
a entrega confiante ao companheiro dentro do clima de amor/paixão. Esta a
equação ideal, porém difícil de ser mantida. Quando dois processos que se
excluem existem concomitantes na alma do ser humano, este tende a se livrar de
um deles para evitar um conflito que traz ansiedade e, portanto, sofrimento.
Aqui devo fazer um parêntesis para distinguir contradição de paradoxo. Quando
falamos em contradição pensamos que os termos se excluem não podem conviver. Se
estes termos que não se combinam forem vividos como paradoxo então a sua
convivência se torna possível. Nossa formação pessoal exige que durante as
primeiras décadas de nossas vidas eliminemos os contrários. Temos de pensar e
viver no registro do contraditório. Após solidificarmos nossa personalidade
poderemos escolher entre estar no regime da contradição ou no registro do
paradoxo. Durante muitos séculos, desde Parmênides e Platão, a humanidade
escolheu o caminho da contradição. Hoje, até a física quântica trabalha com o
paradoxo. A luz é ao mesmo tempo onda e partícula. Mas transplantar essa
concepção para a alma humana é algo complicado que exige grande trabalho pessoal,
e certamente, será uma tarefa de gerações. Mas é algo que já está em curso. Se
compararmos a letra de um antigo bolero, com produções mais recentes, veremos
que há um esforço em trilhar este caminho. O antigo bolero diz: “: “Nosotros;
que nos queremos tanto; debemos separarnos; no me preguntes más; no es falta de
cariño; te quiero com mi alma; te juro que te adoro y en nombre deste amor y
por tu bien te digo adiós”. Já hoje temos Zeca Pagodinho dizendo “deixa a vida
me levar, vida leva eu...” ao mesmo tempo que Vinicius canta “sei lá, sei lá, a
vida é uma grande ilusão, sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão” e “sei lá,
sei lá, só sei que é preciso paixão: sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão”.
Não mais lutar com a contradição, mas transformá-lo em paradoxo, o que
significa deixar-se levar pelos acontecimentos.
Nahman Armony
Primeira
publicação na revista CARAS.
POEMA PARA MEUS FILHOS
Aqui estou eu
Aqui estamos nós
Eu e você
Você e eu
Diante das montanhas
Na BR 101
No ano de 75.
Apenas nós dois
O resplendor
E só.
O ruído que nos envolve
Os carros que passam
As interferências
Pertencem a um outro mundo
Diferente deste que somos
Eu, você, a luz.
Estamos numa ilha
Fora do tempo
E o mar mal atinge poucos metros de nossa praia.
Só eu e você.
Certamente o tempo passa
Certamente a dor é certa
Assim como certa é a morte.
Mas isso é outra coisa
Nada tem a ver
Com o nosso abraço.
É certo que a marcha segue
A terra continua a girar
O sol caminha no infinito
Toda a galáxia se movimenta
Estrelas explodirão
O mundo desaparecerá,
Mas isto nada tem a ver
Com o que estamos vivendo.
Estamos só nós dois
Eu, você
O abraço
A luz
O amor
A alegria
O momento de eternidade.
A vida que nos rodeia
Apenas ilumina
O plano transcendente
Em que nos encontramos.
Tudo foi tocado pela magia-alegria
Do amor.
Vivemos uma outra vida
O mundo é outro lugar.
Nahman Armony
Aqui estamos nós
Eu e você
Você e eu
Diante das montanhas
Na BR 101
No ano de 75.
Apenas nós dois
O resplendor
E só.
O ruído que nos envolve
Os carros que passam
As interferências
Pertencem a um outro mundo
Diferente deste que somos
Eu, você, a luz.
Estamos numa ilha
Fora do tempo
E o mar mal atinge poucos metros de nossa praia.
Só eu e você.
Certamente o tempo passa
Certamente a dor é certa
Assim como certa é a morte.
Mas isso é outra coisa
Nada tem a ver
Com o nosso abraço.
É certo que a marcha segue
A terra continua a girar
O sol caminha no infinito
Toda a galáxia se movimenta
Estrelas explodirão
O mundo desaparecerá,
Mas isto nada tem a ver
Com o que estamos vivendo.
Estamos só nós dois
Eu, você
O abraço
A luz
O amor
A alegria
O momento de eternidade.
A vida que nos rodeia
Apenas ilumina
O plano transcendente
Em que nos encontramos.
Tudo foi tocado pela magia-alegria
Do amor.
Vivemos uma outra vida
O mundo é outro lugar.
Nahman Armony
VAN GOGH
Passado
um século da morte de Van Gogh podemos hoje reconhecer nele um homem e artista extraordinário
e profético, cuja vida e obra foram uma antecipação das questões, caminhos e
conflitos do homem atual. Durante sua atormentada existência optou por manter a
sua singularidade contra tudo e contra todos. Enfrentou pai, família, marchands
e absolutamente não se dobrou a nenhum modelo social. Foi sempre fiel a si mesmo fosse como pintor,
como estudante, como missionário, como amante. E mais do que isto teve a
coragem de assumir uma posição ideológica que podemos chamar de panteísta, numa
época em que reinavam ou o Deus externalizado e pessoalizado, ou o racionalismo
científico triunfante na sua certeza de possuir e vir a possuir, através de
seus métodos, a verdade do universo e com isto o bem-estar da humanidade. Seus
quadros eram uma negação desta Weltanschauung dominante, com sua ênfase nas
cores, na expressividade, na fusão homem/natureza. Talvez por não ter sido
compreendido e aceito pela sociedade, por ter sido espiritualmente excluído
dela, tenha se suicidado, excluindo-se em corpo também, quem sabe coerente com
sua forma de sentir unitária, onde alma e corpo não podiam ser separados.
Não foi sem conflitos internos que Van Gogh
construiu sua fortaleza espiritual. Suas primeiras cartas ao irmão Théo revelam
um jovem confuso, desejoso de seguir os caminhos convencionais de inserção na
sociedade, aceitando a sua ideologia, mas já deixando transparecer dúvidas. Em
janeiro de 1873, aos 19 anos, já empregado há mais de três anos numa filial da
Casa Goupil, uma galeria de arte, escreve para seu irmão Théo: “Meu ano novo começou bem. Recebi um aumento
de dez florins ... e me concederam um prêmio de 50 florins acima do mercado. Não
é magnífico? Eu espero poder, desta maneira, prover as minhas próprias
necessidades. Estou muito contente que você esteja trabalhando na mesma firma. É
uma bela firma onde, quanto mais se trabalha, mais se sente a ambição”(p.23)[1].
A carta tem alguma ambigüidade. Van Gogh não fala de sua ambição diretamente, mas de uma ambição que parece vir da firma.
Como se a ambição não fosse própria, mas um modelo imposto. Seria esta ambigüidade
um prenúncio do conflito entre afirmar a singularidade x dobrar-se às convenções?
Extrato da carta de três de abril de 1878 (ocasião em que Vincent está
estudando para pastor): “....quanto mais
nos ativermos a regras fixas, mais firme se tornará o caráter, sem que para
isto tenhamos de nos tornar
limitados....E mesmo nos ambientes cultos e nas melhores sociedades e circunstâncias
mais favoráveis, é preciso conservar algo do caráter original de um Robinson
Crusoé ou de um homem da natureza, jamais deixar extinguir-se a chama interior,
e sim cultivá-la”[2](p.28/9). Nesta carta em tom de prédica (portanto com um
acento superegóico), Vincent procura compatibilizar o homem das "regras
fixas" com o "homem da natureza", uma vida calcada no modelo
social vigente com uma vida livre e criativa. Está com 25 anos e pensa em ser
pastor como o pai. Já em julho de 1880 (Van Gogh portanto tem 27 anos e decide
ser pintor após um período de errância física e mental) a separação entre
"regras de sociedade" e "homem natural" está mais definida:
“Há uma velha escola acadêmica muitas
vezes execrável, tirânica, a abominação da desolação, enfim, homens que têm uma
espécie de couraça, uma armadura de aço de preconceitos e convenções; estes,
quando estão à testa dos negócios, dispõem dos cargos e, por meios indiretos, buscam
manter seus protegidos e excluir os homens naturais”(p.44)[3].
É evidente que Van Gogh se inclui entre os homens naturais. Nesta ocasião ele
havia sido destituído de sua condição de missionário por não agir de acordo com
os preceitos da igreja. Com perspicácia Van Gogh prossegue nesta carta: “Agora, uma das causas pelas quais eu estou
agora deslocado - e por que durante tantos anos estive deslocado - é
simplesmente porque tenho idéias diferentes das desses senhores que dão cargos àqueles
que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como
hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe
garantir”[4](p.44). Van Gogh toma consciência dos distúrbios
e reações que sua singularidade provoca no mundo. Sua valorização e expressão
de sentimentos, sua desconfiança na razão pura, seu panteísmo, sua crença no
amor, na intuição, na humildade, na sinceridade, sua afirmação de singularidade
nem competitiva nem rebelde, sua ausência de preconceitos, seu desprezo pelas
convenções e pelos valores sociais em vigor, ameaçavam os "homens de
preconceitos" da sociedade da época que então o ataca ou o ignora. Daí
Antonin Artaud dizer que Van Gogh foi um "suicidado da sociedade".
Van Gogh afirma e reafirma uma
singularidade que se apóia e está em continuidade com os seus mais antigos
sentimentos, valores e pensamentos. Ainda na carta anterior respondendo ao irmão
que lhe escrevera "desde então você
mudou muito, você já não é mais o mesmo", esclarece: ... “ o que mudou é que minha vida era então
menos difícil, e meu futuro aparentemente menos sombrio; mas quanto ao meu íntimo,
quanto à minha maneira de ver e de pensar, nada disto mudou, e se de fato
houvesse alguma mudança, é que agora eu penso e acredito e amo mais seriamente
aquilo que na época eu também já pensava, acreditava e amava”[5](julho
de 1880). Esta fidelidade aos valores mais antigos remete-nos à Personificação
da Mãe, enquanto que seu desejo de se inserir no mundo adulto refere-o à
Personificação do Pai. Porém Van Gogh só admite entrar no social conservando
suas crenças, sentimentos e pensamentos mais antigos, a sua singularidade, a
sua vinculação à Personificação da Mãe. Temos disto uma confirmação em várias
outras de suas manifestações. Carta de novembro de 1881: “Você, você é capaz de me compreender quando afirmo que é preciso amor
para trabalhar e para se tornar um artista, um artista que procura colocar
sentimento na sua obra: é preciso primeiro sentir-se a si próprio e viver com
seu coração”[6](p.138). A vinculação à Personificação da Mãe,
ou, o que é o mesmo, a manutenção da função-Mãe faz-se presente nesta carta na
continuidade amor-trabalho, na precedência que tem o "sentir-se a si próprio"
em relação a sentir o mundo e finalmente no viver o mundo "com o seu coração",
com sua singularidade, seus sentimentos mais verdadeiros e não seguindo modelos
prévios. Na carta de 23 de novembro de 1881 (tinha então 28 anos, estava
morando com os pais, já escolhera ser um pintor, e está em conflito com os pais
a este respeito) ele reitera mais enfaticamente estas idéias: “Algumas vezes eu estou convencido que você
deve dirigir ao presente sua atenção, a melhor parte de sua atenção, a mais
condensada, sobre esta força vital que ainda não está despertada em você: o
Amor. Ela é em verdade a mais poderosa de todas as forças, visto que ela te
torna apenas aparentemente dependente; a verdade, é que a franqueza verdadeira,
a liberdade verdadeira, a independência verdadeira existem somente através
desta força. é o amor que precisa nosso sentimento de dever e define claramente
nosso papel”[7](p.144). A menção de Van Gogh ao dever e ao
amor permite-nos buscar um contraponto destes sentimentos no complexo de Édipo
da teoria freudiana. Porém, antes de fazê-lo, torna-se necessário um esclarecimento:
as obras dos grandes criadores podem ser lidas em várias perspectivas: uma
delas representa, ao mesmo tempo, uma denúncia (ou um retrato) das ideologias
vigentes, e um apontamento, a partir destas revelações, de linhas de ultrapassagem
desta ideologia. é por este ângulo, como testemunha genial de uma época, que
citaremos Freud. Sua escolha da tragédia de Sófocles para a apresentação do
complexo de Édipo, sua concepção da origem da sociedade organizada exposta em
Totem e Tabu, a forma de instalação do superego no menino, são reveladoras da violência
de uma sociedade patriarcal no apogeu de sua ideologia fáustica. É justamente esta teoria reveladora que,
adequadamente usada, permite um trabalho clínico de liberação individual e
propicia desdobramentos teóricos como os de Balint, Winnicott, Searles e outros. Freud foi um transformador,
e portanto um homem de transição; como tal tinha seus pés enraizados numa
episteme ocidental platônico-cartesiana, mas empurrava com as mãos as relações
homem/mundo em direções que retomadas por psicanalistas modernos levaram da
episteme da representação para a
episteme da força pulsional e, mais
ainda, para uma episteme onde a identificação-empatia-intuição
têm um papel preponderante, produzindo
transformações teóricas que recusam a violência da sociedade tecno-consumista e
passam a refletir um crescente desejo de equilíbrio ecológico. Feitas estas
ressalvas podemos retomar o fio no ponto em que o deixamos. Na carta de Van
Gogh o dever aparece como tributário do amor. Freud em "A dissolução do
complexo de Édipo” (vol.19, pág.221) escreve: “A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo
do superego que assume a severidade do pai(dever) e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo assim o ego
do retorno da catexia libidinal”[8](amor).
De um lado a autoridade/dever na identificação com o Pai e de outro o
abandonado amor pela Mãe. Em "O problema econômico do masoquismo” (vol.19,
pág.173) Freud escreve: “Agora o
superego, a consciência moral eficaz dentro dele, pode tornar-se duro, cruel,
inexorável para com o ego a quem tutela. Desse modo, o Imperativo Categórico de
Kant é a herança direta do Complexo de Édipo”[9].
O Imperativo Categórico implica em uma obrigação, em um Dever imediato,
incondicionado e absoluto, excluindo qualquer outro sentimento ou inclinação.
Exclui, portanto o amor. Este é o Dever do Imperativo Categórico, herdeiro do
Complexo de Édipo. Van Gogh propõe um revolvimento. O Dever já não seria em si
mesmo; o dever estaria no âmbito do amor. Não mais se sustentaria a dicotomia
amor/dever, o dever referido à Personificação do Pai, e o amor à Personificação
da Mãe. Seria através do amor, da Personificação da Mãe que se acederia ao
dever e ao trabalho, ao social. Não haveria, assim, uma quebra de continuidade
entre a dinâmica da relação dual primeva e a dinâmica triádica posterior que,
ao invés de sepultar a primeira a ela suavemente se integraria. (As aproximações
que estabeleço entre as idéias de Freud e Sullivan têm a ver com uma certa
concepção da epistemologia da psicanálise que exponho especialmente em meu
artigo “Ser ou não Ser?”[10]).
Deixarei, provisoriamente, esta questão por aqui para retomá-la mais adiante.
Continuemos nossa exegese das Personificações nas cartas de Van Gogh a Théo.
Entre abril e maio de 1872, em carta não datada, escreve(pág. 79 da edição
brasileira): “Não é tanto a língua dos
pintores, mas a língua da natureza à qual é preciso dar ouvidos.....Sentir as
coisas em si mesmas, a realidade, é mais importante que sentir os quadros; em
todo caso é mais fecundo e mais vivificante. Porque tenho da arte e da própria
vida, de quem a arte é essência, um sentimento tão vasto e tão amplo, acho
irritante e falso quando vejo pessoas posando de acadêmicos”[11].
De um lado os acadêmicos, pintores e quadros e do outro a natureza, o sentir, a
vida. Personificação de Mãe e Personificação de Pai. Esta Personificação de Pai
que exige um radical afastamento da Personificação Materna deverá morrer; mas
morrer apenas para renascer sob uma outra forma. Um Pai não mais destacado da
natureza, dominando-a e impondo-lhe leis, mas um Pai integrado à própria
natureza, respeitando-a, compreendendo-a participativamente. Carta de dezembro
de 1881(Van Gogh com 28 anos): “Eu creio
que ele não lhe vem mesmo ao espírito senão quando começamos a nos fazer uma idéia
de Deus repetindo a conclusão que Multateli tirou em sua Prece do ignorante:"Oh! meu Deus, não há Deus!" Tome o
Deus dos pastores; eu o acho morto. Sou um ateu por isto? Os pastores me
consideram como tal - que seja - mas eu amo, veja você, e como eu poderia
conhecer o amor se eu não vivesse e os outros não vivessem? Já que nós vivemos,
tudo isto é maravilhoso. Chame isto de Deus ou de natureza humana, ou o que
quer que você queira, porque em cada sistema filosófico existe alguma coisa
para a qual me será impossível de dar uma definição, ainda que este núcleo seja
muito vivo e muito real; isto é que é Deus ou seu equivalente, você compreende?”[12]
(pág. 158) Van Gogh remodela o Deus autoritário legislador dos pastores
transformando-o em um Deus-Natureza, um Deus imanente, um Deus que supera as
dicotomias, e que contém em si a Mãe e o Pai; Van Gogh desejaria que Théo fosse
este Pai/Mãe. Van Gogh necessita e necessitará através de toda a sua vida de
alguém que represente personificações que atendam às suas necessidades no
sentido mais amplo do termo. Estas personificações ele primeiro as buscou nos
próprios pais. Não se sentindo nem compreendido, nem atendido em suas
necessidades, transferiu para o irmão Théo estas personificações. Podemos
acompanhar este processo de transferência através de uma carta escrita entre
setembro e novembro de 1881: “A casa
paterna, no entanto, deve ser e se manter, custe o que custar, nosso refúgio;
nosso dever é de apreciá-la tanto quanto honrá-la....Acontece que existe um refúgio
melhor, necessário, indispensável, tão bom, tão necessário e tão indispensável
quanto é a casa paterna: é a nossa casa e o nosso refúgio de nós...”[13].(pág.124,
ed.francesa). Vincent prossegue mais adiante nesta mesma carta:...”.uma só palavra de mãe me teria decidido
lhe confiar tudo o que não se pode revelar num primeiro momento. Ela se
obstinou em não pronunciar esta palavra; ao contrário, ela me recusou a ocasião
de me abrir com ela....Você compreenderá, sem dúvida que um homem decidido a
agir só pode aprovar parcialmente sua mãe que reza para obter que ele se
resigne. E que ele então ache em outro suas palavras de consolação, um pouco
fora de época, e que ele repita do fundo de seu coração: eu não aceito de forma
alguma o jugo do desespero....Porque eu não me engano, não é meu irmão?: nós não
somos apenas irmãos, mas também amigos e semelhantes, não é?”[14](pág.127).
Pascal Bonafoux em sua introdução ao livro "Lettres a Théo" de
Vincent Van Gogh, observa que Vincent e
Théo são os mesmos. Eles são o mesmo(p.8). Sem dúvida esta é uma referencia
a uma relação simbiótica que se estabeleceu entre os dois irmãos. Para Vincent,
em Théo se reunem as Personificações de Pai e de Mãe. Théo deverá ser uma Mãe
incansavelmente nutridora, inspiração de singularidade; e ao mesmo tempo um Pai
compreensivo, capaz de acolher e
preservar a singularidade do filho, encontrando caminhos de absorção desta
singularidade pelo tecido social, possibilitando-lhe ocupar um lugar na cultura.
Théo falhará nessa missão. Seu fracasso ficará registrado em uma última carta
escrita por Vincent encontrada em seu bolso de suicida: “Meu caro irmão: Obrigado por sua gentil carta e pela nota de cinqüenta
francos que ela continha. Já que as coisas vão bem, o que é o principal, por
que insistiria eu em coisas de menor importância? Por Deus! Provavelmente se
passará muito tempo antes que se possa conversar de negócios com a cabeça mais
descansada. Os outros pintores, independente do que pensem, instintivamente
mantêm-se à distância das discussões sobre o comércio atual. Pois é, realmente
só podemos falar através de nossos quadros. Contudo, meu caro irmão, existe
isto que eu sempre lhe disse e novamente voltarei a dizer com toda a gravidade
resultante dos esforços de pensamento assiduamente orientado a tentar fazer o
bem tanto quanto possível - volto a dizer-lhe novamente que sempre o
considerarei como alguém que é mais que um simples mercador de Corot, que por
meu intermédio participa da própria produção de certas telas, que mesmo na
derrocada conservam sua calma. Pois assim é, e isto é tudo, ou pelo menos o
principal, que eu tenho a lhe dizer num momento de crise relativa. Num momento
em que as coisas estão muito tensas entre marchands
de quadros de artistas mortos e de artistas vivos. Pois bem, em meu próprio
trabalho, arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte - bom -, mas
pelo quanto eu saiba você não está entre os mercadores de homens, e você pode
tomar partido, eu acho, agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você
quer?”[15]
Esta pergunta é crucial. O que mais deseja Théo, Personificação Materna além de
tudo que já lhe foi dado - dedicação, trabalho, esforço, sanidade, saúde -para
finalmente, como Personificação Paterna, introduzi-lo no social? O binômio
cobrança/culpa instaurado pela relação simbiótica entre os dois irmãos, levado às
últimas conseqüências, provoca a morte de ambos. Seis meses após o suicídio de
Vincent, morre Théo.
Em sua ânsia de manter preservada sua autenticidade,
é Van Gogh um anunciador de questões atuais. Ele indica um Estado que já não
exigiria que todos se conformassem a modelos, mas uma Sociedade que pudesse
acolher a singularidade de seus membros, não lhes impondo valores prévios.
Talvez pareça estranho este aparentemente despreocupado trânsito de mão dupla
entre o inconsciente e o préconsciente-consciente, o social e o familiar. É Freud
quem nos fornece elos entre a onto e a filogênese, entre o consciente e o
inconsciente. Vejamos o que ele diz em "O ego e o id": “O que a biologia e os destinos da espécie
humana operaram no id e lá deixaram como seqüela: aí está o que o ego toma para
si mediante a formação do ideal, e o que é revivenciado por ele como indivíduo.
O ideal do ego tem, em conseqüência de sua história de formação, os vínculos
mais abundantes com a aquisição filogenética de cada indivíduo - a sua herança arcaica”[16]..(pág.
38) . E mais adiante: As vivências do ego
parecem, a princípio, estar perdidas para a herança; porém, se se repetem com
suficiente freqüência e intensidade em muitos indivíduos, em gerações
sucessivas, transpõem-se para o id como vivencias, cujas impressões são
conservadas por herança. Desse modo, o id hereditário alberga em seu interior
os restos de inumeráveis existencias-ego, e quando o ego extrai o seu superego
a partir do id, talvez não faça mais que trazer de novo à luz figuras,
moldagens egóicas mais antigas, proporcionando-lhes uma ressurreição.(pág.39/40)[17].
Van Gogh pertence a uma linhagem de existências-ego introdutoras de transmutações
na herança cultural da humanidade. A memória cultural que hoje prevalece tem um
forte acento edípico autoritário, garantido por um superego paterno, delegado
severo dos valores sociais em vigor conectados com traços de ancestrais valores
depositados no id por séculos de prática comunitária. é com esta herança
filogenética que a criança em seu desenvolvimento ontogenético entrará em
contacto quando da resolução de seu complexo de Édipo. Para o pleno sucesso
desta transmissão cultural a superação do Complexo de Édipo deverá ser súbita,
brutal, intensa. Esta brutalidade da entrada no mundo da cultura nós a
encontramos desde a escolha da tragédia de Sófocles como paradigma de interdição,
reencontramo-la no assassinato do pai em "Totem e Tabu" com suas conseqüências
de medo e culpa que criam uma lei autoritária modelar, até a idealidade da
resolução maciça do Complexo de Édipo no âmbito familiar. Freud: “O
superego conservará o caráter do pai, e quanto mais intenso foi o complexo de Édipo
e mais rapidamente se produziu a sua repressão (pela influencia da autoridade,
a doutrina religiosa, a educação, a leitura), tanto mais rigoroso será depois o
império do superego como consciência moral, talvez também como sentimento
inconsciente de culpa, sobre o ego”[18].("O
ego e o id", vol.19, pág.36). Ao desintegrar o Complexo de Édipo o menino
identifica-se com o superego do pai e rompe sua relação simbiótica com a mãe,
aceitando os valores modelares do pai e da sociedade e afastando-se das crenças
criadas na singularidade da relação com a Mãe. Em termos mais amplos: A resolução
súbita e autoritária do complexo de Édipo
resulta em uma identificação com a função superegóica despótica de preservação dos
valores da cultura - a função-Pai; e reprime, dissocia ou dissolve a função-Mãe: intuição, empatia, capacidade de identificação. A função-Pai no
seu exercício da autoridade e do uso dos modelos apela para uma episteme dicotômica
que se opõe à função unificadora da Personificação da Mãe. O menino para tornar-se
um Homem deverá abandonar, esquecer, fazer sumir sua ligação à Mãe. Deverá
abandonar os seus valores prévios desprezando-os como "coisas
femininas". O dever obscurece o amor, a razão livra-se da intuição, as
dicotomias se instalam separando sujeito/objeto, a empatia e a identificação são
repudiados como meros enganos da sensibilidade, a natureza torna-se um objeto
de manipulação não mais respeitada em seu movimento e equilíbrio. Não devemos
porém nos esquecer de que Freud ao descrever o complexo de Édipo completo
refere-se tanto a uma identificação do varão com o objeto-Mãe abandonado quanto
fala de uma remanescente corrente terna em relação a este objeto. Trata-se porém
de um acréscimo secundário a uma estrutura patriarcal básica; a ossatura do
complexo de Édipo, sua sustentação básica é fundamentalmente a identificação
com o superego do pai (ou dos pais) e a retirada do investimento libidinal da mãe.
Mesmo ao falar da identificação do varão com o objeto-Mãe abandonado e da
corrente afetiva residual, ele o faz
minimizando ambos os processos: “Com a
demolição do complexo de Édipo a catexia objetal da mãe tem de ser abandonada.
O seu lugar pode ser preenchido ou por uma identificação com a mãe, ou um reforço
da identificação-pai. Costumamos considerar este último desenlace como o mais
normal; permite reter, em certa medida, o vínculo terno com a mãe. Dessa
maneira, a dissolução do complexo de Édipo consolidaria a masculinidade no caráter
de um menino”[19].("O
ego e o id", vol.19, pág.34 na edição argentina e pág.46/7 na edição
brasileira). O Complexo de Édipo, tal como a psicanálise no-lo apresenta tem um
caráter dicotômico e machista, compatível com a época em que foi conceituado
podendo levar-nos ao engano de que a interdição necessária à formação do campo social
teria de ter obrigatoriamente este caráter.
O projeto e a mensagem de Van Gogh
corrigem esta concepção, tocando fundo na alma do homem atual. Ele propõe uma
entrada no mundo adulto, a ocupação de um espaço social sem perda da
singularidade, sem quebra de uma continuidade com crenças, sentimentos e
valores anteriores, mantendo viva e presente a Personificação da Mãe e portanto
a função-Mãe. É na preservação da função-Mãe que se mantém a singularidade. A
relação Mãe-Filho é sempre única, não tem similar, nasce da própria relação,
está fora das regras e das leis. Winnicott diz-nos que a mãe tem de
"enlouquecer" para poder cuidar de seu bebê; é um
"enlouquecimento" que aguça a sensibilidade da mãe para as
necessidades de seu filho e que faz com que as fronteiras da individualidade se
permeabilizem. É evidente que esta "loucura" terá de ser provisória e
necessitará de um continente social para existir. Porém as vivências deste período
deverão permanecer disponíveis para serem usadas e não desaparecer sob o peso
de um recalque-inibição. De acordo com Winnicott será no espaço transicional,
espaço do jogo e do brincar que será possível conservar viva a função-Mãe. Foi
esta função, com sua forma de sensibilidade e com sua ética própria que Van
Gogh fez questão de preservar. Freud:...”.pode-se
conceber a catástrofe do complexo de Édipo - o exílio (desterro) do incesto, a
instituição da consciência moral e da moral mesma - como um triunfo da espécie
sobre o indivíduo”[20].
Para Van Gogh a questão se inverte: a esseidade do indivíduo deverá prevalecer
sobre o modelo da espécie. A singularidade, as potencialidades simbióticas, serão
mantidas para o encontro com o outro, para o equilíbrio com o cosmos, para a íntima
ligação ao mundo, ao social, à natureza, às coisas, ao real.
Van
Gogh é uma destas existencias-ego singulares que pipocam ao longo da história
da humanidade e que hoje engrossam o caldo de transformações que se fazem
necessárias para evitar catástrofes ecológicas[21].
Da vida e obra de Van Gogh, de seu martírio e imolação podemos tirar um
apontamento e uma mensagem. A sociedade deveria se organizar no sentido de
poder conter a singularidade de cada ser humano. A interdição não mais teria o
caráter violento do mito edípico tal como
foi desvelada por Freud ao resgatar a tragédia de Sófocles. O Édipo, se
assim ainda se puder chamá-lo, teria uma dinâmica que permitiria a conservação
da função-Mãe. A sociedade não imporia modelos aos seus membros, mas sim se
organizaria de uma outra maneira. Esta outra dinâmica que está surgindo e se
desenvolvendo ainda é uma questão para mim: talvez as noções de identificação
egóica(e não apenas superegóica) de exemplaridade, de repetição
diferencial, de eterno retorno sejam idéias
que permitam pensar esta incipiente dinâmica.
agosto/outubro de 1990
Nahman Armony
× Apresentado
na Jornada interna da SPID em 1990, ano do centenário da morte do pintor.
Publicado como capítulo do livro “A
desconstrução do masculino” organizado por Sócrates Nolasco sob o título “Van Gogh, anunciador de uma nova
masculinidade”. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
[1] VAN
GOGH, V. (23/01/1873) Lettres a Theo. França:
Éditions Gallimard, 1988.
[2] Idem
(03/04/1878) Cartas a Theo. Porto
Alegre: L&PM Editores, 2008.
[3] Idem
(07/1880).
[4] Idem
[5] Idem
[6] VAN GOGH
(sem data) Lettres a Theo-p.138
[7] Idem,
p.144
[8] FREUD,
S. (1924) A dissolução do complexo de Édipo IN: “Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud” vol.XIX. Rio de Janeiro:
Imago Editora, 1976.
[9] Idem O problema econômico do masoquismo.
[10] ARMONY,
N. (1986). “Ser ou não-Ser” IN
“Psicanálise: da interpretação à vivência compartilhada”. Rio de Janeiro:
Editora Universitária Sta. Úrsula, 1989.
[11] VAN
GOGH (abril/maio de 1882) Cartas a Théo. Porto
Alegre: L&PM, 2008, 2ª edição.
[12] Idem
(dezembro de 1881) Lettre a Théo. França:
Gallimard, 1988
[13] Idem,
p.124
[14] Idem,
p127
[15] Idem,
p.566/7.
[16] FREUD,
S. (1923) O Ego e o Id. Amorrortu
Editores, v.XIX, p.38
[17] Idem,
p. 39/40.
[18] IDEM,
p.36
[19] IDEM,
p.34.
[20] Ibid
Algumas conseqüências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos.
p.275
[21] Ver As três ecologias, de Felix Guattari,
Papirus Editora.
O AMOR E AS DIFERENÇAS DE MENTALIDADE
Nós não nascemos com um modo de pensar e de agir estabelecido.
Ele vai se formando, aos poucos, desde nossa infância, mas, uma vez
consolidado, não é fácil alterá-lo. Quando entramos num relacionamento, porém,
esse jeito de ser pode entrar em choque com o do parceiro. Aí, se amarmos de
verdade, precisaremos admitir a possibilidade de promover mudanças.
Assisti recentemente ao drama Quando um Homem Ama uma Mulher (1994),
do diretor mexicano Luis Mandoki (53). O filme fala de um amor sólido,
substantivo e perseverante; tão perseverante que resiste a profundas diferenças
de mentalidade. Fala de um casamento que quase se desfaz, mas retoma a
vitalidade quando brechas no psiquismo dos envolvidos permitem a compreensão
mútua.
Se ficarmos atentos não só às linhas mas também às entrelinhas
da história, dela tiraremos bom proveito. Desde o início, um férreo liame une
Alice e Michael. Há muito amor circulando entre os dois e, mais tarde, entre os
quatro, quando um par de filhos vem se acrescentar à família. Uma tragédia,
porém, estava à espreita. Alice retorna ao alcoolismo e afasta-se do lar. Mais
tarde, volta e tenta se readaptar à vida familiar, ao mesmo tempo em que
freqüenta os Alcoólicos Anônimos.
Aqui já se coloca uma interrogação: se a família era tão feliz,
como pôde o alcoolismo se insinuar nessa liga amorosa? Neste ponto o filme nos
fornece pistas para começarmos a entender como um casal que se ama, que ama os
filhos e quer preservar o casamento pode ser corroído a partir de diferenças de
mentalidade. Uma dica dessa dinâmica nos é dada quando Alice aponta a
satisfação que o marido tira de se sentir superior a uma mulher alcoólatra, fraca e problemática; esta situação
aparece também no trato com os filhos: o pai interfere na relação da mãe com as
crianças, tirando sua autoridade e deixando-a em segundo plano. Ela se torna ‘fraca’
através do alcoolismo possivelmente para suportar a pretensa superioridade do
marido e tornar-se realmente frágil para ocupar o lugar de inferioridade que
ele lhe indicava.
- Para Michael estar em posição de superioridade na família é uma situação natural. Ele é o chefe, o orientador, o dono do saber; a esposa deve aceitar sua superioridade e seguir seus preceitos. Um outro aspecto menos evidente que aparece é a excessiva objetividade do marido revelada numa frase, quando tenta ajudá-la: “Eu só posso consertar se souber o defeito”. Para ele, o alcoolismo da esposa é um defeito a ser consertado -- e terá certamente uma solução, desde que se siga a direção certa. Essa direção certa e única, que desconsidera as complexidades do psiquismo, é ele o único quem conhece. O fato de a mulher não seguir seus preceitos, ou, pior, de fracassar ao segui-los, faz com que ele se sinta desprestigiado, diminuído na sua condição de mentor da família.
Teria o amor do casal terminado? Não é o caso. O sentimento de
ambos era tão sólido que, ao final, eles se reaproximam, reavivando o afeto que
surdamente habitava seus corações. Isso, no entanto, exige um grande esforço.
Dele, no sentido de engolir seu orgulho machista e passar a freqüentar um grupo
de parentes de vítimas do alcoolismo. Mas não é fácil promover modificações em
um modo de ser que desde muito cedo foi-lhe imposto e se consolidou. A tomada
de contato com a mentalidade do grupo provoca uma espécie de abalo, de
terremoto na personalidade. Ele abandona o primeiro encontro. Porém, o desejo
de poder viver o amor pela mulher que escolheu o leva a persistir. Uma outra
mentalidade vai se formando, uma mentalidade na qual cabe a possibilidade de
não ser ele o dono do saber, de não ter ele sempre a obrigação de tudo resolver
e, além disso, a percepção de que não basta, para enfrentar os problemas,
definir um plano objetivo e segui-lo até chegar a um resultado. Michael começa
a entender que a mente humana é extremamente complexa e que seus caminhos são
tortuosos, inesperados e oscilantes. Alice, por sua vez, entende que a
incompreensão do marido não vinha da falta de amor mas de uma educação
machista. A partir daí, um recomeço tornou-se possível.
Nahman
Armony
Primeira publicação na revista
CARAS.
POEMA DA INTEGRIDADE (meu anjo azul)
Lá,
Onde os astros se encontram
Está a minha vida,
Minha preciosa pérola incorrupta.
Basta que eu feche os olhos
E permita que o vento azul me invada,
Basta que eu me abra para a poesia,
Para o amor,
Para o eterno,
Que sou envolvido
Pela doce fragrância
Do sonho puro
e Bom.
Nahman Armony
Onde os astros se encontram
Está a minha vida,
Minha preciosa pérola incorrupta.
Basta que eu feche os olhos
E permita que o vento azul me invada,
Basta que eu me abra para a poesia,
Para o amor,
Para o eterno,
Que sou envolvido
Pela doce fragrância
Do sonho puro
e Bom.
Nahman Armony
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