POEMAS PARA MEUS FILHOS - III

                    Havia pavor nos seus olhos
             Olhei no fundo de seu pavor
             E juntos
             Enfrentamos o Inominável.

             Havia Morte em meu corpo
             E em minha alma
             Mas não em meus olhos.

             A súplica dos olhos de minha filha
             Varreu de meu ser a angústia do Além
             E me tornou Puro, Forte,
             Uma Rocha,
             A olhá-la com a força dos Deuses Benfazejos.

             Nem eu mais a olhava
             Nem ela a mim.
             Nossos olhares eram uma só Intensidade
             Lutando contra o Horror.
             Quatro olhos-infinitos
             Formando um infinito arco
             Intransponível.

             O choro era um grito de Vitória
             O grito, uma Sinfonia Guerreira
             A dor, um Amuleto, ancorado
             Nas cem correntes entrelaçadas
             Protegendo a Vida
                                a Alma
                                       O Amor.

             A paz no fundo dos olhos
             Os olhos no fundo da paz
             O fundo na paz dos olhos
             Os olhos nos olhos
             A olhar
             A trançar
                  Retraçando
                        Caminhos.
                                          
                            Nahman Armony  
       

IDENTIDADE ONTOLÓGICA

Identidade e identificação
         A maioria dos autores considera que a identidade é o resultado das inúmeras identificações vividas, especialmente aquelas dos períodos iniciais da vida. Freud fala-nos de uma identificação primária, anobjetal, anterior ao investimento objetal e de uma identificação secundária que acontece depois de estabelecida a diferenciação entre o eu e o não-eu, entre o eu e os objetos do mundo. Winnicott desenvolve esta idéia de identificação primária; com ele podemos dizer que existe uma identidade primária, resultado de identificações primárias e uma identidade propriamente dita que podemos conectar às identificações secundárias de Freud.
         Essas questões colocadas em termos winnicottianos, assim ficariam: ao nascer, o bebê estaria numa situação de “dependência absoluta” e a mãe com uma “preocupação materna primária”. Nessa fase haveria uma fusão mãe/bebê. Esta formulação é diferente da exposta acima. Winnicott tanto fala de uma identificação primária quanto de fusão. E estes dois conceitos (ou noções) parecem não se superpor. Não sei se isso importa, pois quer falemos de identificação primária, quer falemos de fusão, o resultado é uma identidade que podemos nomear de primária.
         Se falarmos de fusão estaremos pensando numa maior participação da mãe no processo de constituição da identidade. As fantasias, temores, sentimentos, esperanças da mãe interagem com as potencialidades do bebê e a identidade primária estará impregnada pela subjetividade da mãe. Posso usar como analogia, com vistas à maior compreensão do que estou querendo dizer, a idéia winnicottiana de superposição de duas áreas de brincar. Claro que a analogia é imperfeita, pois neste último caso já terão acontecido identificações secundárias, estando o eu já bem constituído no sentido de se diferenciar de um não-eu.
         Se falarmos de identificação primária estaremos remetidos a uma mãe que mais atende às necessidades do bebê do que contribui com seu desejo para a formação de uma identidade. Outeiral em seu livro “Conhece-te a ti mesmo” escreve a propósito: “E esta mãe não é sempre uma única coisa ou coisa alguma, ela é aquilo que o bebê necessita que ela seja”(p.69)
         Podemos para além dessas duas formulações, fazer, ainda baseados em Winnicott, uma outra não incompatível com a idéia de fusão e podendo ser considerado um de seus aspectos. A fusão vista em sua feição macro, global: a identidade primária seria simplesmente SER e esse SER do bebê depende da mãe poder SER na relação com o seu bebê. A palavra “simplesmente” não pretende tirar a importância de SER. Significa que é um processo que está além das possibilidades de uma descrição ou de uma rememoração, podendo apenas ser intuído, talvez a partir de uma hipotética memória arcaica não-verbal a ser despertada mais pela capacidade impressionista/nebulosa da palavra poética do que pelo discurso logicamente coerente. Voltando à questão do SER. Na preocupação materna primária a mãe está inteiramente e integralmente voltada para o bebê, estando presente psicossomaticamente. Ela está SENDO para o bebê que então tem a experiência de SER. Impossível definir este SER da mãe. Podemos recorrer a Lacan que em seu seminário sobre a lógica do fantasma (e aqui estou me reportando ao artigo de Luiz Eduardo Prado de Oliveira (p.83) publicado na Revista Panamericana de Psicopatologia Fundamental, III, 3, 73-102 intitulado “Jeremias, criança, luta contra o autismo, a esquizofrenia e a paranóia”) diz que o corpo é o primeiro significante que virá a adquirir significado para o sujeito, se tiver sido antes significante para a mãe. Ainda em busca de uma compreensão/intuição podemos parafrasear Masud-Kahn que dizia de Winnicott, estar ele psicossomaticamente presente e voltado para o seu paciente. O mesmo pode dizer-se da mãe que está SENDO para o seu bebê. É cabível usar as palavras devotada (palavra winnicottiana), dedicada, capturada, fascinada; pode-se dizer que o bebê é a razão e foco de sua existência. Estas palavras e expressões só serviriam para tentar despertar no leitor a intuição do que é estar SENDO na relação com o bebê. Se na fase de fusão a mãe É para o bebê, então este pode também SER, o que significa que ele poderá ver confirmada a sua experiência de onipotência começando por aí a usar o seu potencial hereditário na interação com o ambiente. Como estamos falando de SER não nos será difícil aceitar que está aparecendo uma primeira e primitiva identidade que podemos chamar de ontológica. O bebê tem uma presença tão verdadeira, sólida, consistente quanto a pedra ou qualquer outro objeto animado ou inanimado da natureza. Não há dúvida de que esse pensamento apresenta dificuldades. A tendência seria só poder pensar o SER em oposição um não-SER. Não é, porém o que Parmênides nos diz quando separa radicalmente o Ser do não-Ser em sua famosa frase: “o que é, é, e o que não-é não é”. Ou: “uma coisa não pode ser e não-ser ao mesmo tempo”, concluindo a partir daí, através de um raciocínio sofisticado, que tudo é Ser e que não existe o não-Ser. A argumentação de Parmênides permite que aceitemos melhor – já que estamos apoiados em um mestre da filosofia – a idéia de que um bebê em estado de onipotência absoluta onde só ele existe e o universo todo é ele próprio, está em um estado de Ser com exclusão de todo não-Ser. O não-Ser não existe. Como em Parmênides, há aí uma espécie de plenitude que preenche todo o universo. Este SER absoluto do bebê, filosoficamente alcançado, permite intuir uma situação psíquica importante para o desenvolvimento de uma certa teorização, uma teorização que tem a ver com uma prática. É importante que também o analista SEJA para que o analisando possa SER. Isto é particularmente importante em pacientes nos quais, o sentimento de SER está prejudicado. Podemos aqui encontrar os fundamentos teóricos para que o analista esteja presente na sua relação com o paciente com o seu corpo e alma, ou melhor, com o seu soma, psique e mente, e que este corpo/psique/mente integrado esteja inteiramente voltado - disponível e atento - para o seu analisando.
         Falei aqui de três caminhos: a mãe como espelho do bebê, a mãe como parceira contribuinte e a mãe como possibilitando o SER do bebê através de seu SER. Este último pode ou não ser incluído no segundo, de acordo com o gosto de cada um. 
         Estamos, pois, diante de três caminhos. Qual deles o verdadeiro? Esta, acredito, é uma falsa questão. Quando construímos nossas teorias ou nossas teorizações, valemo-nos de observações fenomênicas que serão organizadas, valoradas e selecionadas segundo nossas concepções inconscientes (penso também nas pré-concepções de Bion). Tendemos a nos relacionar com os nossos analisandos segundo dinamismos que se formaram ao longo de nossa vida, dinamismos estes criados no contato com figuras significativas, desde pais até psicanalistas. É nossa experiência total, incluindo-se aí leituras, teorias, e o que mais seja, que está em jogo quando estamos trabalhando em nossos consultórios. Temos predisposições afetivas, intelectuais, psicomentessomáticas e buscamos ou inventamos teorias que permitam balizar a nossa forma de ser e proceder. Interpretamos assim os fatos segundo nosso direcionamento como analistas. Um símile: quando se escreve uma biografia a subjetividade do autor está presente. Duas biografias sempre serão diferentes, embora se refiram a uma mesma vida. O mesmo pode-se dizer da adaptação de livros ao cinemas: o livro “Ligações perigosas” foi filmado por dois grandes cineastas, Stephen Frears e Milos Forman que deram versões diferentes ao mesmo livro. (um dos filmes tem o mesmo nome do livro e outro se chama “Valmont - uma história de seduções. Valmont é o nome de um dos personagens do livro. Houve ainda uma adaptação do livro (ou do filme) à época atual, resultando em uma outra perspectiva). São apenas analogias que pretendem tão somente clarificar a idéia de que os fatos, desde sua captação estão impregnados de subjetividade e são selecionados, organizados, valorados a partir das necessidades subjetivas do analista em ação no seu trabalho.  
         Teoricamente podemos imaginar que existe uma primeira identidade que chamei de ontológica. Corresponde à fase de fusão onde a mãe deverá estar presente com o seu SER, denso, consistente, voltando-se integralmente para o bebê afim de que este possa se apossar de sua identidade primeira, uma identidade prévia à identificação(a identificação pressupõe a presença de dois). Acho que a expressão “estar inteiramente voltado para o bebê com o seu SER integral” exprime aproximadamente a idéia. Aqueles que não tiveram uma mãe suficientemente boa nesse período apresentariam uma dificuldade de se sentirem existindo e ficariam em um nível muito primitivo de comportamento e defesa. Se minimamente a criança se experimentou como SER pode apresentar angústia de aniquilamento que a ameaça de desintegração, desperta. Estou aqui ligando teoria e prática. A hipótese teórica organiza para o analista 1-a fala dispersa, ansiosa, pouco coerente onde ele se sente chamado a acolher a fragmentação, 2- as atividades múltiplas sem objetivo que não seja a própria atividade, 3- o desajeitamento corporal resultante de uma coordenação motora falha. Supõe que o autismo e a confusão mental, a falta de referências na realidade (como na esquizofrenia hebefrênica ou na esquizofrenia simples) são formas derivadas da falta de SER. Não fica porém claro, em suas minúcias como isto se daria. Devo então renunciar a esta formulação, ou deixá-la como uma intuição a ser justificada? 
         Em seguida encontraríamos, na linha da dependência, uma regressão à transição entre a dependência absoluta e a dependência relativa. Se esta transição foi mal vivida, a passagem da onipotência absoluta (identidade ôntica) para a onipotência mitigada, da experiência unária de onipotência para a experiência dual eu----não-eu fica prejudicada. A segunda identidade que é a separação de si mesmo do mundo não se faz adequadamente. Estaríamos basicamente, segundo Winnicott/Abram no reino dos borderlines, esquizofrênicos, esquizóides. Teríamos uma identidade difusa, uma identidade que através das identificações projetivas e introjetivas excessivas tenderia a se espalhar para fora de si mesmo e a se deixar penetrar excessivamente pelo externo. Basicamente, a mãe não teria conseguido acompanhar os movimentos de retração e expansão do bebê. Não estaria suficientemente identificada com o seu bebê para perceber seu movimento de retorno à fase de dependência absoluta a partir da dependência relativa e vice-versa. Ou, numa outra linguagem que muitas vezes eu adoto, uma oscilação entre simbiose e fusão. Winnicott: “Vemos portanto que na infância e no manejo dos lactentes há uma distinção muito sutil entre a compreensão da mãe das necessidades do lactente baseada na empatia, e sua mudança para uma compreensão baseada em algo no lactente ou criança pequena que indica a necessidade. Isto é especialmente difícil para as mães por causa do fato das crianças vacilarem de um estado e outro; em um minuto estão fundidas com a mãe e requerem empatia, enquanto que no seguinte estão separadas dela, e então, se ela souber suas necessidade por antecipação, ela é perigosa, uma bruxa. É muito estranho que mães que não são nada instruídas se adaptem a estas mudanças no desenvolvimento satisfatório do lactente, e sem nenhum conhecimento da teoria. Este detalhe é reproduzido no trabalho analítico com pacientes borderline, e em todos os casos em certos momentos de grande importância quando a dependência na transferência é máxima”. (“O Brincar e a Realidade”, p.51/2). Se a mãe não acompanha o vai-e-vem de seu bebê este apresentará problemas na área de identificação/identidade. Pode sentir-se não aceito, não reconhecido, não autorizado quando da passagem da simbiose para a fusão e vice-versa. A flexibilidade da vida psíquica fica prejudicada pela intrusão materna. As necessidades do self do bebê (que aqui talvez já seja conveniente chamar de verdadeiro self) não são atendidas. Os dois estados não podem se suceder dentro de uma integração temporal. Diante da intrusão o bebê reagirá ativamente ou passivamente: poderá se revoltar e enraivecer-se, tentando a integração no tempo, ou se conformar, cindindo então os estados de fusão e de simbiose; deixa então de haver um fluxo livre entre estes dois estados, tendendo o bebê a privilegiar um dos estados, ficando o outro dissociado, mas passível de, de repente ser retomado.
         O que haveria de novo no que foi aqui apresentado? Creio que teremos uma referência teórica a mais para compreendermos personalidades que não se sentem consistentes e que aparecem em número crescente em nossos consultórios. São pessoas que para se sentirem existentes precisam muitas vezes de emoções fortíssimas, entre elas a emoção da violência/destruição. Creio que a minha principal contribuição neste trabalho é a noção de “identidade ontológica” que depende da capacidade de SER da mãe, e, posteriormente, do analista. 

                                                        Nahman Armony

CONTRADIÇÃO E PARADOXO


         Mesmo que não saibamos, a mentalidade da época em que vivemos influi em nossas emoções, sofrimentos, prazeres e alegrias. Quando nos deparamos com um dilema afetivo sentimo-nos na obrigação de resolvê-lo. Não se trata de um dever consciente, mas de uma mentalidade que nos penetra e que nos obriga a fazer uma escolha. Esta mentalidade nem sempre vigorou no Ocidente. Houve época, antes dos filósofos gregos da natureza em que os dilemas não tinham que ser resolvidos. Não se falava de verdadeiro e falso, mas sim de velamento e desvelamento; aquilo que estava encoberto num certo momento não era uma falsidade pois poderia ser descoberto a qualquer momento enquanto que o que estava exposto passava à condição de encoberto. A convivência do coberto e encoberto fazia parte da mentalidade dos gregos arcaicos. Com Parmênides e os filósofos da natureza surgiram as figuras lógicas da verdade e da falsidade, logo adotado por Platão com a sua concepção de um mundo das idéias verdadeiras, modelares e eternas. Durante muito tempo, e ainda hoje, vivemos sob a influência de Platão o que causa um a mais de sofrimento que poderia ser evitado.
          

         Uma das dificuldades nas relações amorosas é a conciliação da preservação da individualidade com a plena entrega ao outro. Se por um lado necessitamos de um núcleo sólido de personalidade para sentirmo-nos estáveis, por outro somos impelidos na direção do outro pela necessidade de dar e receber amor. Isto se torna mais difícil quando pretendemos nos entregar por inteiro ao amor pelo outro. Esta entrega exige uma abertura de todos os recantos do ser e assim ficamos vulneráveis às influências da personalidade do parceiro amoroso. É claro que existe uma gradação no amor que vai do máximo da reserva possível, além da qual não é possível uma relação amorosa, até o máximo da entrega de si mesmo. Enquanto o amor se encontra naquela fase em que o parceiro amoroso não é visto em sua realidade, sendo nada mais nada menos do que a projeção de sua fantasia, situação facilitada pelo desejo de cada um ser como o outro deseja, a individualidade de cada um encontra-se a salvo. Sinto aqui necessidade de fazer uma distinção: ao ver o outro não como ele mesmo, mas como sua fantasia é claro que a individualidade fica preservada e até reforçado pelo que se imagina que seja um duplo ou um complemento perfeito seu. Mas, junto com esta ilusão existe o desejo de ser como o parceiro o idealiza; é claro que este impulso poderia ameaçar a individualidade do sujeito. No entanto, nessa fase, não aparece o medo de “perder a personalidade”. Nessa fase o que cada um quer é perder-se no outro, é ser como o outro deseja, já que esse outro está idealizado e tudo o que ele pensa, sente e é traz a marca da perfeição. Sabemos todos que este estado não é duradouro, e após um certo lapso de tempo a pessoa recupera-se da “doença” do apaixonamento, reencontrando-se a si mesma. Mas para que a relação possa persistir é preciso que algo da doença, algo da ilusão sobre o outro se mantenha. Agora, porém devem andar lado a lado a preservação do núcleo da individualidade que foi negligenciado no período de paixão máxima e absoluta e a entrega confiante ao companheiro dentro do clima de amor/paixão. Esta a equação ideal, porém difícil de ser mantida. Quando dois processos que se excluem existem concomitantes na alma do ser humano, este tende a se livrar de um deles para evitar um conflito que traz ansiedade e, portanto, sofrimento. Aqui devo fazer um parêntesis para distinguir contradição de paradoxo. Quando falamos em contradição pensamos que os termos se excluem não podem conviver. Se estes termos que não se combinam forem vividos como paradoxo então a sua convivência se torna possível. Nossa formação pessoal exige que durante as primeiras décadas de nossas vidas eliminemos os contrários. Temos de pensar e viver no registro do contraditório. Após solidificarmos nossa personalidade poderemos escolher entre estar no regime da contradição ou no registro do paradoxo. Durante muitos séculos, desde Parmênides e Platão, a humanidade escolheu o caminho da contradição. Hoje, até a física quântica trabalha com o paradoxo. A luz é ao mesmo tempo onda e partícula. Mas transplantar essa concepção para a alma humana é algo complicado que exige grande trabalho pessoal, e certamente, será uma tarefa de gerações. Mas é algo que já está em curso. Se compararmos a letra de um antigo bolero, com produções mais recentes, veremos que há um esforço em trilhar este caminho. O antigo bolero diz: “: “Nosotros; que nos queremos tanto; debemos separarnos; no me preguntes más; no es falta de cariño; te quiero com mi alma; te juro que te adoro y en nombre deste amor y por tu bien te digo adiós”. Já hoje temos Zeca Pagodinho dizendo “deixa a vida me levar, vida leva eu...” ao mesmo tempo que Vinicius canta “sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão, sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão” e “sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão: sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão”. Não mais lutar com a contradição, mas transformá-lo em paradoxo, o que significa deixar-se levar pelos acontecimentos.

                                                                                                                                                                                    Nahman Armony

                                   Primeira publicação na revista CARAS.

POEMA PARA MEUS FILHOS

                    Aqui estou eu
             Aqui estamos nós
             Eu e você
             Você e eu
             Diante das montanhas
             Na BR 101
             No ano de 75.

             Apenas nós dois
             O resplendor
             E só.

             O ruído que nos envolve
             Os carros que passam
             As interferências
             Pertencem a um outro mundo
             Diferente deste que somos
             Eu, você, a luz.

             Estamos numa ilha
             Fora do tempo
             E o mar mal atinge poucos metros de nossa praia.

             Só eu e você.

             Certamente o tempo passa
             Certamente a dor é certa
             Assim como certa é a morte.

             Mas isso é outra coisa
             Nada tem a ver
             Com o nosso abraço.

             É certo que a marcha segue
             A terra continua a girar
             O sol caminha no infinito
             Toda a galáxia se movimenta
             Estrelas explodirão
             O mundo desaparecerá,

            Mas isto nada tem a ver
            Com o que estamos vivendo.

             Estamos só nós dois
             Eu, você
             O abraço
             A luz
             O amor
             A alegria
             O momento de eternidade.

             A vida que nos rodeia
             Apenas ilumina
             O plano transcendente
             Em que nos encontramos.

             Tudo foi tocado pela magia-alegria
             Do amor.

             Vivemos uma outra vida
             O mundo é outro lugar.

                                      Nahman Armony
                        

VAN GOGH


                             Passado um século da morte de Van Gogh podemos hoje reconhecer nele um homem e artista extraordinário e profético, cuja vida e obra foram uma antecipação das questões, caminhos e conflitos do homem atual. Durante sua atormentada existência optou por manter a sua singularidade contra tudo e contra todos. Enfrentou pai, família, marchands e absolutamente não se dobrou a nenhum modelo social.  Foi sempre fiel a si mesmo fosse como pintor, como estudante, como missionário, como amante. E mais do que isto teve a coragem de assumir uma posição ideológica que podemos chamar de panteísta, numa época em que reinavam ou o Deus externalizado e pessoalizado, ou o racionalismo científico triunfante na sua certeza de possuir e vir a possuir, através de seus métodos, a verdade do universo e com isto o bem-estar da humanidade. Seus quadros eram uma negação desta Weltanschauung dominante, com sua ênfase nas cores, na expressividade, na fusão homem/natureza. Talvez por não ter sido compreendido e aceito pela sociedade, por ter sido espiritualmente excluído dela, tenha se suicidado, excluindo-se em corpo também, quem sabe coerente com sua forma de sentir unitária, onde alma e corpo não podiam ser separados.
          Não foi sem conflitos internos que Van Gogh construiu sua fortaleza espiritual. Suas primeiras cartas ao irmão Théo revelam um jovem confuso, desejoso de seguir os caminhos convencionais de inserção na sociedade, aceitando a sua ideologia, mas já deixando transparecer dúvidas. Em janeiro de 1873, aos 19 anos, já empregado há mais de três anos numa filial da Casa Goupil, uma galeria de arte, escreve para seu irmão Théo: “Meu ano novo começou bem. Recebi um aumento de dez florins ... e me concederam um prêmio de 50 florins acima do mercado. Não é magnífico? Eu espero poder, desta maneira, prover as minhas próprias necessidades. Estou muito contente que você esteja trabalhando na mesma firma. É uma bela firma onde, quanto mais se trabalha, mais se sente a ambição”(p.23)[1]. A carta tem alguma ambigüidade. Van Gogh não fala de sua ambição diretamente, mas de uma ambição que parece vir da firma. Como se a ambição não fosse própria, mas um modelo imposto. Seria esta ambigüidade um prenúncio do conflito entre afirmar a singularidade x dobrar-se às convenções? Extrato da carta de três de abril de 1878 (ocasião em que Vincent está estudando para pastor): “....quanto mais nos ativermos a regras fixas, mais firme se tornará o caráter, sem que para isto  tenhamos de nos tornar limitados....E mesmo nos ambientes cultos e nas melhores sociedades e circunstâncias mais favoráveis, é preciso conservar algo do caráter original de um Robinson Crusoé ou de um homem da natureza, jamais deixar extinguir-se a chama interior, e sim cultivá-la[2](p.28/9).  Nesta carta em tom de prédica (portanto com um acento superegóico), Vincent procura compatibilizar o homem das "regras fixas" com o "homem da natureza", uma vida calcada no modelo social vigente com uma vida livre e criativa. Está com 25 anos e pensa em ser pastor como o pai. Já em julho de 1880 (Van Gogh portanto tem 27 anos e decide ser pintor após um período de errância física e mental) a separação entre "regras de sociedade" e "homem natural" está mais definida: “Há uma velha escola acadêmica muitas vezes execrável, tirânica, a abominação da desolação, enfim, homens que têm uma espécie de couraça, uma armadura de aço de preconceitos e convenções; estes, quando estão à testa dos negócios, dispõem dos cargos e, por meios indiretos, buscam manter seus protegidos e excluir os homens naturais”(p.44)[3]. É evidente que Van Gogh se inclui entre os homens naturais. Nesta ocasião ele havia sido destituído de sua condição de missionário por não agir de acordo com os preceitos da igreja. Com perspicácia Van Gogh prossegue nesta carta: “Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado - e por que durante tantos anos estive deslocado - é simplesmente porque tenho idéias diferentes das desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir”[4](p.44). Van Gogh toma consciência dos distúrbios e reações que sua singularidade provoca no mundo. Sua valorização e expressão de sentimentos, sua desconfiança na razão pura, seu panteísmo, sua crença no amor, na intuição, na humildade, na sinceridade, sua afirmação de singularidade nem competitiva nem rebelde, sua ausência de preconceitos, seu desprezo pelas convenções e pelos valores sociais em vigor, ameaçavam os "homens de preconceitos" da sociedade da época que então o ataca ou o ignora. Daí Antonin Artaud dizer que Van Gogh foi um "suicidado da sociedade".
          Van Gogh afirma e reafirma uma singularidade que se apóia e está em continuidade com os seus mais antigos sentimentos, valores e pensamentos. Ainda na carta anterior respondendo ao irmão que lhe escrevera "desde então você mudou muito, você já não é mais o mesmo", esclarece: ... “ o que mudou é que minha vida era então menos difícil, e meu futuro aparentemente menos sombrio; mas quanto ao meu íntimo, quanto à minha maneira de ver e de pensar, nada disto mudou, e se de fato houvesse alguma mudança, é que agora eu penso e acredito e amo mais seriamente aquilo que na época eu também já pensava, acreditava e amava”[5](julho de 1880). Esta fidelidade aos valores mais antigos remete-nos à Personificação da Mãe, enquanto que seu desejo de se inserir no mundo adulto refere-o à Personificação do Pai. Porém Van Gogh só admite entrar no social conservando suas crenças, sentimentos e pensamentos mais antigos, a sua singularidade, a sua vinculação à Personificação da Mãe. Temos disto uma confirmação em várias outras de suas manifestações. Carta de novembro de 1881: “Você, você é capaz de me compreender quando afirmo que é preciso amor para trabalhar e para se tornar um artista, um artista que procura colocar sentimento na sua obra: é preciso primeiro sentir-se a si próprio e viver com seu coração[6](p.138). A vinculação à Personificação da Mãe, ou, o que é o mesmo, a manutenção da função-Mãe faz-se presente nesta carta na continuidade amor-trabalho, na precedência que tem o "sentir-se a si próprio" em relação a sentir o mundo e finalmente no viver o mundo "com o seu coração", com sua singularidade, seus sentimentos mais verdadeiros e não seguindo modelos prévios. Na carta de 23 de novembro de 1881 (tinha então 28 anos, estava morando com os pais, já escolhera ser um pintor, e está em conflito com os pais a este respeito) ele reitera mais enfaticamente estas idéias: “Algumas vezes eu estou convencido que você deve dirigir ao presente sua atenção, a melhor parte de sua atenção, a mais condensada, sobre esta força vital que ainda não está despertada em você: o Amor. Ela é em verdade a mais poderosa de todas as forças, visto que ela te torna apenas aparentemente dependente; a verdade, é que a franqueza verdadeira, a liberdade verdadeira, a independência verdadeira existem somente através desta força. é o amor que precisa nosso sentimento de dever e define claramente nosso papel”[7](p.144). A menção de Van Gogh ao dever e ao amor permite-nos buscar um contraponto destes sentimentos no complexo de Édipo da teoria freudiana. Porém, antes de fazê-lo, torna-se necessário um esclarecimento: as obras dos grandes criadores podem ser lidas em várias perspectivas: uma delas representa, ao mesmo tempo, uma denúncia (ou um retrato) das ideologias vigentes, e um apontamento, a partir destas revelações, de linhas de ultrapassagem desta ideologia. é por este ângulo, como testemunha genial de uma época, que citaremos Freud. Sua escolha da tragédia de Sófocles para a apresentação do complexo de Édipo, sua concepção da origem da sociedade organizada exposta em Totem e Tabu, a forma de instalação do superego no menino, são reveladoras da violência de uma sociedade patriarcal no apogeu de sua ideologia fáustica.  É justamente esta teoria reveladora que, adequadamente usada, permite um trabalho clínico de liberação individual e propicia desdobramentos teóricos como os de Balint, Winnicott,  Searles e outros. Freud foi um transformador, e portanto um homem de transição; como tal tinha seus pés enraizados numa episteme ocidental platônico-cartesiana, mas empurrava com as mãos as relações homem/mundo em direções que retomadas por psicanalistas modernos levaram da episteme da representação para a episteme da força pulsional e, mais ainda, para uma episteme onde a identificação-empatia-intuição têm  um papel preponderante, produzindo transformações teóricas que recusam a violência da sociedade tecno-consumista e passam a refletir um crescente desejo de equilíbrio ecológico. Feitas estas ressalvas podemos retomar o fio no ponto em que o deixamos. Na carta de Van Gogh o dever aparece como tributário do amor. Freud em "A dissolução do complexo de Édipo” (vol.19, pág.221) escreve: “A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego que assume a severidade do pai(dever) e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo assim o ego do retorno da catexia libidinal”[8](amor). De um lado a autoridade/dever na identificação com o Pai e de outro o abandonado amor pela Mãe. Em "O problema econômico do masoquismo” (vol.19, pág.173) Freud escreve: “Agora o superego, a consciência moral eficaz dentro dele, pode tornar-se duro, cruel, inexorável para com o ego a quem tutela. Desse modo, o Imperativo Categórico de Kant é a herança direta do Complexo de Édipo”[9]. O Imperativo Categórico implica em uma obrigação, em um Dever imediato, incondicionado e absoluto, excluindo qualquer outro sentimento ou inclinação. Exclui, portanto o amor. Este é o Dever do Imperativo Categórico, herdeiro do Complexo de Édipo. Van Gogh propõe um revolvimento. O Dever já não seria em si mesmo; o dever estaria no âmbito do amor. Não mais se sustentaria a dicotomia amor/dever, o dever referido à Personificação do Pai, e o amor à Personificação da Mãe. Seria através do amor, da Personificação da Mãe que se acederia ao dever e ao trabalho, ao social. Não haveria, assim, uma quebra de continuidade entre a dinâmica da relação dual primeva e a dinâmica triádica posterior que, ao invés de sepultar a primeira a ela suavemente se integraria. (As aproximações que estabeleço entre as idéias de Freud e Sullivan têm a ver com uma certa concepção da epistemologia da psicanálise que exponho especialmente em meu artigo “Ser ou não Ser?”[10]). Deixarei, provisoriamente, esta questão por aqui para retomá-la mais adiante. Continuemos nossa exegese das Personificações nas cartas de Van Gogh a Théo. Entre abril e maio de 1872, em carta não datada, escreve(pág. 79 da edição brasileira): “Não é tanto a língua dos pintores, mas a língua da natureza à qual é preciso dar ouvidos.....Sentir as coisas em si mesmas, a realidade, é mais importante que sentir os quadros; em todo caso é mais fecundo e mais vivificante. Porque tenho da arte e da própria vida, de quem a arte é essência, um sentimento tão vasto e tão amplo, acho irritante e falso quando vejo pessoas posando de acadêmicos”[11]. De um lado os acadêmicos, pintores e quadros e do outro a natureza, o sentir, a vida. Personificação de Mãe e Personificação de Pai. Esta Personificação de Pai que exige um radical afastamento da Personificação Materna deverá morrer; mas morrer apenas para renascer sob uma outra forma. Um Pai não mais destacado da natureza, dominando-a e impondo-lhe leis, mas um Pai integrado à própria natureza, respeitando-a, compreendendo-a participativamente. Carta de dezembro de 1881(Van Gogh com 28 anos): “Eu creio que ele não lhe vem mesmo ao espírito senão quando começamos a nos fazer uma idéia de Deus repetindo a conclusão que Multateli tirou em sua Prece do ignorante:"Oh! meu Deus, não há Deus!" Tome o Deus dos pastores; eu o acho morto. Sou um ateu por isto? Os pastores me consideram como tal - que seja - mas eu amo, veja você, e como eu poderia conhecer o amor se eu não vivesse e os outros não vivessem? Já que nós vivemos, tudo isto é maravilhoso. Chame isto de Deus ou de natureza humana, ou o que quer que você queira, porque em cada sistema filosófico existe alguma coisa para a qual me será impossível de dar uma definição, ainda que este núcleo seja muito vivo e muito real; isto é que é Deus ou seu equivalente, você compreende?”[12] (pág. 158) Van Gogh remodela o Deus autoritário legislador dos pastores transformando-o em um Deus-Natureza, um Deus imanente, um Deus que supera as dicotomias, e que contém em si a Mãe e o Pai; Van Gogh desejaria que Théo fosse este Pai/Mãe. Van Gogh necessita e necessitará através de toda a sua vida de alguém que represente personificações que atendam às suas necessidades no sentido mais amplo do termo. Estas personificações ele primeiro as buscou nos próprios pais. Não se sentindo nem compreendido, nem atendido em suas necessidades, transferiu para o irmão Théo estas personificações. Podemos acompanhar este processo de transferência através de uma carta escrita entre setembro e novembro de 1881: “A casa paterna, no entanto, deve ser e se manter, custe o que custar, nosso refúgio; nosso dever é de apreciá-la tanto quanto honrá-la....Acontece que existe um refúgio melhor, necessário, indispensável, tão bom, tão necessário e tão indispensável quanto é a casa paterna: é a nossa casa e o nosso refúgio de nós...”[13].(pág.124, ed.francesa). Vincent prossegue mais adiante nesta mesma carta:...”.uma só palavra de mãe me teria decidido lhe confiar tudo o que não se pode revelar num primeiro momento. Ela se obstinou em não pronunciar esta palavra; ao contrário, ela me recusou a ocasião de me abrir com ela....Você compreenderá, sem dúvida que um homem decidido a agir só pode aprovar parcialmente sua mãe que reza para obter que ele se resigne. E que ele então ache em outro suas palavras de consolação, um pouco fora de época, e que ele repita do fundo de seu coração: eu não aceito de forma alguma o jugo do desespero....Porque eu não me engano, não é meu irmão?: nós não somos apenas irmãos, mas também amigos e semelhantes, não é?”[14](pág.127). Pascal Bonafoux em sua introdução ao livro "Lettres a Théo" de Vincent Van Gogh, observa que Vincent e Théo são os mesmos. Eles são o mesmo(p.8). Sem dúvida esta é uma referencia a uma relação simbiótica que se estabeleceu entre os dois irmãos. Para Vincent, em Théo se reunem as Personificações de Pai e de Mãe. Théo deverá ser uma Mãe incansavelmente nutridora, inspiração de singularidade; e ao mesmo tempo um Pai compreensivo, capaz de  acolher e preservar a singularidade do filho, encontrando caminhos de absorção desta singularidade pelo tecido social, possibilitando-lhe ocupar um lugar na cultura. Théo falhará nessa missão. Seu fracasso ficará registrado em uma última carta escrita por Vincent encontrada em seu bolso de suicida: “Meu caro irmão: Obrigado por sua gentil carta e pela nota de cinqüenta francos que ela continha. Já que as coisas vão bem, o que é o principal, por que insistiria eu em coisas de menor importância? Por Deus! Provavelmente se passará muito tempo antes que se possa conversar de negócios com a cabeça mais descansada. Os outros pintores, independente do que pensem, instintivamente mantêm-se à distância das discussões sobre o comércio atual. Pois é, realmente só podemos falar através de nossos quadros. Contudo, meu caro irmão, existe isto que eu sempre lhe disse e novamente voltarei a dizer com toda a gravidade resultante dos esforços de pensamento assiduamente orientado a tentar fazer o bem tanto quanto possível - volto a dizer-lhe novamente que sempre o considerarei como alguém que é mais que um simples mercador de Corot, que por meu intermédio participa da própria produção de certas telas, que mesmo na derrocada conservam sua calma. Pois assim é, e isto é tudo, ou pelo menos o principal, que eu tenho a lhe dizer num momento de crise relativa. Num momento em que as coisas estão muito tensas entre marchands de quadros de artistas mortos e de artistas vivos. Pois bem, em meu próprio trabalho, arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte - bom -, mas pelo quanto eu saiba você não está entre os mercadores de homens, e você pode tomar partido, eu acho, agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você quer?”[15] Esta pergunta é crucial. O que mais deseja Théo, Personificação Materna além de tudo que já lhe foi dado - dedicação, trabalho, esforço, sanidade, saúde -para finalmente, como Personificação Paterna, introduzi-lo no social? O binômio cobrança/culpa instaurado pela relação simbiótica entre os dois irmãos, levado às últimas conseqüências, provoca a morte de ambos. Seis meses após o suicídio de Vincent, morre Théo.   
       Em sua ânsia de manter preservada sua autenticidade, é Van Gogh um anunciador de questões atuais. Ele indica um Estado que já não exigiria que todos se conformassem a modelos, mas uma Sociedade que pudesse acolher a singularidade de seus membros, não lhes impondo valores prévios. Talvez pareça estranho este aparentemente despreocupado trânsito de mão dupla entre o inconsciente e o préconsciente-consciente, o social e o familiar. É Freud quem nos fornece elos entre a onto e a filogênese, entre o consciente e o inconsciente. Vejamos o que ele diz em "O ego e o id": “O que a biologia e os destinos da espécie humana operaram no id e lá deixaram como seqüela: aí está o que o ego toma para si mediante a formação do ideal, e o que é revivenciado por ele como indivíduo. O ideal do ego tem, em conseqüência de sua história de formação, os vínculos mais abundantes com a aquisição filogenética de cada indivíduo - a sua herança arcaica”[16]..(pág. 38) . E mais adiante: As vivências do ego parecem, a princípio, estar perdidas para a herança; porém, se se repetem com suficiente freqüência e intensidade em muitos indivíduos, em gerações sucessivas, transpõem-se para o id como vivencias, cujas impressões são conservadas por herança. Desse modo, o id hereditário alberga em seu interior os restos de inumeráveis existencias-ego, e quando o ego extrai o seu superego a partir do id, talvez não faça mais que trazer de novo à luz figuras, moldagens egóicas mais antigas, proporcionando-lhes uma ressurreição.(pág.39/40)[17]. Van Gogh pertence a uma linhagem de existências-ego introdutoras de transmutações na herança cultural da humanidade. A memória cultural que hoje prevalece tem um forte acento edípico autoritário, garantido por um superego paterno, delegado severo dos valores sociais em vigor conectados com traços de ancestrais valores depositados no id por séculos de prática comunitária. é com esta herança filogenética que a criança em seu desenvolvimento ontogenético entrará em contacto quando da resolução de seu complexo de Édipo. Para o pleno sucesso desta transmissão cultural a superação do Complexo de Édipo deverá ser súbita, brutal, intensa. Esta brutalidade da entrada no mundo da cultura nós a encontramos desde a escolha da tragédia de Sófocles como paradigma de interdição, reencontramo-la no assassinato do pai em "Totem e Tabu" com suas conseqüências de medo e culpa que criam uma lei autoritária modelar, até a idealidade da resolução maciça do Complexo de Édipo no âmbito familiar. Freud:  “O superego conservará o caráter do pai, e quanto mais intenso foi o complexo de Édipo e mais rapidamente se produziu a sua repressão (pela influencia da autoridade, a doutrina religiosa, a educação, a leitura), tanto mais rigoroso será depois o império do superego como consciência moral, talvez também como sentimento inconsciente de culpa, sobre o ego”[18].("O ego e o id", vol.19, pág.36). Ao desintegrar o Complexo de Édipo o menino identifica-se com o superego do pai e rompe sua relação simbiótica com a mãe, aceitando os valores modelares do pai e da sociedade e afastando-se das crenças criadas na singularidade da relação com a Mãe. Em termos mais amplos: A resolução súbita e  autoritária do complexo de Édipo resulta em uma identificação com a função superegóica despótica de preservação dos valores da cultura - a função-Pai; e reprime, dissocia ou dissolve a função-Mãe:  intuição, empatia,  capacidade de identificação. A função-Pai no seu exercício da autoridade e do uso dos modelos apela para uma episteme dicotômica que se opõe à função unificadora da Personificação da Mãe. O menino para tornar-se um Homem deverá abandonar, esquecer, fazer sumir sua ligação à Mãe. Deverá abandonar os seus valores prévios desprezando-os como "coisas femininas". O dever obscurece o amor, a razão livra-se da intuição, as dicotomias se instalam separando sujeito/objeto, a empatia e a identificação são repudiados como meros enganos da sensibilidade, a natureza torna-se um objeto de manipulação não mais respeitada em seu movimento e equilíbrio. Não devemos porém nos esquecer de que Freud ao descrever o complexo de Édipo completo refere-se tanto a uma identificação do varão com o objeto-Mãe abandonado quanto fala de uma remanescente corrente terna em relação a este objeto. Trata-se porém de um acréscimo secundário a uma estrutura patriarcal básica; a ossatura do complexo de Édipo, sua sustentação básica é fundamentalmente a identificação com o superego do pai (ou dos pais) e a retirada do investimento libidinal da mãe. Mesmo ao falar da identificação do varão com o objeto-Mãe abandonado e da corrente afetiva residual, ele  o faz minimizando ambos os processos: “Com a demolição do complexo de Édipo a catexia objetal da mãe tem de ser abandonada. O seu lugar pode ser preenchido ou por uma identificação com a mãe, ou um reforço da identificação-pai. Costumamos considerar este último desenlace como o mais normal; permite reter, em certa medida, o vínculo terno com a mãe. Dessa maneira, a dissolução do complexo de Édipo consolidaria a masculinidade no caráter de um menino”[19].("O ego e o id", vol.19, pág.34 na edição argentina e pág.46/7 na edição brasileira). O Complexo de Édipo, tal como a psicanálise no-lo apresenta tem um caráter dicotômico e machista, compatível com a época em que foi conceituado podendo levar-nos ao engano de que a interdição necessária à formação do campo social teria de ter obrigatoriamente este caráter.
           O projeto e a mensagem de Van Gogh corrigem esta concepção, tocando fundo na alma do homem atual. Ele propõe uma entrada no mundo adulto, a ocupação de um espaço social sem perda da singularidade, sem quebra de uma continuidade com crenças, sentimentos e valores anteriores, mantendo viva e presente a Personificação da Mãe e portanto a função-Mãe. É na preservação da função-Mãe que se mantém a singularidade. A relação Mãe-Filho é sempre única, não tem similar, nasce da própria relação, está fora das regras e das leis. Winnicott diz-nos que a mãe tem de "enlouquecer" para poder cuidar de seu bebê; é um "enlouquecimento" que aguça a sensibilidade da mãe para as necessidades de seu filho e que faz com que as fronteiras da individualidade se permeabilizem. É evidente que esta "loucura" terá de ser provisória e necessitará de um continente social para existir. Porém as vivências deste período deverão permanecer disponíveis para serem usadas e não desaparecer sob o peso de um recalque-inibição. De acordo com Winnicott será no espaço transicional, espaço do jogo e do brincar que será possível conservar viva a função-Mãe. Foi esta função, com sua forma de sensibilidade e com sua ética própria que Van Gogh fez questão de preservar. Freud:...”.pode-se conceber a catástrofe do complexo de Édipo - o exílio (desterro) do incesto, a instituição da consciência moral e da moral mesma - como um triunfo da espécie sobre o indivíduo”[20]. Para Van Gogh a questão se inverte: a esseidade do indivíduo deverá prevalecer sobre o modelo da espécie. A singularidade, as potencialidades simbióticas, serão mantidas para o encontro com o outro, para o equilíbrio com o cosmos, para a íntima ligação ao mundo, ao social, à natureza, às coisas, ao real.
             Van Gogh é uma destas existencias-ego singulares que pipocam ao longo da história da humanidade e que hoje engrossam o caldo de transformações que se fazem necessárias para evitar catástrofes ecológicas[21]. Da vida e obra de Van Gogh, de seu martírio e imolação podemos tirar um apontamento e uma mensagem. A sociedade deveria se organizar no sentido de poder conter a singularidade de cada ser humano. A interdição não mais teria o caráter violento do mito edípico tal como  foi desvelada por Freud ao resgatar a tragédia de Sófocles. O Édipo, se assim ainda se puder chamá-lo, teria uma dinâmica que permitiria a conservação da função-Mãe. A sociedade não imporia modelos aos seus membros, mas sim se organizaria de uma outra maneira. Esta outra dinâmica que está surgindo e se desenvolvendo ainda é uma questão para mim: talvez as noções de identificação egóica(e não apenas superegóica) de exemplaridade, de repetição diferencial,  de eterno retorno sejam idéias que permitam pensar esta incipiente dinâmica.

                                        agosto/outubro de 1990
                                        Nahman  Armony



× Apresentado na Jornada interna da SPID em 1990, ano do centenário da morte do pintor. Publicado como capítulo do livro “A desconstrução do masculino” organizado por Sócrates Nolasco sob o título “Van Gogh, anunciador de uma nova masculinidade”. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
[1] VAN GOGH, V. (23/01/1873) Lettres a Theo. França: Éditions Gallimard, 1988.
[2] Idem (03/04/1878) Cartas a Theo. Porto Alegre: L&PM Editores, 2008.
[3] Idem (07/1880).
[4] Idem
[5] Idem
[6] VAN GOGH (sem data) Lettres a Theo-p.138
[7] Idem, p.144
[8] FREUD, S. (1924)  A dissolução do complexo de Édipo IN: “Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud” vol.XIX. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976.
[9] Idem O problema econômico do masoquismo.
[10] ARMONY, N. (1986). “Ser ou não-Ser” IN “Psicanálise: da interpretação à vivência compartilhada”. Rio de Janeiro: Editora Universitária Sta. Úrsula, 1989.
[11] VAN GOGH (abril/maio de 1882) Cartas a Théo. Porto Alegre: L&PM, 2008, 2ª edição.
[12] Idem (dezembro de 1881) Lettre a Théo. França: Gallimard, 1988
[13] Idem, p.124
[14] Idem, p127
[15] Idem, p.566/7.
[16] FREUD, S. (1923) O Ego e o Id. Amorrortu Editores, v.XIX, p.38
[17] Idem, p. 39/40.
[18] IDEM, p.36
[19] IDEM, p.34.
[20] Ibid  Algumas conseqüências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos. p.275
[21] Ver As três ecologias, de Felix Guattari, Papirus Editora.

O AMOR E AS DIFERENÇAS DE MENTALIDADE


Nós não nascemos com um modo de pensar e de agir estabelecido. Ele vai se formando, aos poucos, desde nossa infância, mas, uma vez consolidado, não é fácil alterá-lo. Quando entramos num relacionamento, porém, esse jeito de ser pode entrar em choque com o do parceiro. Aí, se amarmos de verdade, precisaremos admitir a possibilidade de promover mudanças. 

Assisti recentemente ao drama Quando um Homem Ama uma Mulher (1994), do diretor mexicano Luis Mandoki (53). O filme fala de um amor sólido, substantivo e perseverante; tão perseverante que resiste a profundas diferenças de mentalidade. Fala de um casamento que quase se desfaz, mas retoma a vitalidade quando brechas no psiquismo dos envolvidos permitem a compreensão mútua.
Se ficarmos atentos não só às linhas mas também às entrelinhas da história, dela tiraremos bom proveito. Desde o início, um férreo liame une Alice e Michael. Há muito amor circulando entre os dois e, mais tarde, entre os quatro, quando um par de filhos vem se acrescentar à família. Uma tragédia, porém, estava à espreita. Alice retorna ao alcoolismo e afasta-se do lar. Mais tarde, volta e tenta se readaptar à vida familiar, ao mesmo tempo em que freqüenta os Alcoólicos Anônimos.
Aqui já se coloca uma interrogação: se a família era tão feliz, como pôde o alcoolismo se insinuar nessa liga amorosa? Neste ponto o filme nos fornece pistas para começarmos a entender como um casal que se ama, que ama os filhos e quer preservar o casamento pode ser corroído a partir de diferenças de mentalidade. Uma dica dessa dinâmica nos é dada quando Alice aponta a satisfação que o marido tira de se sentir superior a uma mulher  alcoólatra, fraca e problemática; esta situação aparece também no trato com os filhos: o pai interfere na relação da mãe com as crianças, tirando sua autoridade e deixando-a em segundo plano. Ela se torna ‘fraca’ através do alcoolismo possivelmente para suportar a pretensa superioridade do marido e tornar-se realmente frágil para ocupar o lugar de inferioridade que ele lhe indicava.

  • Para Michael estar em posição de superioridade na família  é uma situação natural. Ele é o chefe, o orientador, o dono do saber; a esposa deve aceitar sua superioridade e seguir seus preceitos. Um outro aspecto menos evidente que aparece é a excessiva objetividade do marido revelada numa frase, quando tenta ajudá-la: “Eu só posso consertar se souber o defeito”. Para ele, o alcoolismo da esposa é um defeito a ser consertado -- e terá certamente uma solução, desde que se siga a direção certa. Essa direção certa e única, que desconsidera as complexidades do psiquismo, é ele o único quem conhece. O fato de a mulher não seguir seus preceitos, ou, pior, de fracassar ao segui-los, faz com que ele se sinta desprestigiado, diminuído na sua condição de mentor da família.
Teria o amor do casal terminado? Não é o caso. O sentimento de ambos era tão sólido que, ao final, eles se reaproximam, reavivando o afeto que surdamente habitava seus corações. Isso, no entanto, exige um grande esforço. Dele, no sentido de engolir seu orgulho machista e passar a freqüentar um grupo de parentes de vítimas do alcoolismo. Mas não é fácil promover modificações em um modo de ser que desde muito cedo foi-lhe imposto e se consolidou. A tomada de contato com a mentalidade do grupo provoca uma espécie de abalo, de terremoto na personalidade. Ele abandona o primeiro encontro. Porém, o desejo de poder viver o amor pela mulher que escolheu o leva a persistir. Uma outra mentalidade vai se formando, uma mentalidade na qual cabe a possibilidade de não ser ele o dono do saber, de não ter ele sempre a obrigação de tudo resolver e, além disso, a percepção de que não basta, para enfrentar os problemas, definir um plano objetivo e segui-lo até chegar a um resultado. Michael começa a entender que a mente humana é extremamente complexa e que seus caminhos são tortuosos, inesperados e oscilantes. Alice, por sua vez, entende que a incompreensão do marido não vinha da falta de amor mas de uma educação machista. A partir daí, um recomeço tornou-se possível.

                        Nahman Armony

            Primeira publicação na revista CARAS.


POEMA DA INTEGRIDADE (meu anjo azul)

                      Lá,
              Onde os astros se encontram
              Está a minha vida,
              Minha preciosa pérola incorrupta.
              Basta que eu feche os olhos
              E permita que o vento azul me invada,
              Basta que eu me abra para a poesia,
              Para o amor,
              Para o eterno,
             Que sou envolvido
              Pela doce fragrância
              Do sonho puro
              e  Bom.
                                     
                                                                                         Nahman Armony